AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

MOGA Festival exige corpo e carteira, mas compensa com praia e programa

10 Junho, 2025 - 12:42

Experienciamos pela primeira vez a paragem do MOGA na Costa da Caparica. Foi a quinta edição do festival em Portugal.

O MOGA nasceu em 2016 e cresceu com os pés na areia em Essaouira, Marrocos. Mais tarde, em 2021, chegou ao nosso país para um novo poiso no roteiro e parece já ter lugar cativo no calendário de festivais. Sinónimo de praia e calor, o festival funciona como uma espécie de comunidade nómada em movimento, tanto que apelida o seu público de MOGA Tribe, e ainda este ano se irá estrear em Cádiz, Espanha.

Há muito de relevante na proposta de cinco dias do MOGA. À chegada, salta à vista o extenso recinto montado na praia, um cenário privilegiado acompanhado por vários espaços para estar, com o tempo a ajudar durante todo o fim de semana. Ver o mar com gente, dia e noite, sempre com nadadores-salvadores atentos, dá um toque especial ao festival. No som e nos DJs, uma atenção e curadoria certeira para quem vibra com house e géneros próximos. E o MOGA não se fica pela música: houve ioga e surf, mercado, arte, festas gratuitas ao longo da semana, boat parties e até sessões de cinema, como uma exibição do documentário “Paraíso”. Apesar de ser um festival estrangeiro, valoriza o que se faz por cá, com conversas protagonizadas por atores da nossa cena e festas assinadas por projetos como a House Mouse ou a collect.

É claro que há pontos negativos ou menos positivos. Por entre muita gente nas zonas VIP e a ideia de que o público era maioritariamente formado por estrangeiros e nómadas com posses, com influencers acompanhados por fotógrafos pelo meio, o mais difícil de digerir será o preço das bebidas. Só havia copos de 50cl, o que obrigava a pedir cervejas desse tamanho pelo preço de 8€ – e a cidra era 9€. Com os primeiros 20€, teríamos de ativar a pulseira, pagar copo e sobrava dinheiro para apenas duas cervejas. Na atual conjuntura económica, não é fácil e tampouco compreensível.

Chegar à Praia da Morena entre as 21 e as 22h de sexta-feira mostrou também outros aspetos negativos por que temos de passar no MOGA. Primeiro, embora não se demore a chegar à zona do festival desde Lisboa, estacionar é cansativo e quase impossível – assim como é sair de lá, diga-se. O melhor será mesmo usar transporte como táxi ou TVDE, mas, mesmo nesse caso, é contar com trânsito maçador. Já dentro do recinto, sentimos algumas filas nos bares e nas caixas, algo que, ainda assim, estaríamos longe de sentir no domingo, dia já com menor afluência.

Para nós, a aventura começou nessa noite de sexta, com um set de três horas de Maurice Fulton – essas slots extensas são um dos pontos a destacar do festival. Pouco depois de chegarmos à mais reservada das três pistas, Hafla, o norte-americano tocou Bad Girls, de Donna Summer, e passaria por temas de nomes como The Police (When The World Is Running Down, You Make The Best Of What’s Still Around) ou Masters At Work (To Be in Love). Um dos grandes, como provou ali. É bom ter um festival onde se possa ir apanhando DJs e sonoridades não tão habituais em eventos desta dimensão.

Essa sexta-feira contou com nomes como Megatronic, Richy Ahmed, Tiago Oudman, Dexter, Kierastoboy e BLOND:ISH, bem como com after assinado pela lisboeta Bloop Recordings, mas ficamo-nos pelo fecho de Jamie Jones. Mesmo não sendo necessariamente o gosto pessoal de quem vos escreve, há que admitir a envolvência proporcionada, com o som do palco Doukkala – e de todos os palcos, na verdade – a merecer destaque.

Apesar de não termos estado presentes, sábado foi dia de Tolga Fidan, Chima Isaaro, Dan Ghenacia b2b Maxime dB, Nitefreak, Shimza, do elogiado Luciano e de muitos outros. Também foi noite de um momento estranho pelas mãos da polícia e ASAE – subiram a palco em plena noite de festival para se certificarem da legalidade da música, como relatado pela Cadenza Music no Instagram.

No domingo, partimos para a Costa da Caparica por volta das 15h. Pouco trânsito, alguma facilidade a estacionar, tudo para correr bem. Fomos diretamente para a praia, numa zona em que o festival tinha uma divisão de entrada-saída e onde qualquer pessoa poderia estar. Por isso, até mesmo sem bilhete, dava para aproveitar bem a música, particularmente a do palco Sqala por este estar encostado ao limite do recinto. Importante ver que a praia não estava toda concessionada.

Deitados na praia e com Lovefingers por trás, não podíamos pedir muito mais num domingo. Ainda por cima a ouvir temas como So In Love With You, de Duke. Vários grupos de pessoas à nossa volta a aproveitar os últimos momentos, a recarregar baterias, a beber do que a vida tem de melhor. Tudo certo.

Os primeiros atos de domingo incluíam IAMBP, Zengxrl e Luisa no palco Hafla e Saad Tiouly, Anya e Paula Tape no Doukkala. Ficamo-nos pelo Sqala e fomos para a pista assim que começou Yen Sung. Lição house, com muito deep e algum do chamado tribal, proporcionada por faixas como Good Inside, de Joe T. Vannelli, So Let The Wind Come, de Kerri Chandler, a emotiva Love And Tears, de Aquarian Dreams, ou o remate com Spanish Ritual, de Rhythm Masters. Infalível, como sempre, esta figura incontornável.

Seguiu-se um dos grandes destaques de todo o festival e, sejamos honestos, um dos melhores sets que ouvimos nos últimos anos. DJ Harvey é uma lenda – dúvidas houvesse, dissiparam-se ali. Foram três horas brilhantes que não nos deixaram sequer considerar uma ida à casa de banho ou a outro palco. Não queríamos perder nem um segundo. Para se ter uma ideia, o londrino começou com o riff dos Deep Purple em Lazy, passou para a envolvência e o synth de Pink Wax, de Holo, e tocaria até Julio Iglesias aos 30m de atuação. Houve um pouco de tudo, como os breaks pontuais de Joris Voorn em Messiah, o house de Reece Johnson em Wanna Be With You ou sonoridades dos anos 80 como Ending Up On a High (Version 2), de Seventh Avenue, e Let Us Dance Just a Little Bit More, de Secret Service, na reta final. Difícil não ficar rendido. Lusco-fusco. Magia.

Antes de irmos embora, ouvimos Rui Vargas a suceder DJ Harvey com temas como No, de Moodymann, e, já no Doukkala, DJ Tennis em modo turbo a misturar houses enérgicos por entre músicas reconhecidas por todos, como Bad Bunny em NUEVAYoL e Röyksopp em What Else Is There?. Ainda iria haver Seth Troxler e uma festa até então surpresa na segunda-feira, mas a nossa experiência ficou por aí.

No regresso a casa, com areia ainda nos pés, ficou a sensação de que o MOGA reúne os ingredientes para ser um festival especial. Oferece momentos de programação bem pensados e um cenário raro no circuito português. Por outro lado, também carrega vícios de um certo tipo de evento globalizado, caro e algo desigual, por vezes demasiado preocupado com a estética.

No fim de contas, há mérito numa proposta que inclui música e atividades gratuitas e que mostra respeito pelo que se faz por cá. E é difícil não valorizar uma curadoria atenta aliada a um cenário idílico.

Fotografias por Alice Sutton e Inês Machado / MOGA

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