AUTOR

Daniel Duque

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Reportagem

OUT.FEST 2026: Não sabemos de onde viemos, mas sabemos para onde vamos todos os anos

16 Outubro, 2026 - 14:23

Na 22ª edição, o OUT.FEST voltou a cumprir o propósito de dar alguma da música exploratória mais estimulante do momento.

Grande loucura. Em todos e nos melhores dos sentidos. Durante quatro dias, o OUT.FEST voltou a transformar o Barreiro numa cidade que oferece tanto em matéria de som, muito deste a desafiar convenções, e não só. É música e público livres num mundo que queremos habitar todos os anos. Vamos sempre para uma aventura pela incerteza, com a certeza de que sairemos enriquecidos.

“Mudei-me para aqui por causa do OUT.FEST”, contou-nos a certa altura Vitor Paixão, DJ que assina com o apelido e que esteve responsável por encerrar a primeira noite na cervejaria O Espaço, numa rua que circunda o Parque Catarina Eufémia, onde passou discos de nomes como László Hortobágyi (o tema Culture of Bass), Holy Ghost Inc. (A Walk On Air) ou Higher Intelligence Agency (Conoid Tone).

Antes disso, a abrir a noite de quinta-feira, Xavier Paes e Inês Tartaruga Água. Num espaço de passagem do Auditório Municipal Augusto Cabrita (AMAC), apresentaram “Berrante”, uma performance de enorme esforço físico, supomos, que consistia em arrastar grandes postes de madeira no chão, criando um drone que nos ia envolvendo e levando até ao estado de espírito ideal para aproveitar o OUT.FEST. A dupla levou uma peça diferente para cada um dos dias, tendo ainda apresentado “Passage to Crystallization”, “Variações para piões nº1” e “Puro spirito”.

Lê também: Ventoinhas, garrafas e piões: Inês Tartaruga Água e Xavier Paes, respigadores do som (Público)

Nesse primeiro dia, que havia arrancado com a conferência “These Abilities: Perspectives on Music & Disability”, o público transitou para o auditório do AMAC para ouvir os frutos de uma residência nesse espaço, no âmbito do projeto europeu tekhnē, de Whitney Johnson, Lia Kohl e Macie Stewart. A partir de violino, viola-de-arco e violoncelo, usando também voz e processamento eletrónico, o trio da cena de Chicago até começou por não nos captar muito a atenção por não parecer novidade, mas rapidamente nos perdemos na corrente que tanto remetia para coordenadas drone como para, pontualmente, música devocional. O disco que as três lançaram este ano, “BODY SOUND”, dá para ter uma ideia do que foi este concerto.

Autoapelidado de Festival Internacional de Música Exploratória no Barreiro, o OUT.FEST oferece um programa multidisciplinar que não olha apenas para o futuro. À 22ª edição, isso não foi exceção. Exemplo perfeito é a homenagem que se fez a Phill Niblock, a importante figura da música experimental e também da arte intermédia que faleceu em 2024.

Esse tributo fez-se em duas frentes. Em permanência na cave da cervejaria O Espaço, servida de sofás e almofadas para sentar, a instalação “The Movement of People Working” levou um “ciclo de filmes silenciosos que observa o trabalho manual em diferentes geografias do mundo enquanto coreografia de gestos, ritmo e tempo”, algo que se inseria na perfeição numa cidade trabalhista como o Barreiro.

Fotografias por Vera Marmelo

Na sexta, dia que marcaria o 93º aniversário de Niblock, André Gonçalves, Manuel Mota, Margarida Garcia e Rafael Toral abriram a programação na SIRB “Os Penicheiros”, local histórico fundado em 1870, com duas peças para guitarra elétrica escritas pelo norte-americano. Todos “antigos bolseiros orientados por Niblock”, como aliás Gonçalves conta nesta entrevista, os quatro celebraram a vida do estadunidense num contínuo quase imutável ideal para deitar no chão do espaço – como tantos fariam nesse e noutros concertos, aliás. O som estava muito alto para nós e acabámos por ficar apenas uns 20 minutos antes de sairmos da sala. Com aquele volume, não saímos verdadeiramente.

JJJJJerome Ellis – pessoa com gaguez, daí a estilização do nome – assinava o próximo concerto, que seria de rap, nas palavras de próprie no início, informação importante tendo em conta a discografia. Nome de modéstia evidente – agradeceu a vários membros da equipa do OUT.FEST antes do arranque – estava de olhos fechados a ouvir o concerto anterior no bar da SIRB. Uma espécie de preparação para a energia contagiante que se seguiria e que teria as letras a passar no ecrã, qual karaoke para quem estivesse a par dos temas.

À noite, pós-jantar, a ADAO (Associação para o Desenvolvimento das Artes e Ofícios) torna-se um dos principais lugares do roteiro – é, aliás, o lugar das horas noturnas na sexta e no domingo. Localizada ao lado da linha de comboio e outrora um quartel de bombeiros, é amostra clara da mística do Barreiro e do OUT.FEST. Por lá, o programa decorre entre um palco na garagem e outro à entrada, este segundo no centro da sala a permitir que o público circunde a atuação.

Não contando com os DJ sets que encerram as noites de sexta e sábado, os concertos são consecutivos e quase sempre de 45 minutos. Isso obriga a não parar ou, parando, a perder uma atuação. Nessa noite, a abrir, Klein num regresso aguardo por tantas pessoas, mas, sejamos sinceros, não conseguimos estar muito tempo. Acabados de jantar, o espaço da ADAO é muito convidativo ao lado social e acabámos por privilegiar isso mesmo depois de não termos ficado convencidos – gosto pessoal – nos primeiros minutos da londrina.

Mais atentos estivemos em _farming, dupla de Adriana João e Moss Kissing, também cúmplices em Zacharias, concerto que pôs gente a chorar através do violino da primeira, a guitarra e voz do segundo e uma componente de canção bem acentuada e confortável. Seguir-se-ia DEAFKIDS, ato bem imperdível, mas, entre digestão, _farming e o lado social, preferimos guardar energia para o que se seguiria.

Difícil não olhar para Senyawa como um dos grandes atos do festival. Vindos de um país e cidade com uma cultura noise e experimental tão forte quanto Indonésia e Yogyakarta, Rully Shabara e Wukir Suryadi trouxeram o lado DIY costumeiro dessa cena e uma música que, partindo de um instrumento customizado em que se batia com um arco em cordas ou de pedais de efeitos a dar reverb à voz algo punk, tinha tanto de aconchegante como de assoberbante, se é que isso faz sentido. Podia colocar-se isto em várias prateleiras, como música industrial, mas pouco há de interessar quando a certeza é que, ali, entramos num lugar bem único de onde não queríamos sair.

Festival de experimentação como é, o OUT.FEST daria ainda lugar ao rap de Pink Siifu, que na parte final andava empoleirado no palco, contudo não prestamos muita atenção. A fechar a noite de sexta, a britânica Josey Rebelle, que também não nos agarrou muito à pista. Tocou faixas boas, sim, como Uuuur, de SHXCXCHCXSH, Frictional Beat No. 4, de Shake, e teve variedade, passando por bpms altos da dança britânica, por exemplo, mas pareceu faltar alguma coesão. No fim, ficámos com a ideia de que o clubbing talvez possa estar sempre reservado a DJs da cena portuguesa pois, suspeitamos, quem fica até ao fim ficaria fosse esta ou outra pessoa com a missão. Desde que seja DJ, claro está.

Sábado começou bem cedo, às 11h, com Alëna Koleso, artista sediada no Barreiro e vencedora da Bolsa de Criação Local OUT.RA 2026, e um passeio sonoro chamado “Backstage”, que teria também lugar no domingo à mesma hora. Supostamente iríamos estar presentes na segunda soundwalk, mas uma leitura errada dos horários no site da Transtejo Soflusa – vimos Barreiro-Terreiro do Paço em vez de Terreiro do Paço-Barreiro – fez com que perdêssemos esse momento. Triste irresponsabilidade.

Para nós, esse terceiro dia começou na Sala 6, pelas 17h, com Sara e Tralha, aliás sa🎀ra, artista do tundra coletivo cuja obra assenta em princípios de colagem e não só. Até ali, levou a sua desconstrução que bebe de atmosferas dubby ou de beats de hip-hop, passando por verdes anos, tema que integra “coração de hoje”, editado este ano pela Rotten \ Fresh, enquanto envergava a camisola do movimento Vida Justa. Cerca de 30 minutos bem confortáveis.

Seguir-se-ia a muito elogiada e, dizem-nos, emotiva Maggie Nicols, figura escocesa com 78 anos, mas queríamos ouvir Rita Silva & Mbye Ebrima, duo que ainda não tínhamos tido oportunidade de apanhar. Na SIRB, a portuguesa servia a paisagem através do sintetizador modular, enquanto o músico da Gâmbia partia de kora, voz e tradição para ser uma espécie de protagonista. Entre detalhes como as vestimentas ou percussão numa espécie de vaso, Mbye Ebrima foi guiando um concerto que nos falava sobre histórias de felicidade ou união. “We are all equal”, disse a certa altura. Que rico é ser-se humano e que rico e transcendente foi este concerto.

Pela mesma hora, na Oficina Ruiforauto, houve “Réquiem para uma máquina de tricô”, de bujiwa, Sofia Nunes e Marta Nunes, mas não conseguimos apanhar. Imaginamos que deve ter sido especial – pelo som, sim, e também pelo espaço, que na verdade serviu de base para gravações usadas durante o concerto.

Ainda n’Os Penicheiros, munidos de não sei quantas CDJs, Demdike Stare e Cherrystones fizeram com que fôssemos remetidos para um espaço denso que nos pôs colados em sonoridades algures entre dark ambient e metal. O trio editou este ano “Who Owns The Dark?” e tocou pelo menos um tema desse disco, Thee Oath. Estava aberto o apetite.

Com menos tempo de pausa para jantar, quisemos ir até ao Gasoline – outro espaço com aura única na cidade – para apanhar o noise de Engrenagem Necrofilia. A densidade pôs-nos a ouvir desde cá de fora e foi daí que ouvimos também o showcase do grupo de trap Junkie Money – melhor booking do festival, para nós, por dar um palco destes a jovens – e o início de Slikback, que passou por produções próprias como TIDAL. Aí, ainda iria tocar BLEID, todavia queríamos apanhar NikNak na ADAO.

A suceder Karen Willems, a DJ de Leeds começou com calma, através da sua Ikigai, antes de chegar a um lado de dança como You Were Supposed To Be Good, também um tema seu. Bloco de notas esquecido, ouvidos e corpo no que NikNak tinha para dar.

Tendo em conta os já referidos concertos consecutivos, acabámos por ignorar Guttersnipe – também de Leeds, já agora – e regressar à pista em TNL. Formado por dois nomes fortes da cidade do Porto, cada qual pelas suas razões, o duo de Tendency e Nuno Loureiro é marcado pela mestria de DJing do primeiro e pelo segundo a trabalhar na Elektron Octatrack, em tempo real, as músicas lançadas por Tiago Carneiro. Não há muito a dizer senão o facto de se tratar de um projeto para acompanhar de perto e para aprender formas de desafiar o conceito de DJ set e live act, para citar descrições oficiais que se encontram por aí.

O final da noite foi coisa linda. Primeiro, Deli Girls, projeto conhecido por muitos mas que ouvimos ali pela primeira vez, num concerto marcado por temas como Officer e por uma onda sem par que nos deixou atentos e com vontade de ouvir mais. Político, como se quer, ao mesmo tempo que é enérgico, dançável e viciante. Quando cá voltarem, lá estaremos.

A fechar, Helviofox com um momento incrível a provar que o OUT.FEST e o seu público são abertos a tudo. De Nuno Beats & Deejay Poco em Festa da Paz a DJ ADAMM & Styn em COMÉ KIÉ, a passar por faixas próprias como Monengue foi ou ME TOCA, o jovem (bem jovem, diga-se) trouxe aquela energia batida que é e foi muito bem-vinda.

Chegados a domingo, a nossa aventura começou na Biblioteca Municipal do Barreiro, numa sessão de escuta com Guy-Marc Hinant, que havia conduzido outra “Listening Room” no dia anterior. Neste caso, o patrão da Sub Rosa mostrou-nos discos de nomes como Ahmed Essyad, Bernard Parmegiani ou Henri Pousseur para nos falar sobre experimentos de música eletrónica e eletroacústica. Mais uma vez, o OUT.FEST a mostrar-se professor.

Na SIRB, o dia começou com Megabasse a ocupar o espaço com uma guitarra de dois braços – um deles com 12 cordas, se não estamos em erro – virado para os amps à medida que nos encantava e envolvia numa espécie de psicodelismo. Nesse espaço, o último concerto seria de Shane Parish e o seu “Autechre Guitar”, que para nós, sem querer desvalorizar a ideia, foi algo pretensioso pois podemos encontrar isto ou melhor num concerto de um qualquer mestre de guitarra clássica.

Pelo meio desses dois, um destaque absoluto e um dos grandes concertos do ano. Susana Santos Silva & Oren Ambarchi num momento em que, pelo menos deste lado, o tempo suspendeu. O espaço também desapareceu. A dupla – que dupla! – fez da minúcia e do detalhe uma das matérias. Cada gesto, cada silêncio. Ambarchi ia construindo uma ambiência com modular e guitarra, Santos Silva ocupava com o trompete e uma mestria como poucos. A certa altura, a portuguesa chegou mesmo a desenroscar uma parte do trompete. Uau. Não há pressas. Tudo conta. E a sensação de que nunca tínhamos estado naquele lugar. Especial é dizer pouco.

Regressamos à ADAO com toda a calma, ou não fôssemos ter um momento que se previa louco no final do dia. Mas agora que ouvimos Weed420 em casa, fica a pena de só termos apanhado alguns minutos da banda venezuelana e do seu cunho muito próprio, isto já depois de termos perdido a última performance de Xavier Paes e Inês Tartaruga Água e Carla dal Forno.

No entanto, havia a lenda japonesa Yamantaka Eye (∈Y∋) ao lado de C.O.L.O. Se é para acreditar na criação ou numa entidade divina é agora. Não nos lembramos de um gig tão especial a nível de intensidade quanto este em tempos recentes. Com a sala fechada, escura e o público calado e respeitador, fomos enfeitiçados por um momento que nos faria lembrar clubbing a certa altura – pelas reminiscências pontuais de um gabber ou também pelo sentido de estarem corpos a ser guiados por altos e baixos – mas que foi maioritariamente exploratório dentro de trilhos noise. Para os visuais de C.O.L.O, somos sinceros, quase nem olhamos. O som já era tanto que não conseguíamos abrir os olhos, embora tenhamos visto, a certa altura, umas máscaras maradas a mudar de cor constantemente, quais efeitos psicadélicos num qualquer ecrã de um festival de trance. No início, quase achávamos que não iriamos aguentar. Quando terminou, não queríamos sair de lá.

Já no barco, de regresso ao outro lado do rio, a sensação com que já tínhamos saído noutras ocasiões. O OUT.FEST oferece um roteiro de descoberta – tanto de música como de pares – que só se explica estando lá. E talvez seja essa parte da loucura que falávamos no início: um festival que nos leva sem sabermos bem para onde, mas com a certeza de que estamos no sítio certo.

A conclusão parece ser sempre a mesma: queremos lá voltar sempre que possível.

Fotografias por Vera Marmelo, cedidas pela organização

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