Francisco Couto foi ao concerto de Carga Aérea no ciclo Jejum e saiu de lá decidido a traduzir em palavras a singularidade da música de Francisco Marujo.
Este texto surgiu na minha cabeça na passada quarta-feira na Rua das Gaivotas 6, em Lisboa, enquanto assistia ao concerto de apresentação de “Sonda”, o mais recente EP de Carga Aérea. Costumo aproveitar concertos de música ambient para fechar os olhos e entrar no estado “nem a dormir nem acordado”, aproveitar aquele momento para libertar um pouco o meu cérebro de todas responsabilidades que acarreta no dia a dia – trabalhar, socializar, calendarizar os meus dias, procurar formas de sobreviver – e deixá-lo só a receber um estímulo direto sem grandes interpretações, deixá-lo relaxar, não ter medo de adormecer, não precisar de existir muito. Às vezes é preciso.
Mas desta vez não consegui. O meu cérebro, em vez de se deixar levar pela blissfulness do que estava a ouvir e ver, parecia estar incessantemente à volta da mesma pergunta: o que raio estou a sentir? Porque é que está a ser tão difícil identificar algo que geralmente consegue ser tão concreto em música?
Há mais casos assim. Artistas como Chuquimamani-Condori atropelam-nos com uma enchente de emoções sem conseguirmos associar a algo concreto, que nos deixam num estado de só sentir na mais pura das formas e sem grandes explicações dadas, completamente à nossa própria mercê. Enquanto espectadores naquele momento estamos a assistir à criação absoluta de uma identidade individual musical, algo que não é bem feito com esforço, mas antes com algo mais intrínseco a quem o faz, algo na verdade muito mais inconsciente do que o que podemos achar e que todas as pessoas que criam arte aspiram a ter para si próprias.
Comecei então a procurar na minha memória todas as sensações que já senti a ouvir a música de Francisco Marujo. Memória, na verdade, é uma palavra que surge instintivamente quando tento descrever a estética deste nome de Lisboa, mas não me consigo atrever muito a descrever que tipo de memória é esta. Não percebo concretamente se é pessoal ou coletiva, se é nostálgica ou se é triste – é algo diferente; é algo que está entre vários tipos de memória, que conjuga pedaços comuns entre eles para criar uma sensação desfocada, um diagrama de Venn pouco linear, uma sensação de entre.
Editado pelo Colectivo Casa Amarela (o casamento perfeito), que entregou um formato físico em cassete para imortalizar a obra num formato mais palpável, “Sonda” é o terceiro disco do Francisco, sucedendo “Ocorrência em Aberto”, o terceiro lançamento de uma ainda promissora Rotten \ Fresh em meados de 2017, e “transumância”, lançado em 2019 pela Nariz Entupido. A descrição no Bandcamp deste último disco diz somente:
tran.su.mân.ci.a
1. acto ou efeito de transumar; mudança periódica de lugar
Encontram-se aqui já algumas alusões à sensação do entre. De certa forma uma rejeição do estático ou uma aceitação de que tudo continua em movimento em direção a algo, algo esse que também é só uma intermitência até ao próximo objetivo. Nem a morte é um fim, há toda uma outra vida para os nossos nutrientes, ossos e moléculas de carbono que se vão reinventar até não se sabe bem quando. Somos compostos por reações ao que nos rodeia, pelas transformações que esses estímulos nos causam. Somos, de certa forma, o resultado do que está entre.
É também curiosa a escolha do nome para o seu pseudónimo artístico. Carga Aérea, algo que por si só se baseia no movimento constante, na partida e na chegada, na ausência de fronteiras mesmo por cima das nossas cabeças. Mas, ao mesmo tempo, parece que não fica por aí, também nos invoca uma memória individual; repesca em nós próprios todas as vezes que nos cruzamos com o sinal de trânsito que nos diz, de certa forma, “estão finalmente a chegar a Lisboa”. Seja para trabalhar, seja para lazer, seja para regressar, seja para começar uma nova etapa da vida, esse sinal acompanha as milhares de pessoas que entram diariamente na capital pela segunda circular, um dos principais rios que desaguam numa das cidades mais vivas do país. E mais uma vez nos questionamos sobre a intenção e se sequer existe uma concreta. Da mesma maneira que nos questionamos se esta memória é individual ou um imaginário coletivo. Da mesma maneira que me questiono se a minha interpretação é individual ou se vocês a partilham comigo. Se calhar a resposta está entre o que define cada uma delas e como se entrelaçam para criar algo maior.
Para além da estética sonora, a visual também vai ao encontro destas ideias de fuga do concreto. Se as capas destes três discos já introduzem a música que está por detrás delas, onde os elementos se misturam entre si, representam figuras sem limites delineados ou se escondem por detrás do fundo, o vídeo criado pelo músico de 28 anos para acompanhar a performance sonora é a cereja no topo do bolo para terminar este desenho que se tenta criar de algo que por si só parece rejeitar que traços o delimitem. Por detrás do músico passa um vídeo em constante mutação onde vemos fotografias de paisagens urbanas, prédios enormes, pequenos detalhes da cidade, pormenores do interior de edifícios e natureza. Todas estas imagens apareciam e desapareciam num exercício de fusão e, de certa forma, de transumância, que nos fazia ver azulejos ou candeeiros de teto transformarem-se em janelas de prédios, sem entendermos exatamente quando, e que nos fazia encontrar os padrões que existem entre estes elementos. Um exercício quase fractal que nos desafia a assumir que as coisas se repetem em escalas diferentes mas com fundamentos semelhantes, uma espécie de equação que criámos para construir civilização. E ao mesmo tempo, o exercício de somar, subtrair, multiplicar e dividir todas as partes que constituem um só elemento, a cidade. Como se não bastasse, as fotografias foram todas tiradas num momento concreto em que o autor emigrou para os Países Baixos, mais um exercício diretamente associado a memória e que certamente o remonta para um lugar particular no seu memory palace, entre os momentos bons e os maus.
O desconforto que estava a sentir por não conseguir apontar o que Carga Aérea tenta transmitir transforma-se em algo mais pacífico. Ser adulto também é aceitar que às vezes não há respostas concretas, às vezes é só lidar. É ir construindo aos poucos e perceber cada vez mais que a área cinzenta é infinitamente superior à preta e à branca. O entre persegue-nos em todos os aspetos da nossa vida. Então, se calhar… resta-nos aceitá-lo? Resta-nos fazer as pazes com as coisas simplesmente serem assim? As próprias músicas de “Sonda” não têm princípios nem fim, nós detectamos as ideias diferentes de cada faixa mas também testemunhamos como é que umas transumam para outras. Os próprios sons utilizados parecem uma mistura de samples que tanto podem ser originais como podem fazer parte de uma imaginário coletivo que nos leva a ficar nostálgicos. As linhas melódicas tanto nos levam para lágrimas deprimidas como para lágrimas de plenitude. O final do concerto, marcado pelo uso da voz, é o momento onde expõe as suas vulnerabilidades mas, ao mesmo tempo, as protege por detrás do auto tune. E se calhar é esse escudo que permite chegar a sítios mais profundos. São muitos entres, são tudo entres na verdade.
O Marujinho não é o primeiro a estudar estes elementos. Assim de repente vem-me à memória os trabalhos extensivos que William Basinski e The Caretaker já fizeram em prol desta sensação. Mas, enquanto estes se focam mais no passar do tempo, vejo poucos projetos que se foquem em algo que não é muito “focável”, no que está entre os sentimentos concretos que já compartimentalizados. E o impressionante é que isto parece um tema complexo de abordar e uma linguagem complicada de desenvolver mas, para Carga Aérea, isto parece subconsciente. Parece só existir e tentar comunicar essa sensação. E agradeço-lhe, não só enquanto amigo, mas enquanto um fã, por poder partilhar connosco este exercício. Que nos encontremos no futuro, no entre criado por alguém que tem algo a dizer e alguém que está lá para ouvir.
Fotografias por Pedro Jafuno

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