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Entrevista

Nox: “Acho que finalmente me encontrei a nível musical”

28 Agosto, 2020 - 10:05

A celebrar 20 anos de carreira, Nox esteve à conversa com Carina Fernandes, relembrando altos e baixos de tão longo percurso. E deixa também uma mensagem para quem está a pensar começar.

Natural do Barreiro, é Luís Baptista quem responde por Nox, um apaixonado por fazer música sem fronteiras. DJ veterano, zela por dar som às várias correntes da eletrónica em comunhão com a tecnologia, e sempre com atenção à pista que anima.

Depois de ser residente em duas discotecas e se aventurar como freelancer, o DJ mantém uma carreira ativa e uma vida familiar. É também fundador da Fuse Records, que até o final de setembro vai animar todos os sábados do Miradouro Moinho do Pinheiro, em Lisboa.

Este mês, num live streaming, comemorou 20 anos de muita música a passos livres entre estilos, como o habitual toque house que tem levado a diferentes espaços do país. Em retrospetiva, conta-nos a sua viagem, desde o amor pelos discmans e a primeira vez no Alcântara-Mar até às mesas de mistura e o BPM Festival.

Antes de mais, parabéns pelo vigésimo aniversário. Perante a pandemia, a celebração foi em live no Facebook. Deixou algo a desejar?
Não, na realidade não deixou a desejar. Claro que se tivesse sido noutro contexto teria sido engraçado. Em todo o caso, ao longo destes 20 anos nunca celebrei ou fiz qualquer tipo de acontecimento sobre um aniversário de carreira. A pandemia até acabou por criar aqui uma oportunidade de fazer uma coisa diferente e fez com que conseguisse também focar-me um bocadinho no meu percurso.

O regresso à cabine parece prometedor. Conta-nos um pouco do que se passa nos sunsets no Miradouro Moinho do Penedo.
O conceito já estava planeado há algum tempo, só ainda não tínhamos encontrado o local correto para o fazer. Nós, como promotores, pesquisamos muito e passeamos muito em Lisboa, sempre à procura de novas localizações. E acabámos por dar com este espaço que abriu recentemente, em maio. O Moinho do Penedo foi todo ele reconstruído e agora tem um espaço muito agradável, com um restaurante-bar. E pronto, tanto procurámos que encontrámos! O conceito correu bem, este sábado foi a primeira vez. Nós não gostamos muito de lhe chamar festa porque acaba por não ser uma festa: acabas por ter sempre a tua liberdade de movimento um bocadinho restringida, mais a máscara e essas situações todas. Mas correu bem e as pessoas também aderiram bem, tanto que já esgotámos os sábados todos. Também já tinha tido oportunidade de tocar três vezes mais ou menos dentro deste registo, portanto, já tínhamos ideia de como é que as pessoas se iriam comportar. Foi muito fixe voltar a encontrar alguns amigos, ainda que poucos. A experiência foi muito positiva!

Lê-se na tua página que és um eterno amante de música e um aficionado da tecnologia. Como vês a relação entre esses dois universos?
Eu acho que andam de mãos dadas. Para mim, a música evolui ao mesmo tempo que a tecnologia. Essencialmente, nunca fui agarrado a coisas do passado, sempre consegui virar “a página”. Acho que há uma constante evolução e eu procuro sempre conjugar e tirar o melhor partido possível de todas as ferramentas que nós temos enquanto DJs e produtores, para oferecer um bom espetáculo e um bom gig, algo que seja mais estimulante para as pessoas do que propriamente só aquela troca de discos ou aquele DJ set mais clássico. Obviamente que cada um é como cada qual, mas o meu gosto e a minha técnica levam-me para esse lado.

Qual foi o teu primeiro contacto com a música? O que despertou o sonho de ser DJ?
Eu acho que começou muito cedo mesmo. Lembro-me de ainda andar no ciclo preparatório, se não estou em erro, no sétimo ou oitavo ano. Todas as turmas começaram a fazer uma espécie de convívio na escola, aos sábados, como forma de angariar algum dinheiro para ajudar nas viagens de finalistas. E, logo nesse momento, quando era preciso um DJ, lembro-me perfeitamente que me ofereci de imediato. Não me recordo bem porquê, eu gostava de música mas, se calhar, nessa altura, ainda não pensava concretamente em ser DJ. Mas ofereci-me imediatamente para fazer aquilo e acho que começou um bocadinho por aí.

Lembro-me, mais tarde, quando tinha 15 anos, a minha irmã levou-me com ela para celebrar o seu 26.º aniversário no Alcântara-Mar. Ainda era mesmo o Alcântara-Mar original, o antigo. E na altura era maravilhoso, não era? Tenho bem presente a primeira vez que entrei e aquilo que vi e o que ouvi. Acho que foi a partir desse dia que percebi realmente, tirando os convívios da escola e o pôr música com cassetes e discmans, que queria ser DJ.

Em modo throwback ao início deste percurso, conta-nos: que dificuldades sentiste em freelance?
Foi muito difícil. Fui residente muitos anos, dois anos num espaço e ouros seis anos noutro, entre 2000 e 2008. E depois comecei a sentir a necessidade de realmente ser verdadeiro comigo próprio e de começar a tocar aquilo que eu gostava, aquilo que eu queria e aquilo que me fazia bem. No fundo, aquilo que era a minha identidade. Foi um bocadinho complicado porque, quando és DJ residente, acabas por estar conectado a um espaço e a um estilo de música e, depois, quando dás o salto, nem toda a gente compreende. Lembro-me que, quando dei o salto de residente para freelancer, estive sensivelmente um ano com poucos gigs, até porque na altura o meio em que eu estava inserido (a Margem Sul, isto é, Setúbal e Barreiro), não era propriamente uma zona dedicada à música eletrónica alternativa. Depois as coisas começaram a acontecer de uma forma muito natural. Comecei a ter alguns gigs lá fora, e depois diria que, talvez em 2009 ou 2010, comecei realmente a ter um certo equilíbrio em termos de datas por mês e as coisas começaram a funcionar bem.

Qual é a sensação de chegar a casa depois de um BPM Festival ou um WMC? Como foi sair do Barreiro para pisar palcos de todo o mundo?
Obviamente que é muito gratificante, porque quando comecei nunca esperei isso ou então a minha imaginação não me levou assim tão longe. Portanto, hoje em dia é muito fixe poder viver da música. Aliás, é uma coisa que eu sempre fiz, tive sempre essa felicidade de trabalhar com música e nunca ter um trabalho das 09h às 17h. Sou uma pessoa muito feliz e tive muita sorte nesse aspeto, mas também trabalhei imenso para isso. E é muito bom porque são eventos já com algum impacto a nível mundial, e é bom conseguir estar presente em alguns desses palcos. E isso também acaba por fazer com que tenha vontade de trabalhar mais ainda e tentar chegar a outros palcos [risos].

Como é o dia-a-dia de um DJ? E o de um promotor e label manager?
Gosto muito de organizar eventos. Foi uma coisa que eu comecei a fazer em 2003 ou 2004, acho que foi aí a primeira vez que organizei um evento, numa discoteca onde eu era residente. Na altura foi uma festa do mIRC ou do IRC, como se chamava antigamente, já foi mesmo há muitos anos. E foi algo que me seduziu de certa forma, de modo que assumi durante algum tempo o papel de programador e gerente de comunicação, da animação toda e de alguns DJs convidados que recebemos nessa discoteca. E é muito difícil de conciliar.

A minha primeira paixão é, sem dúvida, tocar. Eu adoro tocar e posso tocar durante cinco, seis, nove ou dez horas. É onde eu sinto realmente maior prazer. Produzir eventos e, ao mesmo tempo, produzir em estúdio, acaba por ser muito difícil. No dia a dia, eu tento sempre, primeiro que tudo, não pôr muita pressão a nível da produção musical, e tento organizar a minha semana ao máximo. Nós temos escritório da Fuse e, de segunda a quinta-feira, vamos para lá. Às sextas-feiras, não todas, mas algumas, acabo por tirar o dia para ficar em casa logo de manhã cedo para ouvir música e preparar os gigs do fim de semana. Depois, quando tenho de produzir algum tema original ou um remix, aí é que as coisas se complicam um bocadinho para dar resposta a tudo. Até porque também tenho uma família e um filho lindo. Agora que tem seis anos, já me dá um bocadinho mais de liberdade – nos primeiros anos da vida dele foi mesmo muito complicado. Estive durante um período, cerca de dois anos, em que não conseguia dar resposta a tudo. Mesmo agora, quando tenho uma música para fazer, remix ou original, seja o que for, são semanas intensas. Às vezes passo duas, três semanas a dormir quatro ou cinco horas por dia porque só me consigo dedicar um bocadinho ao estúdio depois de deitar o meu filho. Nem sempre é muito produtivo, mas pronto, acho que é esta vontade, este drive, digamos assim, que acaba por fazer com que as coisas funcionem e corram bem. Pelo menos é assim que eu vejo.

Fala-nos de um momento marcante no teu percurso. Como é que a música impactou a tua transformação enquanto pessoa?
Vou dizer que foi na altura do nascimento do meu filho, sinceramente. Primeiro, foi ele que me fez ser mais organizado. O meu tempo teve de ser otimizado ao máximo e, sem ele, não seria a mesma coisa. Também a maturidade e a idade, sempre conjugadas com a família e o filhote. A Fuse, um projeto que já vai fazer dez anos no próximo ano, também atingiu alguma maturidade há dois, três anos, e também teve um grande impacto. Portanto, foram estas duas coisas que me trouxeram a este momento, como é que eu vou dizer isto… Acho que neste momento, a música que toco e a forma como toco, assim como aquilo que eu tento transmitir às pessoas, não quer dizer que seja a minha melhor versão, mas é a versão com a qual eu mais me identifico. Ou seja, estou a viver um bom tempo e finalmente acho que me encontrei a nível musical. No que toca à produção, ainda falta um bocadinho, mas acho que estou muito perto.

Mesmo “sem rótulos”, como é o nome dos teus últimos sets, como caracterizas o teu estilo? Que influências reuniste e conservaste ao longo do tempo?
Essa é sempre uma pergunta difícil. Ao contrário de alguns colegas que eu tenho, não acompanho assim nenhum artista em concreto. Acompanho vários e há dois ou três que eu gosto imenso de ouvir tocar, e depois não gosto tanto das músicas. E acontece o contrário também: gosto muito da produção e depois não gosto assim muito do estilo de DJ. Mas, acima de tudo, as minhas influências vêm dos finais dos anos 90 – bebi um bocadinho do que foi aquele início. Embora fosse muito novo na altura, acho que foi isso que ficou, aqueles primeiros discos da Khal e coisas que o meu pai também ouvia muito: Jean Michel Jarre e Queen, por exemplo. E os Queen também já tinham alguns temas com eletrónica e sintetizada.

Mas, essencialmente, quando lhe chamo “música sem rótulos” é exatamente porque, ao invés de procurar ou ter uma influência direta nos dias de hoje, eu procuro muita música e ouço muita música todas as semanas, e acabo sempre por escolher por mim e pelo contexto em que vou estar inserido nas semanas seguintes. E é por procurar muita música por mim que eu digo que é música que não tem um rótulo e não tem também obrigatoriamente só um estilo, não passa por um só género. Acho que, neste momento, toco um bocadinho de tudo. Toco um bocadinho de breaks, de house, de minimal, e toco um bocadinho de nada de techno, que talvez seja a vertente que… não digo que goste menos mas, neste período da minha vida, é aquela com que menos me identifico. Já foi ao contrário: quando comecei e era mais jovem, o techno era a minha perdição.

Em jeito de balanço dos últimos 20 anos, que mensagem deixas para quem está a começar na música?
É uma pergunta engraçada porque, ainda neste fim de semana, no primeiro sunset que fizemos lá no Moinho, conversei com uma rapariga que esteve lá a trabalhar. Não sei que idade é que ela tem, talvez uns vinte e qualquer coisa, e ela veio contar-me exatamente que gostava de começar, e perguntou-me o que devia fazer. E vou responder o que lhe respondi: eu acho que, primeiro que tudo, nunca é tarde para começar. Acho que qualquer pessoa, com qualquer idade, deve começar se gosta. Penso que ser DJ é uma coisa que acaba por vir com naturalidade, quando se gosta mesmo muito de música, seja ela qual for. Mais tarde ou mais cedo, acabamos por ser DJs, seja ligados à rádio ou a um podcast ou a um DJ num clube ou como freelancer. As pessoas que amam realmente a música conseguem. E depois é persistência, muita persistência e muito trabalho, porque não se consegue nada sem trabalho. E hoje em dia ainda mais difícil é, porque tem de haver um fator que te distingue de outros profissionais. É difícil alcançar esse patamar e é uma constante procura e evolução.

No que diz respeito ao balanço, estou satisfeito. Foram 20 anos que passaram muito rápido. Foi engraçada esta situação do streaming, e de ter sido feita na cidade onde morei praticamente a minha vida toda, até aos 30 e poucos anos. Foi giro porque me fez lembrar muitas coisas, fez-me recordar muitas noites, muitos amigos que não via há muito tempo. Fez até uma coisa muito interessante, que foi a grande interação nas redes sociais. Contactei com algumas pessoas com quem eu já não tinha ligação, algumas de quem eu me esqueci ou de quem já não me recordava. Foi muito giro ver o pessoal a dizer “eh pá, lembro-me da primeira vez que te vi aqui ou ali”, “o vídeo está muito fixe”, “parabéns” e “mais 20”. E acho que é um balanço positivo. Acabei por ser feliz sempre, nas opções que tomei, nos projetos em que me envolvi, e com todo o apoio familiar que também tive. Acho que a base da família é muito importante e é o segredo para qualquer trabalho e para seres bem-sucedido. É a família que dá o equilíbrio. Não sei se vou aguentar mais 20 [risos], mas estou muito ansioso para ver o que é que o futuro nos reserva. Principalmente, agora no meio desta pandemia, ainda mais curioso estou. Em todo o caso, agora costumam perguntar-me como é que nós estamos a nível de empresa e como é que eu estou a nível de carreira. Eu digo às pessoas que tiro muitas coisas positivas da pandemia, não a vejo só pelo lado negativo. Agora, é trabalharmos e adaptarmo-nos. E espero que o futuro seja… Bem, se alcançar metade do que alcancei nestes primeiros 20, já é muito bom! E vamos trabalhar para isso.

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