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Entrevista

João Ervedosa: “Se fosse por dinheiro ou reconhecimento, estava a fazer muito mal”

19 Julho, 2019 - 19:35

Sentámo-nos com João Ervedosa, também conhecido por José Acid e Shcuro, para desvendar a sua história e trabalho.

A transversalidade e visão que definem o seu percurso são o cunho de João Ervedosa, uma das mentes por trás de projetos como Sombra e Paraíso. Em 2019, para além do excelente lançamento de Shermanworx em conjunto com Photonz para a Future Déjà Vu, o lisboeta dedica-se à génese de uma sub-label da Paraíso, a Rave Tuga, que compila 48 faixas em quatro volumes, com a participação de velhos e novos artistas portugueses que contribuem para a cena da música eletrónica do país.

Numa esplanada na Praia de Carcavelos sob um imenso pôr-do-sol, conversámos sobre o trajeto do dj, produtor e designer, um artista que privilegia a mentalidade DIY e não só.

Quando é que começou a tua aventura na música eletrónica? Há algum momento específico que te recordes?
Como sabes, eu tenho um programa de rádio [na Rádio Quântica] – Paraíso – em que entrevisto pessoas também; não são bem entrevistas, são conversas mais descomprometidas e esta é a primeira pergunta que faço a toda a gente. Portanto, é mais do que justo ter de responder a esta pergunta ingrata [risos].

Eu, como qualquer miúdo, comecei a ouvir música mais atentamente quando era adolescente. Ouvia de tudo e mais alguma coisa sem ter um gosto propriamente formado, e fui-me interessando cada vez mais. Toquei em bandas, tocava instrumentos como guitarra, bateria, baixo, etc. Aos 15 anos comecei a comprar discos e, pouco tempo depois, arranjei um trabalho numa loja de discos. Aliás, foi o meu primeiro emprego, numa loja de discos no Bairro Alto. Chamava-se V Records. Já não existe. Passou por lá muita gente, mas eu fui das últimas pessoas que lá trabalhou. Acho que a loja fechou no dia em que saí de lá [risos].

Comecei a sair à noite para aí aos 14 anos. Ia ao Garage, Queens e esses sítios onde todos os miúdos da minha idade iam… Já gostava de música de dança e comecei a interessar-me cada vez mais e a perceber melhor o que é que gostava, o que não gostava, e porquê. Comecei a comprar discos – alguns, o dinheiro não dava para muitos, era miúdo, andava na escola – e, como tinha tardes livres, ia ouvir discos muitas vezes. Numa dessas vezes, perguntei ao dono da loja se precisavam de mais alguém. Ao que ele me respondeu “olha, por acaso até estamos a precisar. Se quiseres podes ficar cá uns tempos à experiência e depois logo vemos”. E assim foi. Estive lá um bocado on e off porque também andava na escola, no secundário, e depois fui para a faculdade. Não era a única pessoa que lá trabalhava, não ia todos os dias. Ia trabalhar quando me chamavam, basicamente.

Chegaste a ter aquela responsabilidade de estar sozinho na loja?
Sim, diria que metade dos dias estava sozinho. Nos outros, trabalhava em conjunto com o Luís Leite, Jiggy, entre outros. Eram os meus ídolos, já na altura. Mal eu tinha noção do impacto que isso iria ter em mim. Eles eram os buyers da loja, para além de estarem atrás do balcão a vender discos, escolhiam o que é que se encomendava dos catálogos das distribuidoras. Isso obviamente influenciou aquilo que comecei a ouvir. Uma das condições é que a música nunca podia parar na loja. Tinha de estar sempre a haver música. E já que não podia parar, quando não havia clientes, ia praticando misturar. Sempre fui tímido mas conversava muito com o Luís Leite, com o Jiggy e outras pessoas que lá trabalhavam ao longo dos dois anos e tal em que lá estive. Trabalhei lá dois anos e não consegui juntar dinheiro nenhum. Basicamente não ganhava dinheiro porque trazia tudo em discos para casa.

Depois da loja seguiste para a universidade. Foste estudar, já com mais bagagem e conhecimento musical. Como surgiu o interesse em produzir música?
Como trabalhava na loja ouvia muita música. Mesmo que às vezes quisesse estar em silêncio, tinha de ser. Precisava de conhecer os discos que havia na loja para também os conseguir vender aos clientes. Eu nem gostava particularmente disso, mas quando um cliente entrava na loja (e aquilo vivia muito de clientes habituais) tinhas de saber o que é que lhe devias mostrar. E quando eu digo que não gostava muito disso era porque, a certa altura, tornava-se quase impingir música às pessoas, e essa parte não tem a ver com o meu feitio. Mas tinha alguns amigos que, mais ou menos na mesma altura que eu, começavam também a comprar discos e a aprender a misturar. Fazíamos isso juntos e um desses meus amigos começou a interessar-se muito por produção e demos esses primeiros passos juntos – ele um bocadinho antes. Ensinou-me as bases e comecei a partir daí.

Ao mesmo tempo, comecei a ir às primeiras festas, sem ser só o hábito de ir a uma discoteca só porque os meus amigos iam. Comecei a perceber do que é que gostava e a querer ir ouvir música à noite, fora de casa ou da loja. Lembro-me que foi com ele – o Miguel, que na altura morava em Faro – que fui pela primeira vez ouvir um dj de quem já gostava e queria muito ver ao vivo. Foi o Sven Vath na Locomia. Já tinha ido a umas festas, mas nada que me tivesse marcado especialmente. Esta foi aquela que que considero a minha primeira noite, que fui ouvir techno para uma discoteca e saí de lá oito ou nove horas depois. Isto foi numas férias de verão. Nessa mesma semana, não sei se antes ou depois, em que eu estava a passar férias na casa desse meu amigo em Faro, ele já tinha o Cubase e começamos a tentar fazer alguma coisa juntos. Já tinha tentado fazer coisas em casa mas não sabia o que estava a fazer. Ele estava um bocado mais avançado. Eu sabia o que queria fazer, mas não sabia como. Ele já sabia mexer nos programas, nos sequenciadores, tinha um teclado MIDI, uns monitores, uma placa de som, microfone, etc. Então comecei a fazer música com ele em 2003. Tinha 16 anos. Volto para Lisboa, instalo uma versão do Cubase e começo a fazer música também, sozinho. Depois foram anos e anos de experimentação em vários programas, começar a comprar algum equipamento. Tinha uns monitores ligados ao meu set-up DJ e pouco mais. Comprei um teclado MIDI, depois um sintetizador e uma drum machine.

Na universidade, foste conhecendo novas pessoas, o teu palato de música foi evoluindo e, a partir daí, como foi ganhares o teu próprio espaço no meio da eletrónica? O teu primeiro disco da Paraíso sai em 2015, se não me engano.
Quando lancei as primeiras faixas já tinha saído da universidade. Acabei o IADE (Design Gráfico), fui para Barcelona para fazer o mestrado (Design de Comunicação), fiquei lá a viver durante dois anos. Depois ainda fiz uma outra pós-graduação noutra universidade, no ano seguinte, em Design Digital e Multimédia. Fiz um curso de produção de música eletrónica lá em Barcelona também. Entretanto comecei a trabalhar num sítio que era – não existe nada assim aqui em Portugal que dê para comparar – por um lado, uma venue onde havia concertos e djs a tocar à noite, funcionava como associação cultural, faziam exposições de arte contemporânea, e lá dentro funcionava também uma editora – a Disboot, mais virada para o dubstep e bass music. Estas crews em conjunto organizavam um festival de Dub chamado Fundub, que era incrível. Aprendi imenso com eles. Este sítio chamava-se NIU.

Em Barcelona comecei a produzir mais a sério. Vivi com dois amigos, um deles também já fazia música – o Rastronaut da Enchufada – e o outro era rapper. Juntamos o equipamento no meu quarto, começamos a fazer uns beats em conjunto. Entretanto conheci uma dj e produtora peruana chamada Orieta Chrem. Ela começou uma label chamada Basal e lancei lá o meu primeiro disco. Isto foi em 2012. O disco seguinte dessa editora foi do Rastronaut e fiz uma remistura para ele. Foi o meu primeiro remix. No ano a seguir, o Rastronaut e mais três amigos nossos, o Daino, o Fidbek (que agora é o Nave Mãe) e o Infestus (que já não faz música), criaram uma editora chamada Circus Maximus e foi aí que lancei o meu segundo EP. Ainda na Circus Maximus, houve uns releases digitais gratuitos nos quais participei com a Orieta. Depois em 2014 comecei a Sombra, a minha primeira label.

Pois, porque eu até pensei que a Paraíso surgisse primeiro do que a Sombra.
Não, a primeira label que eu fiz foi a Sombra com o Pedro t.c.p. Peterr, puebblo/Santa Bárbara – ele tem vários nomes. O Pedro é meu amigo da escola, tínhamos aulas de guitarra juntos e tivemos bandas, somos amigos de infância. Fizemos a Sombra e o primeiro disco tem uma faixa minha e três remisturas, do Paul Mac, Larix e Myler.

Tu, nesta altura, já estavas na Rádio Quântica? Fizeste parte desde o início dela?
A Sombra já existia antes da Rádio Quântica. A Paraíso começou ao mesmo tempo que a rádio como um programa e depois evoluiu para uma editora – e depois para uma noite no Lux Frágil.

Os fundadores da rádio são a Inês e o Marco – Violet e Photonz, respetivamente – e eu estou lá desde o início. Ajudei-os com o site, por exemplo. A Inês e a Maria, minha mulher, são primas direitas, têm uma banda e também são djs, as A.M.O.R.. Estou a dar este contexto para perceberes que somos família. Elas são primas, o Marco é namorado da Inês e acabamos por estar todos envolvidos nos projetos uns dos outros. Tudo começou com o Marco e eu a fazer beats para o álbum das A.M.O.R., em 2010 ou 2011. Lancei música na editora que o Marco e a Inês tinham, a One Eyed Jacks. Duas remisturas, uma para a Violet e outra para o Marco, com o nome Ursa’s Reef, que é outro dos projetos dele. Faço toda a parte gráfica da Naive, portanto, como vês estamos, muito envolvidos nos projetos uns dos outros e a Rádio Quântica é outro desses exemplos. A Inês e o Marco estão super envolvidos na Paraíso, participam nos programas de rádio muitas vezes, ajudam-me com a comunicação da editora – a Inês especialmente.

Até porque apareceram em todos, ou praticamente todos, os lançamentos. Os dois até já têm os seus EPs a solo.
São os dois artistas mais importantes da Paraíso, sem dúvida alguma!

Também participas noutro programa de rádio na Antena 3, o Física e Química, certo?
Sou um dos residentes. O Ruy Estevão, que faz o programa, quis convidar várias pessoas para fazer a segunda hora do programa (tem 2 horas). De quatro em quatro semanas, faço a segunda hora. O programa já existe há muito tempo, esteve parado e recomeçou neste formato no final do ano passado. Foi-me pedido também que fizesse a nova identidade gráfica do programa, para assinalar esta nova fase.

Para além de teres feito o design da Naive, da Paraíso, da Sombra, do Física e Química, ainda tens outros projetos idênticos?
Fiz a identidade desta editora que estava a falar há pouco, onde lancei o meu segundo disco, a Circus Maximus, que já não existe. Fiz e faço coisas para a 1980, a editora do Nave Mãe, onde lancei o único disco que tenho como José Acid. Não faço as capas dos discos todos porque algumas são feitas pelos próprios artistas, mas fiz o logotipo e a identidade gráfica. Estou a fazer, neste momento, a identidade de uma editora nova da Octo Octa e da Eris Drew chamada T4T LUV NRG, e faço posters para as tours da Eris Drew. Faço também trabalhos para o Lux e para a Rádio Quântica.

Paraíso, Sombra e Rave Tuga são três identidades distintas ou são três outputs diferentes? Como é que elas se vão moldar para o futuro – ou para um futuro próximo?
Eu não gosto de falar muito em géneros musicais porque não gosto muito de me enfiar em gavetas. Mas se tivesse de definir dessa forma diria que a Sombra é uma editora mais techno, dub, ambient, vai mais por essas sonoridades. Há sempre uma diferença clara que é, a Sombra é feita por mim e pelo Pedro em conjunto, portanto é o resultado da nossa visão conjunta que depois se traduz em releases, o programa que fazemos, ou quando tocamos juntos ao vivo. Com a Paraíso já não é assim, é um projeto que eu e a Maria temos. Há música que, para mim, faz mais sentido ser lançada na Paraíso do que na Sombra e vice-versa, agora explicar isso é mais difícil. É mais uma questão de feeling do que dizer: “Se for techno, tem de ser na Sombra”, ou whatever, porque eu não vejo as coisas dessa forma. São sem dúvida plataformas com outputs distintos.

Então o que queres dizer é que o que pretendes valorizar é fundamentalmente a música e valorizar os artistas portugueses que, se calhar, não têm tanta visibilidade?
Sim, também, claro. A compilação Rave Tuga é uma compilação de música de dança portuguesa. Isto não quer dizer que no futuro não vá eventualmente lançar artistas de fora. No caso desta compilação tens música de pessoas, não muitas, mas pelo menos sei que é o caso da ketia, que nunca editou nenhuma música, esta é a primeira. Mas também temos música de alguns dos pioneiros da música de dança portuguesa, algumas delas são faixas que foram feitas há mais de 20 anos e nunca saíram. À parte disto, o que pretendemos é que a música seja usada como um veículo para contribuir para uma causa. Usar a música como uma arma neste caso. A Rave Tuga vai doar todos os lucros da compilação à Casa Qui, uma instituição sem fins lucrativos que faz um trabalho incrível. Dão apoio psicológico a jovens LGBTI que tenham sido vítimas de violência, ou que precisem de ajuda psicológica por maus tratos, abuso, etc.

Não há um objetivo principal nem algo que seja para atingir um pedestal, é mais alguma coisa de fazer pelo gosto, fazer pelo coração.
Sim, é por amor, só por amor. Se fosse por dinheiro ou reconhecimento, estava a fazer muito mal [risos].

A Rave Tuga procura enaltecer o aspecto da diversidade multicultural da música eletrónica portuguesa. Como é que tu vês agora a transformação desta sub-label para os próximos tempos?
Neste momento estou só focado nesta compilação, não tenho muitos planos definidos para o que é que vai acontecer depois. Esta compilação está dividida em quatro volumes, 48 faixas. Não fazia sentido lançar tudo de uma vez porque ia-se perder muita música. Neste caso, optámos por não fazer isso porque queríamos que cada um dos volumes da compilação desse mais atenção às faixas e às pessoas por trás delas, e seria melhor que fossem saindo aos poucos – um volume por mês durante quatro meses seguidos.

À parte disso, a Paraíso – que é a editora mãe, por assim dizer – vai continuar. O próximo disco é o primeiro a solo da EDND, a Adriana dos Roundhouse Kick.


Em relação a festas, reparámos que tens agora a NO UFO’S.
A NO UFO’S é uma noite que acontece periodicamente no Incógnito em que eu e o Marco (Photonz) convidamos pessoas para virem tocar connosco. É uma noite mais virada para o electro e breaks. Coisas não four to the floor, como house, techno e etc… A quarta festa foi no final de maio com a Odete e com o Tombo. À parte dessa, tenho também uma residência no bar do Lux com o Dexter chamada House of Frágil. Esporadicamente temos também a Noite Paraíso no piso de baixo do Lux. Em breve teremos mais novidades.

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