AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

Basilar: Longe da perfeição, perto do coração

3 Outubro, 2025 - 15:38

A edição de 2025 do Basilar podia ter ficado marcada por uma noite algo inadmissível, mas deu demasiado para essa ser a memória principal.

Uma pessoa olha para trás e batem as saudades. O Basilar é especial. A par do Vinculum, é o festival de techno onde me sinto mais confortável. Pela música, sim, e pela pista também. Este ano, como se não bastasse, trouxe a atmosfera de um palco ambient para tornar a experiência mais rica. Esse é precisamente um dos motivos pelos quais, volvido o festival, uma noite má se esquece depressa. Mas já lá vamos.

Apesar de a Luisa Bravo ter estado por lá a fotografar na quinta-feira, só comecei a minha jornada de Basilar 2025 na sexta, como já tem sido habitual. Prefiro pedir a segunda-feira e ter um domingo à vontade em Fafe. Foi isso que fiz, tendo então perdido atuações da muito elogiada Rita Maomenos – imagine-se que até tocou Imortelle, de Aïsha Devi – Amulador, Rosati (live), The Lady Machine e DVS1, que tocaram por esta ordem.

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Chegado ao recinto, deparei-me com o incrível cenário que se montou este ano na praia da Barragem da Queimadela, com o tal palco de ambient montado de lado para que a vista se mantivesse desafogada. Ali, a música começou no final de tarde de quinta, com a OCASO, representada por Enkō e David Rodrigues. Nos dias seguintes, começaria sempre no fim do programa principal.

Esse espaço deu uma nova respiração ao Basilar. Se outrora o festival se associava sobretudo ao techno (e pontuais derivações), mantendo o público dentro de um só espectro sonoro, a praia trouxe uma serenidade que não se havia sentido noutras edições. Com DJs a explorar ambient, dub, downtempo e outras paisagens, o sol e a areia convidavam a um abrandar do passo, a deixar levar o corpo pela calma e por uma união que tem ali um ponto de encontro mais íntimo. Momento para sentar, deitar, respirar, descansar. Falar, até.

Assim, no fim de DVS1 pela manhã de sexta-feira, houve Du-das e Van Dingo, nomes associados ao projeto bracarense Estudo do Meio, e Silver. Deste lado, a aventura onde ninguém fanfe iniciou-se com GAM, dupla baseada no Porto ligada a festas como as Danzas Obsidiana. Pedro Abrantes e Valdemar Pereira levaram música certeira para aquele cenário, num set enriquecedor que teve discos tão obscuros quanto luminosos. Do downtempo ao dubstep e muito mais, passando por Muslimgauze em Medina Flight, Mala em Eyez ou Kenny Larkin em Amethyst. Viva.

O Basilar distingue-se por um cartaz pensado com respeito pelos artistas e pelo público – algo visível tanto nos convites como no tempo dado a cada DJ. Foi o caso de Catarina Silva, que teve a pista nas mãos durante cerca de três horas na abertura da noite de sexta-feira. A tirsense sabe como guiar uma pista – já o provava em all nights no Café au Lait há vários anos – e a primeira slot é terreno fértil para esse conforto. Ali, por entre as árvores da pista, começou numa vertente deep (através de Gloson, de Dorisburg, por exemplo), elevou a energia sem largar o hipnotismo (Dryalus, de Dino Sabatini) e rematou tudo com faixas incisivas e contagiantes (como It’s Always Past, de Temudo) que seriam o mote ideal para a noite.

O problema é que tudo virou do avesso a partir daí. No final de Catarina Silva, os problemas já se começavam a adivinhar. Em Olivia Mendez, a confirmação. Som com falhas e quebras constantes, a noite virou pesadelo. Impossível estar na pista. Uma pena pois estávamos desejosos de aproveitar Setaoc Mass, Julien P. & Max Watts (live), Watts como DJ, Deniro & stranger e Montero. Só muito mais tarde – e aqui penso que se exigia maior prontidão e urgência da organização – é que houve comunicação com o público. O problema, soube-se depois, teve que ver com eletricidade que provocou danos num amplificador. Penso que não é normal um festival em que o público investe dinheiro ter problemas de som durante uma noite inteira. Pelo menos nunca experienciei. Não sei quais as soluções ou como precaver, mas não pode voltar a acontecer. Para mim, depois do live, em que até deu para aproveitar qualquer coisinha, a melhor decisão foi ir para a cama para começar o dia com calma, sol e vida.

Para isso, tinha alarme para as 11h para ouvir asio otus, mas os planos foram outros. O set de Montero – que, sabemos, tocou faixas como Sea Snake, de Drexciya, Velvet, de Samuel L Session ou Game Theory, de Alden Tyrell – passou para a praia para contornar os problemas de som no palco principal e foi estendido até às 13h. Quando lá cheguei, uma pista cheia de roupas pretas debaixo do sol, óculos na cara, o ocasional olhar furtivo por cima das lentes, seriedade sem rudeza – amável, diga-se antes. Parece que aquelas horas de sacrilégio foram compensadas, a julgar por um cenário de dança tão belo. Belo, sim.

Antes, chuveiro grátis para abrir apetite para ir comer na Taberna do Parque, ambos a cerca de dois minutos a pé do recinto. Embora houvesse opção de pagar por banho no Foxtrot Aventura, a opção gratuita deu-me água quente, privacidade e tudo que poderia pedir. No bar-restaurante, duas bifanas, sopa e uma cerveja. Ou duas, vá, que o calor estava a pedir. Tabaco, também, antes que só sobrasse JPS 100’s no domingo à tarde. O ideal é não fumar.

Pouco após Montero, a tal sessão ambient que me tinha feito acordar cedo, desta feita protagonizada por dois nomes da capital. asio otus, designer desta edição e húngaro do importante projeto lisboeta Living Room, Delikwe, italiano que editou recentemente “Echoes of Transformation”, e um b2b combinado no momento para fechar a tarde. Ora música sonhadora pelas mãos do primeiro (L.T.B., de dj lostboi, ou Cosmic Lake Transparency, de Saphileaum), ora breaks ambientais e camadas dub pelo segundo (tocou duas de Skee Mask, Element e LFO), foi mais uma sessão perfeita – para quem não esteve por lá, tente-se imaginar um público na ressaca de uma noite deleitado numa praia, deliciado com a melhor seleção possível. Um palco que, pedimos por favor, esperamos voltar a ter na próxima edição. Quem sabe até uns sets de fecho de noite também – Montero disse no Instagram que “sim, vai haver outro set matinal na praia”.

Resolvidos os problemas de som da noite anterior, a noite de sábado arrancou com ligeiro atraso, mas nada de grave. O que interessava é que se seguia um dos momentos mais esperados por nós, Hardware. O grupo de improvisação ao vivo é formado por 4625kHz, A Thousand Details, Dust Devices, Escafandro, M3STR e System Sophie, apoiados em máquinas como Elektrons, Monomachine, TR-8S e SH-4D, com Sofia Ribeiro a usar até microfone e efeitos via portátil. Foram 3h30 de techno variado, cheio de camadas, coesão e de colar os pés na pista – já ouvimos lives de apenas uma hora muito mais monótonos e aborrecidos. Havendo oportunidade, que não se perca a chance de ouvir este coletivo em ação. Maravilha, mesmo. Só teria sido melhor se os tivéssemos virados uns para os outros, no meio da pista, algo impossível naquele recinto.

Bosses das cabines, Hugo Bastos e Pedro Rebelo sucederam da melhor maneira. Calma, disseram. Temos a noite toda e a pista agora é nossa. Qual é a pressa? Falamos de Ruuar a abrir com a poesia ambient dub de Black Merlin a remisturar Nueng Kamtham, de Tul Waitoonkiat, e a fechar com Petrichor, de Inigo Kennedy. Uma dupla com tal fluidez que, mesmo por entre orientação mais deep, consegue largar uma maluqueira como We Laugh To Keep From Crying, de Stanislav Tolkachev, e tudo se mantém orgânico e coeso. Nota máxima.

Tendo em conta que este último dia ainda iria até às tantas da noite de domingo, tomei a decisão de ir dormir umas horas, com alarme para apanhar Sunil Sharpe às 6h. Claro que cheguei à tenda e fiquei maluco com o som do live de VHS e com os berros vindos da pista, ele que antecedeu o muito aplaudido e falado set de Cravo & Enkō. Banda-sonora para (tentar) adormecer. Modulação absurda do bracarense, alucinante, uma subtileza ímpar entrelaçada com ritmos frenéticos. Um momento em que a percussão sai fora e se ouve a onda sónica mais calma e leve quanto não seria de esperar. Contrastes. Ritmo para cima, berros de volta. Aplausos imensos. Adormeço. Acordo. 11h da manhã. Foda-se.

Aziado por perder a técnica da figura incontornável Sunil Sharpe e por Anika Kunst e Tasha estarem no sprint final do b2b, saio tenda fora e vou comer um açaí na zona das comidas, perto da pista, enquanto ouço as DJs a fecharem com temas como Take a Shot, do famoso disco de DJ Hell e Richard Bartz, The Visitor, de Deetron, e Positive Education, de Slam. Pena não ter ouvido mais, mas não vale a pena deixar que o FOMO tome conta de nós. O que não falta é música.

O Basilar já nos tem vindo a habituar a um shift no dia de domingo para acalmar a pista e voltar a fazê-la crescer até à noite – e com todo sentido – e este ano foi ainda mais além, com Alarico a apresentar-se como Kenji Hina, pseudónimo virado para um lado mais housey e garage, toques tech house até, o que nos deu Feel Da Vibe, de Oldboy, ou a já clássica What’s A Girl To Do, de Fatima Yamaha, para abrilhantar o dia. Foi bom e trouxe algo novo, mas nada de memorável.

Memorável foi Ogazón com uma slot entre as 14 e as 16h30. A virar discos de forma excecional, a luxemburguesa fez de nós seus com uma progressão notória, que nos momentos iniciais nos deu You’re So Just Just, de Rework, ou FUTUREDETROIT, de Cravo, e que passou por mundos como o lado jazzy de Fireground em Marea ou pelo Detroit de DJ Bone em Cultural Variance, provavelmente uma das faixas mais loucas do festival. Que DJ.

Como se consegue adivinhar, a partir daí comecei a perder-me um bocado e a esquecer o bloco de notas. Ainda assim, trago memórias de Fadi Mohem a apresentar-se com o projeto Four Lovers em formato live e de Steve Bicknell como “backtotheparty”, referência ao canal de YouTube que tem com o mesmo nome. O primeiro foi bem enérgico e envolvente, com uma onda uplifting de techno repleto de acordes house e dubby, e o segundo, que tendo em conta a hora não puxou tanto por mim, contou uma espécie de história de música de dança, visto que passou por diferentes facetas do house e do techno, incluindo No Way Back, de Adonis, e provavelmente outros temas editados pela Trax Records.

Já tinha reparado, mas foi no fecho que me inteirei do quanto as luzes estavam especiais este ano. Todo o cenário é bom, embora se aconselhasse outro tipo de assentos e conforto em certas áreas, mas a iluminação… Que loucura absoluta. Candeeiros de luz branca por cima das cabeças a ligar e desligar, cores quentes a circundar, olhos a revirar. Com o collective:zero ao leme desses papéis, parecia uma pista de um clube, mesmo estando em plena natureza, como ouvi alguém dizer.

Para fechar a edição, Ron Albrecht & XDB mostraram por que são dois mestres. Discos de vinil de génios, longe de purismos, escolhidos com grande precisão: houve dub techno com Kawai, de Conforce, temas recentes como E-Dancer e DJ Minx em Detroit, clássicos absolutos como Blue Monday, dos New Order, ou The Bells, que naquela hora parecia nunca ter soado tão bem como ali. E muito mais, claro. Para terminar, Asa, de Âme, selou a noite e o festival com uma pista a louvar dois DJs à séria.

O Basilar é especial, repetimos. É pena que tenha os seus azares, como noutros anos, e que a noite de sexta-feira tenha ficado marcada por aquele pesadelo. Felizmente, este ano havia o palco na praia para tornar tudo mais enriquecedor e colmatar essa falha. No fim, o que fica é a oferta valiosa: Fafe, o recinto, a música, as pessoas, uma partilha feita entre pista, árvores e água. Esperemos que, na próxima edição, tudo flua tão naturalmente quanto merece, como todos aqueles corpos que se movem juntos na Barragem da Queimadela.

Fotografias por Luisa Bravo

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