Alexandre Mesquita revisita os três dias de Elétrico, festival que tem marcado o circuito, o norte e o país. As fotografias são de Ana Coutinho.
Voltámos ao Parque da Pasteleira como quem regressa a casa depois de muito tempo ausente. Já sabíamos o caminho. Com um calor que assustava os mais sensíveis, é certo, mas com um line-up que justificava plenamente sair de casa com este destino em mente.
No primeiro dia chegámos a tempo de ver Matisa, um dos nomes que mais expectativa nos criava para o dia de abertura. Um pouco injustiçada pelos 32 graus que se faziam sentir, o que explicava a falta de um público mais numeroso no início da sua atuação. Ainda assim, brindou-nos com um set inteiramente em vinil que não deixou nada a desejar. Um início algo abrupto, com baixos pujantes, causou alguma estranheza no público geral que se ia refugiando nas sombras das árvores circundantes. No entanto, acabou por se revelar uma autêntica viagem que passou por techno, deep house, acid e trance, entre composições atuais e discos mais underground dos 90 e 2000, como Hablando (Acordeon Mix), de Ramirez & Pizarro, ou Yerba del Diablo (Brujo), de Daturo. A estranheza inicial foi-se dissipando e o público acabou por se juntar à viagem.
O britânico Josh Baker foi quem se seguiu e manteve-se fiel à sua sonoridade predominante, o tech house, com muitas produções próprias, tais como Back it Up e Misleading, intercaladas com algumas das faixas mais sonantes do subgénero na atualidade. Não sendo assumidamente a nossa preferência, foi um set consensual entre os apreciadores do estilo, que, aliado ao pôr do sol e a temperaturas mais amenas, justificava uma pista que já se via bem composta.
Não tão consensual foi o set do experiente DJ e produtor Enzo Siragusa. Não que tenha fugido ao seu registo, que não fugiu, mas talvez por representar uma ligeira quebra na sonoridade e energia trazidas por Josh Baker. Se por um lado não se pode exigir a um artista que traia a sua identidade, por outro pedia-se uma melhor leitura da pista.
Encerrava o dia Chris Stussy, encarregue de devolver a energia à pista – assim o fez e com distinção, diga-se. O DJ e produtor neerlandês não teve medo de misturar house com dub, breakbeat e vocais de hip-hop. Um artista atual, com mais aclamação mainstream, sim, mas com muito trabalho publicado e uma sonoridade própria, que é mesmo só sua. Assim mesmo, apresentou um set com muita produção pessoal, entre as quais destacamos a Don’t Stop (Won’t) e Desire. Um set realmente eletrizante a fazer jus ao nome do festival.
Olhávamos à nossa volta e, entre o espetáculo de luzes assinado pelo collective:zero e o número de cabeças e mãos erguidas, sentíamos que o Elétrico dava os primeiros sinais de que estava a tomar uma nova dimensão.
No sábado, apesar de haver nomes como Christian Loffler e Adam Ten, tínhamos apenas duas atuações na mira – Chloé Caillet e Kerri Chandler.
DJ e produtora nascida e criada entre Paris e Nova Iorque, Chloé Caillet apresentou um set super enérgico e corrido, a oscilar maioritariamente entre o house e o trance com passagens pelo acid e italo, com faixas sonantes como o seu remix de Windows 95 Anthem, de Demi Riquísimo, clássicos como Plastic Dreams, de Jaydee, a hipnose de Ramirez com La Musika Tremenda (Yves Deruyter Rmx) ou Still Flowing Water, de Pangaea. E houve até oportunidade para se ouvir Fat Boy Slim com a faixa Role Model.
Algo já bastante notório era o crescimento do festival. Se na sexta-feira saímos com essa impressão, sábado veio confirmá-la. A organização reportou o dobro dos participantes face à edição anterior, o que trouxe também algumas dores de crescimento. Pela primeira vez, vimos filas longas para os WC. Estivemos numa delas e, justiça seja feita, a espera foi mais curta do que aparentava.
O ícone do house e atuação mais aguardada da noite (pelo menos por nós), Kerri Chandler chegou com algum sobressalto – uma falha de som no início do seu set deixou-nos algo apreensivos. Felizmente, passados cinco minutos, os graves devolveram o movimento à pista ao som de Blocked, de Dj Minx. Seguiram-se duas horas de muito groove, drums da TR-909, acordes envolventes e stabs de órgão a respirar gospel. O soul em Love Sensation, de Loleatta Holloway, o jazz-funk de Gil Scott Heron em Bottle, o disco de Dimitri from Paris e muito house em nome próprio, desde a Rain por ele cantada ao vivo até à lendária You Are in My System, esta entoada pelo público com o produtor norte-americano a acompanhar nas teclas. Quando o set aparentava terminar, a cereja no topo do bolo – Chandler mantém-se nas teclas e toca os acordes que dão o mote para subir à cabine nem mais nem menos do que Moodymann, microfone em punho, a cantar a icónica Seven Mile, que partilha com Louie Vega e que fecharia a atuação. Um final apoteótico, a piscar o olho à atuação de domingo. Difícil não ficar deliciado e com algum nervoso miudinho pelo que o dia seguinte iria trazer.
Finalmente, domingo. Assumimos que era o dia que mais ansiávamos – e com razão. Chima Isaaro, Hercules & Love Affair, Desiree, Carl Craig b2b Moodymann e Rui Vargas. Line-up de luxo.
Beneficiando da ligeira descida de temperatura que já permitia estar na pista com o sol ainda bem no alto, chegámos a tempo de ouvir algum afro house e o remix de Kenny Dope da Holiday, de Roy Ayers, pelas mãos de Chima Isaaro.
Seguir-se-ia o concerto de Hercules & Love Affair. Que melhor maneira de começar a tarde senão ao som de disco e house, tocados e cantados ao vivo pelo grupo de Andy Butler? No seu jeito habitual, claro, com muita interação com o público, muita música dançável e a finalizar com a famosa Blind, cantada em uníssono pelos conhecedores.
Desiree chegou às 17h com a premissa de misturar house e techno com batidas africanas e cumpriu. Não sendo propriamente a nossa praia, reconhecemos qualidade na sua seleção. Ainda assim, não deixamos de sentir que sonoramente se encontrava um pouco deslocada das atuações que intercalou.
A ansiedade para ver os dois titãs de Detroit aumentava e aproveitamos o momento para recarregar energias na zona da restauração, ir à casa de banho e nos hidratarmos de forma a não perder um minuto da atuação que aí vinha. Pelo caminho estava uma zona de recreio infantil, com animação para os mais novos. Nesse sentido, a oferta para famílias é, à semelhança de anos anteriores, um ponto a aplaudir. E voltamos para o dancefloor.
Pôr esta atuação de Carl Craig e Moodymann em palavras é uma tarefa injusta. Não pela complexidade do que ouvimos, mas por não ser possível fazer-lhe jus com meia dúzia de frases. Não queremos alimentar o FOMO de ninguém, contudo, como se costuma dizer, “era preciso estares lá”.
Os dois colossos da eletrónica de Detroit apresentaram-se num formato b2b menos usual, tomando turnos de 10 a 15 min nos decks e apenas ocasionalmente partilhando-os em simultâneo. Começou Moodymann com um som mais próximo do afro house, dando seguimento ao set de Desiree, e transitou para um techno mais contundente. A dada altura, à semelhança do que fez no dia anterior, pegou no microfone como um verdadeiro MC e soltou algo como “These kids… They’re too young to notice but they got some of the baddest parents out there”. Roubou um sorriso aos presentes e o que seguiu foi pura magia. Fomos ao gospel com Hold My Mule, de Shirley Caeser, ao rock com Soul Stripper, de AC/DC, ao house com Louie Vega e andamos a oscilar entre acid, house e techno sem que se notassem quaisquer quebras. A última hora foi maioritariamente house, corridinho e enérgico – ouvimos faixas de pesos pesados do género, como Riva Starr e Kenny Dope, mas também houve lugar para alguns nomes do trance europeu, como Tiësto e Paul Van Dyk.
Se tivéssemos de escolher um momento mais marcante do set, escolheríamos dois. Por um lado, ouvir a Blackwater, de Octave One, a meio de um set que já se afigurava monstruoso, e sentir a reação do público quando soa o famoso hook hipnótico do sintetizador que se repete ao longo de toda a faixa, dava a entender que podíamos estar perante o momento alto da atuação. Por outro, eis que nos momentos finais surge Never Grow Old (Re-Plant), de Floorplan. Quando se sabia estar a terminar o set, já com ambos os artistas nos decks e a equipa a preparar a mesa para o DJ seguinte, ouvir uma faixa tão especial de outro nome incontornável do techno de Detroit englobar tão perfeitamente os elementos mais marcantes do set – um início sem rodeios, com o kick potente, a bassline e os acordes rítmicos, fortes mas emocionais, a soarem desde o princípio, o tempo acelerado, o gospel de Aretha Franklin e drops que melhoram consecutivamente – prova que há lugar para um encontro entre o espiritual e o físico numa pista de dança dominical à tarde. Enfim, não houve um segundo desperdiçado. Daquelas raras atuações que fazem bem valer um domingo fora do sofá e o eventual arrependimento de uma noite menos desfrutada.
Agora, imaginem ser o DJ seguinte e ser-vos incumbida a missão de dar continuidade a isto. Tarefa ingrata, não? Certamente, não fosse o DJ seguinte Rui Vargas. Foi ele quem fechou o festival, como já vem sendo habitual. Iniciou o set com Pick Me Up, I’ll Dance, de Melba Moore, uma faixa que funde soul, funk e disco, rompendo um pouco com a energia do set anterior e lembrando de certa forma, e bem, que o Elétrico terminaria em apenas duas horas. Ouvimos house, ora mais deep e melódico, ora mais alegre. Reconhecemos, entre outras, Lovely Flight, de Didier Sinclair, Throw, de Paperclip People (um projeto de Carl Craig), e We Come 1, dos britânicos Faithless. A música, em conjunto com os balões que tinham sido distribuídos pelo público e as luzes (menção honrosa para isto – o espetáculo de luzes foi fantástico ao longo dos três dias), formavam a atmosfera perfeita que impedia que tantos arredassem pé dali. Pelas 23h, a música parou e soou Chain Reaction, um disco de dance-pop de Diana Ross, e sabíamos tratar-se do fim. Rui Vargas fechava assim mais uma edição do festival portuense no seu estilo habitual, para nós de forma nostálgica. Em cheio.
Voltamos para casa de alma e coração cheios, com aquele cansaço bom de quem dançou até não poder mais. O Elétrico não só entregou o que prometeu – superou-se. E nós, que lá temos estado ano após ano, viemos com a sensação de que estivemos num festival que já não é só nosso, mas de todos.
Se por um lado o Elétrico consolidou o seu estatuto como uma das principais referências dos festivais de dança e eletrónica em Portugal, por outro reafirmou-se como uma das grandes forças da música house – talvez mesmo a mais significativa – no Porto e no norte do país. E até no panorama nacional.
Fotografias por Ana Coutinho / cedidas pela organização

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