AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

LISB-ON: Neste Jardim Sonoro há encantos para quase todos os gostos

14 Julho, 2025 - 19:56

À quarta edição no Jardim Keil do Amaral, o LISB-ON Jardim Sonoro continua a mostrar por que razão está cá. Há aspetos menos bons, mas isso há em qualquer festival.

Sair do Waking Life e rumar ao LISB-ON Jardim Sonoro foi uma transição desafiante. Entre o cansaço acumulado e o contraste entre um festival recôndito e outro enraizado na cidade – ainda que o evento lisboeta decorra no espaço verde do Jardim Keil do Amaral, em Monsanto, e não pareça citadino no contexto físico – as primeiras horas fizeram-me pedir pelo conforto da cama. Ao longo da experiência, no entanto, foi difícil ignorar os pontos fortes que o festival tem para oferecer. E agora, em retrospetiva, mais ainda.

Desde logo, o recinto não fica longe do centro da cidade. Usei sempre os shuttles gratuitos que partiam do Marquês do Pombal e, sem trânsito, a viagem não dura muito mais do que 10 minutos. À chegada, o deslumbre de um imenso jardim, com um grande palco principal montado no anfiteatro e dois outros mais intimistas – e talvez mais especiais, dependendo do gosto – sendo que um par desses tem vistas incríveis sobre o rio e a Ponte 25 de Abril.

Não ia ao LISB-ON Jardim Sonoro desde 2017, na altura ainda no Parque Eduardo VII, pelo que conhecer o Jardim Keil do Amaral e a disposição do novo recinto foi uma surpresa agradável. Já na altura, a curadoria era certeira. Nesse ano, por exemplo, a organização havia levado nomes que iam desde os saudosos Tony Allen e Amp Fiddler até DJs como Cassy, Move D ou Motor City Drum Ensemble.

Há outros aspetos a destacar, mas vamos por partes. Primeiro, o programa continua a ter valor, ainda que o palco principal, o chamado Garden Stage, não tenha muita oferta para mim. Houve Chima Isaaro ou CC:DISCO!, sim, mas nomes como Ben Böhmer, ANOTR ou Dennis Cruz são pratos que dispenso. Senti também falta de um ou outro concerto, algo que já fez parte da programação em edições anteriores – relembre-se, por exemplo, as atuações de Freddie Gibbs e de Sister Sledge em 2023.

Por outro lado, o Lake Stage e o Discover Carlsberg Stage tiveram uma oferta que merece ser elogiada. Na sexta-feira, pouco saí do primeiro desses dois. Olhando para trás, fica o FOMO de não ter ido mais tempo ao Discover ouvir nomes como Mardel, Bernardo Vaz (que ainda por cima tocou Wispa, uma das minhas favoritas de Ricardo Villalobos), Cinthie ou a rara aparição da nova-iorquina Gabrielle Kwarteng em Portugal. De qualquer forma, estes dois palcos são exemplificativos do cuidado que continua a definir parte do LISB-ON Jardim Sonoro.

O Lake Stage é de orientação techno e, quando cheguei nos minutos finais de The Lady Machine, a brasileira já ia com os BPM bem lá em cima. Felizmente para a minha falta de energia, o italiano Claudio PRC abrandou a passada para o lado mais deep que lhe conhecemos, como comprovaria com a sua própria Manifestazione, uma das últimas faixas que tocou. Tudo certo.

Seguir-se-ia um nome que não ouvia há mais de 10 anos, desde o all night que assinou no Gare em 2013. Speedy J é referência neerlandesa, nome sério, infalível. Ainda nos deu alguns segundos de descanso ao abrir com Dying, do último álbum de Surgeon, antes de virar aquela pista do avesso com a rapidez e técnica que lhe são características (as pernas já aceitavam àquela hora), atravessando faixas de Phil Berg (Menace), Chontane (Ceoid) ou Exium & Dynamic Forces (Rejection of Influence). Mestre.

A noite continuaria com um b2b entre dois nomes de gerações distintas da cidade. Solid Funk e Salbany parecem ter a química necessária para momentos como este, com respeito mútuo e gosto apurado, marcado por faixas como Modules, de Jeroen Search, Atavism, de Deniro, ou Covenant, de Marcal. O fecho do Lake Stage ficou a cargo de DJ Nobu, mas o cansaço voltara a tomar conta de mim e dei a noite por terminada – mas não sem antes ouvir alguns minutos de CC:DISCO! a caminho da saída.

Esta edição de LISB-ON Jardim Sonoro decorreu em plena onda de calor, particularmente sufocante durante as primeiras horas de cada dia. No sábado, dia com máxima de 39º, cheguei todo suado ao recinto. Subida até ao Lake Stage, água a escorrer pelo corpo. Encostei-me numa sombra para ouvir os últimos minutos de André Cascais b2b Amulador, já Brusca tinha tocado. Back-to-back de inclinação deep e mental, como seria de esperar, tanto que tocaram Interplanetary Fugitives, de Ness, nome italiano associado a essa estética.

O calor continuava a apertar e era difícil ir para a pista ou mesmo sair do sítio. Nesse sentido, importa sublinhar que este festival não descura o bem-estar do público. Havia pontos de água distribuídos pelo recinto – pelo menos dois, que tenha visto – e não só. Nas casas de banho, além da limpeza esperada, saltou-me à vista a presença de toalhitas e de, mais notável ainda, produtos de higiene íntima. Recorde-se também que este é um festival que tem a sustentabilidade e responsabilidade ambiental como um dos pilares, bem como a causa animal. Aliás, o dinheiro não reclamado das pulseiras foi doado à Casa dos Animais de Lisboa e ao Centro de Recuperação de Animais Silvestre.

Outra prova da atenção do festival à música é o facto de ter trazido DJ TOOL pela primeira vez ao país – se não estou em erro, claro. Dinamarquês do coletivo Mala Junta, assinou um set de techno com muito groove, sem deixar de parte toques mentais e até o ocasional apontamento trancey. Agarrou bem o volante por meio de Rene Wise em Don’t Care, BLANKA em La Buena Sorte ou Glaskin em Hush Up. O problema é que até nesse horário, entre as 20 e as 22h, era difícil estar na pista com o calor.

Com o cair da noite, felizmente, tudo se tornou mais suportável. DJ Pete na cabine e corpos a dançar na pista. Figura-chave e nome indissociável do dub techno, o alemão também conhecido por Substance mostrou muito desse subgénero – logo de início as cordas dub de TenFour, de Joey Beltram, saltaram à vista – mas não se cingiu a isso. Passou tanto por nomes clássicos, como James Ruskin e Truncate em Sketch 3 ou Surgeon em Raw Trax 10, quanto por outros que andam a fazer ondas mais recentemente, como o “nosso” Cravo em Tg03. Set incrível e uma honra ouvir este DJ.

Senti o Lake Stage um pouco vazio durante o dia, mas à noite encheria com Daria Kolosova e Adiel. Para mim, já chegava de techno, e inteirei-me também de que tinha passado demasiado tempo nesse palco. Fui para Sugar Free, que seria uma lufada de ar fresco face ao que tinha ouvido até então. No Discover Carlsberg Stage, pelo qual havia passado Maki, Tiago Oudman, Adam Purnell, Dede e Luísa, a DJ baseada em Madrid foi rainha com uma seleção assente em bases house e uplifting. Tijana T sucedeu-a e ainda ouvi uns minutos, mas a cama chamava por mim.

Chegado o último dia, este trouxe uma alteração no alinhamento habitual: o Garden Stage não abriu e deu lugar ao mais humilde e confortável Cupra Stage, por onde passaram Beiramar e MXGPU. No Discover Carlsberg Stage, o cartaz mantinha-se atrativo para diferentes fãs, com Megatronic, Julya Karma, Âme e o elogiado b2b entre Parallele e Mâhfoud. No Lake Stage, ainda ouvimos vários discos levados por Berllioz e Anna Wall, ambos irrepreensíveis, mas confesso que o meu foco estava a meio caminho entre a música e o peso acumulado do calor. O corpo começava a ceder, na verdade.

Para fechar da melhor maneira, o trio da [a:rpia:r], Raresh, Rhadoo e Petre Inspirescu, acompanhado por visuais de Dreamrec. Os representantes máximos do chamado minimal romeno assinaram um set de cinco horas, com tempo e espaço para ir tocando em diferentes latitudes, como pelo menos uma faixa de breaks, acid, techno mais mental e até a clássica Take a Shot. Fluidez no ponto. Sets com esta duração são sempre mais especiais quando comparados a curtos, especialmente quando a pista está atenta e se deixa levar pela história. E esta teve introdução, desenvolvimento e conclusão feliz.

Como qualquer festival, o LISB-ON Jardim Sonoro não é perfeito. Ainda assim, num período em que se fala sobre uma crise deste tipo de eventos, é de notar que a organização não cede à via mais fácil por completo. Sim, o Garden Stage é comercial e sentimos falta de concertos e de um ou outro ato fora do espectro house-techno, contudo sublinhe-se que dois terços dos palcos têm critério para o público mais alternativo ou de nicho. Ainda que pudesse ter mais representatividade, vai havendo respeito pela cena local e lugar para esses nomes – e até em slots de destaque. Somando isso ao espaço, às vistas, à iluminação do espaço e aos efeitos visuais dos palcos, à responsabilidade ambiental e animal ou à atenção ao conforto e higiene do público, o LISB-ON continua a ser um festival de cidade meritório. Esperemos que nunca largue esse papel e missão.

Fotografias por Nash Does Work / cedidas pela organização

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