Lexi a trazer música e história no novo episódio de N’A CABINE. São duas horas de uma das figuras da cena conimbricense.
Natural de Kharkiv, na Ucrânia, chegou a Coimbra em 2007, cidade que mostrar-se-ia chave no seu percurso, ainda que desde cedo tenha tido contacto com música. Foi do black metal para o drone e dark ambient, como explica na entrevista abaixo, e isso ajudou a seguir uma “viagem mais ampliada pela música electrónica, ligada pelas abordagens mais hipnóticas e introspectivas.” Por isso e tanto mais, Lexi é protagonista do 51º episódio do nosso podcast.
De Lexi Narovatkin podemos esperar esse lado hipnótico e introspetivo, como se escuta neste podcast. Do ambient ao techno, passando por dub, halftime e tanto mais, tem provado a apetência para o DJing nos últimos tempos e, mais recentemente, fora da sua cidade, tocou no Lux Frágil, a convite do Colectivo Casa Amarela, no Gare, a convite da Perf, e até numa Ácida. Mas a sua história não se fica por aí já que, para dar um exemplo, integra há vários anos a Rádio Universidade de Coimbra, onde aliás conduz o programa Vektor.
Conforme podes ver na tracklist, disponível no final do artigo, este par de horas vai desde Paracusia até Ness, passando por Arsène Martinet, Bartoli, Pianeti Sintetici ou os “nossos” Floating Machine & Inerte e Du-Das. Nas palavras de Lexi, “pensou numa paisagem mental entre algo pantanoso e desértico e foi o que se traduziu em som.”
Podes recordar um pouco do teu percurso? Quem é Lexi e como decide ser DJ?
Durante muito não tive a ideia desenvolvida de que a música que eu ouvia podia ser tocada, não era algo em que pensasse ativamente. Via mais as coisas de uma forma de gosto assumido e ficava muito por aí, até começar a frequentar, o que para mim, na noite de Coimbra, foi o marco mais importante para desenvolver esse bichinho: as noites da Instrumental Violence. Inicialmente ia com amigos mas rapidamente passei a ir sozinho, também meio na descoberta, e na altura o som da IV, de alguns DJs, vinha muito ao encontro do que ouvia por casa, e gostava muito da oportunidade de estar nesse espaço, e especialmente pelas pessoas envolvidas na criação do projeto.
Não eram todos DJs, mas todo o ambiente que via de fora fazia-me pensar muitas vezes algo como: “Gostava mesmo de saber mais sobre esta malta”. Já não me recordo do line-up completo da festa em que conheci efetivamente as pessoas, que gradualmente viriam a ser o meu grupo próximo de amigos, mas os Fuinki tocaram, e o Sliver lançou um set de jungle e drum and bass para uma crowd maioritariamente do techno, e achei isso lindo, e aos pouquinhos fui pensando também que podia mostrar a música que eu gosto para uma pista.
Aconteceu tudo muito em simultâneo, nessa altura entrei também para a Rádio Universidade de Coimbra, e por cá ainda tínhamos a Rádio Baixa, e várias vezes fui experimentando tocar naqueles CDJ-350, ou em casas de amigos, com muitos pregos e imensa vontade de desistir, mas lá consegui encontrar alguns momentos que levo até hoje e que me ensinaram muito, especialmente por ter tido a sorte de o fazer rodeado de pessoas com muita abertura para ver erros e para motivar.
Foi tudo ficando mais sério com os convites do Diogo Vasconcelos, para participar na série de mixes da Discos Extendes, e do Coletivo Casa Amarela para tocar num evento no Lux Frágil, que coincidiram com uma altura em que andava muito ligado a momentos de produção cultural. Diria que todo o meu percurso se deve a esta sobreposição de fases e acima de tudo, de contacto, e de pensar que podia dar algo mais de mim à cidade.
Consegues definir algumas influências deste caminho? O que te marcou e marca dentro da música?
Felizmente tive muita exposição desde criança a boa música, e de um lugar de muito privilégio por ter tido esse contacto tão cedo, que hoje molda completamente a forma como acredito na cultura e no som. Quando cheguei da Ucrânia em 2007 conheci o Francisco, na altura meu vizinho, e até hoje meu amigo, uns bons anos mais velho que eu. E passava muito tempo lá por casa, quando a minha mãe estava fora, e assimilava todo o conteúdo possível que me era dado, e ouvir o “Alcachofa” do Ricardo Villalobos enquanto criança foi toda uma expansão mental, acompanhada de Moodymann, Carl Craig e Theo Parrish. Um pouco mais tarde, na adolescência, com a mesma pessoa, ouvi pela primeira vez a Test Tubes do Shackleton, e a música por “camadas” foi um autêntico abre olhos também. Essas foram as referências mais basilares que tive, e as que considero mais importantes na minha formação enquanto pessoa.
Sempre gostei muito de digging, de descobrir e de guardar coisas, e o meu gosto passou por cenas musicais muito diferentes, mas com um fio condutor que me faz sentido. Eu ouvia muito, muito black metal na minha adolescência, que rapidamente me levou a descobrir vertentes de drone e de dark ambient, de onde partiu uma viagem mais ampliada pela música electrónica, ligada pelas abordagens mais hipnóticas e introspectivas, e a posição que tenho é a de que devia ouvir as coisas para as sentir do início ao fim, e este percurso mais focado em músicas mais imersivas foi certamente um caminho que me influencia fortemente até hoje.
O Les Siestes de 2019, e unicamente o Afonso Macedo a abrir o primeiro dia com ‘Uma História da Música Experimental em Portugal’ foi também das coisas que mais me marcou, e mesmo que não tenha sido próximo ao Afonso, esse momento é um dos que tenho mais vivos na memória, pela irreverência toda em apresentar aquilo. Ou no Café Académico onde ele trabalhava, quando uma vez me apanhou a ouvir qualquer música no computador e disse “ouve mas é isto.” Era Skee Mask na Ilian Tape.
O que mais me inspira é a variedade de sons que sei que vou ter oportunidade de ouvir, e que há muita liberdade para abraçar sonoridades mais off, e também muita gente que gosto de ouvir cá em Portugal, e isso acho que é uma inspiração enorme também. Recentemente toquei vinis pela primeira vez, com discos de Priori e de Delikwe, e acho que descobrir a “errar” é uma fonte de influência pessoal gigante.
Estás envolvide na RUC, um projeto de extrema importância não só para os estudantes de jornalismo em Coimbra, mas também para a própria cidade e habitantes. Como é que se deu toda a tua história com a RUC e qual a importância dela para ti?
Para começar a falar da RUC, o meu primeiro contacto foi ainda na escola primária, tínhamos um momento depois das aulas, proporcionado pelo Bruno Simões, e essa foi a primeira vez. Anos depois, tornei-me sócio e por lá fiquei.
Acho que vivi tudo o que podia na Rádio e coordenei muitas atividades, desde emissões, festas, concertos, e ter representado institucionalmente a própria. Também tive a oportunidade de escrever várias crónicas e antevisões de eventos, às quais dou bastante valor. Vai ser sempre uma espécie de segunda casa, e também um sítio que se assume como um agitador cultural na cidade, o que ainda me dá relativa esperança para existir uma boa rede em Coimbra, por mais vezes que pense “devíamos ter algo como na cidade X ou Y”, por mais entraves que existam.
É também um sítio de partilha de todo o tipo de música e ideias, e durante alguns anos fez parte do meu dia a dia, e sinto que é um local que pode acolher alguém que se sinta mais sozinho e pense que mais ninguém tem gostos parecidos aos seus, que foi o que aconteceu comigo, e efetivamente foi sair da minha própria bolha e entrar noutra, mas mais espaçosa e com mais mentes do que a minha.
Estiveste recentemente por trás do Vektor e penso que estes dois casos estão longe de ser as tuas únicas atividades na cidade. Podes fazer um apanhado do teu trabalho ao longo dos anos e do que retiras dele?
O Vektor é um programa que eu criei na RUC, generalista de música electrónica, desde dança a abordagens mais experimentais. Em 2025 decidi fazer um evento associado ao Vektor, onde trouxemos ao Terraço Afonso Macedo o XCI, o Mingote, a Ana Pacheco e a Maribel, e o evento repetiu-se com muito sucesso este ano também, que tive o prazer de produzir com uma enorme amiga minha, a Laura Rosário, e fizemos basicamente o mesmo molde, com alguns upgrades a nível de som, e no line-up tivemos a MVRIA, Quantum Eraser, System Sophie, Focalin e David Rodrigues. O objetivo é sempre focar no talento nacional, e juntar um alinhamento que reflita a sonoridade que achemos mais forward thinking no momento, e gostávamos muito de ampliar o festival, talvez mudá-lo para um recinto maior, e aumentar o alinhamento, há muitos nomes nacionais que gostava de ver representados em Coimbra.
Toda a produção de eventos que fiz foi enquanto associado da RUC, e a primeira vez que tive essa oportunidade foi em 2021, no contexto do Palco RUC na Queima das Fitas, com o João Sousa e a Joana Ferreira, para o qual planeamos o regresso do evento, pós-pandemia, com pouco mais de um mês de planeamento. Foi uma experiência que significou muito para mim, em todos os passos de pré-produção, durante, e no pós, e na altura senti-me bastante satisfeito com tudo, nunca tinha posto os pés numa Queima, e a primeira vez foi para ajudar a coordenar 4 noites de programação alternativa, senti-me super feliz, exausto e a pensar como o ano seguinte poderia ser melhor. Acabei por me envolver, quase por necessidade pessoal, em mais dois anos de Palco RUC: 2022 e 2024. Fui assumindo papéis mais chave na equipa, e muitas frustrações também. Mas apresentar uma programação alternativa ali, para mim, vai ser sempre um motivo de muito orgulho. Pensar que colocámos CCL e Neffa-T a encerrar uma noite de Queima continua a ser uma das coisas mais absurdas (no melhor sentido) que programei, e lembrar-me do Arrogance Arrogance a colocar uma pista ao rubro com a The Bells do Jeff Mills, de Coco Bryce a entregar duas horas excelentes de jungle, ou mesmo eu estar a abrir a noite antes de entrar o Tim Reaper, vão ser sempre coisas que acontecendo em qualquer outro festival seriam absolutamente mundanas, mas num cantinho como o nosso, num evento como aquele, tem sempre outro tipo de gosto.
Outros concertos que organizei diretamente, foram os de Carincur com João Pedro Fonseca, Violeta Azevedo, Vile Karimi, Telectu e KIK, e acho que foram excelentes experiências de navegar as possibilidades de programação cultural de Coimbra, e de entender também como funciona o meu método de trabalho. Acho que há muito potencial na cidade, mesmo que estejamos muito inclusos numa fórmula institucional, mas ver que há eventos e organizações lindíssimas, como as da Casa das Artes Bissaya Barreto, ou do Teatrão, traz bastante esperança de um dia Coimbra voltar realmente ao mapa, e ser devidamente reconhecida pelo que se faz cá bem, e gostava de dizer um dia que fiz parte desse processo conjunto.
Qual é a tua opinião sobre a atual cena clubbing em Portugal? O que consideras necessário e essencial para uma cena saudável?
Acho que há muitas cabeças e vontades no sítio certo, e que isso se revela em muitas venues, que têm sido abaladas por entraves legais, como o Gare e Outra Cena, por exemplo. Estarmos solidários como um todo, porque isso afeta a nossa experiência enquanto pessoas entusiasmadas pelo clubbing, sem atirar culpas e críticas que fogem do verdadeiro motivo do estado das coisas, é um passo em direção a construir uma relação mais saudável entre espaços e frequentadores.
Acho essencial reconhecer que a experiência de clubbing depende de trabalho e de pessoas, desde programadores, técnicos, DJs, designers, imprensa, segurança, trabalhadores de bar e do público, e respeitar cada papel no seu momento é o mais importante, numa forma mais funcional de olhar para a rede que faz cada evento ser possível. Sinto que quanto mais interferência houver neste entendimento, mais difícil fica tornar a cena saudável. Há muitos coletivos com um trabalho fantástico, e que cada vez mais são uma lufada de ar fresco neste meio por haver boa coesão e respeito pelo trabalho entre as pessoas envolvidas e da comunidade local onde estão. Respeitando também gostos, sinto que é bom haver um determinado número de pessoas interessadas pelo mesmo leque de sonoridades, o que faz com que exista um certo filtro, e com isso um bom espaço para a autenticidade.
Como olhas para o papel de DJ? Como é que te descreverias nesse sentido?
Diria que o papel de DJ é o de entregar uma experiência que cative um determinado público, e também de se adaptar onde está, seja pelo espaço, pelo papel no lineup, ou pelo horário. Acima de tudo é o de saber ler a sala e de gravitar o público para um momento de relatedness. Acaba por ser uma perspetiva muito abrangente, mas é uma base com a qual olho para o papel que faço. Acho que cada um vai ter sempre um standpoint diferente, e várias formas de transmitir a música que gosta, ao tocar coisas mais clássicas, ou mais recentes, e sinto que as pessoas que gosto de ouvir encontram bem esse ponto médio.
Pessoalmente descrevo-me como alguém que gosta de um bom storytelling e de uma narrativa, para mim o método para preparar um set é este. Também tiro muito gosto em me adaptar a cada contexto e do processo de digging antes, e é o que me puxa mais para assumir o que faço. Gosto de pegar em temas recentes, acho que faz parte do trabalho de DJ dar a conhecer o que está a sair, também gosto de procurar coisas lá de trás, e sinto que é um processo de me prevenir para cada contexto onde vou tocar, e de ter sempre algo preparado para o meu estado espírito nesse momento.
O que decidiste preparar para este podcast?
São duas horas de faixas mais dark e imersivas, que senti vontade em trazer para aqui. O início é mais focado em techno quebrado e uma grande parte está focada em produções de halftime e com um feel híbrido, e espelha muito do que gostava de ouvir mais por cá. Para mim é um reflexo de digging e de construção de uma história, tendencialmente é o que aplico sempre como um fio condutor, e tinha saudades de tocar temas meditativos e hipnóticos, alguns com um toque dubby pelo meio, e no fundo é para viajar um bocadinho. Pensei numa paisagem mental entre algo pantanoso e desértico, e foi o que se traduziu em som.
Para terminar, alguma mensagem ou conselho que gostarias de passar a quem te lê e ouve?
Desacelerar. Acho que na rapidez toda destes contextos falta olharmos um bocadinho para nós enquanto ouvintes, e não apenas enquanto corpos para serem vistos numa pista. Sou da opinião que a música é para ser ouvida, de forma genuína e sem apetrechos, e se puder proporcionar momentos de imersão e de abertura para qualquer tipo de mood, seja mais cerebral, mais liberto ou mais contido, tal como gosto de me sentir ao ouvir alguém, já fico feliz. Defendo que devemos confiar nos nossos ouvidos e em como o nosso corpo reage, os sentidos estão à frente de tudo o resto.
Tracklist:
Paracusia – Guided Meditation
Grievance – Intro IV
ena b. – Fernweh
Arsène Martinet – Altar
Mitra – Second Skin
Absis – The Wire
MPU101 – breathoutM1r
R-010 – Parábola Resonante
Ilayruni – Tatami
GSXS – Breath of Light (Biocym Remix)
Nils Edte – Oniri (Simone Bauer Remix)
Solma – Clay
Bartoli – Sanctuary
Sciama – Cele
Minù Jr – Kasheme
Solma – The Consciousness of Plants
Floating Machine & Inerte – Reverie
Pianeti Sintetici – Mimoide
Pianeti Sintetici & Simon Oak – Sigilo
Estrato Aurora – Polyfil
Owl & Marimon – PPP3A
Hagva – Khaini
Javier Salazar – Kandahar
Bartoli – Monolith
Du-Das – Dawn Mood
Pechblende – Mists of Forgetting
Ness – Until You Chase It
Fotografia por Pedro Jafuno

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