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Lançamentos favoritos de outubro

4 Novembro, 2020 - 12:26

Foram vários os trabalhos que marcaram a nossa redação durante o mês de outubro. Difícil foi escolher.

sussurro – dias normais, dia sufocante [1980, 2 de outubro]
Em entrevista ao Rimas e Batidas, sussurro explicou que “há todo um caminho que se percorre” na sua música, que não tem necessariamente “uma posição”. Dizem-lhe que é um EP techno e ele acredita. Mas, na realidade, tem disso e muito mais. É um trabalho de ambiências envolventes, de ritmos frenéticos, quebrados e arrebatadores, de uma peculiaridade que só alguém descontraído e sem rótulos pode apresentar. É, no fundo, uma excelente companhia que tanto serve para dias normais como para dias sufocantes.



Machinedrum – A View of U [Ninja Tune, 9 de outubro]
O novo álbum de Machinedrum pela Ninja Tunes está cá fora. Entre beats de hip-hop, trap, drum’n’bass e outras formas de bass music, o sampling e a sintetização de som do artista mantém-se. Este trabalho conta com colaborações de diversos artistas como Freddie Gibbs, Sub Focus, Father, Chrome Sparks, Tanerélle, entre outros, e a escuta é muito fácil. Fácil e prazerosa.



VA – Better Days [Semi Delicious, 9 de outubro]
Nem sempre um VA tem a importância merecida, e diríamos que muitas vezes é até subestimado. Mas “Better Days EP” contraria a norma, e vem recheado de gourmet auditivo. A faixa que dá nome a este vinil é um house sublime da dupla Manuel Darquart e tem rodado fortemente em loop por cá, desde a sua descoberta. A outra que destacamos é Deep Asleep de Baby Rollén, um acid bem deep, smooth e sensual que nos faz fantasiar no regresso (quase utópico) a uma pista para o podermos usufruir na sua plenitude.



Salbany – Lifeforms [Diffuse Reality Records, 10 de outubro]
O jovem lisboeta Salbany está de regresso a esta lista mensal com aquele que é o seu primeiro álbum, “Lifeforms”. Editado pela Diffuse Reality Records, o disco volta não só a mostrar a ambivalência de Guilherme Alves dentro do espectro techno, mas também por que razão é um nome para manter debaixo de olho no cenário nacional. Com synths cortantes aliados a ritmos frenéticos e outros pormenores, “Lifeforms” está repleto de bombas desenhadas para destruir qualquer pista. Precisam de exemplos? Ouçam já a vibrante Joey’s Conclusion.



EVAYA – Intenção [Independente, 12 de outubro]
A chuva de outubro pinta uma aguarela particularmente mística em “INTENÇÃO”. O EP de estreia de EVAYA ilumina recantos de uma selva sónica que brilha consoante o pulsar dos sintetizadores. Embarcamos à mercê de uma brisa oceânica que funde eletrónica experimental e pop, e a corrente eleva-se com cânticos de sereia. A multifacetada artista portuguesa paira num fluxo etéreo entre vidas e mundos, percorrendo a eternidade em instantes. Numa melodia que se dissolve em sinuosa cerimónia, o ritual faz-se imerso na matéria sónica do ser.



Autechre – SIGN [Warp Records, 16 de outubro]
A dupla inglesa tem lançado trabalhos como as gravações ao vivo “AE_Live”, mas finalmente há novo álbum. Aliás, há dois novos álbuns: pouco tempo depois de “SIGN”, o duo surpreendeu com aquele que é o sucessor “PLUS”. Com selo Warp Records, nestes trabalhos entra-se numa viagem sónica pelos aparelhos desta dupla-referência do IDM onde há caos e libertação, homem e máquina, ficção científica e realidade. E o caminho, esse, faz-se por uma estrada bem texturada, equilibrada e sempre marcada pelo toque próprio da dupla.



Il Quadro di Troisi – Il Quadro di Troisi [Raster, 16 de outubro]
Donato Dozzy e Eva Geist juntam-se em “Il Quadro di Troisi” para lançarem o primeiro disco como dupla. Foi desta forma que os artistas prestaram homenagem ao falecido ator e diretor italiano Massimo Troisi, com influências que vão desde o synth pop até o italo disco. O trabalho, lançado pela Raster, toca com precisão no coração, numa viagem pelo mais íntimo – não apenas pela alma dos músicos, mas também pelo espírito e essência de quem ouve.



Lithe – Nos [Flood, 16 de outubro]
A Irlandesa Flood faz da percussão não convencional a sua imagem de marca, e basta espreitar o background de Lithe para perceber a natural inclusão no seu catálogo. Do ritmo quase tribal, freneticamente cativante de Nos, à batida portentosa de One for Russ, este é um EP de género indefinido que enche as medidas dos mais ávidos pela potência do kick.



Errortica – Safely Stowed [Les Yeux Orange, 23 de outubro]
Deu nas vistas com a sua seleção como DJ, em radio shows e em festivais de grandes dimensões como o Dekmantel, mas agora a russa Sasha Balykova aposta na produção própria. Errortica estreia-se nos lançamentos em vinil com “Safely Stowed”, um EP com claras referências ao italo disco e acid, elaborado com recurso a sintetizadores analógicos. A viciante faixa homónima deixou-nos os ouvidos bem aberto, mas foi com a batida 80s, com toadas de electro primordial, de Never Ending Fun que ficamos completamente rendidos.



John Frusciante – Maya [Timesig, 23 de outubro]
John Frusciante já nos tinha chamado a atenção anteriormente como Trickfinger, mas lançar em nome próprio um álbum completamente dedicado ao jungle, breakbeat hardcore e drum’n’bass era algo que não esperávamos. Muito se pode dizer sobre este trabalho, mas, sem nos estendermos muito, podemos afirmar que “Maya” é uma viciante cápsula no tempo que, ainda assim, é bem atual.



VHS – Textura [Hayes, 23 de outubro]
O bracarense trouxe um segundo EP para a sua lista, e desta vez lançado pelo coletivo Hayes. “Textura” está recheado de complexidade, panoramas em movimento, detalhes microscópicos, atmosferas transcendentes, groove e progressão musical. O seu primeiro lançamento foi pela Cosmic Burger, “BLUE/GREY”, um trabalho de quatro faixas no qual se preservam e se concentram texturas e atmosferas sci-fi e abstratas. Agora, o foque é numa imperdível exaltação de techno inspirado em Detroit sem deixar esquecido o cunho pessoal do produtor.



Rïcïnn – Nereïd [Blood Music, 23 de outubro]
“Nereïd” é o novo álbum de Rïcïnn, quarteto de experimentalismo sónico que une a voz e composição de Laure de Prunenec (Igorrr, Corpo-Mente) à guitarra de Laurent Lunoir, ao violoncelo de Raphael Verguin e ainda à bateria de Sylvain Bouvier. Aqui unem-se também elementos clássicos de música de câmara e orquestral a modulações sónicas conseguidas tanto organicamente como por processamento. Laure de Prunenec, cabecilha do grupo já bem estabelecida como alguém que transcende barreiras e rótulos musicais, entrega-se ao abismo numa colagem onde géneros colidem numa harmonia que, não sendo inédita, não anda muito longe disso.



VA – In Trux We Pux 01 [Favela Discos, 23 de outubro]
Talvez fosse suficiente dizer que esta escolha se deve ao facto de este In Trux We Pux ser o primeiro de uma série de discos que irá documentar a cena de música experimental e improvisada no Porto, mas a verdade é que o lançamento surge nesta lista graças aos temas que inclui. Composições de Arbusto de Bayas (Tito Silva e Filipe Silva), de @c ao lado de Well, ou até de ocp com o grupo Patches marcam o disco e justificam o porquê desta escolha, mas atenção: é importante que o coração esteja preparado para ser arrebatado.



Satha Lovek – PT Malacca [Coletivo FARRA, 26 de outubro]
Estejamos focados ou até mesmo distraídos, “PT Malacca” é uma autêntica viagem pelos recantos do nosso cérebro. Marcado pelo “pós-colonialismo” descrito através de samples ou teclados dos experimentalistas Satha Lovek, o primeiro trabalho do duo de João Coutinho e Rúben Silva circunda assuntos do folclore, mas com uma intenção de regressar a uma “sinceridade multicultural por meio da sátira ao nacionalismo desmedido”, lê-se nas notas oficiais. “Isentos de sentimento patriótico” e acompanhados por água de fontes como ambient, drone ou industrial, Coutinho e Silva criaram um excitante trabalho que não deve passar despercebido.



azul-revolto – Sem Adubos [Infinita, 27 de outubro]
“Sem Adubos” é um trabalho de influências de breaks e house misturadas numa receita assinada pelo chef Hugo Barão, também conhecido por DJ Spielberg noutras andanças. Ao natural, o menu é bem apelativo para ouvintes cujas papilas gustativas estejam treinadas para se alimentar de samples, melodias e ritmos como estes. E as sobremesas, por sua vez, são igualmente cativantes: Miguel Torga assina duas remisturas de house exemplar – uma com a voz de Carolina Bernardo, outra com a sua – e Diogo compõe um remix mais escuro mas igualmente edificante. E isto tudo é gratuito. Querem melhor?



VA – Gritty, Odd & Good: Weird Pseudo-Music From Unlikely Sources [Discrepant, 30 de outubro]
Num dos lançamentos de outubro da Discrepant, Francisco López, artista sonoro responsável pelo lançamento da exposição sonora Audiosphere no museu Reina Sofia em Madrid, guia-nos num mergulho pelas profundezas da música experimental recôndita em lugares tão improváveis como distantes daquilo a que muitos apelidam de “civilização”. Do drone ao glitch, “Gritty, Odd & Good : Weird Pseudo-Music from Unlikely Places” é um rally sónico por paisagens sonoras que vão do Quirguistão à Guiana Francesa, passando ainda por São Marino, pelas Filipinas ou ainda pelo Tuvalu, entre várias outras geografias auditivas.



Vitor Joaquim – The Construction of Time [Independente, 30 de outubro]
Depois de “Nothingness” (2019), Vitor Joaquim estreia o cair das folhas de outono com “The Construction of Time”. Pintado a tons ambient ou drone, este “imaginário sónico” canta uma narrativa desperta por vários elementos, como excertos de rádio e televisão capturados durante as invasões ao Iraque e muito mais. A desdobrar a perceção imersa nas dimensões do “tempo, do fluxo e da interioridade”, Vitor Joaquim abre espaço para um locus amoenus que sussurra. E mais do que sentirmos o tempo a voar ao ouvir “The Construction of Time”, este disco é um convite irrecusável para a transcendência.

Textos por Carina Fernandes, Daniel Duque, David Rodrigues, João Freitas e Rui Castro

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