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Diana A.

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Entrevista

Holldën: “O que é facilmente categorizável, é facilmente descartável”

26 Outubro, 2018

Numa tarde de sábado com tempestade a caminho, estivemos à conversa com Holldën.

Holldën – Miguel Duarte de nome próprio – está prestes a editar um novo EP, Golpe, o seu primeiro através da recém-criada editora nacional Disturb. Mas não é novo nestas andanças.

Para conhecer um pouco mais da história deste dj natural do Algarve, comecei por questionar como tudo começou: “os primórdios da minha existência musical começaram quando tinha à volta de 15 anos no quarto de um amigo quarteirense, António Borges, com um CD (…) que me levou a entusiasmar pelas primeiras noites na Kadoc. Eram a vanguarda por onde a revolução musical eletrónica entrou em Portugal. Há 20, 21 anos atrás, foi aí que tudo começou. E uma coisa leva à outra. Por volta dos 17, 18 anos comprei os meus primeiros gira-discos Reloop. A partir daí, a evolução foi bastante grande”.

Também nessa época começou por frequentar o mundo das raves, mas passado algum tempo perdeu o interesse. “A cena musical lá de baixo foi assoberbada por questões de gangsterismo e coisas associadas às drogas. Música cada vez mais intragável, polícia, desinteresse. E morreu um pouco por lá. Depois, tudo se mudou para as grandes urbes, Lisboa e Porto”, comenta. Entretanto, por eventualidades da vida, abandonou temporariamente esse mundo.

Durante o hiato em que parou de produzir música eletrónica, o músico percebeu que o techno tinha “crescido”, por assim dizer: “percebi que [o techno] tinha passado de adolescente para a fase adulta”. Ao ser questionado acerca de como tinham sido os últimos cinco anos – que, a julgar pela série de lançamentos de Miguel, têm sido cheios de foco e dedicação – Holldën mostra ser apologista da sustentabilidade. “Gosto de praticar e ter uma evolução antes de me expôr. Estive exilado a evoluir, a treinar sem cessar”. É um verdadeiro apreciador do processo criativo, pois diz ser graças ao trabalho árduo que chega mais longe. “Só assim consegues medir a tua evolução”, acrescenta o patrão da Kuiper Noise.

Falando de EPs, inclusivamente daquele que está por lançar: “só no último ano e meio lancei vários EPs com editoras reputadas, boas editoras, e fi-lo sem ter os meus ‘padrinhos'”, disse Miguel, acrescentando que Golpe “vai ser editado agora em novembro. É particularmente especial pois trata-se de uma nova editora portuguesa. Tenho coisas prontas para os próximos meses. Estou há 15 anos preparado para isto”.

A sua ligação à editora da lisboeta Disturb é recente: “Foi o Bruno [Gandra] que me encontrou. Temos um projeto de crescimento impressionante para os próximos dois ou três anos. A editora que a Disturb abriu agora vem complementar a sua oferta de festas”, comenta.

Holldën acredita que a música portuguesa está “num patamar superior a muitos outros países”

Ao longo da conversa, também tive de questionar Holldën acerca do processo criativo atrás referido. Todos somos diferentes e, por isso, todos temos o nosso. Assim o complementa este dj e produtor: “Não há uma forma de descrever o processo criativo linearmente para toda a gente. Sou perfeccionista, sou obcecado por diferentes texturas e os mais ínfimos detalhes e pormenores. Só se chega a um patamar elevado com muito trabalho. Difícil mesmo é chegares a um patamar e te manteres nele. Os grandes djs atingem aquele patamar de qualidade e mantêm-se por lá”. Mas há mais: “há uma diversidade de produtores de techno muito grande hoje em dia, a competitividade é ótima. Gosto de começar pelos alicerces, e a partir daí estás a ouvir elementos que já estão criados, mas que ainda não são audíveis. A inspiração vem do lado secreto da música que ainda não é visível. Não vale a pena teres ideias. A partir dos elementos básicos começa a nascer uma espécie de onda que ainda não está lá, mas que está a surgir”.

Pelo caminho, a conversa passou por Portugal e a cena eletrónica nacional, um tópico essencial. Como seria de esperar, o produto nacional tem sempre pontuação máxima: “Sou um explorador de música eletrónica e posso dizer que o nosso país não tem muita quantidade, mas a qualidade não fica a dever nada a ninguém. Está num patamar superior a muitos outros países”, reafirmando que “não temos grande quantidade, mas temos o melhor”.

No entanto, sente que não valorizamos suficientemente o que temos, e que preferimos dar sempre prioridade ao que vem de fora: “Somos periféricos, não somos muito exigentes connosco próprios. Há uma grande vontade de aprovação por quem vem de fora. É assim em todos os campos. Eu ouço coisas de produtores portugueses e questiono-me como é que não estão lá fora”. Por outro lado, também sente que o público valoriza cada vez mais os artistas, e que existe evolução nesse sentido: “O público está cada vez mais educado. As pessoas hoje olham para um nome, conhecem e vão atrás”.

Perguntei-lhe qual seria o sítio onde mais desejava tocar, mas, neste momento, a sua preocupação é aperfeiçoar a qualidade da sua música; é da opinião que o ideal é não ter pontas soltas no trabalho, e o resto virá gradualmente.

Dentro do espetro do techno, onde te colocas?, questionei, e Holldën não hesitou em responder que a sua música não é para qualquer ouvido. Queria saber se Miguel considerava a sua música “underground”; no entanto, o músico sabe sempre como dar resposta: “A noção de underground hoje está muito desvirtuada. Tenho muitos elementos clássicos do techno na minha música, mas explora outros níveis… Mas tenho um respeito quase cego pelos alicerces do techno. É difícil categorizar; o que é facilmente categorizável, é facilmente descartável. Temos os pilares da música, e depois vamos descobrindo por baixo disso o som para onde a música nos quer levar. Em conclusão, sou um produtor de techno”. E assim nos ficamos.

Uma das últimas perguntas que fiz foi a simples e clássica “com quem gostavas de partilhar a cabine?”. Novamente, Holldën tem sempre uma resposta na ponta da língua: “seria engraçado partilhar a cabine com Marcel Dettmann. Uma vez tiramos uma fotografia e ele é altíssimo.” Refere ainda outros nomes como DJ Nobu ou Ben UFO: “Eu não sou esquisito. Adorava partilhar a cabine com um tipo chamado DJ Lily, que é de Gutemburgo, na Suécia.”

Com a conversa a chegar ao fim, esta foi uma das conclusões de Holldën: “só se aguentam no topo aqueles que têm uma energia de trabalho inexpugnável. Em Portugal há toda uma geração de artistas que se perderam. Muitos que não souberam acompanhar os tempos. O techno entrou numa fase de maturidade e expansão.”

Devem explorar os trabalhos do dj e produtor aqui, por exemplo, ou ouvir o teaser do EP Golpe aqui.

As fotografias foram fornecidas por Holldën e captadas pela Stills.

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