CATEGORIA
Entrevista

System Sophie a caminho do Semibreve: “A minha música é o meu estado de espírito”

21 Outubro, 2026 - 12:40

Com o festival bracarense Semibreve prestes a arrancar, conversámos com System Sophie sobre o seu percurso e a apresentação inédita de “Carbolines”.

Contrariando os horários habituais das suas atuações ambient, System Sophie, nome artístico de Sofia Ribeiro, foi convidada a atuar à 1h30 da manhã de 23 para 24 de outubro, algo que “não é o normal, uma vez que [estes] sets costumam ser bem mais cedo”. Também por isso, a DJ e produtora vai apresentar, na sua estreia no Semibreve, uma composição para as horas mais dançáveis no gnration.

“Na verdade, este slot pode ser milhares de coisas, mas a ideia é também misturar mundos, como o ambient e drum’n’bass, por exemplo. Em suma, é fundir estilos e ver aquilo que eu consigo criar com essa fusão e, também, com o meu estado de espírito no momento”, revela. À conversa com A Cabine, acrescentou que a sua apresentação vai ao encontro do seu primeiro EP, “Hydra”, que foi, aliás, um dos trabalhos que levaram a este convite por parte da organização.

Sofia apresenta-se na diversidade e plasticidade de System Sophie e reitera a felicidade por poder mostrá-lo numa das cidades do seu distrito berço: “Já estou em fase de preparação desde que fui convidada, o Semibreve é a data mais importante que tenho este ano. Também estive presente em outros festivais bons, como o Basilar, mas não em formato showcase, onde apresentei realmente a minha música. Ambiciono que este set diga muito de mim e que seja também um agradecimento ao festival porque isto é um convite de coração cheio. Passar por uma sala onde já passaram artistas que eu adoro e poder também ser um deles, expressar-me e mostrar o meu trabalho numa cidade que me diz muito, que é Braga, deixa-me muito feliz, sem dúvida”.

“Carbolines” embebe os sentimentos de Sofia através de uma sonoridade que traz memória e sensações à pista de dança, através dos sintetizadores inerentes à artista e as suas sonoridades imersivas e com textura, permitindo esboçar o caminho para uma viagem pelo ambient, industrial e techno experimental.

Estes sons pautam o percurso de System Sophie, que começou após a atuação de Aphex Twin no Primavera Sound Porto: “Eu atirei-me de cabeça do rock para a música eletrónica. O meu gosto começou a ser cozinhado em 2017, quando vi o concerto de Aphex Twin, que foi algo que realmente mudou a minha vida e fui procurando sempre essa sonoridade na música eletrónica. Nunca pensei, realmente, entrar na música eletrónica, apesar de ter começado a fazer DJ sets de rock com os meus 19 anos”, recorda.

Foi em 2020, durante a pandemia, que a produtora comprou o seu primeiro sintetizador: “Estava demasiado aborrecida e comprei um Pocket Operator para experimentar, a partir daí o bichinho cresceu e tornou-se hoje o que é System Sophie. O meu projeto foi nascendo em 2023 e, no final desse ano, fiz a minha primeira atuação ao vivo, o que solidificou realmente tudo”, complementa. Mother Jupiter, grande amigo de Sofia, também teve um papel importante neste projeto. Foi graças a ele que começou a tocar e que teve o impulso para o seu primeiro concerto.

A artista autodidata foi aprendendo e explorando o mundo dos synths, com alguns cursos como muleta, e foi na base da experimentação e curiosidade que alimentou o seu bichinho pela produção. “Nunca tive em mente criar um projeto e foi um processo longo, que ainda não acabou. Eu não me quero prender a um estilo, apesar de estar associada ao ambient e à música experimental. O meu percurso começou mais com hardware e synth, mas, atualmente, está ligado também mais à parte do computador, do que propriamente ao hardware. System Sophie pode mutar-se e transformar-se, claro que dentro das minhas referências e de quem eu sou, mas acima de tudo o meu projeto cresce comigo. Eu dou vida a este alter ego, então há também um crescimento e evolução mútuos”, reflete.

Esta plasticidade sonora deve-se à transmutação das suas emoções no mundo de System Sophie: “A minha música é o meu estado de espírito, amanhã posso estar eufórica e fazer uma cena super diferente. Para o meu projeto no Semibreve, apesar de ser algo diferente do que estou habituada, não vai destoar do meu projeto. A minha música é a minha expressão e a minha voz, e eu uso-a dessa forma, é uma reflexão de uma só que vive, sente, produz e mostra”. Entre os instrumentos que dão voz a esta manifestação do ser, podemos encontrar os sintetizadores Sledge, Juno e o microKORG ou, já no panorama digital, plugins como Omnisphere e Reactor no Ableton.

Fotografias por Carolina Ribeiro

Em maio de 2026 foi publicado o primeiro EP sob assinatura de System Sophie e selo da V.S.I Records. Sofia recorda que foi Veludo quem lhe deu o impulso para dar este passo: “Ela mandou-me mensagem a perguntar se eu gostava de fazer um EP. Como seria o meu primeiro, eu estava bastante nervosa. Eu já o queria fazer, mas estava sempre com síndrome de impostor e deixava sempre andar, então após a proposta dela pensei que seria a minha oportunidade para realmente lançar algo.”

“Eu aceitei a proposta, um pouco assustada, porque deram-me pouco tempo para o fazer mas fi-lo”, continua Sofia sobre o projeto que detém, também, o cunho de Mother Jupiter e Veludo, que participaram com dois remixes. “Passei noites em claro a ouvir muitas coisas que gostava, a extrair informações, inspirações, a fazer apontamentos e a criar desenhos da minha música”, continua.

Esta última etapa do processo é uma das que distingue a produtora, que admite criar uma imagem mental e visual da sua música e, a partir daí, consegue perceber “onde é que as coisas devem estar”: “Eu tento sempre chegar a esse desenho mental e às vezes transcrevo-o para o papel, o que me ajuda bastante a pensar”.

Esta imagem é complementada, também, pela sua visão da essência da música eletrónica: “Eu não vejo a música eletrónica como um computador, para mim é muito visual e imagino System Sophie dividido por secções, como se fosse uma banda. Eu tento fechar os olhos e imaginar onde estão os elementos e como se posicionam. Penso que a música eletrónica corre o risco de ser pouco humana, então acho importante tentar transmitir os sentimentos e que não seja algo 100% perfeito. É necessário uma parte humana onde há margem para certos erros”.

Sofia Ribeiro, vimaranense de raiz, procura também agitar culturalmente a zona do Minho. Antes do coletivo ŪMËR, que vai estar presente no Mucho Flow, recorda que, dentro dos projetos iniciais, concederam-lhe umas salas num convento abandonado, onde, juntamente com uns amigos, dinamizou um projeto que consistia em jam sessions com os sintetizadores. Foi nesse momento de partilha que surgiu a ideia de criar um coletivo.

Além de ter um papel dentro da música eletrónica na zona do Minho, o coletivo funciona também como uma forma de criar uma comunidade ampla e inclusiva. “Nós começámos com cinco euros no bolso, eu tinha alguns contactos, o Diogo estava a tratar do design, o João da comunicação e o Raul debruçava-se também nessas áreas. Começámos a construir um núcleo após a primeira festa e, pouco a pouco, estamos a crescer e com projetos novos, muito fixes, para 2027, que reúnem arte no geral”, conclui Sofia Ribeiro.

Para já, é a vez de o Semibreve agitar a região minhota, mais precisamente Braga, de 22 a 25 de outubro, com um programa que honra a música eletrónica e a arte digital através de conversas, instalações, workshops e concertos. Na madrugada de sexta para sábado, System Sophie vai poder “entregar-se a palco” na sua completude.

Fotografia de capa por Carolina Ribeiro

relacionados

Deixa um comentário







t

o

p