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2019: Melhores lançamentos nacionais

3 Janeiro, 2020 - 13:25

Voltámos a ouvir os discos portugueses de 2019 para escolher aqueles que mais nos marcaram.

É sempre uma tarefa difícil definir os “melhores”. Neste caso, foi também um trabalho árduo, pois claro, especialmente porque o ano esteve repleto de excelentes lançamentos nacionais, do electro ao techno, a passar por música experimental ou house.

Prova disso é o número de releases que definimos pois, inicialmente, seriam apenas 10 a integrar esta lista. Sentimos, no entanto, que mais seis trabalhos merecem também o seu lugar nestes “melhores lançamentos nacionais”, o que nos levou a alterar o plano inicial. Ainda assim, muitos ficaram de fora, mas estes 16 são, sem qualquer dúvida, aqueles que mais rodaram na nossa redação durante o ano que findou.

Encontra abaixo as nossas escolhas destacadas por ordem alfabética, com textos de Daniel Duque e Rui Castro, e clica no título de cada lançamento para ouvir e adquirir os diferentes trabalhos – como habitual, priorizamos o Bandcamp nesse sentido.

Apart – Porcelana [Rohstoff, 14 de agosto]


Apart sempre se apresentou como um produtor essencialmente techno, mas “Porcelana” é mais virado para a música ambient. Este álbum de estreia do músico da Figueira da Foz é altamente emocional, algo que, mesmo se a própria Rohstoff não o referisse, seria fácil de perceber ao escutar esta cassete (ou a versão digital). Afinal, o próprio título indica que se trata de uma história sobre sentimentos frágeis, que é contada com muito nexo e que retrata, acima de tudo, uma paixão bem audível.

Branko – Nosso [Enchufada, 1 de março]


O sucessor de “Atlas” é possivelmente o disco mais pop desta lista, mas “Nosso” surpreende e marca pela forma como é narrado, com qualidade de produção transversal a todo o trabalho. O membro dos extintos Buraka Som Sistema volta a contar com alguns convidados para dar voz a grande parte das batidas quentes, mexidas e que, muitas vezes, bebem inspiração do mundo musical africano. Pelo meio há convidados a cantar em inglês, como Umi Copper, em português, como Dino d’Santiago e Mallu Magalhães, e até em francês, como é caso de Pierre Kwenders.

DJ Nigga Fox – Cartas Na Manga [Príncipe, 5 de outubro]


“Cartas Na Manga” é o mais recente 12’’ de Rogério Brandão na Príncipe, e este título poderia facilmente servir para descrever aquilo que DJ Nigga Fox aparenta ter para dar e vender. Desde os primeiros trabalhos na referida editora até à Warp Records, com “Crânio” (2018), nunca o DJ e produtor foi tão certeiro. “Cartas Na Manga”, o mais longo disco de Brandão até à data, é coeso, coerente e com uma qualidade explícita, explorando várias paisagens sonoras, mas sempre tendo como base um trabalho de percussão africana que vicia desde o primeiro instante.

EDND – Rupture Of Plane [Paraíso, 25 de outubro]


“É por estas e por outras que A Cabine existe. Queremos fazer chegar aos portugueses aquilo que se faz pelo país, e o EP de estreia de EDND, também conhecida por integrar a dupla Roundhouse Kick, não é excepção”, mencionámos nas nossas escolhas de outubro, e não há muito mais a dizer. “Rupture of Plane” é um trabalho pleno em techno de influências da velha guarda (ou não fosse editado pela Paraíso), com vocais hipnóticos, elementos acid, mentais e viscerais cuja simbiose entre “a experimentação inovadora e a eficácia na pista de dança” o torna num dos destaques de 2019.

ggui – Acid Machines Get Love [Lost Thumb Records, 25 de março]


“Acid Machines Get Love” foi uma das maiores descobertas de 2019. Neste EP, o lisboeta ggui presta homenagem às máquinas que nos permitem fazer música, ao utilizá-las para exibir toda a sua polivalência sonora por entre electro, techno, breakbeat e acid. O produto final – bem fora da caixa – não poderia ter sido melhor. E se existisse um pódio para melhores faixas rave nacionais, Ameniza teria de lá estar.

Hélder Russo – Onírico [Percebes, 19 de julho]


Que brilhante trabalho, este “Onírico” de Hélder Russo. Inevitavelmente, é um dos melhores discos de sonoridades house e deep house do ano – o outro também faz parte desta lista. Nem sequer é preciso passar para o lado B para chegar a essa conclusão; no lado A, Dreaming e o remix de Leonidas a essa faixa enchem-nos as medidas por completo. Mas, claro, o lado B é a cereja no topo do bolo. Só temos a agradecer a Hélder Russo e à Percebes.

Holldën – Parable [Trau-ma, 19 de agosto]


Editado pela Trau-ma do madeirense Robert S, “Parable” foi um EP ao qual nos rendemos por completo em 2019. Composto por quatro faixas, todas à volta das 130 batidas por minuto, este trabalho de Holldën revela muito acerca da qualidade com que os produtores de techno nacionais nos presentearam neste ano passado. “Parable” está repleto de groove e detalhes que fazem deste um release hipnótico, mental e memorável. Mas mais do que esses e outros adjetivos, a verdade é que este EP consta desta lista por viciar o ouvinte por completo.

IVVVO – doG [Halcyon Veil, 15 de março]


Cães, cordas, um sample de Jonathan Davis e, entre outros, a ideia de um coro a cantar para nós: é assim que IVVVO, produtor natural do Porto mas a residir fora de portas, abre “doG”, o seu mais recente longa-duração. Editado pela Halcyon Veil, pela qual já havia lançado o EP “Good, Bad, Baby Horny”, este álbum representa na perfeição a exploração sónica a que IVVVO se dedica em estúdio. Não é fácil catalogar “doG” – há várias etiquetas para usar – mas é fácil afirmar que é obrigatório incluir o trabalho nesta lista.

Lake Haze – Glitching Dreams [E-Beamz, 4 de outubro]


Cerca de cinco anos após o lançamento do seu EP de estreia, Lake Haze edita o seu primeiro álbum pela editora inglesa E-Beamz. Ao longo de 11 faixas, Gonçalo Salgado explora um vasto espetro de sonoridades, combinando paisagens distópicas e sonhadoras com a euforia rave e o êxtase característico do electro, IDM, breakbeat ou jungle. Molecule Processing e Dogs Walking In The Park são exemplos perfeitos da disposição antagónica que torna este trabalho tão intrigante e atrativo.

Moreno Ácido & Diogo – Roçadas EP [Holuzam, 28 de novembro]


Num ano em que Diogo se estreou enquanto produtor, lançando “Afectos” pela INFINITA, o DJ juntou-se também ao lisboeta Moreno Ácido para o segundo trabalho da sua carreira. “Roçadas”, editado pela mui interessante Holuzam, revelou ser uma lufada de ar fresco para a produção nacional em 2019. O disco, disponível em versão física e digital, não é electro nem house: é tudo isso e muito mais. Com possível inspiração na música eletrónica dos anos 90, “Roçadas” não deixa de saber a novo e, mais do que isso, não deixa ninguém indiferente.

Neurotoxin – Bishop / Capacitator [Skalator, 29 de novembro]


Este duplo single do duo ribatejano Neurotoxin foi o lançamento nacional de drum’n’bass que em 2019 mais tocou na nossa redação. A ousadia da vertente mais deep do halftime obscuro, pouco usual em pistas nacionais, de Bishop, e a roller tecnicista de Capacitor foram motivos mais do que suficientes para que tal se sucedesse.

Nørbak & Temudo – I Will Guide Thy Hand [Modularz, 17 de maio]


Tanto Nørbak quanto Temudo lançaram brilhantes trabalhos este ano, com passagens em editoras como a Warm Up e a Soma, respetivamente, a marcarem 2019 como um período bem produtivo para ambos – inclusivamente, Temudo editou o seu álbum de estreia, “Do Nothing And Be Wrong”. Escolher “I Will Guide Thy Hand” para esta lista não se deve apenas ao facto de o EP estar bastante apetecível – inúmeros DJs de todo o mundo tocaram faixas deste release durante os últimos tempos – mas foi também escolhido por ser uma prova viva do melhor techno que se faz por Portugal.

Photonz – Nuit [Dark Entries, 11 de outubro]


Este ano, o lisboeta lançou mais música, como é caso de “Shermanworx” e “Angel Heart”. No entanto, é impossível não destacar este eclético “Nuit”, editado pela Dark Entries em outubro – não só como o melhor trabalho de Marco em 2019, mas também como um dos melhores lançamentos nacionais durante os últimos 12 meses. Afinal, não se poderia esperar outra coisa do álbum de estreia daquele que é um dos mais cativantes produtores à escala nacional.

Rogério Martins – Oh Baby EP [Piston Recordings, 19 de agosto]


Vamos diretos ao assunto: “Oh Baby EP” foi dos melhores trabalhos de deep house editados em solo nacional este ano. O patrão da Piston Recordings, Rogério Martins, assina o lançamento nº 500 da editora com sonoridades sublimes, de batidas pujantes e acentuadas, mas extremamente dançáveis. Venham outros 500.

Sensible Soccers – Aurora [15 de março]


Sensible Soccers é um dos projetos que mais tem chamado a atenção nos últimos anos e “Aurora” é prova disso mesmo. Curiosamente, a saída do guitarrista Filipe Carvalho no final de 2017 não impediu o agora trio de se juntar em estúdio e de compôr 10 brilhantes faixas – e, quem sabe, o mais interessante álbum de Sensible Soccers até à data. Com produção de B Fachada, que participa em três músicas com um sintetizador modular, “Aurora” é algo melancólico, mas não deixa de ter momentos festivos e dançáveis, como Elias Katana, criados através das teclas, baixos e synths, entre outros.

Silvestre – Silvestre Is Boss [Secretsundaze, 11 de outubro]


Seja por este trabalho ou pelo “Yeah EP”, a presença de Silvestre nesta lista era inevitável. “Silvestre Is Boss” é, muito provavelmente, o seu trabalho mais sólido e consistente até à data, com cinco faixas polivalentes, onde o cardápio de influências do lisboeta está em pleno – do breakbeat reggaeton de Fuego, passando pelo electro acid de Paying The Rent ou o funky house de Back to Hometown. “É preciso dizer mais o quê? Ganda disco”.

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