AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

MOGA: Se é para ficar, que continue a crescer e a melhorar assim

12 Junho, 2026 - 12:31

Edição de afirmação para o festival marroquino em Portugal, com a organização a provar que quer respeitar e valorizar o sítio onde está.

Há primaveras que sabem especialmente a verão e esta é uma delas. Também por isso, o MOGA devia ser considerado festival de verão. E, no fundo, é. Mais do que isso, aliás, é o evento que parece abrir essa temporada.

Numa viagem de carro, chegar à Costa da Caparica desde Lisboa a uma sexta-feira à tarde, sob aquele calor abrasador, é terrorífico. Mas rapidamente isso se esquece ao estacionar e rumar à festa.

Festival repleto de gente, muita dela a falar francês – chegaram a perguntar-nos se “não falávamos francês” na casa de banho – o MOGA decorre em plena praia, com três palcos, um mercado, comes e bebes e, entre outros, espírito positivo ao longo de todos os dias.

Alguns pontos negativos logo a abrir: embora eventualmente nos tenham dado cinzeiro e existam locais apropriados ao longo do recinto, não há muita promoção de cuidado com o lixo num local tão sagrado quanto este. E a pior parte é que há muita gente a deitar picas para o chão, que rapidamente desaparecem com os pés a dançar.

Depois, no bar, perceber que a opção mais barata de cerveja se mantém – 8€ por 50cl. Não é que seja um valor longe de outros festivais, mas o facto de não ser possível pedir 25cl ou semelhante torna-se chato por razões várias.

Apesar de tudo, não faltam pontos positivos. A localização, por exemplo, que permite banhar na boca do festival. O som também, claro, a acompanhar uma programação interessante. O programa antes do fim-de-semana, que inclui festas, sim, mas também workshops, surf, cinema e tanto mais. E para nós, outro caso de revelo é a valorização dada à cena nacional, mais até do que a dada por alguns festivais com organização portuguesa.

Fotografia por Framekillah

Para nós, a aventura começou no Sqala, estrutura de costas para o mar, com o público de frente para o azul e o eventual pôr-do-sol. Khalil Suleman já havia passado por esse palco, onde tocariam ainda MXGPU em modo híbrido (com a sempre incrível voz de GPU Panic e temas como take me home), Ben Böhmer e TSHA. O nosso foco estava em Fonzi b2b Billi, dupla de jovens que tem causado ondas por entre cena, aqui com os habituais discos de vinil a passar por faixas como Deeper, de Phil Weeks e Dan Ghenacia, ou uma com toques dub na meia hora final. Base house e tudo certo.

Seguir-se-ia um dos grandes DJ sets do festival no Doukkala, uma espécie de palco principal. A suceder os “nossos” Tiago e Hélio, dos Pandilla LTD, Vera b2b Eli Verveine trouxe a primazia destas duas selectors, autênticas patroas da cabine que garantiram dança por meio de faixas house que iam ao acid, electro ou trance, como Summoning, de Voal, 9, de Priori, ou U’re Made of Sound, de Vakula, sempre com um controlo e à vontade dignos de patroas como estas.

O dia ainda tinha Yaya, Misty, Rolbac e Gawdat no Hafla, bem como Mimi Love, Mira e Britta Arnold no after. Para nós, com a semana em cima, sexta-feira terminaria com Ricardo Villalobos no Doukkala, mas não sem antes ouvirmos Foehn & Jerome nesse mesmo palco. Mais uma vez, embora a base pudesse ser house, a dupla não se limitou a isso e tocou em acid (Take Me Back, de Mystic Bill), Detroit (Groove La Chord, de Aril Brikha) e outras sonoridades clássicas (Coloured City, de Laurent Garnier). Carpete vermelha estendida para o boss.

Ricardo Villalobos pode fazer o que ele quiser. Até pode cancelar a passagem pelo festival Elétrico à última da hora e rapidamente o perdoamos. Também por isso, ficamos sempre na expectativa de perceber se vai aparecer ou não. Felizmente, apareceu na Costa da Caparica munido de inúmeros discos e pen. Modo house, modo minimal, modo groove. Modo Villalobos. O patrão dos patrões levou discos da Perlon ou até house clássico (estamos um bocado na incerteza se foi ele que tocou Morning Factory, de Chez Damier com Ron Trent), mantendo sempre tudo debaixo da sua alçada, mas sem medo de espetar as loucuras que bem lhe apetece. É que, repare-se, o homem tanto cria tensão com Dave Clarke (Protective Custody) como põe algo cheesy (I Won’t Stop Loving You, de C-Bank) ou uma curveball tão louca quanto 2° Coro Delle Lavandaie, tocada e cantada pelo grupo popular napolitano Nuova Compagnia di Canto Popolare. Ele é que manda. Nós aceitamos. Não é a fluidez de dança de Vera b2b Eli Verveine, mas é a fluidez de uma mente própria, digna de se respeitar e ouvir. E com ela aprender. Do início ao fim. Sempre.

Fotografia por Framekillah

Se na sexta-feira nem passámos pelo Hafla, no sábado ouvimos lá muita coisa e nada no Doukkala, que teve nomes como AVÖ e Nitefreak b2b Bun Xapa. Este palco era agora separado do recinto que reunia os outros dois palcos e tinha um piso confortável de relva. Nesse dia, houve happy hour durante a final da Champions League – e lá andavam os franceses todos malucos – que tornou o preço da cerveja mais suportável – 5.5€ por 50cl é bem valioso até.

O Hafla mostraria a abrangência que o MOGA vai tendo na sua programação, bem como o respeito por aquilo que se faz por cá. Por lá ouvimos Leo Soulflow a passar a tocha a King Kami com Glue, isto num palco por onde passariam ainda Studio Bros e Batida b2b Riot. A DJ lisboeta natural de João Pessoa mostrou toda a sua classe e mistura irrepreensível, primeiro de forma mais direta e depois indo até à sua praia da música bass, com sabor funk e por vezes acid ou electro, através de faixas como Fresher Than U, de THAIS, ou Surprise Factor, de Prado.

Pela mesma hora, Mount Kimbie atuava no Sqala, onde assinava um DJ set de house solarengo marcado por faixas como Last One For Summer, de Ben Hauke, ou Total 90, de The Trip. Para nós, nesse palco, as fichas estavam depositadas em Parallelle, dupla que se apresenta de teclado para dar ainda mais vida a uma viagem house sunset que abriu com Radio 101, dos próprios, e passou por Love Sensation, de Todd Terry, without u, de not without friends, ou Official Bump Call, de Butch. Ficou claro o gosto deste público por estas sonoridades e por este momento de comunhão que é o sol a descer e a dar lugar à noite.

De regresso ao Hafla, o fim da nossa noite ficou marcado pelo afro dos Studio Bros, que tocaram faixas do álbum “Different” (Cabinda e Trust), outras originais (como Lumu, feita ao lado de Afrozone e Lilocox), músicas latinas e até temas bem conhecidos (How Deep Is Your Love, de Calvin Harris e Disciples, ou DeBÍ TiRAR MáS FOToS, de Bad Bunny). Festa garantida pela dupla da Quinta do Mocho.

Enquanto o Sqala teria Axel Boman e Sofia Kourtesis, o Hafla fecharia com Batida b2b Riot, que até The Bells, de Jeff Mills, tocaram. Tudo nomes que ficámos com pena de perder, particularmente o back-to-back especial dos dois bosses, isto para não falar de Fresko b2b Diana Oliveira e Temudo b2b Vil b2b Cravo no after. Se queremos aguentar, no entanto, há escolhas a fazer.

Fotografia por Inês Machado

Domingo, sol tórrido, siga para a praia. Bem-vindo calor e mar. Adriana Ruas estava a tocar no Sqala e ouvimo-la de pano de fundo a passar por temas como Hand Clap, de Brennan, um dos que destacou à publicação Nightclubber. No início desse domingo, aliás, o palco voltou a mostrar o respeito do MOGA pela cena tuga. É que se Adriana Ruas é portuense, Whitenoise b2b Andy Book foi puro Aveiro e exemplo de que, como em tantos outros festivais, os nossos DJs não são para ser limitados a slots de abertura. Neste caso, já ouvimos boa parte na pista, com muito house, tech house e boa energia a marcarem uma atuação pela qual o trio ficou extremamente grato, de acordo com publicações nas redes sociais. Nós também.

Pela mesma altura, a SlapFunk Records celebrava o 15º aniversário no Hafla, com Penelope a abrir a tarde entre minimal trancey e o pontual break. Cartaz de luxo neste palco, com Samuel Deep, Doudou MD e o que deve ter sido um DJ set estrondoso de encerramento, Brawther b2b Jorge Caiado. Infelizmente, deste palco fica apenas com o FOMO de não termos estado muito por lá no domingo.

A abrir as hostilidades no Doukkala, nada mais nada menos do que Jayda G, referência canadiense quando a conversa é disco, soul e derivados. Se por um lado trouxe isso mesmo por meio de temas seus, como All Day, Uncomfortable ou a inevitável Both of Us, por outro não teve medo de acelerar com o ghetto house de Booty Percolatin’, de Will Clarke, no sprint final. Bom set.

Seguir-se-ia uma onda mais melódica, com Mind Against no Doukkala e The Blaze no Sqala. Muitos fãs para ouvir estes nomes no pôr-do-sol, mas a verdade é que não são tanto a nossa praia. As nossas atenções estavam mais viradas para a noite e para o lado nostálgico de Royksöpp, duo norueguês que passou por Everything In Its Right Place, de Radiohead, rasgos de Depeche Mode ou a inesperada Heimcomputer, de Kraftwerk. No entanto, não foi mais do que um set saudosista e maximalista sem muito para contar ou recordar com carinho.

Fotografia por Alice Sutton

Mais uma vez, para nossa infelicidade, o cansaço era demasiado. Ainda ia haver atos tão interessantes quanto Paramida b2b Matisa ou DJ Tennis, mas não conseguimos. O italiano, aliás, fecharia o festival com o cofundador Daox em b2b, num after que tinha até Octo Octa, um dos destaques de todo cartaz para nós. Ainda assim, já só pensávamos em picar ponto na segunda-feira.

De regresso a casa, a certeza de que o MOGA é um bom festival. Há coisas a melhorar, como uma maior promoção de limpeza entre o público, e outras que gostaríamos de ver de forma diferente, como o facto de haver pouca comunidade local e ficar a ideia de que a pista é muito formada por imigrantes com posses. Ficámos também com falta de ver algum DJ negro de uma escola norte-americana, à imagem de Maurice Fulton no ano passado, mas sabemos que são bookings difíceis.

E a verdade é que este é um programa com poucas falhas e, melhor ainda, respeitador da cena portuguesa, pelo que será injusto ser picuinhas. Somando isso a pormenores como a localização, o som, os palcos, a boa-onda e a abrangência do cartaz, que tanto garante discos sérios de Jorge Caiado ou Vera como o lado melódico de Ben Böhmer ou The Blaze, só podemos reiterar a conclusão a que havíamos chegado dentro do carro no regresso: é um bom festival.

Fotografia de capa por Inês Machado. Todas cedidas pela organização

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