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Semibreve: 5 atos a não perder

22 Outubro, 2019 - 18:05

Daniel Duque e Rui Castro sugerem cinco atuações para ouvir com atenção na nona edição do festival Semibreve, que arranca esta sexta-feira.

É de 25 a 27 de outubro que o Semibreve volta a passar por espaços da cidade de Braga, como é caso do gnration, Theatro Circo ou o Salão Medieval da Reitoria da Universidade do Minho.

Nesta nona edição, além de conversas com alguns dos músicos que vão marcar presença no festival – Scanner com Miguel C. Tavares e Suzanne Ciani – há atuações de nomes tão importantes quanto Morton Subotnick, Deaf Center, Drew McDowall + Florence To, Kode9 e a portuguesa Clothilde.

Lê as nossas sugestões para o festival bracarense abaixo – e não te esqueças de consultar os horários aqui.

Avalon Emerson (25 de outubro, 1h15, gnration)
No primeiro dia de Semibreve, o pioneiro americano Morton Subotnick (um absoluto destaque do festival, que atua ao lado de Lillevan), o italiano Alessandro Cortini, a turca Ipek Gorgun e a britânica Nik Void merecem todo o destaque, mas viremos as atenções para uma DJ que tem aberto bocas por todo o mundo com os seus sets. Falamos de Avalon Emerson, cujas atuações são sempre imprevisíveis; afinal, a americana pode viajar por inúmeros géneros, desde breakbeat e garage a house e techno. Mais ainda, esta mulher do Arizona, hoje baseada em Berlim, também produz música, tendo assinado trabalhos em editoras como a Spectral Sound e a Whities, pela qual lançou o seu mais recente curta-duração. Em Braga, é garantido que Avalon Emerson vai encher as medidas dos presentes, ela que ficará a cargo da última atuação na noite de sexta-feira.

Oren Ambarchi & Robert Aiki Aubrey Lowe (26 de outubro, 21h30, Theatro Circo)
O compositor australiano Oren Ambarchi explora ambient (e não só) com recurso ao seu instrumento de eleição, a guitarra – onde desconstrói os sons produzidos por esta, ao ponto de estender o raio de ação tido por muitos como limitado – e a tantos outros, como a harmónica de vidro, piano, ou até de percussão, que complementam as suas criações, de progressão maioritariamente lentas, deixando o ouvinte a flutuar no tempo e a perder-se pelas entranhas de um minimalismo abstrato, espiritual e transcendente. Já se associou a alguns dos melhores músicos mundiais, como Dave Grohl, Fennesz ou a conhecida banda de metal Sunn O))), e chega agora a vez de aceitar o desafio do Semibreve para uma colaboração inédita com Robert AA Lowe.

Lowe é conhecido pela espontaneidade musical com que explora a fisicalidade do som, e faz, da aliança entre a sensibilidade dos sistemas analógicos modulares e a natureza orgânica dos seus vocais, o seu cunho mais diferenciador. O gosto pelo desafio entre mentes criativas é algo que partilha com Ambarchi, tendo já colaborado com a banda de black metal Twilight, providenciado tambura e vocais para a banda de doom/stoner metal Om, e ainda baixo nos Singer. Mas foi como Lichens que alcançou maior exposição mediática – o seu primeiro álbum sob este pseudónimo, de apenas três faixas, intitulado The Psychic Nature of Being, foi gravado de uma vez com recurso apenas à improvisação. Um momento único a não perder.

Rian Treanor (26 de outubro, 0h, gnration)
Depois da passagem pelo Serralves em Festa, no passado dia 2 de junho, o produtor de Sheffield está de regresso a terras lusas para uma nova paragem. É desde 2015, aquando do lançamento do seu primeiro EP, A Rational Tangle, que Rian Treanor se tem afirmado como uma das figuras mais disruptivas da cena underground britânica, ao incorporar diferentes influências na construção de uma identidade sonora distinta e irreverente, onde os padrões rítmicos não obedecem a regras e a liberdade criativa impera. A eletrónica fraturada, de raízes no footwork, na cena rave dos anos 90 e no UK garage, está diretamente associada à necessidade de que o britânico tem em sair da sua zona de conforto e em fazer algo que não lhe soe a nada do que já tenha ouvido. O seu primeiro álbum, Ataxia, editado em março passado, valeu-lhe críticas muito positivas em todas as grandes publicações da especialidade – e é nesse trabalho que irá basear a sua atuação. Após a passagem por alguns dos maiores palcos do mundo, como Berghain, Nyege Nyege Festival ou o Museu de Arte Moderna da Irlanda, chega agora a vez da pista esclarecida do Semibreve abraçar a falta (saudável) de convenções sonoras que distingue Rian Treanor.

Félicia Atkinson (27 de outubro, 15h, Salão Medieval da Reitoria da Universidade do Minho)
Seja através da sua própria voz, de field recordings, teclas ou até guitarras, Félicia Atkinson faz música para levitar. Do improviso à composição, do silêncio ao noise, a poetisa e artista visual (e música) parisiense explora o mundo mais ambient, drone e experimental da eletrónica, sempre inspirada naquilo que vê e ouve, como revelou à The Quietus em entrevista. Atualmente doutoranda na Universidade de Rennes, onde investiga musicologia, Atkinson gere a Shelter Press com Bartolomé Sanson, editora pela qual tem lançado os seus discos mais recentes, como é caso dos aplaudidos Hand In Hand e The Flower And The Vessel. E nunca é demais repetir: a estética de Félicia Atkinson faz levitar e, por isso, não a queremos perder nesta edição do festival bracarense.

Suzanne Ciani (27 de outubro, 18h10, Theatro Circo)
Hoje com 73 anos, Suzanne Ciani viveu a contracultura americana pelos anos 60. Ciani chegou mesmo a trabalhar no laboratório de Inteligência Artificial da Universidade de Stanford, academia onde, entre 1960 e 1975, o advento do LSD, entre outros fatores, foi bastante importante para o desenvolvimento dos computadores e até de conceitos como o ciberespaço. Mas foi pela Universidade de Califórnia, enquanto estudante de mestrado em composição musical, que a americana conheceu Don Buchla, o pioneiro responsável pelos sintetizadores com o mesmo nome, instrumento que viria a ser peça-chave para Suzanne Ciani. Foi com um desses sintetizadores que viajou nos anos 70 para Nova Iorque com nada mais, nada menos do que um Buchla e roupa. Pouco depois, fundou a Ciani/Musica Inc., pela qual produziu sons para inúmeras marcas, incluindo a Coca-Cola, para quem criou o famoso som da garrafa a abrir e verter, e a Atari. O facto de ser mulher – era uma das poucas a trabalhar em sound design na época – e de utilizar um instrumento estranho à data fez com dedicasse muito do seu tempo à criação de sons para publicidade ou filmes, por exemplo; ainda assim, lançou vários e importantes álbuns de estúdio desde 1970, entre outros trabalhos. Nomeada por cinco vezes para os prémios Grammy, hoje Ciani sente-se feliz por este seu lado eletrónico ser encarado com outros olhos, conforme explicou ao The Guardian em 2017, ano em que recebeu o prémio Moog Music Innovation Award. Este domingo, a americana promete uma viagem inesquecível no Theatro Circo, onde estará responsável por encerrar o Semibreve.

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