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Reportagem

Nova Batida: Suámos mais do que dançámos

17 Setembro, 2019 - 13:40

Vamos começar por aquilo que se tornou evidente. O Nova Batida é um festival que precisa de mais organização, dedicação por parte dos produtores e, acima de tudo, consideração para com artistas e público.

Apesar de ter um dos cartazes mais interessantes deste ano e do cenário pitoresco do LX Factory e do Village Underground, falhou muita coisa para que se possa dizer que a segunda edição do Nova Batida correu bem. Entre cancelamentos de artistas em cima da hora e nenhuma explicação por parte da organização, a difícil logística entre espaços, a pouca preocupação com a segurança (ninguém era revistado como deve ser mas garrafas de água com tampa não podiam entrar nos recintos), os bares sobrelotados devido à falta de experiência e rapidez de quem esteve atrás dos balcões, passando pela mediana qualidade de som em alguns concertos, as razões foram muitas.

Mas o maior problema centrou-se no calor insuportável que se fez sentir na sala principal do LX Factory. Estamos a falar de uma sala que recebe grandes eventos, como o Lisboa Electronica, ou seja, habituada a ter bastantes pessoas no seu interior. Como é que se explica as temperaturas que sentimos? Imaginem que estavam no Qatar, fechados numa sala com mais 2500 pessoas, sem ventoinhas. O calor foi o maior inimigo do festival. Às 18h, já era complicado respirar. Cinco horas depois, as pessoas suavam incessantemente, os empregados de balcão tentavam respirar colocando a cabeça para cima, algumas pessoas saíam dos concertos com falta de ar. Impraticável para todos.

Era aceitável que a situação pudesse acontecer no primeiro dia, face ao inesperado. Nos restantes dois, já parece falta de consideração e de investimento para comprar umas ventoinhas.

Isto sem contar com a falta de comunicação de quem produziu o evento, preferindo não nos dar explicações quando questionámos e pior, apagar comentários negativos das redes sociais, preferindo responder seletivamente. Não foi uma boa ideia.

Feita esta nota, falemos dos concertos. No primeiro dia, assistimos a Ross From Friends, liderados por Felix Clary Weatherall, que conta com o auxílio de John Dunk e Jed nas atuações ao vivo. Misturam o house e eletrónica com instrumentos reais para uma vibe perfeita para club ou até mesmo um Boiler Room. O som não esteve suficientemente bom para dar a energia que se esperava mas destacou-se Bootman, uma faixa perfeita para todos aqueles que querem dançar sem preconceitos.

Já Floating Points começou com atraso mas acabou com estrondo. Num formato live a atuação teve dois momentos, um lado mais experimentalista e etéreo e outro a deambular pelos limites do techno, house e drum and bass. A musicalidade produzida em palco por Sam Shepherd é repleta de camadas musicais e texturas sonoras que se misturam através das máquinas que usa em palco. A simbiose entre a música e as imagens que passavam no ecrã gigante, pulsando ao ritmo de cada vibração sonora, deram fulgor à atuação, tornando-a numa das mais interessantes do dia.

De seguida, bastou-nos dez minutos de DJ Seinfeld para percebermos que estávamos a ser transportados para Ibiza em 2007. Decidimos não participar no momento e fomos tentar encontrar um local tranquilo para jantar e esperar por Jon Hopkins.

Visto como um nome de referência da produção eletrónica atual, apostou num set mais dark, entre o minimalismo e o techno abrasivo, deixando de lado as suas faixas mais conhecidas como Luminous Beeings, que esperávamos ouvir ao vivo. A intensidade do set foi tal que por momentos pensámos estar no Ministerium ou no piso de baixo de Lux, a uma hora bem tardia. Fez falta “um nível abaixo” de modo a que as músicas pudessem ganhar um pouco mais de alma e menos músculo.

Com a sala a vibrar – e a suar demasiado – John Talabot foi o primeiro a sofrer com o calor que se sentia. Em palco, isto é. Assim que se fez a transição de DJs, grande parte do público escolheu respirar em vez de ouvir os breakbeats do catalão, de seu nome Oriol Riverola.

O segundo dia começou aos comandos de TSHA, produtora e DJ sediada de Londres, que trouxe a sua própria fórmula house para o Village Underground. Inspirada por sonoridades como Bonobo, Four Tet ou Kiasmos, aproveitou as cores do céu lisboeta para nos dar um bom final de tarde.

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Saímos a correr para a sala grande do LX Factory para vermos Jordan Rakei, uma das grandes promessas da atual cena musical. Com o mais recente álbum Origins na bagagem, o músico neozelandês deu um concerto que valeu cada minuto, cada palavra cantada, cada acorde de piano. De alma e coração na soul, funk e eletrónica, Rakei é uma pérola que merecia melhor horário. Com a voz no centro da atuação, o talento de Rakei ficou evidente em cada falsetto a que se lançou. Músicas como Mind’s Eye ou Sorceress são cartões de visita que demonstram toda a qualidade. Isto sem esquecer Wallflower. E Tawo. E Hiding Place. Há que ser honesto, somos fãs incondicionais de Jordan Rakei e vocês também deviam ser. Através dele vão encontrar Loyle Carner, Tom Misch e Cleo Sol. Confiem em nós.

Mudança de estilos e ouvem-se palmas para o ícone Talib Kweli. Durante 60 minutos, tivemos direito a uma lição de história do hip-hop. Esqueçamos as sonoridades trap e muitos dos versos sobre dinheiro e “hoes”, que hoje em dia fazem tanto sucesso. Pela voz de Kweli, voltámos atrás no tempo, às raízes da cultura do Bronx em que cada palavra era debitada com a energia de mil punhos no ar, em busca de uma revolução cultural e social. Essa foi a mensagem que o rapper quis passar, tendo contado com as músicas de Mos Def, J. Dilla, Wu-Tang Clan, Blackstar ou A Tribe Called Quest. Este é o hip-hop que mergulha nas questões raciais e sociais de uma sociedade cada vez mais caótica. Talvez tenha sido por isso que Talib Kweli e DJ Spinselect tenham escolhido a voz de Nina Simone para encerrar um grande concerto.

Ainda demos um pulo ao Village para ver Dan Shake, mas rapidamente percebemos que o acid house que o caracteriza nos álbuns tinha sido substituído pelo disco rave londrino, semelhante a qualquer outro registo que já tínhamos ouvido. Como se não fosse suficiente, Kettama elevou a sensação inicial de “podia ouvir isto na Orbital” para o dobro.

Com o cancelamento inesperado de Friendly Fires, levámos o primeiro balde de água fria (musicalmente falando) já que esperávamos ver de novo a banda inglesa em terrenos lusos, especialmente depois de terem lançado este ano Inflorescent.

Azar de um lado, sorte do outro. O cancelamento de Friendly Fires deu mais tempo a Josh Lloyd-Watson, um dos elementos centrais de Jungle. Durante 120 minutos, ouvimos sonoridades que seguem a linha da banda britânica: eletrónica, soul, funk e disco sempre com uma energia fulgurante que pôs a sala inteira a mexer.

Passando para outro registo, sentimos a energia densa do techno industrial de Daniel Avery, dono de uma das nossas faixas favoritas de 2013 intitulada Drone Logic. A sala escorria com suor dos presentes, ao ponto de se tornar impossível de continuar lá dentro. A escolha foi simples, ir embora e guardar energias para o terceiro dia do Nova Batida.

O último dia começou mais calmo que os anteriores ao som de Sassy J e Hunee que nos deram dois dos melhores DJs sets do festival com tropical, jungle e african sounds misturados com house britânico. O Village encheu-se de pessoas ao ponto de os bares ficarem completamente sobrelotados, em mais um exemplo da desorganização que se fez sentir ao longo dos três dias.

O cancelamento do rapper Octavian por problemas de saúde fez com que o tempo passasse mais devagar, deixando vir ao de cima o cansaço normal de quem já ia no terceiro dia do festival. Quando chegámos a Ben UFO, percebemos logo que o público estava a guardar energias para o que viria a seguir. As texturas eletrónicas de drum’n’bass e dubstep não foram suficientes para cativar as energias que restavam para dançar.

Essas foram guardadas para a melhor atuação do Nova Batida, que ficou a cargo de Four Tet. O músico inglês é uma força sonora a ter em conta quando falamos da música eletrónica contemporânea. O set que trouxe a Lisboa foi semelhante ao que levou à edição deste ano de Coachella e dizem, os que tiveram presentes, ao festival Waking Life, que decorreu em agosto.

Criador de algumas das batidas dançantes mais inovadores e cativantes da última década, Kieran Hebden é um mestre atrás das mesas de mistura, inigualável quando se fala de música eletrónica com dimensão humana e emotiva, que nos coloca a viajar pela pista de dança. É impossível não sentirmos os nossos estímulos elevados ao pico quando ouvimos Lush e Planet. Com o lançamento recente do EP Anna Painting, Four Tet tem deixado um rasto musical talentoso, favorecendo as emoções que nos provoca. O final apoteótico com a sua remistura de Opal, música original de Bicep, vai deixar-nos memórias para os próximos anos. Uma multidão suada e cansada, que deixou tudo na pista de dança.

Este foi o momento áureo de um festival que na sua segunda edição provou que precisa de fazer mais. Até lá, está preso à imagem de um evento que deu apenas o suficiente aos presentes.

Fotografias por Rúben José

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