Música de inverno que certamente continuaremos a ouvir para lá desta primavera e verão.
Alex D’Alva – LIVRE
“No escuro / Vemos sem medo / Longe dos olhos / Do mundo”, canta Alex D’Alva no tema que abre o EP que marca o regresso aos lançamentos a solo, MINA (F.O.Q.Q.), referência às festas lisboetas onde a liberdade é máxima. “LIVRE” é um disco de eletrónica que vai ao baile funk ou a ritmos afro para escrever uma carta de amor às pistas de dança, com a ajuda de nomes que vão desde a produtora Ecstasya ao rapper Maudito ou ao pianista Máximo. Arrepios.
alga – Terceiro Solstício [Colectivo Casa Amarela]
alga dedica o seu novo álbum ao inverno e nós agradecemos. Uma estação de “introspeção, tranquilidade e magia subtil”, escreve a editora. E “Terceiro Solstício” é isso mesmo. Por meio de voz e guitarra, com samples como água a correr a atravessar o disco, Cláudia Simões traz-nos ambient e drone algo escuro, mas com luz suficiente para nunca perdermos a esperança.
Anar Band com E.M. de Melo e Castro – Dou Dou Doudo: Ao Vivo Na Cooperativa Árvore [Holuzam]
Que o trabalho da Holuzam é especial e essencial já sabíamos. Agora, ainda mais, com o lançamento deste “Dou Dou Doudo: Ao Vivo Na Cooperativa Árvore”, que antecede o iminente “Performance”, que parte também de uma atuação ao vivo e que será uma reedição de um concerto dos Telectu em 1984. Mas isso fica para depois. Para já, olhemos para (ouçamos, vá) este concerto de Anar Band, dos senhores Jorge Lima Barreto (no ARP Odyssey) e Rui Reininho (numa guitarra de dois braços), ao lado de E.M. de Melo e Castro, que aqui é e “se apelida de poeta”, nas palavras da editora. Não há muito que possamos dizer – leiam as notas oficiais, que explicam melhor – além de que “o som transmite bem o espírito de agitação cultural de que estas sessões se revestiam” no pós-25 de abril.
Ler também: José Moura da Holuzam sobre a Anar Band: “Dificilmente se encontra algo comparável em Portugal” (Rimas e Batidas)
Calcutá – Soon After Dawn [Ovo Estrelado]
Que belo e emotivo é o álbum de estreia de Calcutá. Com guitarra, voz, synths ou piano, Teresa Castro, que conta ainda com a companhia de Luís Barros, Catarina Marques e Rodrigo Vaiapraia, assina um disco altamente contemplativo, algures entre ambient, drone e folk. “Soon After Dawn” é sobre “a primeira luz da manhã após uma noite muito, muito longa e escura”, pormenor evidente ao conhecer esse contexto. Deitemo-nos e escutemo-lo, que este é para deleite profundo.
CIINTRA – Shutters [Fallen Metropolis]
Já tinha surgido em VAs da ELBEREC e Alínea R. Agora, lança o álbum de estreia. Miguel Cintra, artista com um currículo que passa pela composição de bandas-sonoras para videojogos, tem em CIINTRA o pseudónimo dedicado à eletrónica de dança. “Shutters” é exemplo perfeito do que faz com as máquinas, um “exercício de experimentação” envolto em techno cru, ríspido e delirante.
FloorForce – Will Make You Bounce [Alphabet Street]
Hugo Vinagre é um dos grandes. Dúvidas houvesse, bastava ouvir a vasta discografia e os lançamentos com nomes como Early Jacker, Turista ou o mais conhecido Miguel Torga. Há cerca de um ano, estreou o projeto house FloorForce. Desta feita pela Alphabet Street, Vinagre recorre a vozes sedutoras, linhas de baixo bem vincadas ou até ao acid que nos comanda por completo em You Want It para pôr os nossos corpos a condizer com o nome do projeto. Yen Sung e Photonz, patrões da editora, fecham com um remix.
Força Maior – Morte Lilás [Perf]
A portuense Perf continua a entregar alguns dos discos que nos têm sido mais queridos nos últimos tempos. Neste caso, o primeiro de Força Maior, fruto de uma residência de Pedro Alves Sousa e Pedro Tavares (funcionário) numa quinta em Lamego. Disco para meditação profunda, “Morte Lilás” tem como grande base o saxofone, depois processado por ambos os músicos, e resulta numa matéria sonora em que facilmente nos focamos à medida que desligamos de tudo o que nos rodeia. Detalhe.
Ilda Teresa Castro & Vitor Rua – Semióticas
Lançamento que parte do espetáculo homónimo, no qual André Quaresma “questiona modos de leitura dos signos visuais, propondo novas formas de contemplação e interpretação”, “Semióticas” traz música de nada mais nada menos do que Ilda Teresa Castro, que agarra no theremin ou no sintetizador, e de Vitor Rua, com guitarra e outros synths. O significante semiótico é a eletrónica, aplicando o conceito de Saussure, e o significado está em cada um de nós. Que magia, esta.
Lewis Fautzi – Quatro Níveis [HAYES]
Música de Lewis Fautzi é sempre sinónimo de techno de qualidade. Some-se a isso um selo da HAYES e de antemão já sabemos com que contar. Quatro faixas certeiras que, segundo a editora, se “alinham naturalmente com a visão do projeto” – ora ouça-se Reflexo Inverso – e uma a rematar o disco de vinil que acaba por ser o destaque – 50.0 Hz, tema de breaks cheio de texturas, com synths e wobbles que remetem para drum’n’bass, tudo isto a apanhar-nos de surpresa e a deixar-nos boquiabertos.
Raso – Transeunte [Revolve]
“Transeunte” é a estreia do coletivo Raso, que junta forças que desde logo sugerem as sonoridades pelas quais se move parte deste disco. Quem conhece Ricardo Martins e Jonathan Uliel Saldanha reconhecerá a inquietude, mas, aqui, a presença de Carlos A. Correia acrescenta uma voz dramatúrgica, capaz de disparar versos como “assiste, assiste, assiste / há um racista aqui”. Entre polirritmos, samples e uma aura algo obscura, o resultado é hipnótico, psicadélico e viciante. Ao vivo, a partir de detalhes como luz, “Transeunte” ganha ainda outra dimensão.
Imagem por Catarina Ribeiro

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