AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Cali, Moss Kissing e a música como espaço de conexão espiritual

16 Setembro, 2026 - 12:25

Uma conversa com Cali e Moss Kissing sobre música, drone, improvisação ou espiritualidade no último Estudo do Meio, em Braga.

Partilham a banda drone Zacharias, mas também adoram tocar como dupla. Cali e Moss Kissing estiveram no ciclo “Cividade em Contemplação”, promovido pelo Estudo do Meio durante a Noite Branca de Braga, e nós estivemos por lá a conversar com os dois músicos.

Numa curta conversa de cerca de 30 minutos, falámos com Ana Carolina Rodrigues e Moss Kissing sobre música, escuta, improvisação e as ligações que se criam entre pessoas através do som. Entre a dimensão contemplativa e a experiência coletiva de tocar em conjunto, a conversa passou também pelo projeto Zacharias, a formação clássica ou música de dança.

A entrevista foi editada e condensada para maior clareza e fluidez.

Tendo em conta o contexto deste evento, que toca muito em palavras como contemplação, gostava de começar por vos perguntar o que é que contemplaram quando chegaram a este espaço. O que é que vos chamou a atenção? Que sons ou que coisas?
Cali: Acho que a localização, a vista, chegar aqui e ver tudo tão bem organizado e as pessoas que nos receberam. Isso, para mim, marcou-me logo. Ou seja, independentemente do espaço, acho que isso também faz um espaço.

Moss Kissing: Concordo. O espaço é incrível e a vista também. É um privilégio tocar neste sítio hoje. É muito diferente. Normalmente, nós tocamos em clubes ou bares. Para mim, é muito bom tocar aqui hoje.

Cali: Tocar ao ar livre, sem sol e com pouco vento, pelo menos neste momento, é perfeito.

Acho que se calhar voltamos daqui a pouco a este conceito de lugar, mas queria também olhar para isto de estarmos na Noite Branca, que à partida é um momento de festa, talvez mais caótico. Aqui no Estudo do Meio estamos num evento de música mais contemplativa, introspetiva. Fala-se sobre a importância de desacelerar. Que lugar é que tem este tipo de música na vossa vida?
Moss Kissing: Para mim, pessoalmente, este tipo de música, que leva mais tempo e concentração, vem de um lugar muito espiritual e é, em algum ponto, uma reação contra o rápido e desesperado ritmo de conteúdo e redes sociais, e a falta de dedicação para algo que é mais do que 30 segundos ou uma música de dois minutos. Então, para nós, tocar uma hora é bastante curto, mas com Zacharias, o nosso ensemble, nós tocamos quatro a cinco horas de cada vez. Nesses casos, podes realmente investir-te e concentrar-te.

Cali: Sem pressa. Chegamos a um espaço muito pessoal mas partilhado, sobretudo em Zacharias. E é isso que acontece. Temos tempo, vemos o que vai surgindo porque há estruturas, há ideias, mas é sempre um improviso. Nunca sabemos bem quando é que aquela pessoa vai fazer aquilo ou se vai mesmo fazer aquilo que fez ontem. Então, é muito interessante ver a vida acontecer.

E mesmo quando não é tocar, quando é simplesmente ouvir em casa, assumo que seja…
Moss Kissing: Eu acho que, a tocar ou não, é muito parecido porque, para mim, é uma forma de oração. Não tanto meditação porque é mais ativo. Eu tento implementar isso noutras partes da minha vida, de apenas estar presente. Porque, quando estou a tocar, especialmente com a Cali, sinto-me muito, muito presente, muito no momento. Então, tento implementar isso noutras partes do meu dia, como quando estou numa casa de expat franceses a pintar as escadas. Tento não pensar no que está a acontecer ou no amanhã e tento estar lá e fazer o melhor trabalho possível. E isso é algo… é uma prática extensa do que a Cali e eu fazemos juntos. É uma lição que aprendi através de fazer este tipo de música, esta forma longa de tocar. Tento implementar isso noutras partes da minha vida. Eu falho muito nisso e também faço scroll, como o resto de nós, mas, pelo menos, às vezes há um esforço consciente de ficar quieto.

Cali: No meu caso é muita pesquisa. Eu não passo horas a ouvir, ou nem sequer ouço todos os dias este tipo de música. Gosto de saber o que está a acontecer, o que as pessoas estão a fazer e isso, para mim, é super interessante: estarmos atentos e sabermos o que está a acontecer. Além disso, nós precisamos de fazer isto porque no dia a dia é muito difícil fazer isso. Há muitos momentos em que não conseguimos. Pensar no futuro, nas próximas votações, como é que o mundo vai estar amanhã? Consequências, consequências… Então, acho que este é um lugar seguro. E felizmente, nós encontramo-nos. É um lugar seguro para podermos só criar, fazer o que nos apetece.

Cali, tens formação clássica. Como é passar desses cânones para um lado mais livre, digamos?
Cali: Não foi fácil. Não foi mesmo fácil. Aliás, tive uma altura na minha vida, em 2018, 2019, em que estava em Paris a estudar, a fazer uma pós-graduação em performance, e achei que devia desistir do violoncelo, da música. Mas pronto, depois veio o Covid e parei.

Foi bom parar por uns tempos. Depois, quando voltei a tocar, percebi: OK isto é fixe. Ter umas semanas com orquestra, dar aulas de violoncelo… De repente, começaram a surgir coisas diferentes que eu queria muito fazer, como fazer teatro musical, que adoro. É superdivertido trabalhar com atores. Trabalhar com bailarinos. Conheci o Moss nesse contexto. Não que ele estivesse a dançar, mas ele foi ver um espetáculo. E, não sei, as coisas começaram a acontecer.

Mas tive de dizer que não a muita coisa. Havia muita coisa que ia aparecendo e eu dizia que sim. Havia coisas de que eu nem tinha certeza. “Olha, queres tocar com aquela pessoa?” Não faço ideia, mas OK, vou experimentar. Ou conhecer pessoas na rua. Tocar na rua. Tocar de repente numa jam session. Acho que começou assim e tem acontecido nos últimos, não sei, cinco, seis anos, se calhar.

É curioso falar sobre o covid porque para muita gente foi um período em que se viraram mais para a música ambient, drone. Não sei se foi o teu caso.
Cali: Eu estava muito farta do violoncelo. Aliás, lembro-me de que, nessa altura, vim para Portugal e ainda tinha aulas à distância e aquilo era insuportável. Todas as semanas eu pensava: agora tenho aula, tenho de estar para isto. Nos meus tempos livres, não estava mesmo a tocar violoncelo.

Por acaso, tive sorte, fui bastante privilegiada nessa altura: pude ir viver para o Algarve dois meses com amigos. Então, estávamos só no campo, íamos à praia, plantávamos coisinhas, tocava um bocado de violoncelo, tinha uma aula online, cozinhava. Portanto, foi ótimo nesse sentido. Mas sim, quando tocava sozinha, nem sabia muito bem o que é que estava a tocar. Improvisava. Acho que muito vinha do fascínio gigante que tenho por música antiga, música da Idade Média, do Renascimento, música barroca. E, sim, acho que peguei também muita coisa daí.

Moss, tens tanta música, tantos géneros diferentes. Podes guiar-nos através das diferenças entre fazer, não sei, música de dança e depois ter projetos como este?
Quando me mudei para aqui, no final de 2019, tinha acabado de começar a fazer música eletrónica e tal. E aí aconteceu o covid, como estávamos a dizer, e até fiz algumas coisas ambiente, mas depois comecei a fazer techno, future bass e esse tipo de coisas. E assim que as portas abriram, eu estava a sair pela porta com tudo, e estava realmente a ir para isso. E estava a correr bem até que comecei a ter gigs desse tipo de música.

O estilo de vida era um pouco demais para mim. Comecei a perceber mais e mais, enquanto estava a tocar esses sets às quatro da manhã em clubes e tal, que eu odiava muito, realmente odiava. E não era a música em si. Eu ainda adoro esse tipo de música e quero ir dançar. Só não quero fazê-la.

Não quero soar muito arrogante, mas foi muito fácil para mim. Eu simplesmente sentia e aquilo soava bem. E pensei: uau, isto não me acrescenta nada. E então a guitarra voltou à minha vida de uma forma realmente séria. Vendi todo o equipamento e voltei para algo que era mais sobre composição de canções. Tenho vários projetos diferentes. O projeto a solo, Moss Kissing, é muito mais sobre a prática de composição e sobre desenhar elementos diferentes de folclore e música industrial.

Depois há Body of Will, que é o duo em que toco com o [Miguel] Béco (aka Kara Konchar), que também toca no Zacharias, e isso tornou-se um projeto que adoro, porque posso aparecer, não preciso de trazer nada, estou só lá e canto. O Béco tem todo o equipamento. Então, ainda tenho um pouco da eletrónica de que gosto muito, mas o contexto é diferente. Não estou lá para servir um ambiente hedonístico, que não tenho nada contra, mas não é o tipo de público com que quero criar uma ligação.

O tipo de público com que quero criar uma ligação é, sim, mais este tipo de cenário, mais sobre contemplação e sobre nos conectarmos de uma forma mais calma, possivelmente profundamente espiritual, em vez de proporcionar o backdrop para a alegria hedonística, que é linda e tem o seu lugar. É só que eu não devia estar nesses lugares porque tenho tendência a ir um pouco longe demais.

A música é muito uma reflexão dos meus interesses e da minha vida. Por isso há vários projetos diferentes porque nunca poderia dedicar-me apenas a uma coisa. E isso sempre foi um problema nas bandas, quando era jovem. Em todas as bandas em que estive, eu dizia sempre: “Vamos fazer este tipo de música.” E eles diziam: “Sim, mas nós somos uma banda indie, por que é que queres fazer uma música pesada?” Sempre foi difícil, até perceber que podia dividir tudo em coisas diferentes.

Agora, a Cali e eu conversamos sobre isto. Para mim, pelo menos, Zacharias é uma prática partilhada no meio de tudo. E todos os projetos que faço revolvem à volta disso. O que estou a fazer aqui com a Cali, o que faço com o Béco, o que faço a solo, o novo projeto com a Adriana João, farming…

Para cada um de vocês, qual a importância deste lado colaborativo da música? De que forma isso vos enriquece?
Cali: Acho que tem que ver com este sentido de comunidade que precisamos, que procuramos no dia a dia, de partilha, de conexão. Acho que tem que ver com isso, sobretudo. Podemos partilhar isto e, lá está, encontramos um espaço seguro uns com os outros. E é superinteressante, porque somos muito diferentes, todos. Nós somos alguns e somos muito diferentes uns dos outros, mas, de alguma forma, conseguimos todos trazer e enriquecer o projeto. Trazemos elementos diferentes.

Moss Kissing: Sim. Acho que, especialmente quando estava a fazer música eletrónica, me sentia realmente solitário. Trabalhar com outras pessoas é brilhante porque me tira da minha cabeça. Tenho de ouvir outras pessoas e, tipo, enganar o ego e tentar encontrar onde me posso encaixar com todos os outros sons que estão a acontecer. Então, é uma forma de me afastar, de trabalhar e colaborar com outras pessoas.

Falaste da parte espiritual e esotérica da música eletrónica e assim por diante. Também a encontras nessas conexões interpessoais?
Moss Kissing: Absolutamente, sim. Porque, nesses momentos, lembramo-nos de como tudo está ligado, como tudo está intrinsecamente ligado, e de que todos somos feitos da mesma coisa. E quando… na parte externa, pode não parecer tão profunda, quando estás a colaborar isso torna-se uma coisa muito maior. Essa eterna solidão interna que muitos de nós sentimos é obliterada por um momento porque sentes uma conexão intensa com outro músico, com outro ser humano, e isso torna-se…

Cali: Isso deixa de ser sobre ti, sobre mim. É algo… Não sei, às vezes fazemos coisas e eu, tipo, não sei de onde isso vem.

Moss Kissing: Não faço ideia. Algo mais está a passar por nós. E isso é incrível, esse tipo de canalização universal.

Fotografias por Leonardo Samii / Noite Branca Braga

relacionados

Deixa um comentário







t

o

p