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Homem em Catarse sentou-se ao piano. Eis a “narrativa do respirar”

12 Maio, 2021 - 11:30

Diz fazer “poesia embrulhada em dedilhados atmosféricos”, mas existe muito mais por trás da metamorfose de Afonso Dorido em Homem em Catarse. Em abril, deu-nos a beber de “Sete Fontes” e, agora, conta-nos alguns dos segredos que descobriu entregue à natureza – e ao piano.

Até agora, Homem em Catarse era quase sinónimo de guitarra: onde um ia, lá estava o outro a acompanhar. Porém, se há coisa que 2020 trouxe foi a total disrupção de hábitos, costumes e da vida como a tínhamos. Numa altura de isolamento, saía para caminhar como sempre o fez, mas elevava-se nas ruas um vazio solene: prédios trancafiados, estradas que pareciam vãs por não servirem o seu propósito, o vento agora só e nitidamente audível. Era clara a incerteza dos tempos que estavam para vir, e foi ao piano que Afonso Dorido confiou esse dissabor, assinalando a expansão do seu universo de multi-instrumentismo.

Sempre fez do espaço físico a matéria-prima das composições. Em “Viagem Interior”, de 2017, contava os segredos de um Portugal esquecido, suscitado por uma observação de José Luís Peixoto que questiona se o futuro não lateja na ruralidade. Passou também por “Monchique” e “Portalegre”, em 2017. Gosta de poesia e nela encontra combustível para os seus devaneios, havendo já sido “Guarda-Rios” e dado som a um “Mergulho no Cávado”. Durante o confinamento, cartografou a ausência das pessoas e o passado e o presente dos lugares por onde andava. Encontrou refúgio na natureza, conheceu lugares entregues a si próprios e perpetuou a sua candura em “Sete Fontes”.

“Sete Fontes” é um disco ou um mapa sonoro, um desabafo ou uma história que o alias em libertação de Afonso Dorido conta enquanto se afasta da melancolia e se asila na tranquilidade, no silêncio e na aceitação do aqui e agora. É uma narrativa cinemática que espelha tempos passados em solitude, num hiato que reconhece e acolhe a necessidade de parar para pensar. Fá-lo com respeito e brandura, por meio de field recordings e camadas de eletrónica minimais onde as frequências sonoras se entrelaçam com a sinceridade e a introspeção de noites passadas ao piano.

Desta vez, o Homem pousou as cordas e encontrou Catarse num outro registo. Esteve ao telefone com A Cabine para descrever o fenómeno.

Como está a ser este ano para ti?
A nível de trabalho e concertos, tenho alguma esperança neste momento porque já tenho alguns marcados. Espero que não aconteça como aconteceu no ano passado, mas nessa altura havia muita mais incerteza, os idosos ainda não estavam vacinados nem sequer havia vacinas, não havia conhecimento de como lidar com a pandemia porque as gerações que estavam a viver isto nunca tinham vivido [algo assim]… E este ano já há uma maneira de contornar certas coisas e já é possível fazer mais, de maneira que tenho alguma esperança porque tenho já algum trabalho para o final deste mês e o início do próximo, concertos para julho, agosto, e pronto. Nesse aspeto, neste momento, estou esperançoso de regressar à minha rotina de 2019, inícios de 2020, que era andar na estrada.

Onde encontras refúgio do caos do dia-a-dia? Falas nas caminhadas que deste e que potenciaram o disco. São uma espécie de mecanismo para contornar esta situação?
Acho que há pessoas que funcionam no caos, e eu se calhar também funciono, não é? Eu sou muito o que me rodeia e sou muitas coisas para poder falar delas. Sou observador e, escrevendo música, é normal que seja assim. Tento às vezes ir buscar a história de uma pessoa, um olhar, uma situação, um momento pode ser um ponto de partida para algo. A natureza foi uma coisa que esteve ligada a mim. Eu por diversos motivos sempre valorizei muito os espaços naturais e sempre achei que eram o refúgio certo para uma cidade como a nossa [Braga], não é?

Aliás, sempre que as coisas dão para o torto, nos espaços urbanos, onde é que as pessoas se refugiam? Refugiam-se em espaços onde a natureza ainda manda, onde não há uma rotina tão vincada. E estou a lembrar-me do ano passado, com a situação da pandemia, as pessoas refugiaram-se sempre em espaços com níveis populacionais muito mais baixos, onde havia lugar para a natureza fazer parte da rotina delas. E eu acho que sinto que um sítio me influencia sempre.

Agora, devido à situação de um não poder andar na estrada e tocar ao vivo, acabou por me influenciar bastante mais porque acabei por encontrar um refúgio na natureza para, digamos, manter a minha sanidade mental, também. E acabou por ser ponto de inspiração, sobretudo na zona onde vivo, porque nós estávamos limitados ou confinados às zonas onde vivemos e eu, vivendo em Braga, acabei por descobrir coisas novas, sobretudo património natural, e sem dúvida que isso me inspirou para fazer o trabalho que fiz. Não só isso, mas sobretudo.

Desses passeios, guardas alguma reflexão em especial? Lembras-te de alguma coisa que tenha mudado em ti?
Lembro-me de, por exemplo, uma das caminhadas que fiz até à Nascente do Este. Foi assim das primeiras caminhadas que dei. Lembro-me do primeiro momento em que descobri a Nascente do Este. Foi aquele local que… pá. Está muito próximo da cidade de Braga e eu refleti precisamente sobre há quanto tempo é que eu não ia assim a um local bonito. Fiquei surpreendido de ter relativamente perto de casa um sítio tão bonito e onde nasce um rio que acaba depois por ser identificado como uma ponte urbana e um rio não muito bem tratado. Mas, naquele sítio, é tudo muito bonito, a água é límpida. Isso marcou-me, tanto é que a partir desse momento comecei a tentar descobrir uma série de lugares naturais de Braga.

No decorrer do teu percurso musical, esta manifestação sonora dos lugares tem estado bastante presente. Que relação estabeleces entre a música e esses sítios? Isto é, como tornas lugares em música?
Eu acho que os lugares às vezes fazem-se pelas pessoas. E sem dúvida que não te sei muito bem explicar, é um facto que realmente o meu trabalho, no Homem em Catarse, reflete e fala muito de lugares, e como eu estava a dizer, os lugares são as pessoas. Eu acho que no fundo está tudo ligado às pessoas. E as pessoas é que habitam os lugares; é verdade que posso falar sobre um local que não seja habitado ou não tenha gente, mas, no fundo, nós refugiamo-nos às vezes nesses sítios para pensar na vida e para pensar nas pessoas. Portanto, acho que está tudo ligado às pessoas, embora seja camuflado por locais.

E as memórias que nós temos, muitas vezes, estão ligadas a certas coisas e algumas delas são os locais por onde a gente passa. E eu gosto de retratar momentos através dos locais. Acho que os locais acabam por ser um mecanismo para eu me lembrar de viagens, para eu me lembrar de momentos e de pessoas. Já no disco “Viagem Interior” de 2017, eu lembro-me que escrevi o tema sobre a cidade da Guarda quando a vi pelo retrovisor do carro no qual fazia a viagem. Parecia ter lá estado e começou aí qualquer coisa… Quase como uma partida, percebes? Eu acho que às vezes os lugares são uma forma de falarmos de momentos, de falarmos da vida, das pessoas. E é inevitável que isso esteja patente nos meus trabalhos, tanto no “Viagem Interior” como no “Sete Fontes”.

Sim, eu ia perguntar-te se o teu processo criativo passa por uma transposição sonora de sentimentos que tiveste dentro dos lugares (a partir de memórias, por exemplo), ou se se assemelha mais a uma forma de os narrar, como se fossem eles próprios uma história e quisesses contá-los a partir da música.
Sim, para contar uma história é preciso uma linguagem e há uma linguagem por demais universal que é a música. Estes dias que tenho feito alguns trabalhos sobre o disco, algumas entrevistas e programas nos quais fui convidado para falar sobre ele enquanto o ouvia, são uma maneira de eu próprio ouvir o disco de uma forma diferente. E o que eu sinto é que é aquela narrativa muito específica. Falando sobretudo deste disco, há uma narrativa do silêncio, do respirar. Porque a forma como o instrumento foi tocado, como o piano foi abordado, é de muita respiração, é muito espaçado. É uma informação que é dada como uma gota de água, não é uma informação que jorra e que é dada em catapulta. É uma coisa que, sendo urgente, é passada de uma forma muito tranquila.

E acho que a narrativa que está presente acaba também por ser, se quiseres, cinemática. Acho que cada pessoa que ouve também faz, depois, a sua própria narrativa porque há espaço para isso. Mas sim, como é difícil falar da música que eu faço – é sempre complicado a gente falar daquilo que faz -, ouvi o disco e senti isso. Senti que havia ali uma narrativa, sobretudo, do silêncio.

Disseste que “os lugares são as pessoas”. Mas este disco foi composto durante o confinamento: não havia pessoas. Como é fazer música sobre lugares despidos de gente?
Boa pergunta. Santa Marta das Cortiças é um tema do disco e quando eu fui lá, na altura da pandemia, lembrei-me de algumas histórias que lá vivi e partilhei com pessoas. E sem querer estar a ser repetitivo porque “os lugares são as pessoas”, eu acho que a ausência das pessoas nos faz lembrá-las. Olha, outro caso, e esse acho que é mesmo taxativo: a Rua do Souto, que é uma rua… Eu vivo em Braga há cinco anos, sensivelmente, e o que eu conheço da Rua do Souto é de a ver sempre com gente, de ser sempre uma rua movimentada. E, de repente, tu sais e vês a rua sem ninguém, completamente deserta, até ouves o vento, ou pelo menos foi isso que eu senti e que depois me catapultou para escrever a música. Foi essa estranheza de: onde é que estão as pessoas?! E, ao mesmo tempo, tendo noção do período que estávamos a viver – ainda estamos, mas daquela forma muito mais confusa de não saber o que era aquilo, não é? -, acho que foi isso, foi a estranheza da ausência das pessoas.

Além dessa teoria de que os lugares são as pessoas, acho que nós, de uma forma indireta, sendo seres humanos, acabamos sempre por, falando do que quer que seja, abordar as relações humanas. E, às vezes, as relações humanas também precisam daquele tempo, daquele momento de abstração, de refletir e parar. Penso que este disco também está muito aí: no questionar e no tentar perceber. Antes de tentar dizer seja o que for sem pensar, é necessário precisamente fazer o oposto: abraçar o silêncio e perceber porque é que ele existe. E, se calhar, ele até pode ser bom para nós, pelo menos por uma boa parte do tempo.

Por exemplo, haverá casos em que se calhar as pessoas nem se viam, em termos familiares, vá, e com esta pandemia – e não estou aqui naturalmente a olhar para o lado melhor da pandemia -, talvez tenham havido pessoas que passaram mais tempo com quem gostavam. Noutros casos, também deixávamos de estar com quem queríamos estar e sentíamo-nos privados de liberdade, não é? Mas acho que, acima de tudo, a pandemia nos faz pensar nas relações humanas e no rumo que temos enquanto humanos, e é inevitável que isso vá ser próximo às pessoas e aos lugares que antes partilhávamos com elas e naquele momento não podíamos. É um bocado por aí.

Falaste na necessidade do silêncio e de parar um pouco para retomar alguma ordem. É por isso que afastas o conceito de melancolia deste novo álbum?
Afasto, sim. Eu, ao início, quando estava a gravar o disco, ficava a tentar perceber [essa melancolia no álbum]. Às vezes, quando olho para trás, penso que o meu trajeto começou numa manhã em que estava a chover e entretanto veio o sol e, de facto, as nuvens têm-se dissipado na minha abordagem melancólica. Eu acho que, apesar de os meus trabalhos serem todos nostálgicos e melancólicos, este disco não é…

É óbvio que é um disco ao piano e com eletrónica muito minimal e ambiental, muito de camada, não de prepoonderância, mas acho sinceramente que este disco até nem é o mais melancólico que tenho, mesmo sendo ao piano e assim mais negro. Uma coisa pode ser negra e não ser melancólica. E nem é só melancólico, é a questão do triste: eu acho que este disco é um disco tranquilo e a tranquilidade é muito importante para a gente poder viver bem, é a ponte para podermos ser felizes com aquilo que somos e de que gostamos. Se tu não estás bem contigo mesmo, não vais estar bem com ninguém, e é por isso mesmo que acho que essa tranquilidade é muito importante para as relações com as pessoas.

Acho que é um disco que passa por, diria, um medicamento para a correria que normalmente temos nos nossos dias, percebes? É quase como pegares e ires para um sítio mais distante para tentares refletir. Nesta situação, foste quase que obrigado. Eu, por exemplo, de repente fiquei sem saber o que é que havia de fazer com a minha vida quando perdi o trabalho todo que tinha em 2020, praticamente de um dia para o outro, e poderia simplesmente afundar-me ou ir por um local que não tivesse saída e no qual ficaria a penar. Por acaso, instintivamente, a minha cena foi: eu tenho aqui um piano em casa, finalmente vou ter tempo para me dedicar a ele uma vez que a minha formação é guitarra. E pronto, é óbvio que eu não desejaria que esta pandemia acontecesse, foram muitas pessoas que se perderam.

Não obstante, para mim, a nível criativo, acabou por ser o maior motivo para ter um disco e ele reflete essa tranquilidade de não valer a pena estar aqui a equacionar o que vai acontecer ou o que não vai; o importante agora é a gente poder respirar e pensar que se calhar estava a fazer algumas coisas mal ou que estava a viver de uma forma que não era aquela que, no fundo, queria. Acho que é um momento de reflexão, pronto, e o silêncio é o maior aliado da reflexão.

Para terminar [risos], embora seja bastante denso e tenha momentos mais tristes e mais duros – abre de uma forma muito dura, mesmo -, penso que o disco tem e acaba com muita luz. O disco começa num batimento muito intenso e forte, do Pêndulo da Sé, quase como uma coisa ali a morrer, e acaba com a nascente de um rio, com a melodia muito mais aberta e muito mais luminosa. Portanto acho que o “Sete Fontes”, no fundo, está mais espelhado na forma como acaba do que na forma como começa.

Qual é a importância dos field recordings neste disco?
Foram muito importantes porque deram a identidade aos lugares: os sinos que se ouvem no Pêndulo da Sé são mesmo do local e, curiosamente, estavam no mesmo tom da composição musical, que é uma coisa muito engraçada. [O disco] também tem sons da água da própria Nascente do Este. Acho que os field recordings vieram dar um bocadinho de lógica aos títulos e aos lugares, e deram-lhes [uma componente] orgânica, no sentido de haver algo de terra, algo verdadeiro e honesto ali. É não ter medo de trazer aquele local – se te inspirou e se estás a escrever ou a compôr sobre ele, não tens de ter problemas em trazê-lo para a música. Acho que ainda atesta mais a veracidade da coisa e dá-lhe, sobretudo, um toque orgânico.

[“Sete Fontes”] foi misturado através de um gravador de fita de cassete e essa orgânica toda começa nos field recordings. Acho que dá muita mais identidade a cada música – o vento da Rua do Souto, a água junto aos Moinhos de Portuguediz… Tudo isso completa o disco.

Que diferenças distingues entre o piano e a guitarra, em termos de expressão artística? No âmbito mais sensorial, por exemplo, a sonoridade do piano distancia-se da da guitarra em que medida? 
A nível musical, há uma diferença grande entre o guitarra e o piano, a forma de compôr acaba por ser muito diferente. Há certas coisas que é possível fazer na guitarra e não é possível fazer no piano, e vice-versa; sendo o piano um instrumento de eleição para compôr, muito completo. Mas vou pegar numa coisa que me disseram e que eu acabo por concordar: mais do que ser ao piano, ou mais do que ser à guitarra, é que sou eu a tocar, portanto a diferença não é assim tão abismal. Acima do instrumento, mais importante é o músico e é quem toca o instrumento. E a forma como eu toco guitarra, embora sendo um instrumento diferente do piano, também está patente no piano. Mantém-se a sensibilidade, o ataque da música, a melodia.

São dois instrumentos diferentes – nos quais se compõe de forma diferente, isso é inegável -, e o resultado é diferente, no entanto, o que tu pões no instrumento é o mesmo: a mesma emoção que eu ponho na guitarra é a mesma que eu ponho no piano. E mesmo sendo diferentes, eu consigo ver-me da mesma forma tanto num piano como numa guitarra, ou num ukulele ou num baixo, que também toco. Portanto, mais do que o instrumento, o importante aqui é o músico. E sinto-me mais versátil e experiente em termos de composição agora que domino o piano.

A experiência na guitarra facilitou o processo de aprendizagem?
Sim, bastante. Porque tu tens sete notas e elas existem nos instrumentos todos. Na guitarra, é a mesma diferença tonal. E, para fazer um acorde maior ou menor, se o souberes fazer na guitarra, vais saber fazê-lo no piano. As próprias escalas, se as souberes fazer na guitarra, também dá para fazer no piano, mesmo sendo algumas delas mais complexas. Portanto, é uma ajuda muito grande tu já teres background musical em algum instrumento. O facto de o ter na guitarra facilitou-me o processo da minha dedicação ao piano, uma vez que comecei a tocar recentemente e sou autodidata, mas a formação e a teoria musical já as tinha da guitarra e isso ajudou-me imenso no arranque para poder desenvolver conhecimentos noutro instrumento.

O que te encanta mais no piano?
[pausa] Olha, o meu silêncio está a dizer tudo. Eu adoro tocar guitarra [risos]. Fazes-me uma pergunta sobre piano e é a primeira coisa que eu consigo dizer. Mas o piano consegue ser como um livro, sabes? Para mim, é como um amigo. A guitarra é mais companheira de vida, o piano… Acho que até me emociona mais pensar no que é que o piano é para mim. Acima de tudo, o que me emociona mais no piano é o facto de eu me ter superado a mim mesmo e, numa das alturas mais difíceis da minha vida, talvez o piano fosse a minha companhia, percebes? Foi, se calhar, o meu refúgio. Além das caminhadas e de absorver a natureza, o outro lado está precisamente no piano, que muitas noites passei com ele – e isto dito desta forma é engraçado, mas é mesmo assim. Acho que o piano tem para mim uma conotação muito emocional porque foi um refúgio para mim nas noites incertas naquela primeira parte da pandemia em que não sabia o que ia acontecer. E sem dúvida que foi talvez a coisa mais importante que me aconteceu: foi lançar-me ao desafio e tentar dedicar-me a um instrumento.

Normalmente, a gente pensa que a partir de uma certa altura já não tem paciência para tentar dedicar-se a nada. Eu acho que nunca é tarde para nos dedicarmos a algo que nos diz alguma coisa, que nos chamou. É sempre um chamamento para um instrumento. Eu poderia continuar a tocar guitarra e compôr na guitarra, mas houve sempre algo que me aliciou no piano e estava sobretudo ligado a essa parte mais tranquila. Sem dúvida que ouvir autores como o Ólafur Arnalds, o Nils Frahm ou o Max Richter, ou compositores mais clássicos e antigos que sempre gostei, me motivou a pegar no piano. Mas acho que a minha relação com o piano – e gostei da tua pergunta porque falaste da emocionalidade -, é precisamente emocional. E foi uma coisa que aconteceu e que eu próprio também não sei depois explicar muito bem porquê, mas o que é certo é que também foi um desafio para mim. Quando me ponho à prova, também me tento superar e foi isso que aconteceu.

Qual foi o peso do gnration neste projeto?
Eu e o Luís Fernandes [diretor artístico do gnration] já tínhamos falado da eventualidade de eu fazer algo no âmbito do “trabalho da casa”. Só que eu tinha muita agenda nessa altura e o gnration também tinha as suas próprias coisas e acabou por não haver compatibilidade. Com a vinda da pandemia, eu fiquei com mais tempo para iniciar o trabalho de criação com o apoio deles e foi nessa altura que comecei também a sentar-me ao piano.

Fui partilhando as primeiras demos que ia gravando ao teclado que tenho em casa com as pessoas do gnration, nomeadamente o Ilídio Marques [gestor de comunicação do gnration], que gostou muito. Entretanto, ele partilhou com o Luís e eu estava satisfeitas mas ter quase como… Não digo a aprovação, mas o entusiasmo deles foi muito importante e a nível criativo acho que foi um ponto essencial. Formalizou-se o apoio, tanto o que eu precisasse a nível de estúdio como de gravação, mas ter o entusiasmo deles do meu lado quando eu estava num instrumento novo e a arriscar também um bocadinho nos sintetizador foi muito importante. O Ilídio é uma pessoa que eu conheço há muito tempo e acho que tem um ouvido incrível. O Luís é um músico que eu admiro imenso e ter sentido o entusiasmo deles foi importantíssimo. Pronto, e aí foi começar a trabalhar.

A gravação também correu muito bem, foi apenas num dia e aí tenho que agradecer novamente ao Luís Fernandes por ter conseguido gravar no piano que gravei, num piano mesmo a sério que é o mais importante: quando se quer gravar num piano, é um piano. Não há teclado que substitua um piano. Depois, a ajuda do gnration efetivou-se quando misturei o disco em estúdio com o Budda Guedes e sem dúvida que sem o gnration este disco não existiria. Poderia ter feito este disco mas não era desta forma e acho que às vezes mais do que te darem ferramentas para poderes gravar, é apoiarem-te e serem honestos contigo, tentarem potenciar aquilo que tu fazes.

Esse entusiasmo que eu tive foi o mais importante para eu começar a desenrolar o novelo e começar a fazer mais músicas, mas sobretudo sempre de uma forma muito leal e honesta. Partilhámos mesmo opiniões sobre o nome do disco, eu tinha algumas ideias, mas ainda bem que quando as partilhei com eles, eles tiveram a sensatez de me dizer: “pá, se calhar, devias experimentar outra coisa” ou “se calhar devias pensar noutra hipótese”, porque acho que isso tudo contribuiu para que este disco se elevasse ao ponto em que está. Eu estou bastante satisfeito e essa satisfação também se prende com o gnration e com o que eu acho que o gnration me proporcionou para que o disco ficasse pronto. Dessa maneira, tal como o gnration, o Francisco Oliveira [coprodutor do disco], que é um músico e artista multidisciplinar, acabou também por trazer um imput muito fixe e muito orgânico ao disco, para que tivesse uma leitura muito mais ambiente, para criar muito mais orgânica e o noise e a dureza necessários ao disco.

Portanto, no fundo, este trabalho foi escrito por mim, mas sem o gnration, sem o Ilídio Marques e o Luís Fernandes, sem o Francisco Oliveira, sem o imput do Budda Guedes, sem por exemplo a Regulator Records que editou isto, sem a Golden Pavilion que vai editar em vinil, eu acho que o disco não era o que é. E eu estou bastante grato a todas as pessoas que me ajudaram a fazer o caminho para o sítio certo, que foi o disco ficar como eu queria.

Ansioso por voltar aos palcos?
Sim [risos]. Eu nem sei se é ansioso, eu estou desejoso, estou super… Estou com uma vontade enorme de voltar a partilhar palcos com pessoas. Entretanto, fiz alguns concertos, mas sem pessoas, mesmo com outros projetos em que também toco. Mas com Homem em Catarse já não toco com o público desde o ano passado, na altura do verão. Obviamente que como a minha vida é esta e como sempre andei muito na estrada, há um défice da adrenalina que sentes antes de entrar em palco e daquela emoção de estar no palco ou seja onde for com pessoas à minha volta enquanto toco. Sem dúvida que faz muita falta.

E há muita coisa para por em dia, não é? Toda aquela rotina de programar, de ficar fora, de estar dois ou três dias sem vir a casa, são coisas de que quem anda na estrada e que gosta realmente do que faz, ao fim de algum tempo sem o fazer, também sente saudades. Mas, sobretudo, das pessoas. De as pessoas te poderem dizer o que gostam ou o que menos gostam, o que adoram ou o que acham sobre o teu trabalho. Pá, lá está, são as pessoas. No fundo, um artista que faz coisas para as pessoas, são coisas que sente mas que manda cá para fora e acho que há sempre um emissor-recetor. Sem recetores, um artista e a arte também não fazem sentido e portanto também estou desejoso de partilhar as coisas que faço com o público.

Esta pergunta pode ser bastante óbvia, mas acho que tem dimensões subjacentes, se calhar a um nível mais íntimo, das quais muitas vezes não se fala. Qual é a importância de tocar um disco ao vivo para um artista?
Para mim, o auge do músico – e há quem goste de estar em estúdio e não goste de tocar ao vivo – é precisamente o tocar ao vivo, é o momento. Não há hipótese de voltares atrás, de voltar a gravar, voltar a fazer isto ou aquilo – é o momento. E há coisas belíssimas que acontecem no momento. Também há outras que correm menos bem [risos], mas aquele instantâneo do momento é uma coisa que só acontece ao vivo e a arte em direto ou a arte no momento é incrível! Uma coisa é tu teres um disco que tu trabalhas, pensas; de certa forma há uma arquitetura e uma engenharia para fazer um disco, pensas no que vais fazer, em como é que ficou aquele take. Ao vivo, é muito mais instintivo: já está! Não podes voltar atrás e isso é uma coisa muito mais orgânica e muito mais humana. Para mim, tocar ao vivo acaba por ser o auge.

Mas há sempre os dois lados e eu também adoro estar em estúdio e adoro compôr. Normalmente, eu vou muito pela intuição, percebes? E acho que chega a um ponto, depois de gravar, há escolhas, escolhas panorâmicas, compressores, há dinâmicas, há gestão das dinâmicas, há left ou right, há essas coisas todas que te obrigam a sacar de ti o lado mais projetista da coisa, enquanto tu quando estás a compôr ou quando estás a criar algo, não sabes muito bem quando ou como vais criar alguma coisa. E ao vivo estás a replicar uma coisa que tu fizeste. Mas, no meu caso, isso não acontece muito porque, na generalidade, não digo em todas as músicas, eu gosto sempre de dar um espaço à diferença. Ou seja, os meus concertos não são concertos iguais: uma música pode ter aquela duração mas às vezes tem mais e outras menos, portanto, concertos são sempre aquelas experiências um bocadinho diferentes umas das outras. E é essa diferença que me alicia e é por isso que eu gosto bastante de tocar ao vivo e acho que é para isso que a música é feita. Óbvio que também é para partilha pessoal de cada um em casa ou noutro sítio qualquer para ouvir a música que gosta, mas ao vivo é aquele imediato em que não dá para avançar nem retroceder 15 segundos. É aquele momento que estás a viver ou não e por isso é que eu acho tão entusiasmante tocar ao vivo.

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