AUTOR

Rui Castro

CATEGORIA
Artigo

O ecleticismo eletrónico do Primavera Sound em 2019

4 Junho, 2019 - 19:10

Apesar de subvalorizada, a seleção de artistas de música eletrónica no NOS Primavera Sound tem sido exímia. Eis alguns dos nomes que deves (re)descobrir na edição deste ano.

À semelhança do festival homólogo espanhol que lhe deu origem, o NOS Primavera Sound é conotado como um evento de vanguarda indie, regido por uma direção artística que explora géneros tão díspares quanto o jazz e o hardcore, ou o techno e o hip-hop. Tem sofrido uma reviravolta contemporânea para se adaptar aos gostos do mercado, daí a crescente inclusão de hip-hop, R&B, pop, eletrónica e até reggaeton – o que o levou a ser alvo de críticas por parte de muitos fãs que provavelmente esperariam outros estilos, ou cabeças de cartaz mais sonantes. Embora cada indivíduo tenha direito à opinião, estes, muitas das vezes, desconhecem a maioria do cartaz – é preciso “ler entre as linhas”, abrir horizontes musicais e, certamente, descobrir artistas que apreciam.

Ainda assim, quem não tem motivos de queixa são os amantes da música eletrónica. É certo que o NOS Primavera Sound nem sempre conta com uma quantidade abastada de pesos pesados da cena como outros festivais inteiramente dedicados a este estilo, até porque se trata de um festival multidisciplinar. Mas a aposta em nomes mais underground e ousados tem estado em crescente – veja-se a edição de 2018 com nomes como Avalon Emerson, Shanti Celeste ou Or:la. A abertura musical dos participantes e a filosofia do festival permite trazer atuações que seriam arriscadas em contexto de clube dado à resistência, felizmente em mudança gradual, que o público nacional tem perante artistas ou sonoridades que não conhecem. A tendência atual para uma sonoridade mais desconstruída e sem rótulos assenta bem no conceito do Primavera Sound, e a seleção de artistas reflete isso mesmo.

Apesar de as nossas escolhas terem o objetivo de chamar à atenção para nomes menos conhecidos e com menor presença no roteiro de festivais nacionais, não devem descurar nomes como Nina Kraviz, Peggy Gou, Helena Hauff, Yves Tumor, James Blake ou SOPHIE, que elevam o estatuto do festival e canalizam atenções da generalidade do público para diferentes expressões musicais em constante mutação e crescimento. De salientar ainda que o suporte nacional no palco especialmente dedicado à eletrónica de dança – o Primavera Bits – é feito por Photonz, Violet e Jackie, que atuarão, respetivamente, nos dias 6, 7 e 8 de junho, às 23h.

Roza Terenzi (6 junho, à meia-noite no Primavera Bits)
Os tempos e estilos que Roza Terenzi mistura resultariam, à partida, numa fusão anárquica. No entanto, a australiana conseguiu aprimorar a sua exploração sónica de forma harmoniosa, colocando um cunho muito próprio na sua aventura retro-futurista por entre electro, breakbeat, house, ambiente lo-fi, sci-fi e techno. Desde 2017, com o lançamento do seu primeiro EP, The O.G., pela Good Company Records, que os sets e produções ora emocionais e introspetivos, ora ravey, proporcionaram-lhe uma ascensão em flecha nos rankings da música eletrónica. Seguiram-se trabalhos em editoras como a Dekmantel Records, Salt Mines ou Butter Sessions, e uma intensa agenda de atuações locais e internacionais que a têm afirmado como um nome a ter em consideração no mundo da eletrónica.

Yaeji (6 de junho, às 3h no Primavera Bits)
Com um dos vocais mais distintos e subtilmente sedutores da cena eletrónica, Yaeji explora a textura rítmica da linguagem presente nos países onde a sua vida se desenrola – EUA e Coreia do Sul – sendo, por isso, frequente a utilização de inglês e coreano em simultâneo na mesma canção. Uma combinação hibrida assente em tonalidades delicadas, ritmos groovy, mensagens capacitadas e refrões que se alojam no subconsciente à primeira escuta, que levam os fãs a cantar em plenos pulmões, mesmo quando as letras são em coreano e não as sabem pronunciar. Funde elementos do pop, trap, hip-hop, lo-fi e house com paisagens sonoras sonhadoras, num limbo constante entre o comercial e o underground que alastra amplamente o seu espectro de entusiastas e a torna num fenómeno crescente de popularidade.

Courtesy (7 de junho, à 1h30 no Primavera Bits)
Courtesy foi uma das figuras preponderantes para a viragem techno na cena dinamarquesa, ao explorar este género nas suas misturas, quando atuava como membro da Apeiron Crew, e ao fundar a Dunkel Radio e a já extinta Ectotherm Recordings. O orgulho na abordagem acelerada ao techno contemporâneo, desenvolvido em Copenhaga, levou a que fundasse uma nova editora, a Kulør, que segue a mesma linha sónica da precedente, mas com maior foco no aspeto visual e com o objetivo claro de documentar a criatividade da cidade que a rodeia. O estilo flexível e eclético, que combina as descobertas que faz com dubs provenientes da sua terra natal, dificulta a previsão da sua atuação. Mas com um set a rondar a hora e meia, a artista conhecida pelo seu ritmo frenético deverá colocar pé a fundo, sem misericórdia. Para Courtesy, as limitações dentro do techno não existem e, por isso, poderemos encontrar contrastes sonoros bem ravey com acid, eletro, modern bass, 90s rave, breakbeat e a típica incorporação dinamarquesa de elementos trance, que tornam os seus sets mais descomprometidos e com momentos de puro êxtase.

Dr. Rubinstein (7 de junho, às 3h no Primavera Bits)
Chegou a dj sob a perspetiva de verdadeira raver, e foi na pista onde aprendeu as lições mais importantes para a sua carreira. Agora, do lado de lá, quer fazer com que o público alcance aquela sensação especial, quase terapêutica, de “libertar a mente e dançar sem pensar em nada”, segundo o site da sua agência. Sem produzir música, ter uma editora, promover festas ou ter residências, Marina Rubinstein conseguiu perseguir o seu sonho, sem plano, de se estabelecer como dj através do boca a boca sobre a sua mistura exímia (que lhe valeu, entretanto, o mais recente The Art Of Djing, pela Resident Advisor), atitude e seleção que se distinguia do techno predominantemente escuro e hipnótico de Berlim, onde iniciou a sua carreira. E o momento impulsionador para o seu percurso profissional nasceu de um grave acidente de carro, onde foi forçada a ficar deitada, na cama, durante um mês. Aí, decidiu começar a procurar música, nascendo assim o bichinho pelo digging que tem alimentado as suas atuações. Levada pela energia da pista e sem grandes metodologias técnicas, Dr. Rubinstein contrasta o mental com o físico, o obscuro e o alegre em constantes paradoxos rítmicos numa missão incessante em transformar qualquer festa numa rave.

Jasss (7 de junho, à meia-noite no Primavera Bits)
Poderíamos caracterizar Jasss pela abordagem robusta ao EBM, industrial e techno hábil e vigoroso, mas estaríamos a ser redutores. Jasss é sinónimo de exploração sónica. A atitude ousada, destemida e, sobretudo, inconvencional fá-la abrir uma vasta palete de interesses que a colocam na elite vanguardista da cena eletrónica. Seja com noise, ambient, drone, jazz, trippy acid, halfstep, breakbeat ou punhaladas rave, a artista espanhola recusa-se a abdicar da sua liberdade criativa em prol da experimentação. E foi com base nesta premissa que, depois de três EPs em nome próprio, surgiu Weightless, um dos álbuns mais aclamados de 2017 que apanhou a indústria de surpresa, não só pela qualidade inegável, mas também por concentrar toda a diversificação que Jasss apresenta ao vivo, e que lhe havia solidificado o estatuto na sua cidade adotada de Berlim. Podemos esperar de tudo, mas o ideal é ir sem expectativas.

Modeselektor live (8 de junho, às 23h45 no Palco Seat)
Ao contrário da conotação cliché que a expressão “quebrar barreiras” tem nos dias de hoje, a verdade é que, tendo iniciado a carreira pouco depois da queda do muro de Berlim, em 1989, Modeselektor levaram esta expressão do sentido figurativo ao literal, e embarcaram no sentimento caótico-criativo que a liberdade trouxe nesses tempos conturbados. Foi então que a sua música anarquicamente controlada trouxe designações tão estranhas quanto dancehall bastardo, euro crunk, acid rap, happy metal, psychedelic electro ou labstyle. Guiados pela exuberância, expressão sónica amplamente diversa, e apreciação pelo absurdo, o duo germânico, que refusa catalogações, distinguiu-se e destacou-se do techno sério e normativo de Berlim. Progrediram de dj set para live act, e evoluíram assim de um duo para uma banda com tours intensivas, salas esgotadas e colaborações com nomes gigantes como Thom Yorke dos Radiohead. Fazem parte de Moderat, um supergrupo que formaram com o conterrâneo Apparat, reconhecido por muitos como um dos melhores live acts da eletrónica e responsável por hinos como Bad Kingdom – o trio atuou na edição de 2016 do festival. O duo vem até o Parque da Cidade do Porto para apresentar o seu mais recente álbum, Who Else, editado na sua editora Monkeytown Records em fevereiro deste ano. Um trabalho bem representativo da sua abrangência, que conta com faixas de techno intenso, hard trance – numa colaboração com Tommy Cash – viragens jungle, EBM ou grime.

Joy Orbison (8 de junho, à 1h15 no Primavera Bits)
O britânico Joy Orbison tomou a eletrónica de assalto em 2009 com o post-dubstep da sua faixa de estreia Hyph Mngo, editada pela Hotflush Recordings de Scuba. Este foi, sem dúvida, o maior hit da sua carreira, que lhe valeu os prémios de melhor música de 2009 pela FACT e pela Resident Advisor. E embora os trabalhos seguintes não tenham tido a mesma exposição mediática, provaram que o artista não se tratou de um “one hit wonder”. Joy Orbison continua a trilhar o seu percurso de forma discreta, alheio a mediatismos ou à procura de glórias passadas, com lançamentos sólidos e distintos. Foi um dos responsáveis pela abordagem mais 4/4 da bass music, com a fusão do drum and bass e uk garage que o seu tio, a lenda de drum´n´bass Ray Keyth, lhe foi incutindo desde pequeno, com house, techno e dubstep à mistura. Embora tenha surgido primeiro como produtor, foi assumindo e explorando cada vez mais o seu ecletismo como dj, que lhe valeu um convite para editar a quarta compilação Selectors da Dekmantel, e valeu-lhe ainda o escrutínio numa série de vídeos também da Dekmantel, os Sole Selectors, que dão a conhecer alguns dos djs com melhor seleção a nível mundial.

Boddika (8 de junho, às 2h30 no Primavera Bits)
Boddika ficará com o pesado fardo de seguir a atuação de Joy Orbison. No entanto, provavelmente não haveria melhor artista para o fazer, até porque ambos são colaboradores de longa data e alguns dos destaques dos seus reportórios assentam em faixas conjuntas, muitas delas lançadas pela Sunklo, a editora gerida pelos dois. Alex Greene (aka Boddika) é um mestre das colaborações. Como Instra:mental, juntamente com Kid Drama, ajudou a reescrever a bass music, sobretudo o drum’n’bass, ao introduzir novos elementos e géneros à cena, devolvendo espaço e alma às produções que, aquando da sua génese, seguiam padrões previsíveis e com demasiado enfâse à fúria da pista. Mais tarde, a visão conjunta entre estes e dBridge levou à criação de Autonomic, uma editora, noite e série de podcasts que explorava o som mais vanguardista da bass music, e levava uma lufada de ar fresco que influenciou gerações vindouras, como Fracture ou Sam Binga. Apesar de todas estas conquistas, a veia criativa de Alex Greene impede-o de estagnar e exige uma constante renovação artística. Não tem uma direção sonora definida, mas o caminho da exploração está sempre aberto. Faz uso das mais variadas influências e da sua paixão pelo hardware para criar música analógica com o som maquinal que o define. Para além de criar, a intenção do britânico passa ainda por fornecer uma plataforma que suporte artistas relevantes. Assim, muito do seu trabalho é canalizado na sua editora, a Nonplus Records, que segue a filosofia e visão do produtor e não se limita a qualquer tipo de géneros, tendo já lançado artistas tão díspares como Endian, Radio Slave, Martyn, Ellen Allien, Burial ou Eduardo de la Calle.


Fotografia por Hugo Lima (cedida pela organização do festival)

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