AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

NEOPOP: uma lição (e edição) para a história

20 Agosto, 2018

A 13ª edição do festival NEOPOP, a primeira como “capital do techno”, foi uma prova viva da qualidade daquilo que é feito em Portugal.

Tudo começou com a grande novidade deste ano: um primeiro dia (extra) gratuito. Mas ao entrar no recinto do NEOPOP, a cada passo notava-se algo novo. Perto da entrada, o Anti Stage estava servido de um grande toldo, que não só viria a cobrir o sol dos dias (e especialmente manhãs) seguintes, mas também a chuva que se sentira na quarta-feira. Dando mais alguns passos em direção ao Neo Stage, uma escadaria dava acesso a uma torre com vista para os dois palcos, além de sítio para sentar e estar. No entanto, foi já no palco principal que os olhos realmente arregalaram: este cresceu (para os lados), dando azo a um lado visual muito mais imponente.

Às 16h, Nuno Carneiro deu início à partida no Anti Stage, duas horas antes de Mr. Herbert Quain levar o seu live até o palco principal. A chuva ameaçou o primeiro dia, mas o arco-íris que se viu em Viana do Castelo parecia ditar um dia e noite quentes. Pelo Neo Stage, o veterano Rui Vargas foi o responsável por dar lugar a St. Germain – e como ele sabe anteceder ou suceder alguém! – enquanto que, pelo Anti, os portugueses continuavam a mostrar não ter medo de palcos ou daquilo que estão ali a fazer: Diana Oliveira, Freshkitos, Magazino, Tiago Fragateiro e Frank Maurel, todos eles mestres nacionais.

Perto das 22h30, hora em que a chuva parecia parar de vez, St Germain subiu a palco para um concerto fabuloso. Com inúmeros instrumentos (bateria, guitarra e outros menos usuais) e cinco músicos a acompanhar, a banda de Ludovic Navarre passou por temas como Rose Rouge, Sittin’ Here, So Flute, Real Blues e pouco mais. Navarre, ao centro, controlava a mesa de mistura e não só, mas os olhos focavam-se nos músicos de países como Brasil ou Mali, que improvisavam, à jazz, por entre o excelente reportório que marcou os corações – e ditou o arranque da 13ª edição de NEOPOP. Não menos arrebatador, mas com as suas claras diferenças, Ivan Smagghe deu por concluída a primeira noite com um set de três horas.

St Germain deram um concerto fabuloso na noite de abertura

Na quinta-feira, os lisboetas Switchdance e Terzi abriram o Neo e o Anti Stage às 16h30 e 16h, respetivamente. Trikk seguiu-se no palco principal, e o secundário recebeu outros dois mestres portugueses até às 23h: Tiago e Dexter. Esperado por muitos, e motivo para ir jantar de outros, Solomun entrou às 20h, trazendo o tipo de sonoridade que já se esperava do homem da Diynamic. Os presentes dançavam incessantemente, algo que não abrandou quando o trio Apollonia, com uma bagagem cheia de discos, atuou durante três horas.

A edição deste ano de NEOPOP esteve repleta de live acts. Às 23h, no Anti Stage, a enorme atuação da dupla Dopplereffekt de Gerald Donald, dos míticos Drexciya, não foi um momento para dançar ao ritmo de batidas, mas sim para flutuar ao som de ondas elétricas – Donald expressava-as com as mãos de forma tão peculiar quanto pediu para afastar as colunas atrás dele. Ainda no palco secundário, o finlandês Aleksi Perälä firmou, ao contrário de Dopplereffekt, muitas das pessoas, mas continuava a não ser (pelo menos para a maioria) de tão fácil compreensão quanto Adriatique, que, por essa hora, atuavam no palco principal.

Antes da dupla helvética, Recondite, em formato live, cumpria missão no Neo Stage, palco que contou também com um live do trio italiano Agents of Time – ambos foram bem recebidos pelo público. Tijana T também esteve por Viana do Castelo, no Anti Stage, a provar, além do espectro que atinge, a sua qualidade nos decks – destaque para Take Your Time de Slam e Green Velvet. Ainda no palco secundário, por esta ordem, Solar b2b Intergalactic Gary, Mozghan, e o incrível e hipnótico DJ Nobu (que andou a ouvir os outros artistas pelo recinto) mostraram que não é preciso estar pelo palco principal para o corpo vibrar.

Mas sim, sair do Neo Stage era difícil. Primeiro, Nastia entrou às 5h para conduzir uma autêntica viagem que começou com sonoridades acid. A ucraniana, com duas turntables e três CDJs, acabou com uma faixa electro de DJ Stingray que ainda não estreou, mas o seu set foi altamente techno, preciso e empolgante. Precisão é também um adjetivo que pode descrever Ben Klock, mestre em fechar noites – fê-lo a partir das 7h. O alemão tem ampla noção das horas e dos corações que dançam. Seja através de um segundo ou dez de filtro, ou outros knobs, a mestria de Klock ouve-se dos graves às melodias – por exemplo, a melodia de Vault 5 de Mark Broom assentou como uma luva à luz do sol – e quem o disse foram os pés e as mãos que não cessaram até às 10h.

Ben Klock foi enorme como de costume, apesar de muitos considerarem estar aquém das expetativas

O terceiro dia de NEOPOP ficou marcado pelos esforços da organização em “obrigar-nos” a ouvir (boa) música. Se já não se parava pela cidade vianense com música pelo campismo (curadoria da Alínea A) ou com os afters no Irish & Co., imagine-se com dois espetáculos (nos dois últimos dias) no Teatro Sá de Miranda. Primeiro, na sexta-feira, depois de GPU Panic abrir a noite, o britânico Clark apresentou a loucura do álbum Death Peak; depois, no sábado, Surma foi a responsável por dar lugar ao concerto de James Holden acompanhado pelos The Animal Spirits.

Ainda assim, as atenções estavam viradas para o Forte de Santiago da Barra. A começar tudo, Cardia e Gusta-vo no Neo Stage, e Sepypes e Ruuar no Anti. Seguiu-se o back-to-back entre Paula Temple e Rebekah no palco principal – um set hybrid, segundo consta – que, apesar do horário arriscado (23h), fez tudo e todos abanar, especialmente com faixas como Gegen da alemã. Assim, a missão de Joseph Capriati tornara-se complicada, mas o italiano manteve os graves em altas para apreço dos fãs.

No Anti Stage, depois de Anna Haleta, que, apesar da seleção interessante, não cativou muito com a mistura, chegou Conforce e o seu live. O holandês, acompanhado por maquinaria e portátil (possivelmente com Ableton), foi, numa só palavra, excelente. No entanto, à mesma hora, tocava o pioneiro Jeff Mills, sempre acompanhado pela “sua” TR909. É um dos favoritos do público, e é certo que prova o porquê com os seus sets. Já agora, alguma vez alguém ouviu uma atuação do homem de Detroit sem The Bells? Também não foi desta.

Outro dj da cidade automóvel esteve pelo Anti Stage, Carlos Souffront, que antecedeu o grande live de Vrislki (ou Vril e Voiski). Apesar da qualidade destes dois atos, a verdade é que Len Faki estava pelo palco principal, absorvendo grande parte dos presentes. E não era para menos. Altamente contagiante, o set de Faki foi uma autêntica rave que fez todos dançar sem parar, mesmo aqueles que queriam descansar durante alguns minutos. Afinal, com as vozes de Good Life de Inner City (a versão de Carl Craig), por exemplo, aliadas a fortes batidas, era literalmente impossível não celebrar com todos os que estavam à nossa volta.

Um abraço carinhoso entre Len Faki e Ricardo Villalobos mostrou que o primeiro estava prestes a acabar a sua estreia no NEOPOP. Estreia também foi a de Villalobos, que, perto do início do seu set, escolheu Riders on the Storm dos The Doors para ditar um pouco daquilo que se viria a passar – ao sol, no entanto. Padrões podem descrever o homem de 48 anos, mas a verdade é que não é, de facto, isso que surpreende. O que surpreende é um dj dessa idade, cheio de sedução, a limpar vinis “ao chuto”, com pouca preocupação em seguir normas de mistura, a gesticular tão ou pior do que os mais ébrios da plateia. Para muitos, levantou questões; para outros, bastou fechar os olhos. O exemplo perfeito para o fecho de Ricardo Villalobos no penúltimo dia de NEOPOP foi, às 9h, Grândola, Vila Morena de Zeca Afonso: ora se levantavam as mãos em sinal de apreço; ora se levavam as mãos à cabeça em sinal de desespero. Mas, para os últimos, havia solução: a terceira presença consecutiva de Zadig, que, desta vez, estava acompanhado pelo compatriota Marcelus.

KiNK foi, inevitavelmente, um dos grandes destaques do festival

No sábado, o último dia de festival, houve ainda mais uma surpresa para os festivaleiros. A partir das 17h, na Praia do Norte, a organização levou Josh Wink, que também atuou nessa noite, para um evento surpresa intitulado Neo Pop Up. Cinco horas depois, às 22h, o recinto abriu com o veterano Nuno di Rosso. Às 23h30, os também veteranos Serginho e Zé Salvador atuaram em back-to-back, um momento que revelou aquilo que de melhor se faz em Portugal – um com uma escola mais portuense; outro mais lisboeta.

Mais jovem, João Carvalho abriu o Anti Stage, dando lugar a outro live em Viana do Castelo: o de Dorisburg. Os “nossos” portuenses DJ Lynce e Solution atuaram em back-to-back depois do sueco, abrindo espaço para mais um live. 400PPM chegou até à cabine com a sua Eurorack, peça onde grande parte do seu gigantesco set se centrou. O americano até escondeu as suas influências mais gabber e industriais durante a maioria do espetáculo, mas não o conseguiu fazer para sempre: no final, os que permaneciam no palco secundário foram vítimas de uma sonoridade altamente intensa que, ainda assim, manteve-os numa luta contra o som.

Pelo Neo Stage, Voiski, que tinha atuado no Anti Stage ao lado de Vril no dia anterior, abriu caminho para Nina Kraviz. A favorita dos fãs, mais uma vez, mostrou que não está virada para conceções pré-estabelecidas. O gosto pelos graves da russa acabou por danificar um pouco os ouvidos (fica a ideia de que, em certos atos, o som deveria ter sido mais ajustado), mas a veemência de Kraviz é algo que dificilmente não atrai – acabou com drum’n’bass acelerado, ou mais hardcore se preferirem este rótulo.

Paul Ritch (em formato live) e Josh Wink deram seguimento à festa no palco principal, e ambos sabem perfeitamente qual é o seu objetivo: fazer dançar e, acima de tudo, viajar. No final do set de Wink surgiu a conhecida voz de Are You There, dando ideia de que se preparava para nos dar essa música. O coração saltou um batimento quando simplesmente terminou com a pergunta, sem a faixa: are you there?

E sim, estávamos quase todos ali. Outros estavam pelo Anti Stage a ouvir o estrondoso set de Lewis Fautzi, claro, ou o intenso live dos FJAAK, que tocaram, entre outras, The Tube ou Drugs – esta última ainda não foi editada. Foi às 7h30 que KiNK chegou ao Neo Stage. Tudo começou com o músico à frente do palco, perto do público, com um controlador nas mãos, marcando o passo da festa. Cheio de maquinaria, não há estilo que defina o búlgaro. Sonoridades acid ou trance progressivo, a verdade é que foram as batidas, as melodias, ou até os samples de voz como “Push the Tempo” da famosa música Ya Mama de Fatboy Slim, que fizeram com que ninguém saísse dali. Para muitos dos presentes não há dúvidas: KiNK foi um dos melhores momentos do NEOPOP.

Meia hora antes do búlgaro, o experiente Freddy K levou uma mala cheia de vinis até o Anti Stage. Apenas com duas turntables, o italiano começou o violento set à volta das 130 batidas por minuto, que, no final, já rondava as 140. Para ouvidos que procuravam algo mais calmo, Marco Carola voltou a estar responsável pelo fecho do palco principal do festival, à imagem de 2013. Tenha cumprido ou não, o italiano levou muita gente até o Neo Stage, mas o destaque vai para o regresso de Dax J a Viana do Castelo. Cheio de fúria e armado com quatro decks, o londrino (outrora aficionado pelo drum’n’bass) foi bem além da hora marcada (12h) para deleite dos que incansavelmente dançavam, saltavam e gritavam no Anti Stage.

É inevitável: o NEOPOP é, atualmente, o maior (e melhor) festival de música eletrónica em Portugal. Com uma produção eficaz e de qualidade, poucos foram os segundos em que não havia música. A aposta nos djs portugueses deve continuar, obviamente, até porque ouvimos americanos a elogiar a Sininho (atuou num dos afters), espanhóis a falar bem do Gusta-vo, ou até franceses a vangloriar Lewis Fautzi. E claro, nós também gostamos (e muito) daquilo que fazemos. Prova disso foi Rui Vargas com A Clockwork Orange de João Azevedo (a sair na Blossom Kollektiv), Frank Maurel com Solid Buzz de Industrialyzer ou, entre outros, Fautzi com Stimulated Responses da dupla Simbiose. O panorama português (e o NEOPOP) está com uma saúde digna de um desses países altamente desenvolvidos. E recomenda-se vivamente.


Errata: a reportagem original referia o sistema de som da Lambda Labs como o do palco principal, mas apenas o Anti Stage esteve servido por este.

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