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Por entre sonoridades no Entre Cidades

31 Maio, 2021 - 11:00

Ana Quintas e David Rodrigues estiveram por Braga e Matosinhos para ouvir (e escrever sobre) Angélica Salvi, St. James Park e Cody XV.

É num momento em que a atividade cultural se encontra fragilizada que de uma bonita união de esforços entre municípios, associações, profissionais de cultura, instituições e artistas surgiu o Entre Cidades. Com atuações diversificadas que se estenderam da música ao spoken word, passando pelo teatro e outras performances, o evento pontuou os dias 15 e 16 de maio em Matosinhos, Braga e Peso da Régua, com mais atuações previstas para o fins de semana de 19 e 20 de junho e de 17 e 18 de julho.

Numa altura em que contemplamos a reabertura da cultura e que suspiramos por uma normalidade de tempos idos, e apesar de todas as restrições, nada melhor do que o arrepio na espinha ao saltar para fora do sofá, o ver e ser visto, as conversas e vícios que tantas antigas felicidades evocam.

Tudo indicava que 16 de maio fosse um domingo chuvoso na cidade de Matosinhos. Assim, e sendo que o domingo é, por si só, um dia melancólico, a chuva e a mudança para um local interior trouxeram amargos presságios. O concerto de Angélica Salvi, inicialmente apontado para o adro da Igreja de Matosinhos, relocalizava-se agora para o salão nobre da Câmara Municipal de Matosinhos. Contudo, o que os chuvosos agoiros não previam era uma imprevista invasão de raios de sol, que penetraram janelas e ordeiramente, como os demais espectadores, se alinharam para observar o iminente concerto de harpa (e não só).

Apesar de todos os imprevistos, a leve entrada de Angélica até à sua harpa e a abertura do concerto com o tema Bistre, também ele leve, fez com que já não imaginasse acontecer noutro lugar o que ali via e ouvia.

A harmonia entre a sonoridade da harpa e os recursos eletrónicos, a beleza do próprio instrumento e a mestria delicada na forma como Angélica o tocava criava uma atmosfera simultaneamente serena, introspetiva e melancólica, que se ia revelando ao longo da demonstração ao vivo do seu álbum “Phantone”.

Uns observavam, de olhos semicerrados, e outros estavam tão fixados na artista que quase não pestanejavam. Apesar de diferentes formas de estar, sentia que seguíamos todos na mesma viagem. Viajávamos por uma certa irregularidade ordeira que atingiria uma tamanha intensidade e agitação.

Assim, imediatamente, os que estavam de olhos cerrados abriram-nos e os que permaneciam estáticos vibraram, todos em sintonia, com Indigo. Inesperadamente, havíamos levado com uma rajada de vento sónica que com ela o concerto levou

Ninguém se levantou. Deu-se o intenso e entusiasmado aplauso coletivo de um público que se recusa a ir levemente e a aceitar o fim. Queríamos muito que Angélica Salvi voltasse, mas na verdade o que é muito bom acaba depressa e talvez o melhor fosse mesmo ficar por ali.

Já em Braga, o projeto a solo de Tiago Sampaio, St. James Park, foi a primeira de duas performances a acontecer no auditório do Museu D. Diogo. Se os raios de sol eram evidentes no Salão Nobre da Câmara de Matosinhos, não havia, no auditório de Braga, um frincho de luz que não emanasse dos holofotes situados por detrás de uma mesa mais que repleta de knobs, teclas, fios e um laptop.

St. James Park arrancou com ambient melódico, seguido de ritmos em tons de house que, como em vários outros momentos ao longo da performance, eram de estranhar para um público sentado.

Contando com solos em lead de sintetizador para quebrar o gelo, a que logo se seguiu uma porção mais pensada de batuques e eletrónica, um arrasto estranho e uma explosão que surpreende. Como as vozes femininas gravadas especificamente para uso com a eletrónica, de que o fundador de Grandfather’s House ntanto gosta, a atuação de St. James Park equilibrou-se na corda-bamba entre a eletrónica mais pop e a síntese experimental.

Com um final mais na dimensão da selva e do vapor tropical, com batidas e ecos lentos, rapidamente encaixando mais um laivo de house pop e um cheirinho a electro-swing sem medo algum de torções de nariz (nem do facto de o público estar sentado). No final, St. James Park esvai-se num trem espacial com breves temperos dopaminérgicos que de certa forma nos levavam até à eletrónica dos grandes e mais requisitados palcos de festivais.

Depois da pausa generalizada, foi a vez de Pedro Sousa apresentar temas inéditos através do cognome musical que usa para apresentar a “trilha sonora pós-apocalíptica de um desastre perfeito”, Cody XV (lê-se “Cody 15”).

Iniciou suavemente, com ambient escuro e reverberante, com a serpente do eco do piano num vaivém com sons pesados ultra espaçados que desabam por cima da plateia. Depois da queda, vêm sons de comboio, pós-apocalípticos e fantasmagóricos, que atravessam um túnel subterrâneo e emergem numa paisagem deserta, mas etérea. A eletrónica passa por uma fase game boy e dissolve-se numa espécie de impressão sonora de um céu noturno por cima dos escombros, com progressões de lead que ganham altitude e elevam progressivamente a escuta, até se desfazerem em sons amplos cada vez mais vagos e fragmentados e a música vestir toda uma nova pele. Há uma aproximação com o sagrado e com a infinitude de círculos cruzados. Mas até o infinito acaba, e Cody XV faz uma aterragem.

Às vezes, o que é bom acaba depressa.

Artigo de Ana Quintas e David Rodrigues

Fotografia por Tiago da Cunha

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