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A Cabine

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Lançamentos favoritos de setembro

11 Outubro, 2021 - 12:46

De ambient a techno, a passar por algumas das melhores histórias do ano.

Anthony Naples – Chameleon [ANS]

Sucessor do igualmente brilhante “Fog FM” (2019), “Chameleon” é precisamente aquilo que esperamos de um disco de Anthony Naples: cuidado na composição, mesmo fugindo da habitual faceta de dança a que nos habituou. Aqui, o destaque vai para os instrumentos que o nova-iorquino toca, como guitarra ou baixo, para fazer um daqueles trabalhos ideais para qualquer hora do dia, tal é o cuidado com que se inspirou em movimentos ambient ou downtempo. Uma prova de que, mais do que compor faixas para dançar, Anthony Naples é um verdadeiro músico. DD

CXT004: Ebb x Texture [Cutcross Recordings]

Os dois neozelandeses Ebb e Texture não estiveram com poupanças de pujança neste EP colaborativo. Mas para além de duas faixas em conjunto, cada um teve ainda direito a uma a solo. Ora o beicinho típico da bassface não engana, quando escutamos 5skin de Ebb. Já em No Mercy, Texture leva-nos a um flashback até 2004 quando Moving Fusion, Fierce e Corrupt Souls usaram o sample vocal em comum nesta faixa, e deixaram outras andanças “bassianas” em alvoroço. Mas a jóia da coroa surge quando ambos unem esforços, no dubstep de Enmesh. Os vidros do escritório que o digam. RC

Cravo – Random Measure [Newrhythmic records]

Ainda recentemente lançou pela SK_eleven e este mês já nos trouxe mais um EP, desta feita pela Newrhythmic records. “Random Measure” é nada mais nada menos do que aquilo que se espera do techno de Pedro Cravo: uma complexidade hipnótica sob a forma de ritmos em fúria ou de synths alucinados que nos impedem de arredar o pé da pista. A música de Cravo é ideal para qualquer clube suado e este EP comprova isso. DD

João de Nóbrega Pupo – The Death of Truth [Colectivo Casa Amarela]

Fruto de um trabalho audiovisual para apresentar no MadeiraDig de 2020, que não chegou a acontecer, o novo lançamento de João Nóbrega Pupo, “The Death of Truth”, é uma abordagem musical à desconstrução de conceitos filosóficos. Desta vez mais distante do processo criativo pelo qual é mais conhecido, a sonificação, este é um trabalho que aproveita a oportunidade para “racionalizar um tema e expulsá-lo com sentimento”, nunca abdicando de regras, como explica em entrevista à Rimas e Batidas. Há voz, filosofia, experiências com a liquidez do som e muito mais para ouvir neste disco mas, acima de tudo, há um lembrete do artista para a humanidade: não esquecer a empatia. DR

Kara Konchar – Estige [Regulator Records]

Obscuro mas com raios de luz a iluminarem o ouvinte, “Estige” é um dos trabalhos mais convidativos do mês e, quem sabe, do ano – basta apertar play para perceber porquê. Enquanto Kara Konchar, Miguel Béco até pode passar despercebido para a maioria, mas os mais atentos não deixam escapar a minúcia sónica que foi cuidadosamente trabalhada para trazer um disco que, mais do que nos agarrar com percussões ou melodias bem desenhadas, nos agarra pela coerência que apresenta do início ao fim. Simplesmente delicioso. DD

Laurine – Abun.dance [Slow Life]

Tal como praticamente tudo o que sai do laboratório da Slow Life, editora nascida em Berlim pela mão de espanhóis e italianos, este curta-duração é um luxo. Se não conhecem, este EP é um belo sumário – acima de tudo de house e breakbeat. As linhas de baixo são intensas, cheias de fulgor e sente-se um vento de felicidade. Ouçam, mas não se esqueçam que este é o primeiro trabalho de Laurine. Can you Catch the Flow? NV

Moor Mother – Black Encyclopedia of Air [Anti-]

Mais do que uma música e ativista de Fidadélfia, Camae Ayewa, ou Moor Mother, é também uma poetisa que se aventura por hip-hop ou música experimental para assinar trabalhos altamente relevantes, dado o contexto social e político que atravessamos, sim, mas também dada a sua notável exploração musical. Um autêntico e belíssimo manifesto, “Black Encyclopedia of the Air” conta com produção do sueco Olof Melander e outras colaborações para nos entregar um dos discos do mês, um disco que vai ao hip-hop ou ao noise para acompanhar a genuína, pertinente e importante poesia de Moor Mother.

Odete – The Consequences of a Blood Language [Genome 6.66 Mbp]

Todo o trabalho que Odete tem feito ao longo dos últimos anos reflete-se na maturidade, seriedade e brilhantismo do seu novo álbum. Um disco que conta com a participação de nomes como Herlander ou Pedro Mafama, “The Consequences of a Blood Language” é, em duas palavras, arrepiante e viciante. Tão típica desta artista, a multitude de influências sónicas quase passa despercebida: afinal, é um trabalho de Odete e ninguém mais senão Odete. Único e congruente, é possivelmente um dos discos do ano. DD

Pyramid of Knowledge – Yuzu’s Dream [Dream Ticket]

Numa pista de dança, podemos ser levados para vários lugares: lugares de paz, lugares de êxtase, lugares de transcendência. Todos diferentes, como a hora. Os últimos, mais difíceis de encontrar, são os que mais procuramos, por serem, ao mesmo tempo, os mais voluptuosos. Quando lá chegamos, é este o tipo de discos que estão a rodar: intensos, inusitados, galácticos. Parece que estamos num sonho e este é o de Yuzu, trazido pelo saber do sul-coreano POK. NV

Ruf Dug & Lovescene – Make This Right [WOLF Music]

Sabes quando ouves um tema e subitamente toda a tua atenção é direcionada para o que estás a escutar? “Ui, o que é isto?”. Paras tudo, e vais descobrir quem é que está por trás daquele chamamento. O deep house com influências de Detroit de Ruf Dub atraiu-nos, e a junção do neo-soul vocal da banda Lovescene rendeu-nos por completo. E aqui há opções para todos os gostos. Gostas do instrumental, mas não do vocal? Óptimo, ouve a versão dub. Preferes o vocal ao instrumental? Sem problema, tens a versão beatapella. És como nós e gostas de ambas? Bota club mix nisso. Enfim, brilhante. RC

SCOLARI – MATA MATA [Favela Discos]

Entre noise sussurrante e ecos de garagem subterrânea, são quatro as faixas que este trio de gigantes do free jazz soltou dos confins das suas sessões de experimentação. Marcado por um arsenal de sintetizadores, um trompete e muito tempo e espaço para sonoridades come-caco à mistura, ouvir MATA MATA é um pouco como mergulhar lentamente numa tampa de esgoto à procura de tesouros sónicos inigualáveis. Um disco impecável e grunge q.b. que não vai parar de rodar por cá tão cedo. DR

Textos por Carina Fernandes, Daniel Duque, David Rodrigues e Nuno Vieira

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