AUTOR

A Cabine

CATEGORIA
Artigo

Melhores lançamentos de novembro

8 Dezembro, 2019 - 19:33

De Neon Chambers a Sun People, a passar por trabalhos da Rádio Quântica e Rrose, foram 15 os lançamentos que não pararam de rodar na nossa redação. Daniel Duque e Rui Castro explicam porquê.

Neon Chambers – One [Dekmantel, 4 de novembro]
Se dissermos que Kangding Ray e Sigha têm um projeto colaborativo, o normal é pensar que o duo produz música mais direccionada para paisagens techno. Mas não é isso que acontece em “One”, o primeiro lançamento da dupla, que assina este EP pela Dekmantel. Na realidade, os Neon Chambers inspiram-se muito em sonoridades ligadas à cultura eletrónica britânica, como é caso de breaks ou IDM. Ao longo do trabalho, escutam-se melodias deliciosas, batidas desafiadoras ou, entre tantos outros elementos, vocais arrepiantes – em What It Takes, as vozes fazem lembrar aquilo que produtores como Burial fazem em estúdio. Mais ainda, comparando com os restantes trabalhos desta lista, é difícil não considerar “One” como um dos mais belos releases de novembro.



Vários Artistas – IV [Rádio Quântica, 6 de novembro]
A Rádio Quântica está de parabéns, e não apenas pelos quatro anos de existência e contínuo apoio da cena portuguesa. Está também de parabéns por este VA compilado por BLEID, que abre o trabalho com sdrawkcaB. Pelo caminho, há inúmeros convidados, como Citizen:Kane, Dust Devices, Luar Domatrix, Odete, Peterr, Photonz, Prec, Rondhouse Kick, Shcuro, Stasya e Y.L.S., o que desde logo evidencia o ecletismo deste lançamento. “IV” é de escuta obrigatória – nem que seja apenas para conhecer mais daquilo que certos produtores portugueses fazem em estúdio.



FKA Twigs – Magdalene [Young Turks, 8 de novembro]
O segundo álbum de estúdio de FKA Twigs está repleto de boas produções, contando com mãos de, além da outrora dançarina, Nicolas Jaar, Skrillex, Kenny Beats e muitos outros. De thousand eyes a cellophane, a inglesa fala sobre amor – aparentemente a história é inspirada no término da sua relação com Robert Pattinson – de uma forma altamente comovente, coesa e coerente. A eletrónica deste trabalho, com inspirações R&B e não só, cria uma atmosfera convincente, deixando no ouvinte uma sensação de compaixão pela artista – mas, claro, grande parte desse sentimento advém das letras e da própria voz. Para ouvir do início ao fim sem interrupções.



Karenn – Grapefruit Regret [Voam, 8 de novembro]
Arthur Cayzer e Jamie Roberts são dois monstruosos produtores mais conhecidos por Pariah e Blawan, respetivamente. Com EPs lançados na Works The Long Nights, dos próprios, pelo início do projeto – ou até com um conhecido remix de Collider de Jon Hopkins – e brilhantes atuações ao vivo, foi impossível a dupla passar ao lado do radar dos maiores aficcionados de techno. Desta feita, com o terceiro lançamento da sua editora Voam, e o primeiro longa-duração como Karenn, “Grapefruit Regret”, os britânicos voltam a provar por que razão são tão aclamados. Desde faixas mais furiosas a outras ligeiramente menos aceleradas, o instinto ao ouvir cada uma delas é sempre o de deixar o corpo ser controlado por cada detalhe.



Rrose – Hymn To Moisture [Eaux, 8 de novembro]
Rrose é um pseudónimo de Seth Horvitz e “Hymn To Moisture” é o primeiro longa-duração a solo deste alias. Foi na Sandwell District, de Regis, que Rrose começou a lançar os primeiros trabalhos, como é caso de “Primary Evidence” e “Merchant Of Salt”, ambos de 2011. Já aí, era possível prever um futuro brilhante, mas, mais do que isso, conseguia-se perceber que este é um nome muito especial para o mundo do techno. Afinal, este alter-ego, que partilha o projeto Lotus Eater com o italiano Lucy, assina faixas repletas de detalhe – e “Hymn To Moisture” não é excepção – indo muito além do que aparentam ser meros segmentos repetitivos. A forma como executa o trabalho é excecional e isso escuta-se a cada segundo deste álbum (mas é preciso estar atento!).



Unknown Mobile – Mobile Sorcery [Planet Euphorique, 11 de novembro]
Procuras algo fora da caixa, que fuja aos cânones pré-estabelecidos do 4×4 e que possa ser definido como verdadeiramente underground? Então este EP é para ti. Esta pode ser uma espécie de publicidade foleira – nós sabemos, e foi propositado – mas não deixa de ter o seu quê de veracidade. A complexidade e variância rítmica presente neste EP do canadiano Unknown Mobile agradará certamente aos fãs mais exigentes da eletrónica. Se gostarem, sugerimos que espreitem o restante catálogo da sempre desafiante Planet Euphorique, e irão encontrar mais gourmet disruptivo.



Unnaturalism – Disintegration of Ether Bodies [Insane Industry, 15 de novembro]
João Peixinho (tcp Peix) e Karine Vitória (tcp Töria) criaram um novo projeto, Unnaturalism, uma dupla que se dedica ao lado mais duro da música techno. Com máquinas analógicas e o objetivo de deixar uma “sensação paranormal” no ouvinte, os músicos de Portimão inspiram-se nos mundos do industrial, noise ou até EBM para arrebatar por completo qualquer pista de dança. Fortes e acelerados kicks, paisagens sonoras fantasmagóricas e muitos outros pormenores fazem deste um trabalho a ter bastante em conta no mês de novembro.



Asquith – Time & Space [Hypercolour, 15 de novembro]
Asquith é um verdadeiro homem dos sete ofícios dentro da indústria musical. Dj, produtor, radio host na Rinse Fm, promotor de festas e ainda o patrão da gigante editora, distribuidora e loja de discos Lobster Theremin, o londrino exibe toda a sua polivalência criativa neste trabalho para a Hypercolour. Entre UK garage pujante, techno aceleradíssimo, house portentoso ou o híbrido de jungle, ragga e techstep da faixa que dá nome ao EP, Time & Space, venha o diabo e escolha.



Stenny – Upsurge [Ilian Tape, 19 de novembro]
Ambient, breaks, drum’n’bass ou IDM: há de tudo neste “Upsurge”, álbum de estreia de Stenny. O italiano é uma aposta dos Zenker Brothers já desde 2013, ano em que o DJ e produtor assina o seu EP de estreia pela editora alemã. E é também desde aí que Stenny, que editou todos os seus trabalhos pela Ilian Tape, tem chamado a atenção com os seus releases, todos eles sem um estilo claro – ou, melhor dizendo, Stefano Stenny nunca se cinge a um só género. No todo, “Upsurge” é requintado e muito atraente; a semântica e pragmática, idem aspas.



Harrison BDP – Sweet Dreams [Haŵs, 22 de novembro]
Seja pela sonoridade ou pela conterraneidade, a associação entre a Haws e Harrison BDP é inevitável. Depois de ter participado no primeiro lançamento da editora, o gaulês regressa com um EP inteiramente a solo. Vencedor do prémio de produtor revelação na DJ Mag Best Of British Awards em 2018, o DJ e produtor tem vindo a consolidar a sua reputação dentro do segmento deep/lo-fi house, e “Sweet Dreams” é a prova disso mesmo. Os nossos destaques deste trabalho vão para o house revigorante de referências clássicas de Kepler’s Gaze, e ainda para o deep house lo-fi, bem suave e sonhador, de You.



Peak Bleak – Peak Bleak [Combustão Lenta/Colectivo Casa Amarela, 25 de novembro]
Os honchos da Combustão Lenta Records e do Colectivo Casa Amarela – Sal Grosso e Aires, respetivamente – juntaram-se num novo projeto colaborativo, Peak Bleak. O primeiro trabalho é um disco homónimo que, apesar de “acidentalmente pensado como a banda sonora para o pós-apocalipse digital”, foi “propositadamente feito para ser o kosmische que 2019 merece”, explicam os músicos no Bandcamp. De perspetivas ambient a drone, estas quatro composições, com cerca de 10 minutos cada, são, no que toca a este tipo de sonoridade, o que de melhor se fez pelo país este ano.



Moreno Ácido & Diogo – Roçadas EP [Holuzam, 28 de novembro]
Que belo disco, este primeiro trabalho colaborativo entre o lisboeta Moreno Ácido e o vimaranense Diogo – recentemente, o segundo editou o seu EP de estreia, “Afectos”. Naquele que é o quarto lançamento da portuguesa Holuzam, editora a manter debaixo de olho no presente e futuro, os produtores apresentam-se como um duo altamente certeiro, criando uma história com principio, meio e fim. ”Roçadas” é electro, é house, é linhas de baixo acid, é música de dança no seu expoente máximo. Um trabalho que exemplifica a qualidade daquilo que se anda a fazer pelo país, é imprescindível acrescentar o disco à vossa coleção – ou, no mínimo dos mínimos, ouvi-lo via streaming.



Neurotoxin – Bishop / Capacitator [Skalator, 29 de novembro]
A versatilidade musical e originalidade que caracteriza o duo ribatejano, e que os distingue dos demais produtores nacionais, está bem patente neste duplo single pela lisboeta Skalator Music. Em Bishop somos engolidos por uma atmosfera sufocante e paisagem sonora sombria que, juntamente com a percussão de transições repentinas, nos permite absorver a vertente mais deep do halftime obscuro. Já Capacitor assume um carácter quase antagónico dada a diferença rítmica que apresenta. Trata-se de uma techy roller bem frenética, com maior propensão para ser utilizada em pistas nacionais e do mundo.



Vermisst – Zerfall EP [Horo, 29 de novembro]
Se tens problemas cardíacos, o melhor é passares à frente este lançamento. “Zerfall EP” está repleto de tensão, numa eletrónica sinistra e inquietante cuja sensação de iminência nos deixa em permanente estado de alerta. O trabalho nasceu da vontade exploratória de três gigantes das vertentes mais dub, deep, dark e ambiental do techno e drum’n’bass – o russo Torn, o inglês Sam KDC e o neozelandês Korse (anteriormente conhecido como Presha, patrão da Samurai Music e da sua filial Horo) – que se fundiram paraformar este supergrupo Vermisst. Há promessas de regresso para 2020, e mal podemos esperar para ouvir o que aí vem.



Sun People – These Days EP [Rua Sound, 29 de novembro]
These Days é um sério candidato a EP do ano, no que a drum’n’bass diz respeito. Afirmação ousada? Talvez, até porque este não teve o mediatismo merecido. Mas a qualidade é inegável. O austríaco Sun People é conhecido por fundir elementos de techno, hip-hop, footwork, juke, jungle e drum’n’bass , e este trabalho não foge à regra. Com uma amplitude sonora significativa, as nossas atenções foram cativadas por Give it Up e These Days, duas faixas simultaneamente contemporâneas e ancestrais, assentes em drum’n’bass atmosférico, fresco e, sobretudo, com alma.



relacionados

Artigo

Deixa um comentário



t

o

p