Sim, ainda estamos a olhar para os últimos dois meses. Temos tempo. Favoritos de 2025 só em janeiro.
Aäg – Bewitched EP [Analytical Convenience]
Membro do core da portuense Analytical Convenience, Aäg prova aqui que há vida – e techno – para além do quatro-por-quatro. Há downtempo, ambient ou até um lado sci-fi. Momento, por exemplo, agarra-nos por completo com a sua textura, os drones que vão crescendo ou a voz que imprime um carácter ritualístico à faixa. No fim, para quem não dispensa a energia, Floating Machine, MGR96 e HYOS tratam de libertar toda a tensão.
Adriana João – pearl of flames
Adriana João traz em “pearl of flames” o seu primeiro álbum a solo e em formato físico. Embora frequentemente associada ao violino, este trabalho está longe de se limitar ao instrumento que estudou desde cedo. Editado de forma independente, “pearl of flames” é uma “extensão do corpo” que tem guitarra, piano, adufe e, entre outros, o génio de Adriana João a manipular tudo isto para trazer um trabalho que tem tanto de assombroso como de refúgio.
Corpo Fantasma – Arco Solar [Edições da Ruína]
Disco fantasmagórico de alguém cujo nome já anuncia o enigma. Não sabemos quem está por trás de Corpo Fantasma, mas sabemos que deste fantasma não temos medo. “Arco Solar” irradia um mistério bem-vindo e é um registo experimental que nos leva para outro continente enquanto convoca dub, drones, apontamentos noise e vozes freaks, tudo sempre no sítio certo.
Fernando Fadigas – PLAY PAUSE | XXV Years of Music at Pogo Teatro [Variz]
Fernando Fadigas revisita 25 anos de criação com o Pogo Teatro num disco que vai do presente ao passado – de “Inactual” (2025) a “Mainstream” (1999) – e condensa tudo o que o mestre da eletrónica tem vindo a construir ao lado da companhia. Sendo arquivo, cruza eletrónica contemplativa com momentos mais dançantes. E sendo arquivo, surpreende (ou não) pela coesão com que estas memórias se encadeiam.
funcionário – horizonte [Holuzam]
Pedro Dourado Tavares tem uma das discografias ambient mais especiais que se pode encontrar por aí fora. Nas notas oficiais, lê-se que “horizonte” é um disco mais aberto ao improviso, enquanto o próprio diz que “é como usar pastel de óleo pela primeira vez e descobrir novas possibilidades”, mesmo a usar as mesmas cores. Say no more.
Gaztween – II [Jazzego]
Músicos que assinam como Gazpa e Arctween a solo, os Gaztween são dois amigos que, entre outras aventuras, se costumam encontrar em sessões de improviso no Mr Bean’s, no Porto, exemplo claro da sua cumplicidade. Essa sintonia entre Miguel Tenreiro e Tito Romão transparece na composição conjunta e na variedade de instrumentos que exploram lado a lado, como se ouve neste “II”, segundo álbum do duo, que navega entre hip-hop e jazz, passando por temas tão ricos quanto Dubdoutono, faixa capaz de pôr qualquer pista de orientação dub com lágrimas nos olhos.
IBSXJAUR – SANITY [Cuca Monga]
Diretamente de Vila Real, drum’n’bass tão acelerado quanto possível assinado por uma dupla que junta a vocalista JAUR ao produtor INFREBASSESATURE. Há outras inspirações pelo meio, como o lado hyperpop, mas fica a ideia de que a linha orientadora é mesmo o dnb. As letras tocam em temas como a saúde mental, sempre envolvidas numa energia que quase faz esquecer o peso que carregam – até que chega a parte final, mais emotiva, e nos faz querer voltar à festa.
KIK – Nightshift [Horror Vector]
Dois gigantes do Porto, juntos como KIK. Cúmplices em HHY & The Macumbas, Jonathan Uliel Saldanha e João Pais Filipe transportam para “Nightshift” a sua ciência irreverente, neste caso deixando os instrumentos de parte para mergulhar numa investigação empírica de sound design e síntese percussiva. É fiel ao ADN de ambos, mas com novas descobertas. “We Can’t Dance”, dizem na faixa de abertura. Verdade ou não, certo é que sabem pôr corpos (e mentes) a mexer.
Pagão – Pagão [Maternidade / Tons To Tell]
Nome sério do underground lisboeta, seja por aventuras como Lieben e Extended Records ou por estar tantas vezes na régie a tratar de luz, Sebastião Pinto trouxe recentemente o álbum homónimo de Pagão, um dos discos mais fixes do ano. Dizemo-lo pela atitude das letras e da voz, mas principalmente por ser tão abrangente e, ainda assim, tão afinado. Postura boa onda que passa por footwork, pop rock, breaks, shoegaze, enfim. Este é a não perder, mesmo.
Phoebe – Noites Longas [Quântica / Rotten \ Fresh]
“Noite longas, noites loucas”, canta Phoebe. Sim, canta Phoebe. Podem contar com o lado de dança de Bruno Trigo no álbum que editou este ano, mas o disco é muito mais do que isso. É antes Phoebe no seu expoente máximo de sinceridade e entrega à medida que explora ambient ou jazz sem abandonar por completo a veia clubbing. As pessoas convidadas, como Gustrava, Pedro Alves Sousa ou Violeta Azevedo, amplificam tudo isto, mas é mesmo no âmago de Phoebe que reside o esplendor de “Noites Longas”.
priincess – Past Explore [Almanaque]
Há um ano, priincess fazia chegar o EP de estreia, “Countryboy”, trabalho house e techno repleto de camadas dub e emotivas. Em parte, isso mantém-se em “Past Explore”, o álbum de estreia, mas a experiência vai muito além e tem agora foco na bass music sem nunca esquecer o lado dub. priincess está aí, é certo. É pôr os ouvidos.
sa🎀ra – seres desconhecidos [surf]
Embora tenha outros trabalhos no Bandcamp, “seres desconhecidos” foi a nossa porta de entrada para sa🎀ra. Para nós, para já, é um nome que permanece em mistério enquanto não aprofundamos a pesquisa, mas ao qual já nos rendemos. Por entre este mundo ambient, ouve-se samples de vozes, pássaros, cordas e o ocasional beat, tudo à medida que se vai construindo um mundo íntimo e delicado. É um lugar que sabe a abraço.
SOF – Lub [Perf]
Ano de arranque de sonho para a Perf, que fecha 2025 com “Lub” depois do disco homónimo de Amuleto Apotropaico e “Surface Disorder”, de Jonathan Uliel Saldanha. Português baseado em Berlim que já teve projetos como Purple, Luís Dourado assina uma estreia indispensável para quem vive entre metal, drone ou noise. Disco áspero e físico que agarra até à última faixa, momento em que nos liberta paulatinamente para que consigamos voltar ao mundo cá fora.
Van Der – Solar Flare [Subsist]
Foram vários anos a ouvir techno, a desbravar malhas em DJ sets ou a tocar ao vivo. Em 2025, Van Der decidiu finalmente pôr cá fora trabalhos a solo. Primeiro dois EPs pela Diffuse Reality Records, agora o álbum de estreia pela Subsist. “Solar Flare” é um fruto vertiginoso dessa dedicação e é boa porta para conhecer de perto a ciência modular desta prata da casa da cena lisboeta.
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