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Entrevista

Dark Sessions: “Começámos à segunda-feira com um sistema de som manhoso”

11 Setembro, 2020 - 12:15

Os amigos mais próximos de “Rosas Deskins” celebraram, no passado dia 2, o terceiro aniversário da misteriosa organizadora bracarense de eventos techno.

Começaram pelo “passa a palavra”. Depois, veio o grupo privado de Facebook e, pouco a pouco, as Dark Sessions começaram a ganhar forma. O conceito bracarense nasceu da vontade de três pessoas de trazer uma noite diferente à comunidade académica em Braga (e não só). Agora, serve também de plataforma para lançamento de artistas amadores e locais, e conta com uma participação direta do público que poucos outros conceitos conseguem igualar, já que datas e outros assuntos acerca das festas são discutidos “em praça pública” no grupo semi-privado de Facebook, que é onde os planos do coletivo ganham forma.

Desde o anonimato às raízes, passando pelo panorama atual e futuro das tão-aguardadas festas e pelo verdadeiro significado de diversão, dois dos fundadores do projeto bracarense (um DJ, o outro promotor) discutiram estes e outros assuntos com A Cabine.

Foram três anos marcados por muito sucesso. Têm planos para o futuro? Algum mecanismo pronto para quando as restrições acalmarem ou, caso decidam fazer alguma coisa, dentro dos parâmetros estabelecidos para agora?
DJ: Eu acho que ser possível é, mas não podes fazer em qualquer lado, tinhas de arranjar algum lado apropriado.

Promotor: Também é uma questão de ver o que é que faz sentido fazer, principalmente em Braga, que é uma cidade limitada a nível de mentalidades. Portanto, se nós pedirmos para fazer alguma coisa a nível de clubbing o mais certo é levarmos um não. Mas se formos a ver como está a acontecer na Alemanha, onde o governo está a apoiar as iniciativas ao ar livre por parte das discotecas e das organizações de festas, nós queremos esse apoio. E apesar de não vermos muita abertura em Braga para esse sentido, nós também estamos à espera que comece a universidade e o ano letivo para começar a explorar essas possibilidades, porque a verdade é que vamos estar sempre muito limitados a nível de iniciativas em espaços fechados nos próximos tempos.

Estão a pensar investir em coisas como os concertos sentados?
DJ: É assim, eu acho que no nosso contexto não faz muito sentido. Já vi algumas cenas assim e ok, é fixe para um certo tipo de música, mas no nosso caso vai-te apetecer dançar e não vais poder levantar-te da cadeira, portanto vai ficar sempre muito aquém do que é o esperado duma Dark Session pelos consumidores.

Mantêm essa posição mesmo se a espera durar mais um ano, por exemplo?
Promotor: Nós eventualmente vamos fazer coisas, mas estamos a apalpar terreno, a ver o que é que acontece e a ver o que faz sentido a nível legal, porque não queremos fazer coisas ilegais.

DJ: E não queremos potenciar a segunda vaga. Estamos sempre com aquele pé atrás porque pode ser legal fazer uma festa e um mês depois volta tudo a fechar outra vez.

Promotor: E de resto, nós trabalhamos principalmente durante o ano letivo, porque o nosso público é esse. E se formos a ver, a nossa última festa foi realmente muito boa, a nível de quantidade de público, de sistema de som, etc. E agora, se fizermos alguma coisa que saiba a pouco, as pessoas vão sentir falta da experiência que tiveram antes. Por isso, estamos mesmo a guardar-nos para eventualmente fazer alguma coisa em grande depois do início do ano letivo.

DJ: Mesmo se tiver de ser uma coisa das três da tarde às 11 da noite, como de resto já acontece em sítios como Berlim.

E em relação ao regresso à normalidade? Otimistas ou pessimistas?
Promotor: ‘Opá’, o pessimismo é que as coisas vão ter de mudar. O otimismo é que pode mudar para melhor [risos].

DJ: Para mim, o pior que pode acontecer é nunca voltar nada ao que se podia fazer a nível noturno e assim. Depois também tens as coisas como o distanciamento, as marcações, etc…

Promotor: Há coisas que sempre estiveram cá e serviram de pilares da música eletrónica em Portugal que agora tu pura e simplesmente não tens.

Acham que esta paragem abrupta vai despoletar mais solidariedade na altura de começar lentamente a voltar ao normal?
Promotor: Se tens imenso dinheiro e nunca perdeste dinheiro nestes meses todos, [os clubes vão querer] é apostar em artistas internacionais porque não vai haver muitos.

DJ: Mas como o objetivo na generalidade vai ser recuperar, vai ser quase obrigatoriamente mais fácil para um artista nacional ser posto no cartaz.

Promotor: E acho que agora vão apostar mais nos artistas nacionais no geral, e isso é bom.

DJ: Sim, mas infelizmente nem será tanto pela mudança de perspetivas mas por necessidade, porque vai haver muito poucos a conseguir contratar artistas estrangeiros, por motivos diversos.

Além de Braga, a promotora já passou também por espaços como o clube portuense Gare (fotografia: Ivo Lima)

Já pensaram em fazer alguma coisa fora de Portugal?
Promotor: É assim… nós não pensamos antes que a oportunidade surja. Tudo o que vai aparecendo nós vamos vendo se faz sentido. Eventualmente diríamos que sim, porque é uma oportunidade única, mas é muito à base daquilo que vai surgindo, nós não vamos à procura. Mas a ideia para este último semestre, que se vai traduzir no próximo, era apostar mais em Braga. Nós já tínhamos ido ao Porto, onde conseguimos arranjar mais público e fazer umas festas porreiras em espaços de renome como o Gare, Indústria, a festa no Hard Club com o Neopop, e já conseguimos pôr o pessoal fora de Braga a saber que cá se passa alguma coisa. Agora, a ideia era ver se conseguíamos trazer gente de outras cidades para cá, para as nossas festas. Braga vai ser sempre o ponto principal da nossa atividade.

DJ: Nós somos daqui, e já que estamos aqui, ajudamos a fazer alguma coisa aqui, porque o Porto já tem que chegue, há muita gente metida nisso. Em Braga, só temos uns clubes relativamente pequenos que fazem umas festinhas e pouco mais. Nós criámos a infraestrutura, começámos com uma cena muito simples, no BA, às segundas, como uma noite académica com malta que conhecíamos de cá de Braga que queria passar música, e apesar de já termos ido a outros sítios queremos sempre continuar a crescer cá.

Promotor: Porque no fundo este é o nosso círculo. Nós até podemos deixar de fazer festas no Porto durante dois anos mas, se Braga deixar de ter público para nós, seria muito difícil continuar. E se houver algum desastre cultural a nível de música eletrónica, nós começamos do início, no BA, e mantemos sempre a base: Fazer festas no BA, no Lustre, eventualmente no Porto. Porque no fundo isto é um ciclo. Por exemplo, quando temos alguém novo a querer passar música nas nossas festas, começa nos Open Decks, que são uma hora que nós temos no início de cada festa para que alguém que nunca tocou toque para nós, para nós ouvirmos e percebermos o que é que ele pode fazer no cartaz duma festa principal. Depois de ele mostrar o que sabe nessas Open Decks, normalmente depois de três ou quatro festas, ele toca no cartaz principal do BA, e se nós virmos que é um DJ que vai trazer alguma coisa diferente à cidade e à cena da música eletrónica, vai tocar ao Lustre. Se fizer alguma coisa de jeito no Lustre, que já tem equipamentos diferentes (CDJs 2000, aquele sistema de som, etc…), eventualmente quando formos ao Porto já sabemos com quem podemos contar. É um ciclo.

DJ: E acaba por ser uma questão de consistência também. Tem a ver com a experiência no PC e no controlador do próprio DJ, na capacidade de passar para outros tipos de equipamento, que é uma coisa que às vezes bloqueia muita gente, mesmo malta experiente, e na qualidade consecutiva dos sets nas nossas festas.

Promotor: No fundo, também acabamos por servir como uma plataforma de lançamento. Há malta que começou a tocar connosco que agora toca regularmente noutros sitios, e isso conseguiu-se também com a nossa ajuda. Há muita malta que confia em nós, que sabe que pode começar o percurso aqui. E agora que começamos a ter mais nome, as pessoas começam a confiar nos nossos gostos e naquilo que metemos. E agora, quando fazemos uma festa, sabemos que podemos meter o que nós quisermos porque as pessoas vão confiar. E são 50 a 100 pessoas que nós já temos que nos seguem mesmo a sério. Portanto isso é ter gente que sente a mesma coisa que nós, e quando vamos a algum lado a gente nota que as pessoas que já nos seguem têm a mesma reação que nós, e isso aconteceu quando fomos com o Neopop ao Hard Club, por exemplo. É mesmo um “wow, está a acontecer pessoal, vamos lá, temos de ir todos juntos porque não são só os DJs que vão atuar, o público faz parte disto”. O público é a nossa base, e as pessoas sentem realmente isso. Nós também acabamos por ser um bocado anónimos a nível de organização precisamente por querermos que equipa rode e que o conceito em si seja o foco principal da coisa.

DJ: O anonimato também serve para metermos mais pessoas. Começámos com três, e agora somos para aí 10 ou 11.

Promotor: Nós criámos aquela conta da Rosas Deskins no Facebook precisamente para ninguém anexar o movimento a ninguém em particular, porque assim é mais fácil e as pessoas também sabem que estão por dentro. O público decide tanto quanto nós, porque se fizermos alguma coisa completamente diferente dos gostos do público, o público não vai gostar e aí já não faz sentido. Ainda para mais quando temos público que veio sempre às nossas festas, faça chuva ou faça sol, mesmo quando estávamos sempre a pensar “é desta que não vem gente”. E vinham sempre, é incrível.

DJ: Para isso é que servem os questionários do Google que a gente faz, e costuma ter muita adesão. Nós pegamos nisso e já sabemos por onde seguir. Se 60% ou 70% das pessoas disserem “melhorem isto”, nós já sabemos o que é que temos de melhorar.

Promotor: Por exemplo, a nível de estilos, apesar de termos começado com a cena do dark techno, depois começamos a ter mais DJs com mais maturidade e variedade.

DJ: Porque na verdade, isso foi mais para pegar no início, acho que a nossa cena nunca foi estarmos limitados a um tipo de música em particular, seja dark techno ou algum estilo mais pesado… nós é música eletrónica de qualidade, para dançar. Basicamente isso. [risos]

Imaginavam este tipo de progressão no início?
DJ: Se nos dissessem no início “Olhem, daqui a dois anos, vão estar no Lustre com umas Void ou na sala 2 do Hard Club com o Neopop“, nós pensávamos “caramba, isso nunca vai acontecer”. Mas aconteceu. E nós também tivemos sempre cuidado com a gradualidade da nossa exposição de acordo com o aumento de qualidade. Houve alturas onde podíamos ter forçado as coisas a acontecer e não o fizemos, e eu acho que ainda bem que não fizemos porque permitiu que fôssemos crescendo aos poucos, e levou-nos a uma posição estável e concisa.

Promotor: Lá está, quando tínhamos poucos DJs e pouca gente tínhamos de estar sempre a apostar nos mesmos. Agora, conforme isto vai crescendo também há mais gente a tentar tocar connosco e já podemos levar essa pessoa a tocar para outros sítios. É bom para o artista e bom para nós.

Contem-nos um bocado acerca da vossa maneira de fazer as coisas acontecer.
Promotor: Bem, nós não trabalhamos nisto, isto não é a nossa vida, a nível profissional fazemos outras coisas. Nunca tivemos propriamente formação a nível de eventos, e mesmo quem tira esses cursos de Marketing e afins já nos disse “ah, um grupo no Facebook, isso não dá em nada”. Mas acho que existe muito o erro de se pensar que quando se quer criar um conceito assim é preciso pensar já lá em cima, quando na realidade apostar dinheiro e mais dinheiro para conseguir mostrar um produto muitas vezes é só fogo de artifício. Para nós, foram coisas mais simples, como o caldo-verde, que nos permitiram explorar a motivação do público. Mas… ‘opá’, ya, nós somos um conceito de Braga que começou com festas à segunda-feira essencialmente com um sistema de som manhoso. Essa é a realidade! [risos]

Fotografias captadas por Ivo Lima e cedidas pela organização

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