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Les Siestes e uma nova edição de irreverência e plasticidade musical

4 Setembro, 2026 - 12:41

Nascido em 2002 em Toulouse, o festival de música experimental passou por Coimbra pela sétima vez.

Coimbra voltou a ser o palco da edição portuguesa do festival de música eletrónica experimental Les Siestes. Nos dias 28 e 29 de agosto, o Jardim da Sereia foi, pelo segundo ano consecutivo, o cenário meditativo que albergou diversas performances irreverentes e disruptivas, com um cartaz que reuniu nomes nacionais e internacionais.

Pelas 18h de sexta-feira, dia 28, já se ouvia os primeiros toques de Alana Vegana, DJ residente em Lisboa mas com raízes bem assentes em Coimbra. Foi nessa cidade que deu os primeiros passos na Rádio Universidade de Coimbra em 2016, integrou a dupla Spinning Jenny e passou pelo coletivo Instrumental Violence. Nessa tarde, Alana entregou um set etéreo, sentada no chão, que muito corresponde ao ambiance típico do Les Siestes. Entre pessoas sentadas nos puffs, os seus sons ecoaram por quem ia chegando, abrindo de boa forma a sétima edição do festival.

O resto da tarde fez-se ao som feeo e Daisy Ray, que abriram a pista para o ambient, drone, ritmos minimalistas e para os universos psicodélicos e hipnóticos, respetivamente, o que reafirma a curadoria experimental, pautada por artistas emergentes que embarcam diferentes formas de expressar a música e os moldes que esta pode ocupar.

Já no cair da noite, as melodias juntaram-se em simbiose e mutação para um cenário de clubbing. Este esteve nas mãos do francês Gil.Barte que, no meio das pessoas, entregou um set digno de criar imagens mentais e paisagens sonoras que nos levam para uns confins que caminham entre a meditação e uma dança rítmica do nosso corpo. Entre o dub e o techno, a performance entregou gradualmente bpms e breaks para a plateia que estava ao seu redor, já bastante aquecida e pronta para o que viria a encerrar esta noite.

Das 23h à 1h, já no Palco do Sereia, CVLT em b2b com Lizatron surpreenderam pela sua tracklist imprevisível. Percorrendo os ritmos do house e do dub, são dois nomes que se destacam pelo conhecimento abrangente e leque de discospelos. Surpresa pela versatilidade, a curadoria passou pelo goth e synth, rendendo-se, pouco tempo depois, aos sons de dub e ainda a breaks, deixando o público do Les Siestes na inquietação e na descoberta da música ou estilo que viria a tocar a seguir para encerrar a noite.

Fotografias por Zhang Qinzhe

O segundo e último dia começou ao som do duo Just Fish, que conta, agora, com a colaboração de José Silva no baixo. Este conjunto guia-se pela estética psicodélica, misturando o groove com glitch, criando um ambiente melódico coerente ao que se espera para o início deste festival. Em seguida, de pés descalços e de costas para o público, Megabasse, nome artístico de Pierre Bujeau, convidou a malta para um entardecer etéreo e meditativo. O som fez-se a partir da sua guitarra de dois braços e dos seus amplificadores, já a sonoridade transportou qualquer um para um sítio longínquo nos confins da mente. Alguns fechavam os olhos, outros deitavam-se pelos puffs e os outros ouviam com curiosidade a performance.

Essa suavidade melancólica foi seguida pela estética avant-garde de Ottomani Parker. A performance deste quarteto londrino explorou as múltiplas formas do jazz contemporâneo incorporado com toques de techno e de dub. Mas o destaque do último dia de Les Siestes vai para Malesa. O duo explora a fundo o trip-hop, criando uma sinergia entre drone, breaks minimalistas e sons quase xamânicos. As suas composições contaram também com um acid bucólico que, habitual a este festival, explora um dream state etéreo mas que é, por si só, catártico e disruptivo com as baladas mais mainstream de trip-hop, contando com a arquitetura do venue com o plano de fundo ideal para a apresentação do seu mais recente projeto, sob alçada de Comic Sans Records, “Ciudad sin Paredes”.

O último set desta edição ficou encarregue a DJ Narciso, produtor da RS Produções com ligações à Príncipe Discos. Já com uma plateia mais composta e com sede para clubbing, este set contou com originais e mixes que mostraram a inovação e autenticidade deste nome.

Coorganizado pela Casa das Artes Bissaya Barreto e Câmara Municipal de Coimbra, o festival natural francês Les Siestes entregou mais uma edição, com um programa que procurou comprometer-se com o futuro da música. Esta tese esteve em jogo e pode considerar-se vencedora graças ao cartaz irreverente com performances fora da caixa, que repensaram e desdobraram as fronteiras e a plasticidade musical. A edição contou ainda com um after na Oficina Municipal de Teatro, com os DJs Big Hands, Rita Maomenos e Xez.

Fotografias por Zhang Qinzhe

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