AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

A eXperience de tornar uma fábrica numa autêntica rave

11 Dezembro, 2019 - 12:50

Pela terceira vez, a eXperience desenrolou-se num local incomum, desta feita na antiga fábrica da Ramirez, e contou com nomes como Charlotte de Witte.

Olhando para o trabalho que a eXperience tem desenvolvido, para nós – espetadores, ravers, o que lhe quiserem chamar – parece evidente que o mote da organização é só um: tomar conta de um local inusitado e fazer dele um autêntico salão de festas, um pequeno festival de um dia. No sábado passado, dia 7, isso não foi excepção. Depois do Castelo de Santa Maria da Feira e do Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, a antiga fábrica da Ramirez, em Leça da Palmeira, foi o sítio escolhido para a terceira experiência, que, a par da anterior, aconteceu ao longo de 10 horas, entre as 14h e a meia-noite.

Na realidade, fica a ideia de que a organização teve em conta o aspeto industrial desta fábrica para definir aquele que viria ser o cartaz da sua terceira eXperience – através das redes sociais, referiu sempre que esta seria uma festa dedicada à música techno. Compreende-se, portanto, as escolhas para os eventos no castelo e no terminal, com artistas como Nic Fanciulli e Hot Since 82. Ainda assim, na antiga fábrica da Ramirez não se ouviu apenas batidas aceleradas e à volta dos 130 bpm, havendo também espaço para momentos mais virados para o house, especialmente na “Zone 02”, com a qual nos deparámos ao entrar no recinto.

A fábrica estava servida de, além dos dois palcos e da área “Plus”, uma zona de comida num corredor, uma bancada para descansar ou até de uma parede que Oker esteve responsável por pintar. Com o desenrolar da festa, passar de um palco para o outro provou ser algo difícil dado o número de pessoas presentes, algo que se notou também nas casas-de-banho, com filas que, por vezes, eram insuportáveis. Mas esses aspetos passaram facilmente para segundo plano – afinal de contas, o local, a qualidade do sistema de som e os DJs convidados fizeram desta eXperience um evento bastante interessante.

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Mesmo pelo início da tarde, havia pouca luz natural, o que se refletira ainda mais num autêntico conceito de rave. Por essa altura, o jogo de luzes não se acentuava muito, mas isso viria a mudar com o desenrolar do dia, tornando-se num dos fatores mais positivos da festa. BIIA, Rui Mimoso e Soundprofile foram alguns dos DJs que estiveram responsáveis pelos primeiros sets, e Diana Oliveira assumiu o controlo da “Zone 01” pelas 16h. Diana é uma eclética DJ capaz de misturar o mais variado tipo de sonoridades, mas, neste caso, teve em atenção o tema techno e serviu duas horas altamente coesas e concretas, passando por, entre outros, o remix de Marcel Dettmann de Love, de Luke Slater.

Pela “Zone 02” houve ainda atuações de Anfisa Letyago, Djeff e William Djoko, mas foi difícil sair da pista principal dada a técnica e envolvência proporcionada por Diana Oliveira e Amulador. No caso do residente do portuense Gare, este levou-nos por uma progressão que, nos momentos finais, já não dava muito espaço de manobra. Estávamos completamente envolvidos numa viagem que não dava tempo para pensar, apenas para dançar. O mesmo se passou com Onyvaa, francesa que nos levou por bangers atrás de bangers, incluindo pela famosa Bring de Randomer, um dos momentos altos desta eXperience.

Ainda tivemos tempo para espreitar Stacey Pullen, homem de Detroit que domina o house e o techno como poucos, e que, pelo que ouvimos, não desiludiu nenhum dos presentes. Mas as atenções estavam viradas para Charlotte de Witte, fenómeno belga que fez encher toda a “Zone 01”, tornando muito difícil andar de um lado para o outro. No entanto, mais uma vez, isso não foi problema pois o ambiente era relaxado e, por isso, qualquer sítio onde se parasse era suficiente para ouvir e dançar sem entraves.

Tirar notas num set como o de Charlotte de Witte é difícil, especialmente porque a DJ e produtora não dá muito tempo ao ouvinte para respirar, ela que mistura techno duro e acelerado, por vezes com elementos mais melódicos à mistura. Ainda assim, e mesmo havendo drops atrás de drops, os momentos de pausa serviram para ouvirmos a quantidade de gente que recorria às cordas vocais para demonstrar o seu agrado, o seu prazer em ouvir aquele set.

Pelo final, e depois de De Witte aumentar as batidas por minuto da última faixa em jeito de despedida, os aplausos e gritos foram ensurdecedores, ficando a ideia de que estes eram também dirigidos à organização, que proporcionou uma autêntica rave num tipo de local que, além de convidativo, não tem sido hábito no país. Afinal, o que mais se espera de uma rave além de uma boa dose de música, dança, suor e loucura?

Fotografia por André Teixeira

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