Dois anos volvidos de um conjunto de noites onde pudemos testemunhar o “triunfo da cultura DIY” a que a organização se propôs, regressámos ao Ano Q preparados para sentir o pulso à cidade.
No anúncio desta edição do festival, a Rádio Quântica destacou a vontade de oferecer uma “alternativa ao status quo de uma Lisboa cada vez mais gentrificada”, e o cartaz deixava a antever uma proposta curada nesse sentido. Entre nomes mais experientes e artistas e coletivos a despoletar na cena alternativa lisboeta e nacional, o desafio ao mainstream era palavra de ordem.
Também por isso, lamentamos desde já que esta reportagem não inclua um registo mais completo dos concertos que fizeram o festival. Compromissos previamente agendados não nos permitiram estar tanto tempo na Galeria Zé dos Bois como gostaríamos. Por outro lado, pela importância que reconhecemos ao Ano Q, não podíamos evitar o esforço de estar presentes tanto quanto possível. Adiante.
Chegámos então à ZDB já perto das 23h de sexta-feira, mesmo no momento final da performance de Isma(el), especialmente desenhada para o festival e, também, a primeira que lamentamos não ter experienciado. Ainda assim, deixamo-nos contagiar rapidamente pelo ambiente positivo que já se sentia no espaço, enquanto vamos ouvindo elogios a este concerto de abertura.
Mesmo à hora certa, uma pessoa da organização vem ao pátio da ZDB anunciar em voz alta o próximo concerto. Pontualidade foi uma garantia ao longo dos dois dias e apreciamos sempre este esforço extra de juntar as massas à frente do palco.
Tínhamos então reencontro marcado com Suzana Francês, no mesmo palco onde, em Janeiro, ficámos seus fãs, num concerto que antecedeu a apresentação de “Kissom”, de XEXA. Não foi por isso novidade para nós que a projecção de vídeo tivesse tanta importância nesta performance, mas fomos sim apanhados de surpresa pela “intro”. Cerca de 3 minutos de imagens que serviram como um portal para a infância da artista onde, entre outra coisas, podemos ver uma Suzana de apenas 3 anos já com o violino na mão.
Entre faixas onde nos hipnotiza com a sua voz assombrosa e outras onde o violino e as electrónicas não nos deixam ficar quietos, a versatilidade de Suzana voltou a estar evidente desde o início do concerto. Depois de uma primeira canção mais serena e com os instrumentais apenas como pano de fundo, a artista pegou no violino e a sonoridade mudou de imediato.
À medida que a plateia ia crescendo, o virtuosismo que se sentia na combinação entre o violino tocado ao vivo e os beats lançados pelo seu DJ inundavam a sala com uma atmosfera muito particular. Noção, faixa de 2026, revela-se a epítome de um encontro entre serenidade e urgência, numa combinação de emoções que vai levando o público a desfazer-se em palmas e elogios, faixa após faixa. Antes do final, espaço para mais canções, agora num estilo mais pop, numa espécie de neo-tradicionalismo que tem sido muito popular em Lisboa. O ritmo é sempre palavra de ordem na música de Suzana e o concerto acaba de forma triunfante, com um encore muito pedido pelo público, que sobe ao palco e termina em festa com a artista.
De seguida, algo completamente diferente, com o violino e pedais de Helena Silva a tomarem conta do palco. Instrumentos iguais para sonoridades distintas, estamos agora de frente para uma abordagem mais clássica no contexto experimental. Também por isso, não nos surpreende que a sala esteja agora mais vazia e que o pouco público esteja sentado.
Mas, se ao início também estávamos cépticos desta escolha de alinhamento, o momento de repouso e introspecção proporcionado pela beleza absoluta da música ouvida ao longo do concerto rapidamente nos fez mudar de opinião. E embora a plateia continue mais vazia do que gostaríamos, as pessoas que se foram juntado a nós nesta viagem parecem reforçar o sucesso desta escolha. De resto, se as composições etéreas de “Celeste”, álbum de 2025, já não deixavam margem para grandes dúvidas, agora podemos confirmá-lo: Helena Silva já é um dos nomes mais relevantes da música atmosférica em Portugal.
Segue-se o concerto de Má Estrela, que já se previa ser uma nova mudança repentina no ambiente musical vivido e ouvido na ZDB. O quinteto agora composto por Pedro Sousa, Bruno Silva (tcp Ondness, Serpente), Simão Simões, Bruna Moura e Gabriel Ferrandini trouxe-nos uma cacofonia harmoniosa que, arriscamos, é única no nosso país. Com o saxofone de Sousa sempre presente entre a energia desmedida da percussão e electrónicas, e o baixo a procurar ser elemento apaziguador no meio do caos sónico em palco, para nós esta foi uma espécie de consagração de um dos projectos mais interessantes dos últimos anos em Lisboa (e não só).
Sem surpresa para qualquer pessoa que tenha ouvido “Tornada” (2025) ou qualquer outro registo de Má Estrela, apesar dos instrumentos mais associados a outras sonoridades, o experimentalismo bruto desta performance transporta-nos para um universo onde os breaks, o dub e outras vertentes mais associadas à música club vivem sem pretensões. Já estávamos a chegar ao fim quando a bateria e as electrónicas finalmente deram tréguas e, de repente, nos lembrámos que este também poderia ser um concerto de free jazz.
Pouco importam os rótulos, o que levámos para casa foram os 35 minutos de hipnotismo sónico e uma dor de maxilar por estarmos constantemente de boca aberta, única reacção sensata ao que acabámos de ver.
Para terminar a noite, Nazar estava de volta a Lisboa e prometia pegar ao fogo ao sistema de som da Galeria dos Zé dos Bois. Se em 2024, no OUT.FEST, a acústica da sala foi entrave a um, desta vez nada pôde impedir a sua performance de entrar directamente para o topo dos melhores lives de electrónica e club a que já assistimos.
Com um setup híbrido de 3 CDJs e um microfone, o artista angolano entrou a rasgar com o seu estilo inconfundível e catártico a que, com toda a razão, o próprio chama de “rough kuduro”. E no Ano Q, pudemos ouvir Nazar a homenagear a sua própria história, entre os êxitos de “Guerrilla”, disco de 2020 com selo da Hyperdub, ou faixas como Tyranny, de 2016. A título pessoal, ter finalmente a oportunidade de escutar e dançar Why (de “Guerrilla”) num sistema de som apropriado foi motivo suficiente para considerar a primeira noite de Ano Q um sucesso.
Apesar do entusiasmo com que acabámos o primeiro dia de festival, já só conseguimos regressar à ZDB pelas 23h de sábado, com Phoebe prestes a tomar os decks e, claramente, já na fase clubbing da noite. Enquanto na pista o techno que se escuta ainda não nos vai puxando muito, cá fora apreciamos mais uma vez o bom ambiente vivido no festival, embora a esta hora com menos público.
É com a percussão expressiva de Drive By, de Dj Plead, que Phoebe nos agarra finalmente na pista. Até ao final do set, o DJ e produtor, membro de coletivos tão importantes como a mina e a própria Rádio Quântica, colocou a bass music em destaque e nós não voltámos a arredar pé. Estava dado o mote para um final de noite em que a percussão era rainha e dançar imperativo.
Seguiu-se o DJ set de Tendency, patrão da Perf e um dos DJs mais entusiasmantes da cena portuguesa. Como já é habitual com o portuense, o seu setup era composto por pratos e CDJs, não fosse alguém ter dúvidas que estávamos prestes a assistir a algo tão especial como ambicioso.
E se fomos surpreendidos no início pela suavidade do dub, rapidamente chegamos ao ritmo mais frenético da bass music, com Impulse, de Forest Drive West, a ter o mérito de começar a puxar público para uma pista que estava demasiado despida. Daí para a frente, do jungle ao dub e com uma pequena passagem pelo happy hardcore, Tendecy foi sempre a fundo, num set de breaks que soou verdadeiramente futurista ou até cinematográfico.
Para terminar, Mix’Elle, DJ consagrada na cena do jungle e drum’n’bass português e residente da saudosa festa Angel, fez o que melhor sabe e abraçou os bpms elevados até ao final da noite.
Numa altura em que já nos estávamos a sentir obrigados a reflectir na quase ausência de corpos a dançar na pista da ZDB, a mestria de Mix’elle conquistou muitos transeuntes que ainda se encontravam do outro lado da porta. A plateia bem composta e o calor humano que se fazia sentir no final da noite, é mérito não só dos seus skills de DJ, como de produtora, com a escolha de faixas como Touring, do seu EP “Spiritual Rhythms”, que não podemos perder a oportunidade de recomendar.
Chegados ao fim do festival, é mais uma vez óbvio que a Rádio Quântica e os colectivos que orbitam à sua volta têm o condão de conseguir sentir o pulso a Lisboa e aos seus subúrbios como poucos agitadores culturais na cidade. Aliás, tanto pelas actuações que tivemos oportunidade de ver, mas também levando em conta o feedback que fomos ouvindo dos concertos em que não marcámos presença, este foi um festival de afirmação para uns e consagração para outres.
Assim, se já o era num passado mais próspero e prolífero para a cena alternativa em Lisboa, em 2026, o Ano Q reforçou a sua importância ao provar que há artistas e pessoas com vontade de resistir à assombrosa gentrificação cultural da cidade.
Fotografias por Eduardo Gonçalves

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