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Lançamentos favoritos de novembro

4 Dezembro, 2020 - 13:56

O inverno está cada vez mais próximo, mas há muitas mantas de novembro para nos aquecermos.

João Pais Filipe, Rafael Toral – Jupiter and Beyond [three:four records, 6 de novembro]
Rafael Toral tirou a guitarra elétrica do baú e uniu-se a João Pais Filipe para traçar uma analogia sónica entre um gigante do Sistema Solar, Jupiter, e um colosso sem forma que nos domina. A emoção é o combustível para a viagem do duo português, que embala a consciência humana num pêndulo entre “tristeza e alegria, raiva e paz e movimento e inércia”, segundo o Bandcamp. A pairar pelo drone ou ambient, do planeta onde chovem diamantes seguimos para o âmago do desconhecido que se desdobra longe da tangibilidade ao som da percussão de Filipe e do jazz experimental de Toral.



JP Coimbra – Vibra [Klang Technik, 6 de novembro]
É uma das melhores novidades de 2020 em solo nacional. JP Coimbra, metade dos Mesa e colaborador de várias bandas portuguesas, entre outros projetos, lançou em novembro o seu primeiro álbum em nome próprio, um disco instrumental que funde a música clássica ao lado mais eletrónico do portuense. E mais do que um trabalho individual, “Vibra” conta com a participação de um quarteto de cordas e de um grupo coral, com gravações feitas em locais como Casa da Música ou Fundação Serralves, com o propósito de aplicar a “plasticidade” e as “características acústicas” desses espaços. Mas chega de palavras: apertem o play e deliciem-se. Ou vibrem, aliás.



Bonfim – An extended-play record of assembled sounds for different kinds of moods [Independente, 7 de novembro]
Títulos de proporções quase bíblicas, discos omnipresentes. É com uma certa espiritualidade que Pedro Tenreiro se une a Hugo Passos em Bonfim, com a missão de compôr um disco para todos os momentos e humores. Se à partida o house ou o hip-hop parecem matéria estanque, rapidamente as vemos perder a forma no decorrer destas seis faixas. A balançar quase organicamente entre cada corrente sonora, entramos num Alfa Romeo para qualquer lado. A viagem começa depois de um convite para dançar, com samples que rondam “inspirações clássicas da era dourada do hip-hop, o house dos 90 e sonoridades leftfield jazzy” e culminam num EP “eclético” e para qualquer hora.



YAKUZA – AILERON [Independente, 9 de novembro]
Num universo onde reina a lei do asfalto e onde a música acompanha escaramuças pixelizadas entre várias figuras do crime virtual, o auto-intitulado “pseudo-quarteto” de Afonso Serro, André Santos, Simão Lamas e Alexandre Moniz combate diariamente a ideia de que o jazz tem ou sequer precisa de regras. Os temerários, que não têm medo de beber da fonte de Roy Ayers, por exemplo, em FURTO, ou de perseguir a sua aura de street racers em TUNING não lançaram em vão, e provaram em “AILERON” fazer parte de um futuro promissor onde diferentes géneros não temem misturas.



UNITEDSTATESOF – refresh [surf, 12 de novembro]
É a tal história do “ir para fora cá dentro”, mas mais contemplativo. O novo EP de João Rochinha é “uma atmosfera calma e meditativa que se debruça lentamente sobre o ouvinte”, uma aura de serenidade que transcende e se eleva diante do caos. Ouvem-se “nuvens de tranquilidade, imobilidade e paz que se precipitam em campos de texturas processadas de ansiedade e euforia”. Depois de lançar “Selections 1” em março, UNITEDSTATESOF regressa aos sintetizadores e, com field recordings, pavimenta um caminho até ao íntimo, pelas calçadas do ambient, experimental ou drone. Do amor ao despertar, as quatro faixas deste EP vêm como uma lufada de ar fresco, depois de imergirmos num calabouço subatlântico dentro do eu.



Joana Guerra – Chão Vermelho [Miasmah Recordings, 13 de novembro]
Em novembro, foi a vez da violoncelista salpicar a argila dos tempos com o sangue da sua essência. “Chão Vermelho” é um duelo entre terra e céu onde asas e raízes se confrontam num plano sónico que consegue, como poucos outros, ser duas coisas muito diferentes ao mesmo tempo. Em parte lamento, mas também protesto, o quarto álbum de temas originais da artista multidisciplinar, editado pela berlinense Miasmah, é, em toda a sua maturidade, um grito de Guerra.



Sabaturin – Kenemglev [Holuzam, 13 de novembro]
É mesmo verdade: Charles-Émile Beullac, aliás Galerie Stratique, e Simon Crab, dos Bourbonese Qualk, juntaram-se para compor “Kenemglev”, que significa “consenso” em bretão. O canadiense e o britânico nunca se conheceram pessoalmente, mas o álbum editado pela lisboeta Holuzam faz parecer que o processo foi feito em total intimidade e num só estúdio, tal é o consenso e coesão que se escuta. Na realidade, Beullac e Crab compuseram este trabalho num processo de partilha em jeito de mail art, chegando a um resultado que é muito mais do que simples rótulos IDM, glitch ou dub. É mestria.



Audiopath – Honey Bun [Housewax, 16 de novembro]
A Rawax e as suas sub-labels, como esta Housewax, já receberam nomes como Boo Williams ou Ricardo Villalobos, mas em novembro foi a vez de o português Ângelo Santos, ou Audiopath, regressar à editora alemã para nos presentear com “Honey Bun”, um disco quente de deep house cujos ritmos, baixos ou melodias se revelaram como a prescrição certa para nos fazer vibrar – mesmo que estejamos em casa. O trabalho está disponível apenas em vinil, mas, se bons motivos faltassem, cada cópia traz um código para download de uma faixa bónus, Aphelion, que é tão deliciosa quanto as que a antecedem.



anrimeal – Could Divine [Demo Records, 20 de novembro]
“Could Divine” foi o lançamento que afirmou Ana Rita Melo Alves como uma referência na bedroom fusion, entrelaçando elementos de ambient e drone experimental com os encantos da voz poética, das cordas e das mais variadas gravações de campo. A artista, natural do Porto mas residente em Londres, transmite o fruto dos últimos três anos de prática musical com arranjos instrumentais cuidados, uma voz inquietante, e muitas e arrojadas colagens sonoras. O resultado? A floresta encantada do som.



Donato Dozzy – The Tao [Samurai Music, 27 de novembro]
“The Tao” é a ligação entre dois mundos não muito distantes. Aqui o drum’n’bass e o techno unem-se resultando em quatro faixas autênticas. Por entre os ritmos e ambiências abafadas do technoid e a serenidade e atmosferas dreamy do deep, Donato Dozzy apresenta assim o seu primeiro EP de drum’n’bass. Embora seja algo inesperado do artista, em 2019 já tinha feito uma remistura de Homemade Weapons, num registo semelhante. Escrevemos sobre o lançamento em novembro e desde logo se tornou num dos nossos favoritos desse mês.



Luis Pestana – Rosa Pano [Orange Milk Records, 27 de novembro]
O primeiro álbum a solo de Luis Pestana foi desenhado para ser ouvido do início ao fim sem interrupções. E ninguém se vai arrepender de o fazer. Segundo o próprio, é “uma tentativa de criar música eletrónica experimental menos distante, e mais próxima de texturas e sensações humanas”. Poderíamos até catalogar o disco como ambient ou experimental, mas o ex-guitarrista dos LÖBO faz muito mais do que isso em “Rosa Pano” – aqui, conta uma história arrepiante (e bem única) que bebe do folcore português (ouça-se a voz de Vitorino em Ao Romper da Bela Aurora) para fazer cair o pano do lado mais recôndito do nosso ser.



Roundhouse Kick – Shift Erase [Human Interface Lab, 30 de novembro]
A fechar novembro com uma viagem intergalática está o álbum de estreia do duo algarvio de Adriana Lourinho (EDND) e Ignor Inácio (Lost in Space). Ambos têm vindo a explorar os “limites sónicos e emocionais de synths e drum machines” há dez anos. Agora, a travessia faz-se pelo espaço, com acid e techno a pintar um fluxo livre entre várias sonoridades. Gravadas num single take, as 10 faixas que compõem o longa-duração podem ser um portal para “momentos de êxtase de sincronicidade, mistério e tensão”, em que ficamos suspensos no éter e bebemos da hipnose do duo Roundhouse Kick.

Textos por Carina Fernandes, Daniel Duque, David Rodrigues e João Freitas

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