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Marvila é o futuro de Lisboa – só não o que desejamos

4 Novembro, 2026 - 12:51

Miguel Rocha reflete sobre o processo de gentrificação de Marvila, o papel da cultura na transformação da freguesia e o futuro de Lisboa.

Development wants, development gets, it’s official
Development wants this neighborhood gone, so the city just wants the same

– Fugazi, “Cashout”

A notícia foi dada há quase duas semanas. De mansinho, o anúncio de que a área correspondente aos armazéns Abel Pereira da Fonseca, em Marvila, será convertida numa “numa nova polaridade urbana, com habitação, serviços e comércio”, enuncia o jornal PÚBLICO, numa parceria entre a promotora imobiliária A.R. Cruz – Empreendimentos Imobiliários, S.A., e a Câmara Municipal de Lisboa (tudo um mau sinal). Caso não estejam a par, é nesta zona de Lisboa, localizada na freguesia de Marvila, que estão espaços como o 8 Marvila (na fotografia), Outra Cena e Those Who Dance.

E caso não estejam a par, os últimos meses têm sido turbulentos para algumas destas estruturas. De maneira semelhante às intervenções policiais que foram ocorrendo no Planeta Manas até este encerrar portas em meados de 2025, também o Outra Cena e o Those Who Dance têm tido os seus problemas com as “burocracias” e com a polícia municipal.

Em fevereiro de 2025, por exemplo, a estrutura do Those Who Dance foi obrigada a cancelar o evento de aniversário da Príncipe Discos no “seguimento de uma fiscalização”, refere uma notícia da TimeOut Lisboa de março de 2025. Nos meses seguintes, várias rusgas ocorreram no Outra Cena devido a um problema com licenças que culminou, no final de 2025, com o apreender de equipamento necessário ao funcionamento correto da estrutura cultural. A turbulência não ficou por aí. Em 2026, a “paz” do Outra Cena não se manteve intacta; pelo contrário. Desde julho que o club está fechado e recentes iniciativas, como a compilação “Outra Cena Vol. 1″, visam angariar fundos para manter as luzes acesas do espaço. Porém, apesar dessa vontade do Outra Cena em manter-se de pé, a notícia do empreendimento imobiliário parecer ser o prego no caixão derradeiro que assinala o fim de uma era.

A história contemporânea de Marvila é um caso interessante de gentrificação. No séc. XX, as paisagens rurais da freguesia foram transformadas pela construção de fábricas, levando a que área se transformasse, essencialmente, num espaço habitado pela classe trabalhadora lisboeta. Com o baixar do investimento fabril um pouco por todo o país desde meados da década de 80, Marvila foi-se transformando numa espécie de local fantasma, onde ninguém ia. Pelo menos, é o que as pessoas me diziam quando cheguei a Lisboa há dez anos.

Agora, Marvila é o sítio que se revela como a maior evidência de um projeto piloto para uma cidade, em primeiro lugar, e para o país, em segundo. Um projeto político e económico extrativista e rentista que visa substituir todos os espaços previamente ocupados por uma classe trabalhadora, como era o caso da freguesia lisboeta, e substituí-los por empreendimentos destinados a habitação (maioritariamente) de luxo. E para isso, há que “limpar” a cidade, expulsar os degenerados e os pobres, e deixar apenas os sítios “higienizados”.

É essa “higienização” que tem sido efetuada em Marvila desde os tempos da Expo 98. A “requalificação” de Marvila faz parte do processo da transformação da cidade de Lisboa num festival a céu aberto para capital especulativo (nomeadamente, estrangeiro) que se instaurou na “Nova Lisboa” com a ajuda dos Vistos Gold e borlas fiscais oferecidas a investidores estrangeiros e fundos imobiliários nacionais e internacionais. A requalificação da cidade, portanto, associada ao turismo e da hotelaria como principal motor de recuperação económica no pós-2008 e pós-Troika, começou a olhar para Marvila, a pouco e pouco, como um “potencial” novo hub para essa “nova Lisboa”. À medida que os preços no centro da cidade cresciam, Marvila era um local agora visto como desejável pela habitação ainda a um preço “acessível” (foco nas aspas) face ao restante panorama que começava a assolar Lisboa, em primeiro lugar, e a posteriori, o restante território nacional.

Os baixos preços também se tornaram apetecíveis para uns quantos olheiros culturais. Como refere David Byrne no seu livro “How Music Works”, para se criar uma cena tem de existir uma zona barata numa cidade. Vemos como Nova Iorque, no final da década de 70, era uma lixeira módica, e como aí surgiram bandas como os Talking Heads ou os Television. Ou como nos anos 2000 Bushwick e Williamsburg se tornaram destino de eleição para bandas como os Yeah Yeah Yeahs ou TV On The Radio. Os exemplos são vários. Os paralelos são os mesmos. Também não foi à toa que foi durante os anos 2000 o heyday da música alternativa portuguesa. Entre as casas ocupadas e os muitos pequenos espaços culturais que surgiram na cidade (muitos deles, entretanto, já encerrados), a Lisboa baratucha de então oferecia um aparente potencial infinito para a cultura – com o Cais do Sodré à cabeça.

Marvila, para os 2010, oferecia esse potencial procurado pelos olheiros culturais. Era uma área de Lisboa ainda bastante barata e recheada de fábricas e armazéns devolutos. Durante grande parte da primeira metade dos 2010s, a área começou a ser destino para os afters das festas da cidade. Preços baratos (quando havia sequer preços associados) para arrendar durante umas horas um local onde a probabilidade da intervenção policial era mínima. Eram os primeiros passos dados que, mais tarde, resultaram na criação de espaços como a Musa, o 8 Marvila ou o Outra Cena. A corporização e institucionalização da ocupação de espaços devolutos.

No entanto, podemos afirmar que, ao contrário do que poderia ter acontecido, muito desse potencial dinamizador de uma “cena” em Marvila não se cumpriu. À medida que os anos passaram, não existe propriamente um “novo” som que surgiu em Lisboa (que na realidade, o “som de Lisboa” é um som gerado na sua periferia e não na cidade, mas isso é toda uma outra conversa) fruto da ocupação destes espaços, seja de forma orgânica (inicialmente) ou com o envolvimento de capital estrangeiro (a posteriori e mais recentemente). Marvila tornou-se uma espécie de sítio extraneus em Lisboa. Um local onde cada vez mais brotavam estruturas culturais, mas que parecia (e, quiçá, ainda parece) incapaz de gerar uma “cena”, com o surgimento da Casa Capitão a ser o culminar dessas transformações. O encerramento do Musicbox concluiu uma era de gentrificação no Cais do Sodré; a abertura da Casa Capitão abriu uma nova era em Marvila.

Importa também discutir o que significa gerar uma cena num sítio como Marvila. É bastante óbvio que, nesta altura do campeonato, qual chavão sobre “requalificação” do local vai escondendo um processo de gentrificação que tem por objetivo tornar Marvila num habitat digno para a especulação imobiliária. As estruturas culturais atualmente existentes em Marvila são um passo preparatório nesse sentido; faltava a habitação de luxo congruente com aquilo que é o projeto “Marvila” iniciado por Fernando Medina (facto impossível de ser esquecido) e que Carlos Moedas transformou no bebé principal da sua governação.

Porque, por ironia do destino, os gentrificadores iniciais de Marvila estão prestes a ser gentrificados por um projeto que nasceu da “conjugação das vontades do promotor imobiliário, a A.R. Cruz – Empreendimentos Imobiliários, S.A., e da Câmara de Lisboa”. Este projeto, já aprovado, como rapidamente dará para perceber, não será um que buscará endereçar a atual crise da habitação que assola o país com a construção de, por exemplo, habitação acessível. Pelo contrário. Tudo indica que este empreendimento é um que irá ser de luxo, congruente com as ideias que têm sido parte da transformação de Marvila nos últimos anos. Da Fábrica de Unicórnios (antigo Hub Criativo do Beato, um projeto anunciado ainda em 2017 pelo executivo liderado por Fernando Medina) ao festival de cinema Tribeca, existe uma ideia de tentar vender Marvila como uma espécie de novo hip place de Lisboa. Uma ideia distante da realidade, mas, como bem sabemos, a realidade não importa nada desde que a perceção seja vendível o suficiente. E ao que parece, poderá ser.

Marvila é um local cujos acessos continuam a ser endiabrados para qualquer pessoa que venha da periferia de Lisboa, periferia essa cada vez mais habitada por um conjunto de pessoas “expulsas” da cidade pelos preços absurdos da habitação que a especulação imobiliária faz acontecer. Isto faz com que o próprio acesso a Marvila seja ainda exclusivo e distante da “visão de futuro sobre uma cidade”, como anunciou Fernando Medina em 2017.

Por outro lado, a afirmação de Fernando Medina apontava para, efetivamente, o futuro de Lisboa. Marvila é, como o Cais do Sodré foi entre 2006 e o período pré-pandemia, o símbolo das piores transformações de Lisboa, muitas delas ligadas à própria gentrificação que a cultura é capaz de oferecer quando integrada no esquema da transmissão de todos os tipos de capital (económico, social e cultural) que fazem parte da política transaccional do neoliberalismo. Não existe boa gentrificação só porque ela é feita pelos nossos clubs favoritos ou pelas nossas venues favoritas.

Até porque, e tal como os Fugazi cantaram em Cashout, se for do interesse dos executivos e do Governo que os seus astros se alinhem com os interesses do capital especulativo, revelam-se os planos daquilo que será o futuro de Lisboa. Marvila não é exceção. É o principal plano-protótipo daquilo que já é Lisboa e, se nada fizermos, será todo o país em breve. Um parque de diversões a céu aberto para capital estrangeiro especular sem fim à vista. Não há oferta que resista quando a procura é infinita, não é?

Fotografia por 8 Marvila

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