Na senda do seu regresso aos EPs, Caroline Lethô assina o novo episódio do nosso podcast de mixes.
Já andávamos a tentar fazer isto acontecer há muito tempo e está finalmente aqui. Caroline Lethô chega com pompa e circunstância ao podcast N’A CABINE, com uma viagem que passa “por diferentes atmosferas, cruzando o ácido, o groove e paisagens mais mentais e emocionais.”
Música e DJ natural de Faro, Carolina Mimoso é prata da casa da cena portuguesa há vários anos. Para dar alguns exemplos, assinou sets um pouco por todo lado, lançou por selos como ELBEREC, INFINITA e Rave Tuga, esteve envolvida em projetos como a extinta Intera, fez rádio e, entre outras aventuras, apresentou-se em formato live, num âmbito mais ambient, em festivais como Waking Life, no Crato, e Elétrico, no Porto. Em 2025, esteve ainda na coprodução do festival Mud Re Terra.
Este episódio é lançado pouco tempo após Caroline Lethô regressar aos releases com “Transmutations”, EP editado pela Beat Palace Records, de Anna Prior, em finais de agosto. O trabalho foi produzido a partir de “um live set que criou” durante “uma fase de grande transição, um período em que deixou a cidade”, tendo o curta-duração evoluído “de forma orgânica à medida que vivia essa mudança.”
Como explica a própria na entrevista que podes ler abaixo, tudo “começa com uma energia mais crua e psicadélica, passa por momentos mais melódicos e introspectivos, e volta a ganhar corpo aos poucos.” Pelo meio, faixas como Hard to Find, de Vil, e Calibration, de GiGi FM. Mergulha aqui:
Podes recordar um pouco do teu percurso? Quem é a Caroline Lethô e como decide ser DJ?
Caroline Lethô é o meu alter ego artístico, uma extensão de mim onde exploro a liberdade através do som. Nasci e cresci em Faro, onde a música sempre esteve presente — desde cedo, estudei música, explorei o jazz, o blues e o funk, e comecei a tocar bateria e baixo, muito por influência do meu pai, que sempre me incentivou a mergulhar nesse universo.
Mais tarde, a minha curiosidade pela música eletrónica despertou num bar chamado NORDIK, um espaço muito especial em Faro onde comecei a absorver essa cultura mais de pista — foi ali que percebi que havia algo naquele som que me chamava profundamente, ainda sem saber muito bem o quê.
Quando me mudei para Lisboa para estudar, tirei um curso de música eletrónica e foi aí que comecei a explorar o live act como forma de expressão. O DJing veio depois, de forma natural — primeiro em casa, por curiosidade, depois como ferramenta de partilha e conexão. A minha primeira experiência profissional como DJ foi no Lux Frágil, num momento muito especial para mim: o lançamento da compilação da Labareda. Foi um verdadeiro rito de passagem, e a partir daí senti que entrei num fluxo — as coisas foram acontecendo e eu fui simplesmente a confiar, a seguir a onda.
Consegues definir algumas influências deste caminho? O que te marcou e marca dentro da música?
Ao longo do meu percurso, fui sendo moldada por várias influências — algumas mais conscientes, outras que só percebi com o tempo. Crescer a ouvir jazz, blues e funk, e a tocar bateria e baixo, deu-me uma base muito forte na escuta e na relação com o ritmo, com o corpo da música. Isso ficou sempre comigo, mesmo quando comecei a explorar linguagens mais eletrónicas.
O que me marca verdadeiramente são os estados que a música pode provocar — essa capacidade de nos transportar, de abrir espaço interior, de conectar pessoas sem palavras. Sempre fui muito guiada por aquilo que sinto ao ouvir ou tocar música, e isso continua a ser o meu maior motor criativo.
Também me inspira muito o contexto em que a música acontece. Lugares onde há entrega, onde as pessoas dançam com o corpo inteiro, onde se cria uma energia coletiva intensa — esses momentos em que tudo faz sentido, mesmo sem sabermos explicar porquê. É isso que me influencia, mais do que qualquer género ou referência: o impacto emocional e sensorial do som.
Foste uma das poucas portuguesas a participar na Red Bull Music Academy. Volvidos todos estes anos, como olhas para os frutos dessa participação?
Participar na Red Bull Music Academy foi uma experiência quase utópica. Tudo o que vivemos lá foi algo que marcou profundamente — desde a troca de ideias com outros artistas até a liberdade criativa que nos foi dada. Era como se estivéssemos num espaço à parte, onde a música se tornava o nosso único foco, longe das pressões externas.
Na altura, parecia um sonho, mas com o tempo percebi que o que ficou dessa vivência foi uma confiança enorme na minha identidade artística e uma clareza sobre o que queria para o meu percurso. A RBMA foi um momento de descoberta e imersão total, algo que, até hoje, continua a influenciar e a alimentar o meu trabalho. O mais valioso foi a experiência em si — foi ali que percebi que a música é muito mais do que só técnica, é também uma linguagem universal que nos conecta de formas profundas.
Estiveste também envolvida noutros projetos, como é caso da Intera. Podes falar um bocadinho sobre essas aventuras?
A Intera foi um coletivo de música eletrónica que surgiu com o objetivo de quebrar barreiras e rótulos, promovendo a colaboração, crescimento e inclusão, sem distinções. O projeto durou de 2017 a 2019 e foi uma verdadeira celebração da diversidade sonora e da liberdade criativa.
Durante esses dois anos tornou-se numa plataforma para artistas locais e não só, criando experiências únicas. Tínhamos um foco em transformar espaços de clubbing em ambientes de reflexão sobre os desafios da indústria da música. Trabalhar com artistas que admiramos e que partilhavam uma visão semelhante foi uma experiência de aprendizagem constante e colaboração enriquecedora.
É muito gratificante ver que muitos dos artistas com os quais trabalhamos desde o início das carreiras, hoje estão bem consolidados e lançados.
Embora o coletivo tenha terminado em 2019, as lições que aprendi e as amizades que fiz continuam a ser um legado importante na minha trajetória.
Penso que tens viajado muito nos últimos tempos. De que forma isso te inspira e influencia a continuar o teu caminho na música?
Viajar tem sido a minha maior escola de vida. As pessoas, sem dúvida, são o maior tesouro que trago de volta dessas experiências.
Nos últimos meses, fui bem fundo às minhas raízes em Goa, participei em eventos que nem sei como explicar, mas que me encheram de energia — desde o Magnetic Fields ao Serendipity, passando por partilhar a cabine com novos amigos e o Sultry Mist!
Esses momentos trouxeram-me uma sensação de expansão. Além disso, viajar faz-me perceber que existe uma linguagem universal no som — a música tem o poder de atravessar fronteiras e conectar pessoas de formas muito profundas. Cada viagem é uma oportunidade de aprender algo novo, de desafiar-me a explorar diferentes sonoridades e, ao mesmo tempo, de me reconectar com a essência do que faço.
Como vês a cena de música eletrónica no nosso país?
Vejo talento, criatividade e resiliência. Há uma nova geração cheia de vontade de fazer acontecer, e muitos projetos interessantes a nascer — mesmo com poucos recursos. Ainda existem desafios estruturais, mas sinto que estamos num momento fértil e cheio de potencial. É bom ver o talento nacional a ser cada vez mais reconhecido fora, mas, ao mesmo tempo, ainda se sente uma segregação muito grande dentro da própria cena, o que ainda precisa de ser superado para que todos possam ter as mesmas oportunidades.
Como olhas para o papel de DJ? Como é que te descreverias nesse sentido?
Para mim, o DJ é como um condutor de energia, alguém que lê e molda o espaço através do som.
O meu objetivo é criar viagens que não sejam óbvias, que transcendam a simples performance e liguem o corpo e o espírito, criando uma experiência imersiva. Gosto de explorar momentos que desafiam as expectativas e que tragam uma conexão mais profunda entre a música e as pessoas. Trabalho com o que estou a sentir no momento e dou espaço ao inesperado, acreditando que a magia da música está em estar totalmente presente e em sintonia com o que está a acontecer, mais do que seguir um plano fixo. Cada set é uma oportunidade para me conectar com a pista de dança e reagir ao que ela me traz, criando um fluxo único a cada vez.
No meu trabalho tento misturar o orgânico e o eletrónico, explorando diversas influências através de paisagens sonoras e culturas. Com formação em técnica de som e uma paixão por criar experiências imersivas e emocionais, exploro o poder das vibrações e do ritmo para conectar e elevar o público.
Abraço a liberdade e a autenticidade tanto na minha arte quanto na minha vida. A minha jornada musical passa por espaços íntimos e grandes festivais, e continuo a crescer através de colaborações e novos projetos que ressoam de forma profundamente pessoal. A minha abordagem única ao som e à performance cria um ambiente onde os ouvintes se podem perder no momento, livres das limitações do tempo e do espaço.
O que decidiste preparar para este podcast?
Para este podcast preparei uma seleção que viaja por diferentes atmosferas, cruzando o ácido, o groove e paisagens mais mentais e emocionais. Foi gravado ao vivo na Outra Cena há uns fins de semana. Começa com uma energia mais crua e psicadélica, passa por momentos mais melódicos e introspectivos, e volta a ganhar corpo aos poucos. Escolhi faixas que me fazem mexer por dentro, outras que têm aquele sabor de rave old school e algumas mais misteriosas e texturais. Não segui um plano fixo — fui guiada pela intuição e por aquilo que o momento me pedia.
Para terminar, alguma mensagem ou conselho que gostarias de passar a quem te lê e ouve?
Segue o que te move. Escuta-te com atenção e confia na tua visão, mesmo que não faça sentido para toda a gente. A beleza está na verdade de cada um, e a música — como a vida — ganha quando somos fiéis a nós mesmos. Não tenhas medo de seguir o teu próprio caminho, mesmo que ele seja incerto ou fora do convencional. A arte é um reflexo da nossa essência, e o processo de criação deve ser uma forma de explorar e expressar o que nos faz sentir vivos. Acredita em ti, porque quando te manténs autêntico a conexão com os outros e com o que fazes torna-se verdadeira e poderosa.
Fotografia por Zé Maria

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