AUTOR

Daniel Duque

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Lançamentos favoritos de janeiro

12 Fevereiro, 2025 - 11:26

De ambient a drone, de footwork a techno, janeiro foi rico na música eletrónica nacional e internacional.

Blacksea Não Maya – Despertar [Príncipe]

“Despertar” é a despedida dos Blacksea Não Maya – e que despedida. Novas vidas e vontades fizeram com que o trio decidisse parar, mas não sem antes lançar um disco tão completo, rico e especial quanto este. Composto maioritariamente por DJ Kolt, o álbum é do mais variado e ainda assim conciso que temos ouvido. Exemplo disso e das surpresas que se vão escutando é que, por entre uma multiplicidade de coordenadas, de repente damos de ouvidos com as guitarras distorcidas de BALEBALE. Despedida, sim, mas parece que se abrem novos caminhos diante nós. Magia, mesmo.

Diogo – Saudade das Raves a que Nunca Fui… [Discos Extendes]

Homenagem à cultura rave dos anos 90 num dos novos frutos da pesquisa empírica de Diogo ao universo de breaks. Ritmos quebrados, basslines gordas, atmosferas que remetem para a nostalgia de uma vivência que paradoxalmente não vivemos. Tudo aquilo que se poderia esperar do nome da Discos Extendes e de alguém que tem entregado estudos que refletem passado, presente e futuro de movimentos como jungle. Fogo.

Ethel Cain – Perverts [Daughters of Cain]

Ethel Cain surpreendeu tudo e todos com “Perverts”. Dark ambient, drone lúgubre, doom metal, guitarras distorcidas e avassaladoras, mergulho fundo na dor e numa espécie de confissão espiritual – como o facto de masturbadores serem abandonados pelo paraíso (Perverts) ou o castigo imposto pelo amor (na emotiva Punish). Não é que “Preacher’s Daughter” não tivesse toques destes mundos, mas este trabalho vai mais além. Muito mais além. “Gostaria também de agradecer à música drone natural que existe em todo o mundo”, escrevia no Instagram na altura do lançamento. Nós agradecemos pelo disco tão cavernoso quanto convidativo.

Joana Gama, Luís Fernandes – Strata [Holuzam]

10 anos de dupla. Momento ideal para esta nos presentear com um novo caminho, mas sem deixar de ser claro que se trata de música de Joana Gama e Luís Fernandes. Há aqui uma transição de Gama para os synths, sem nunca esquecer ou largar o piano, e o que parece ser uma densidade acrescida, não em forma mas em espírito. As várias camadas imersivas levam-nos até uma profunda introspeção. O espaço dá-nos fôlego para aceitar o momento. Respiremos fundo.

Mujipuki – Still Puki

Footwork português? Sim, obrigado. Celebração do género (e de mundos como jungle ou jersey club) e de sete anos de Francisco Morgan com o pseudónimo Mujipuki. Música madura e bem-disposta num álbum certeiro que sampla até Serial em Brilhantes Diamantes. Pura classe.

rkeat – Indol [SIDE B]

O braço editorial da lisboeta SIDE B, de André Pina e Gsaid, teve arranque de sonho com “Indol”. Nome sério e estrela em construção da eletrónica nacional, rkeat apresenta aqui o lado mais techno, mantendo a versatilidade que o caracteriza. Entre simplicidade e riqueza, no lado A tanto temos a mais atmosférica Risky Endeavours, como Whereabouts a impor mais força. O lado B chama logo a atenção com End of Tips, faixa com baixo vincado e espírito sci-fi, e pelo remate feito com o tema homónimo, no qual os breaks ampliam e mostram ainda mais o alcance sónico de rkeat.

Sota – última volta [Vertigo]

Sota enfeitiça. Já o havia mostrado no ano passado com “Senhora dos Prazeres”, feito ao lado de Bapetismo, um claro candidato à lista de melhores de 2024. Agora, fê-lo novamente com “última volta”, EP de quatro faixas de tarraxo lento, romântico até, marcado por ambiências envolventes, detalhes como vozes mutadas e circundantes ou uma espécie de dualidade entre soturnidade e luz.

usof – stay longer [Theory Therapy]

Música de usof e de mais ninguém senão usof. Ambient que envolve corpo e mente, com texturas que nos cercam e dão refúgio, como é típico do trabalho de João Rochinha, e momentos de tensão rítmica que nos mantêm centrados neste universo único, introspetivo e repleto de profundidade. Nota 10, fossem notas precisas.

Voice Actor, Squu – Lust (1) [STROOM]

Colaboração irrepreensível e imperdível entre Voice Actor e Squu. Os fragmentos, vozes e atmosferas típicas de Voice Actor continuam lá, desta feita com algumas percussões ou sensações rítmicas esparsas numa fórmula que se pode categorizar como ambient, dub e downtempo – e até breaks ou trip hop em certos momentos. Este é para sonhar.

Z G A – Conceptual Música de Dança [CIGA239]

Eletrónica de dança livre e sem rodeios no regresso de Z G A à CIGA239, editora e coletivo conimbricense de que faz parte. Funk, dungeon synth, acid, techno, hyperpop, samples de nomes como Rosalía ou um excerto do diplomata palestiniano Husam Zomlot em entrevista à BBC. Rave. Liberdade. Tudo certo.

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