AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

Neopop, mais do que um porto de abrigo em Viana do Castelo

17 Agosto, 2019 - 14:30

Durante os quatro dias de Neopop, quem andou à chuva não se molhou. Bem pelo contrário.

A chuva ameaçou a 14ª edição de Neopop, que aconteceu no fim de semana passado, mas a organização soube defender-se – e de que maneira. Com o mote Keeping Techno Safe, o festival vianense levou o lema – e as previsões meteorológicas – à letra, instalando duas grandes coberturas nos palcos para nos proteger da chuva. Nesta romaria anual, as preocupações com a segurança começaram logo à entrada, onde a polícia revistava de cima a baixo e onde a organização oferecia impermeáveis.

Inevitavelmente, as atenções do primeiro dia de festival estiveram viradas para o concerto de Underworld – e nenhuma chuva iria contrariar a vontade de testemunhar este regresso do duo galês a Portugal. Depois de Rui Vargas, veterano que provou o quanto merece ser o responsável por momentos como este, Karl Hyde e Rick Smith – por vezes acompanhados por um terceiro membro – abriram as portas do submundo com a recente Listen To Their No, cujo riff envolveu o público num ambiente único, deixando, desde logo, a certeza de que iríamos sair apaixonados daquele espetáculo – na realidade, já estávamos. Daí, os Underworld levaram-nos até Two Months Off, do álbum A Hundred Days Off, e a King Of Snake e Kittens, estas duas de Beaucoup Fish, momentos completamente energéticos e cativantes.

Era normal ficar pasmado; diante nós estavam dois sexagenários com energia suficiente para nos acompanhar durante toda a noite. Enquanto Rick Smith compunha a música na maquinaria analógica, Karl Hyde gesticulava como um autêntico rockstar ao microfone, faltando-lhe apenas o pormenor de deslizar de joelhos. A visão tinha um papel, mas a audição mantinha-se como o sentido prioritário do espetáculo, especialmente dada a vontade de absorver synths e batidas de Dark & Long (Dark Train) e da sequência de Rez e Cowgirl. O techno da recém-lançada Border Country, produzida com Ø [Phase] para o álbum Drift Songs, tomou de assalto o público, obrigando-o a dançar com mais veemência do que até então – para os mais tímidos, bastava seguir os passos da sedutora dança do vocalista, que chegou mesmo a perguntar se alguém gostaria de dançar com ele. Underworld foram excecionais, mas não iriam embora antes de arrepiar tudo e todos com Born Slippy .NUXX, um indescritível remate para este concerto, um dos momentos altos de todo o festival. “Obrigado”, disse Hyde várias vezes, mas éramos nós, público, quem estava realmente grato por aquela viagem de cerca de uma hora. Já agora, deixamos aqui uma pergunta: depois de Kraftwerk, St. Germain e Underworld, o que podemos esperar no próximo ano? Talvez Orbital?

Ainda na primeira noite, a festa prosseguiu com John Digweed no Neo Stage, mas, para nós, continuou do outro lado. Frank Maurel e Freshkitos serviram techno sério e com poder, abrindo caminho para uma das nossas sugestões para o Anti Stage, o live act dos 2Jack4U. Tratou-se, de facto, da estreia da dupla no Neopop, mas, mais do que isso, tratou-se da estreia do casal português num palco de grandes dimensões. Com máquinas como TB-303, TR-909 ou um MPC munido de samples, André e Rubina levaram o público à loucura com linhas de baixo acid, furiosos ritmos techno ou até com pormenores menos relacionados com música, como foi caso de um contagiante headbanging, mímica reveladora do êxtase que se viveu em Viana do Castelo. Ali, ficou mais do que provado que os 2Jack4U são capazes – bastante capazes, diga-se – de virar do avesso os ouvintes que dificilmente foram dormir sem parar de pensar nesta brilhante atuação.

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O Neopop não é feito apenas de momentos felizes. Na quinta-feira, por exemplo, perder o regresso de Sensible Soccers ao festival vianense, baseado no recente álbum Aurora, trouxe um sentimento de tristeza. Ainda assim, chegar ao recinto e ouvir os breaks de Interstellar Funk ou o downtempo de Acid Pauli é suficiente para elevar os ânimos. Mais ainda, quando chegou a vez de Nicolas Lutz no Neo Stage, fomos supreendidos pelo Neopop Soundsystem, ou Frank Maurel, Gusta-vo, Magazino, Rui Vargas e Tiago Fragateiro a tomar conta da cabine, eles que colmataram o atraso do dj uruguaio da melhor maneira. Já neste segundo dia, a indumentária dos presentes era essencialmente composta por merchandising com a frase Keeping Techno Safe, o que nos persuadia a depositar ainda mais fé nesse lema.

No Anti Stage, Ivan Smagghe sucedeu Interstellar Funk com uma notável mistura e seleção, tocando faixas como Superior Things de CYRK, música que ainda hoje nos está na cabeça. Como seria de algum modo expectável, pela 1h a pista estava praticamente vazia; afinal, o fenómeno Amelie Lens estava a começar o seu set no Neo Stage, onde estivemos cerca de uma hora para a ouvir. Banger atrás de banger e a rondar as 130 batidas por minuto, a belga puxou constantemente pelo público, que não cessava em demonstrar afeto pela dj e produtora através de gritos ou palmas – o mesmo se viria a passar em Richie Hawtin, que, dentro do que ouvimos, assinou um set exemplar. Apesar da intensidade, não quisemos perder Amato & Adriani (live), dupla formada por The Hacker e Alessandro Adriani, nomes que nos levaram numa apoteótica viagem de sonoridades electro, techno e pós-punk.

Com um notável cartaz dividido entre dois palcos, por vezes é difícil tomar decisões. Também por isso, perdemos o back-to-back entre Solar e Lokier e grande parte de Maceo Plex, mas, pelo menos, sabemos que o b2b entre o americano e a mexicana foi “excelente” e “louco” – isto, claro, nas palavras de pessoas que estiveram por lá. Pelo caminho, Wata Igarashi deixou-nos boquiabertos com o seu live act de techno acelerado e mental, enquanto DVS1 encerrou o Anti Stage repleto de perícia. No entanto, ouvimos pouco de DVS1 pois KiNK estava do outro lado. Cheio de energia e com material como uma TR-8 ou até um gira-discos, por exemplo, o búlgaro levou samples de Hey Boy Hey Girl dos The Chemical Brothers, tocou acordes de Good Life dos Inner City e, acima de tudo, controlou o público por completo, certificando-se de que a multidão não arredava pé. Em poucas palavras, foi um final de quinta-feira deslumbrante.

É certo que depois da tempestade vem a bonança – apesar de que a bonança já havia começado na quarta-feira. Ao terceiro dia, a chuva foi praticamente nula e, a partir das 18h, a festa começou com nomes como o russo Boym e os portugueses Analodjica, Serginho b2b Zé Salvador ou Berllioz (live) a aquecer as pistas. Para nós, começou no Teatro Sá de Miranda, onde a Red Bull Music preparou uma programação para sexta-feira e sábado – SURTO, que foi a única atuação a que assistimos, Nanotak, Plaid & Felix’s Machines e Aïsha Devi com Emile Barret. Através de sintetizadores, drum machines ou instrumentos de teclas, Switchdance e o veterano Carlos Maria Trindade compuseram a música da estreia de SURTO, projeto mais direcionado para paisagens drone e synth wave que conta com João Botelho no vídeo e Marta Viana na dança. Desde a dupla-exposição de Botelho ao gatinhar de Viana, o espetáculo provou ser altamente imersivo, um momento que queremos voltar a assistir para poder interpretar com mais calma.

Mais à noite, pelo Neo Stage, Pan-Pot, Paco Osuna e Chris Liebing assumiram o comando entre a meia-noite e as 5h, enquanto o Anti Stage recebia algumas estreias – imperdíveis estreias, aliás. Entre as 23h30 e a 1h, o russo Mashkov antecedeu Colin Benders, holandês que foi, obrigatoriamente, um dos grandes destaques de todo o festival. Com um sintetizador modular a assumir o papel principal deste live act de uma hora, Benders guiou-nos numa constante e coesa modulação de sons aliada a ritmos techno excitantes e velozes. Explorando módulos de distorção ou de reverb, o holandês transformou-nos em autênticas ondas, forçando-nos a fechar os olhos e a mergulhar nas frequências daquele maestro. Na verdade, instalou em nós um sentimento de ataraxia durante VIL, Matrixxman e o início de Ruuar, nomes com que nos embrenhámos num mundo techno bem exemplar, típico de uma rave num clube – uma atmosfera e sentimento impulsionados pelo íntimo Anti Stage.

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No “palco principal”, como muitos lhe chamam, nome um quanto injusto tendo em conta a programação do Anti Stage, Rebekah serviu um assombroso live act – pelo menos durante os cerca de 30 minutos que ouvimos. Além de perscrutar synths e ritmos frenéticos, a britânica progrediu para lá das 140 batidas por minuto, transformando o Neo Stage num verdadeiro campo de batalha. Dax J, com três decks e uma turntable, manteve os bpms em altas, trazendo um lado mais industrial. Já Ben Klock, como habitual, soube agarrar o público durante o fecho, passando faixas como Raw Trax 7 de Surgeon e Cyber Document de Stef Mendesidis, ao mesmo tempo que Héctor Oaks, em estreia no nosso país, misturava músicas irreverentes, como Shake What Your Momma Gave Ya de DJ Deeon, ao lado de techno duro e acelerado para agrado dos presentes no Anti Stage, onde, nessa noite, Dasha Rush levou uma elogiada atuação ao vivo.

E se a organização nos havia presenteado com Josh Wink numa festa surpresa em 2018, este ano, na tarde de sábado, surpreendeu-nos com Zadig e o Neopop Soundsystem na Praça da Liberdade, bem no centro de Viana do Castelo. No entanto, o cansaço começava a apoderar-se de nós e, por isso, quem nos fez despertar no último dia de festival foi a atuação ao vivo da dupla alemã Hardfloor. Com mais do que uma TB-303, o experiente duo foi, como esperado, um notável aquecimento para a noite de sábado, algo exponenciado pelo fantástico live da dupla portuguesa Roundhouse Kick, que subiu ao Anti Stage pela 1h30.

Quando voltámos ao Neo Stage, Nastia e Daria Kolosova davam lugar a Jeff Mills com Open Your Mind de Ralphie Dee. O feiticeiro de Detroit foi altamente espacial, com a habitual mestria na arte do djing a levar-nos numa progressão que passou por Phuture de The Nighttripper, Raider de Museum ou Minor Ascent de Inigo Kennedy & Sigha. Com a TR-909, máquina com que improvisou para nós, a apoiá-lo nas transições, Mills foi único, especialmente em The Bells, numa interpretação que só o veterano é capaz de fazer.

Infelizmente, Surgeon coincidiu com Jeff Mills, sendo que ouvimos apenas meia hora do live act do britânico – e, claro, não desiludiu. Lewis Fautzi, que conhece o Neopop como a palma da sua mão, foi o nosso furioso dj durante duas horas, ele que abriu espaço para o compatriota The Advent, que, em formato live, revelou ser outro grande destaque do festival. Pelo final do seu 90’s set, Cisco Ferreira usou um sample de Crispy Bacon por entre ritmos rápidos de 140 bpm, antevendo assim o grand finale de Laurent Garnier no Neo Stage.

Pelo Anti Stage, e depois de abrirem o palco pelas 22h, DJ Deep e Zadig, em formato back-to-back, estiveram encarregues de fechar a festa durante 3h, mas era impossível perder Laurent Garnier. Através de Jon Hopkins, Floating Points, Domino de Oxia, Rej de Âme ou até 44th Romance do português Alfonsvs, Garnier provou ser aquilo que se espera de um dj: alguém apto para agarrar os ouvintes com, além de técnica, uma exemplar seleção. E, neste caso, alguém apto para um encerramento que foi além da hora marcada, 12h, tocando até perto das 14h com toda a sua envolvência.

Durante quatro longas noites, o Neopop foi mais do que um porto de abrigo para a chuva. Foi um ponto de abrigo para amantes de música techno, um refúgio de amor e união. O ambiente criado pelas coberturas e pelos visuais da Dublab, as estruturas de luz, a torre aberta com vista para os dois palcos ou os sítios para sentar criaram um ambiente acolhedor, do qual não queríamos sair nem por nada. Nos últimos dias, muitos têm vindo a afirmar que esta foi a melhor edição de sempre. É bem possível estarem certos.


Fotografia por André Teixeira

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