AUTOR

Rui Castro

CATEGORIA
Podcast

N’A CABINE #025: PIX.L

4 Abril, 2020 - 16:20

Em plena quarentena, PIX.L aproveita a onda revivalista da sociedade para preparar um podcast especial, dedicado às raízes sonoras do drum’n’bass.

O desejo que o experiente DJ portuense, e mentor por trás do coletivo Counterpoint, tinha em explorar estas sonoridades, remotas nas pistas nacionais, não é novo. Gostamos da mentalidade ousada e da ideia de dar a conhecer um lado do drum’n’bass que tem passado despercebido à maioria do público e artistas nacionais – por isso, decidimos dar uma cabine alternativa.

Explica-nos quem é o artista PIX.L. Como começaste, e como tem sido o teu percurso e desenvolvimento até aos dias de hoje?
PIX.L é o nome através do qual, desde 2008, tenho feito o meu percurso na música eletrónica, mais especificamente, no drum & bass. Tive o primeiro contacto com o drum & bass através do meu irmão Bernardo, que foi DJ ativo do género (Wrap) sensivelmente entre 2002 e 2006. Foi com ele que apanhei o “bichinho” pela mistura, experimentando misturar o que ouvia na altura, essencialmente com recurso à primeira edição do Traktor. Daí, a progressão foi feita sempre a par com um dos meus melhores amigos – DJ Setup (Tonico) – e a evolução para os pratos acabou por ser natural, porque tive a sorte de herdar uma excelente coleção de discos.

Ainda assim tentei combater até à última começar a misturar, porque sabia que ia consumir completamente a minha vida. Quando em 2007 entrei na universidade em Aveiro, fui morar com dois amigos, e cada um tinha um par de pratos… Aí percebi que não havia muito a fazer a não ser abraçar a música. Acabei por fazê-lo na altura certa, porque estar em Aveiro permitiu-me ter e criar oportunidades, que nessa altura não eram fáceis de conseguir no Porto. Foram anos incríveis, que me permitiram ganhar experiência num número de cenários diferentes – desde bares onde tinha de levar os pratos e tocar ao lado da máquina de finos, aos melhores clubes da cidade, aos palcos do Enterro.

Desde aí para a frente, vivi muitas boas memórias em muitos palcos, demasiadas para resumir aqui, sendo que em 2013 tudo mudou quando comecei a Counterpoint, e encontrei a minha família na música – mas sobre isso já falámos na entrevista anterior.

Quais as tuas influências?
A principal, é sem dúvida o meu irmão. Não só por me ter mostrado o drum & bass e a mistura, mas muito mais que isso. Tive a sorte de ter um irmão com muito bom gosto. Quando eu chegava a casa da escola e lhe mostrava a última música da moda, ele tentava sempre mostrar-me algo diferente e até certo ponto melhor, dentro do mesmo género. O mesmo se aplicou ao drum & bass – quando me preocupava em fazer double drops com as músicas do momento, ele mostrava-me deep, liquid, e jungle dos anos 90. Nem sempre compreendi imediatamente o porquê, mas sem dúvida que a longo prazo teve uma influência enorme e extremamente positiva na minha relação com a música.

Numa resposta mais generalista à pergunta, sempre ouvi um bocado de tudo, desde música clássica, a jazz, hip-hop, rock, bossa nova, reggae, house… Muita coisa que escrita na mesma frase não faz grande nexo. Fora da música eletrónica tendo a gostar mais do que é antigo. Não que não se façam coisas muito boas atualmente, há alguns nomes que faço questão de seguir, mas penso que talvez pelas memórias associadas, tendo sempre a revisitar música com alguns anos. Se tivesse de mencionar um nome “velho” e um “novo”, diria Pink Floyd e Childish Gambino.

No drum & bass em específico, tudo o que é Metalheadz obviamente, sendo que tenho uma paixão inegável pelo som mais deep e techy da Critical Music e Flexout Audio (entre outras). Se tiver de referir um nome como referência no drum & bass, tenho de dizer Kasra – pela forma como construiu a Critical, é uma referência enorme para mim.

Não posso deixar de fazer uma referência ao meu braço direito na Counterpoint – Basic (Resende). Pela pessoa e grande DJ que é, e por me acompanhar diariamente nesta aventura já há muitos anos. É talvez a influência mais próxima que tenho atualmente.

Como preparas as tuas atuações ao vivo? São premeditadas ou segues o ritmo do publico?
A minha abordagem é uma mistura das duas, e um bocado obsessivo-compulsiva. Basicamente, preparo um set principal, e entre 3 a 5 variações desse set. Os anos e a experiência permitem-me conseguir visualizar bastante bem os cenários que posso vir a encontrar na pista, e isso permite-me criar diferentes progressões de um set para cada um desses cenários. Esta é a teoria, sendo que na prática o que normalmente acaba por acontecer, é uma mistura das variações que criei com algumas músicas que sinto que simplesmente tenho de tocar naquele momento.

Sem dúvida que o ritmo do público é sempre o fator mais importante, mas tento fazer um misto de trabalho de casa e futurologia. Tudo o que posso dizer, é que acerto mais vezes que a Maya!

Em termos de preparação e atuação, não posso deixar de mencionar o b2b com Original Pressure (Xeixas) na última Trust The Bass. Atuámos em quatro decks e dois mixers, e foi uma das experiências mais intensas que tive numa cabine.

A tua associação à Counterpoint é inevitável. O que tens a dizer sobre o teu contributo neste projeto e, consequentemente, na cena nacional?
Desde que criei o projeto em 2013, que assumi a importância da Counterpoint acima do meu percurso individual. Embora me mantenha sempre ativo como artista, o foco e o resultado do meu trabalho, é espelhado pelo sucesso do projeto. Penso que o meu maior contributo foi tomar a iniciativa de efetivamente criar o projeto, e mais importante, de o ter feito sobre os valores certos. Isso permitiu que, embora tenha começado sozinho, o crescimento fosse sempre natural até chegarmos à família que somos hoje.

Em relação à cena nacional, tentamos sempre contribuir de forma positiva, e com base nos nossos valores. Como editora, acho que ajudamos a mudar a maneira como se viam as “labels digitais” e os estigmas que lhes eram associados. Apresentamos desde o primeiro release uma abordagem profissional, com uma identidade gráfica forte, “support” de artistas de renome, e um constante melhoramento do plano de marketing dos lançamentos. Isso permitiu-nos chegar a plataformas como a “Noisia Radio”, “Data Transmission”, e outros meios importantes no género, o que penso que foi um contributo relevante para o movimento nacional.

Como promotora, penso que também trazemos algo de bom, pelo nosso foco no conceito e no contexto. Temos uma relação intensa com a música, e penso que isso se espelha tanto nos nomes que escolhemos, como na forma como os apresentamos, e na dimensão física do evento em si. Procuramos apresentar eventos que por um lado agradem ao maior número possível de pessoas que gostem de drum & bass, mas que também sejam um ambiente acolhedor para quem está agora a descobrir o género.

Preparaste um set especial para esta edição do podcast. Podes explicar um pouco mais todo o conceito que levou à sua conceção?
A ideia principal deste set, é prestar um tributo ao jungle, e consequentemente às raízes do drum & bass. Por outro lado, tenho sentido localmente alguma dissociação entre as duas sonoridades, o que penso que é algo fundamentalmente errado.

O drum & bass nasce do jungle, e as suas histórias e sonoridades estão tão profundamente interligadas, que me parece impossível falar ou celebrar um, sem tratar o outro igualmente. Como tal, acho que não há ninguém mais indicado para representar essa sonoridade, do que os DJs de drum & bass. Não falo de mim, pois pertenço a uma escola mais recente, mas nomes como Nuno Forte, Tilinhos, ALX, Groovekid, RIOT (entre muitos outros), parece-me que seriam os artistas mais indicados para estar atrás da cabine enquanto vivemos este revivalismo das sonoridades “rave” dos 90s.

Pessoalmente, a ligação a estas sonoridades sempre foi profunda, muito por causa do irmão. Por isso, há muito tempo que tinha vontade de gravar algo focado nos 160 BPMs. Vinha a coleccionar muita música nestas sonoridades, que nem sempre consegui encaixar nos meus sets, e também por isso sentia uma necessidade enorme de encontrar um “output” para isso.

Este set é o resultado de tudo o que referi. Foi um desafio enorme porque quis não só visitar músicas marcantes dos anos 90s, mas também representar muito jungle de excelente qualidade que tem vindo a ser editado nos últimos anos. Pela diferença em tudo o que tem a ver com masterização e processamento de som, o exercício de mistura e equalização tornam-se extremamente desafiantes para o DJ.

Para mim, abraçar o jungle e os anos 90 é abraçar a imperfeição e o erro humano na música, o que acho que é muitíssimo importante nesta altura. Penso que o drum & bass tornou-se um bocado uma vítima da sua própria obsessão pelo “mixdown” perfeito, e a “bassline” mais limpa. Nesse processo é fácil perder alguma alma na música, e isso é muito perigoso. O jungle, e o drum & bass são estilos de música eletrónica que sempre tiveram um elemento de relação humana muito grande – perder isso, é perder a essência do que esta música representa.

Por tudo isso, o processo de gravação do set foi extremamente divertido. Tentei forcar-me em representar um estilo de mistura simples, mas eficaz – recorrendo apenas ao filtro como único efeito. Foi refrescante largar a obsessão pela perfeição total no mix, e apenas deixar a música e as atmosferas ditarem a progressão.

Sem dúvida que é um dos sets em que me diverti mais durante o processo de criação, e ao longo do qual aprendi mais.

O que podemos esperar de ti no futuro?
Uma vez que hoje desenvolvemos bons fluxos no trabalho de equipa dentro da Counterpoint, começo a ganhar algum tempo de volta, o que me permite investir mais no meu projeto pessoal. Ideias não faltam – podem esperar mais sets, e um podcast onde se vai conversar muito sobre drum & bass. Durante esta altura tão complicada, vão provavelmente também ouvir-me em alguns livestreams. Assim que isto passe, espero regressar rápido às pistas. E em especial, voltar à minha relação de “filho adotivo” com a crew da RANDOM em Basileia, Suíça.

Por outro lado, vou continuar a estar muito focado na editora, onde temos estado a preparar um número considerável de lançamentos para este ano. Vamos ter o regresso de artistas como Mikal e Molecular, e também alguns nomes novos.

Acima de tudo, continuar a viver a música com a mesma paixão que me moveu ao longo de todos estes anos.

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