AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

LISB-ON Jardim Sonoro: Como não elogiar?

10 Julho, 2026 - 13:45

O LISB-ON Jardim Sonoro não deixou que os imprevistos estragassem a experiência e conseguiu entregar uma edição fluida.

Como é que se monta um festival em dois dias? Não sabemos, mas quem quiser saber pode perguntar à organização do LISB-ON Jardim Sonoro, que se viu obrigada a desmontar um recinto no Jardim Keil do Amaral, no Parque Florestal de Monsanto, e montar outro no Parque Eduardo VII, no coração da cidade. Respeito máximo.

Foi um fim-de-semana marcado por dois festivais familiares – este e o Elétrico, no Porto – e pelo Nómadas, em Braga. E foram dias marcados por uma vaga de calor insuportável que nos fez questionar, vezes e vezes sem conta, se estamos preparados para frequentar festivais com estas temperaturas.

Repare-se: chegámos ao Parque Eduardo VII depois do trabalho, com o relógio a marcar as 17h. Mesmo assim, e apesar de termos ido de carro precisamente para evitar o calor, os cinco minutos que nos separaram do transporte ao recinto foram suficientes para pingar até mais não. Chegados lá, aliás, fomos imediatamente para a sombra. T-shirt, calçado, meias – tudo tirado.

Como se a organização já não tivesse tido o azar de o risco de incêndio obrigar à alteração do local, parece que a Câmara Municipal de Lisboa ainda fez questão de atrasar tudo. Não estávamos lá, mas, segundo DJs e trabalhadores, uma qualquer questão de (ou implicação sobre) licenciamento fez com que as portas só abrissem para lá das 16h, mesmo o festival estando marcado para as 14h. Se já havia DJs cancelados pela mudança de recinto, que fez com que o festival passasse de três para dois palcos, ainda houve nomes que tocaram para ninguém.

Para nós, no palco Discover Carlsberg, os primeiros discos que ouvimos vieram das mãos de Cruz e Zé Salvador, em b2b, algures entre sonoridades trancey que abriam caminho para Ogazón, a quem queríamos prestar verdadeira atenção.

No chamado Garden, passariam por lá nomes como Kölsch, CamelPhat ou Adam Ten. Aqui, sejamos sinceros: cada vez que íamos à casa de banho – que, diga-se, tinha várias cabines e estava sempre limpa – ficávamos chocados com alguma música fatela que ouvíamos. Não queremos, no entanto, descurar quem gostou. Mas pudéssemos antes ter ouvido nomes como Dan Ghenacia e Dyed Soundorom, dois exemplos de DJs cancelados pela redução de palcos.

Não havia motivos para ficarmos muito chateados. Afinal, no Discover Carlsberg, Ogazón e o seu habitual sorriso rasgado davam-nos os discos de que precisávamos. Embora mais techno do que gostássemos àquela hora, a luxemburguesa foi tão boa como sempre, com faixas como Corrie, de STIPP & Sandrien, ou The Great Forgetting, de Kr!z, a manterem a pista entre o lado hipnótico e físico. Power.

Fotografias por Nash Does Work

Apesar de tudo que havia de bom, houve um pormenor que tirava o fôlego todo, particularmente na sexta-feira: o calor. Nunca conseguimos estar mais do que 15-20 minutos na pista, por muito que quiséssemos. E isto mesmo durante Ben Sims, passava já das 21h, e até durante MARRØN b2b Rødhåd, que começaram às 23h.

Ainda assim, não deixámos de aproveitar o espaço verde que havia cá para trás para dançar. E não há muito a dizer sobre esses dois últimos atos de techno no Discover Carlsberg: DJs irrepreensíveis são assim. O inglês tocou faixas de nomes como Robert Hood (Ride), Jeroen Search (Rejection Rate) ou o “nosso” A Thousand Details (Gemini Wokai), a dupla desbravou também música nacional na forma de DJ Dextro (The Way It Is) ao lado de produtores como Rill (Disruption) e fez soar, algures no set, a famosa Forget The World. Esqueçamos a vida lá fora e o calor. Ou tentemos.

Com as portas a fechar às 2h em vez de as 4h permitidas em Monsanto, rumamos a casa com as luzes desse palco na cabeça, ali comandadas por Ivo Vieira. Não deixando de elogiar todo o trabalho da Hipnose também no outro palco, claro, mas estivemos mais tempo nesse Discover Carlsberg. Luzes lindíssimas. Mesmo com olhos fechados, é especial saber que estamos ali envolvidos naqueles tons a servirem de roupagem das árvores, que envolviam a pista e teimavam em nos resguardar e criar ali, ainda que por breves instantes, um mundo novo.

Chegados a sábado, novamente com um calor estúpido, mas desta feita minimamente mais aceitável, não conseguimos deixar de perceber melhor que festival é este. Estamos perante um evento em plena Lisboa – no Parque Eduardo VII, ainda para mais – o que torna o público heterogéneo, não deixando de dar espaço para todo o tipo de gentes. O pontual lado familiar ou até o mais influencer, chamemos-lhes assim, não é para ti? Não faltam espaços resguardados ou a pista Discover Carlsberg para teres uma aventura ao teu gosto. Se há algo que queres ouvir, não nos parece que haja muitos motivos para faltar.

Apesar de mais pequeno do que o realizado no Keil do Amaral, este recinto não deixou de ser grande o suficiente para albergar tudo o que o LISB-ON Jardim Sonoro tem para oferecer – só o número de atos musicais é que teve de ser reduzido. De várias opções de comida a tatuagens, passando por muito espaço para sentar, a referida fluidez das casas de banho ou fonte de água para encher garrafas, não faltou nada.

Quando estávamos a chegar no sábado, ouvimos Kirollus a tocar Keep the Fire Burning, de Gwen McCrae, o que fazia prever um palco Garden muito mais rico e atrativo do que no dia anterior. Ainda tivemos de nos sentar um bocado à sombra antes de ir ouvir o britânico que tem sido um destaque dentro da cena disco, soul, funk. Últimas duas, Ain’t No Mountain High Enough, de Inner Life, e Janice (Don’t Be So Blind To Love), de Skip Mahoney. Público aos saltos e rodopios por baixo do sol. Algum a passar pelas mangueiras de água. Tudo de sorriso na cara. Coisa linda.

Queríamos ir para Shanti Celeste, que estava a suceder BASHKKA às 18h, mas acabámos por ouvir o início de Folamour, às 18h30. O francês começou com o seu edit a Keep On Dancin’, de Ozone, como já fez em outros sets, e essa era a premissa: manter as gentes a dançar para que ninguém desistisse. Sejamos sinceros: com a noite em cima e aquele calor, o mais fácil seria desistir.

Tal como no dia anterior, felizmente, pelas 19h começou a vir uma brisa. Siga para o Discover Carlsberg. Shanti Celeste, boss, algo tech house, com apontamentos aqui e ali de tribal ou acid, a passar por faixas como I Can Send You To Space, de Bambounou, quando lá chegamos, ou Rizzler, de wAFF, na parte final. Ficámos com pena de não ouvir temas da própria, como a brilhante Thinking About You, mas talvez tenha tocado antes de chegarmos à pista.

Ainda nesse palco, ANNA abriu de forma certeira, com Into Dust (Still Falling), de Four Tet, chegando eventualmente até à sua Cosmovision, mas tinha um certo melódico que não puxava tanto por nós, não negando o talento da brasileira. Por isso, acabámos por ir até o Garden para ouvir Kerri Chandler. Acompanhada pelas habituais teclas além das CDJs, a referência do deep house trouxe várias originais logo a abrir, como a faixa dedicada ao Lux Frágil See The Light ou a inevitável Rain. Patrão absoluto. Contudo, também queríamos ouvir outro patrão.

No Discover Carlsberg, a máquina Temudo, de regresso ao LISB-ON Jardim Sonoro, desta vez para um DJ set. Houve quem tem tenha viajado dos Açores de propósito para o ouvir no festival. E claro, não desiludiu. Com o efeito de assinatura de white noise a ir surgindo ao longo do set, João Rodrigues desbravou aquele mato como só ele sabe, sustentado por faixas densas e hipnóticas como Refuse Control, de Åre:gone, Kinesis, de Regent, ou o seu próprio remix a Trust, de Oculus. Que mestre.

Sucedeu-se Anfisa Letyago, mas o veterano Sven Väth já tinha começado o seu closing no Garden, para onde seguimos. Este é outro que tal, não é verdade? Entre passar de uma música para outra sem muitos rodeios ou tocar The Tunnel Dreams, de Wata Igarashi, e Art School, de Robert Hood, o veterano faz o que quer – e bem. Como penúltima música, uma que não lhe tem faltado na mala: Knights of the Jaguar, de DJ Rolando. Está feito, vamos embora antes que faltem táxis.

No fim, não conseguimos parar de pensar no esforço hercúleo que a organização teve. Merece ser muito louvada. À partida, quase parece irreal montar um festival tão rápido sem que tenha havido contratempos para o público. Fica também a ideia de que, se os verões continuam a ter momentos assim, preparar e arranjar soluções para o calor vai passar a ser obrigatório. Por agora, ficam na memória alguns sets, os verdes, as luzes e as gentes que embelezam o LISB-ON Jardim Sonoro e fazem dele o festival que é. Para o ano que vem, que o regresso a Monsanto seja em grande.

Fotografias por Nash Does Work, cedidas pela organização

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