AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Podcast

N’A CABINE #046: FYZER

12 Maio, 2025 - 14:15

Regressamos ao podcast N’A CABINE com um nome que tem suscitado o nosso interesse nos últimos tempos.

Fechou recentemente uma noite “New Faces” no berlinense Tresor, mas não é de agora que FYZER chegou aos nossos ouvidos. O DJ aveirense aceitou o convite para assinar o 46º episódio de podcast e traz-nos uma hora “confortável e imersiva”.

Natural de Aveiro mas a morar em Berlim, Afonso Modesto é conhecido pelas sonoridades techno que marcam os seus sets, mas não só. FYZER é também um dos nomes por trás do projeto aveirense Vulto, com o qual procura “dar à cultura” e “criar um espaço onde não exista preconceito”, explica-nos na conversa que acompanha esta hora.

Sobre este episódio, FYZER usa termos como “sci-fi” e “deep”, algo que se verifica desde logo em faixas como Pink Rain, de Archypness. Tudo começa com as palavras de Marianna Maruyama em Not Knowing, ao lado de Hessel Veldman, e passa por temas como Haima, de Rrose & Polygonia, ou o electro de Steffi em The Big White Bang. Sem pressa e com coesão, tempo e espaço.

Podes recordar um pouco do teu percurso? Quem é o FYZER e como decide ser DJ?
Antes de mais, gostava de te agradecer o convite. Prezo bastante o trabalho desempenhado pela A Cabine, sinceramente.

Olha, sinto que, assim como bastantes situações que se desenrolam na minha vida, foi um clichê. Comecei por procurar a música em pequeno para fugir um pouco a problemas que enfrentava de uma infância complicada. Sinto que, inevitavelmente, sempre foi um grande pilar da minha história, até mais tarde se tornar uma forma de viver/ser para mim. O Fyzer nasce de uma forma gradualmente séria. Apesar de ter começado com outro projeto quando tinha 13/14 anos, este alter-ego vem como algo mais sério, com mais ambição.

Penso que, acima de tudo, o que pretendo representar com este projeto é apenas o de alguém que ama música e acredita na importância da mesma. Como alguém que, pelo menos até ver, não cria qualquer plano B e segue um feeling em prol de um som.

Consegues definir algumas influências deste caminho? O que te marcou e marca dentro da música?
O meu pai sinto que teve um grande papel. Apesar de já ter falecido, sinto que continua a ter. Obrigava-me com frequência a ouvir Pink Floyd, lembro-me inclusive de termos umas “discussões” porque em pequeno eu só queria jogar futebol e ele metia sempre o mesmo concerto de 1990 – “The Wall”, em comemoração da queda do Muro de Berlim. Coincidência ou não, hoje em dia vivo lá e sinto-o bastante presente em todo o meu processo. Gosto bastante dos The Smiths, The Cure, Radiohead, Bauhaus, Sly & The Family Stone. Mas também ouço algum Hip Hop, Blues e outros géneros.

Ligado à eletrónica, Efdemin, Rrose, Dasha Rush, Sandwell District, James Ruskin, Surgeon, Edgar 9000, Mathew Jonson, Quelza, Dvs1, Ben Klock – a lista continua e é enorme…

Oscar Mulero é talvez a minha maior referência. A nível nacional, os com que mais me relaciono talvez sejam Lewis Fautzi, Temudo, Nørbak, acompanhando com frequência os lançamentos dos três.

Estás envolvido na aveirense Vulto. Podes falar sobre esse projeto e a importância que tem para ti?
A Vulto significa bastante para mim. Significa memórias, sonhos, progresso, luta, liberdade. Quando ela foi pensada, o objetivo passava por isto que acabei de citar. Dar à cultura, criar um espaço onde não houvesse preconceito, todos seriam bem-vindos desde que respeitassem a atmosfera criada. Construí juntamente com outras pessoas, em prol de facultar um espaço a artistas onde todos seriam reconhecidos, tratados com o respeito merecido num espaço que priorizasse a música. A arte em vez do social. Sempre foi esse o meu objetivo. Potenciar artistas, reduzir a distância mesmo que fosse por uma noite entre upcoming e artistas que já tivessem estabilizados. Troca de testemunhos.

Mudaste-te recentemente para Berlim. Qual a motivação para a mudança e como é que a cidade te tem tratado?
Berlim respira arte, as pessoas são bastante autênticas na sua forma de ser e estar. Não há nada como casa, nada. Já vivi fora antes e a saudade, por maior conforto que haja, nunca sai da equação.

Fui porque quero aprender, ver mais, sentir mais, viver na primeira pessoa as dificuldades de saber que tentámos tudo por um sonho, ultrapassá-las em prol de estabilizar num sítio que representa uma casa para tantos artistas, aprender com os mesmos. Absorver conhecimento.

Felizmente sinto que me tem tratado bem, mas inevitavelmente testa-te sempre, o início foi muito difícil. Optei por nunca parar com a Vulto e passei momentos financeiros difíceis, arranjar casa em Berlim não é fácil. Não conhecia ninguém e tive de manter um trabalho de 40h lá, enquanto geria a marca. Não me arrependo de nada. Mas foi um ano mesmo muito duro.

Tudo acaba bem quando está bem no final. Mantive-me forte e focado e recentemente fui convidado a tocar o closing no Tresor, senti que foi o colmatar de tudo aquilo que vivi e a recompensa à resiliência que foi necessária. Aquele sítio representa muito para mim. Sou bastante feliz lá atualmente.

Como olhas para o papel de DJ? Como é que te descreverias nesse sentido?
De certa forma, tento que as performances se dividam por momentos, tento provocar com algo mais melancólico/introspectivo, causar até frustração, se me sentir confortável, enquanto vou balançando com situações uplifting, de amor. De modo figurativo, é talvez como eu enquadro isto, mas descrever um feeling é difícil.

Penso que ser DJ é ter a sensibilidade de pensar em grupo, amar em grupo, ter a consciência de que, apesar de se querer viver em cunho artístico, é uma festa e essa arte tem que ser passada em espaço no som, para fluir e celebrar. É importante no meu ponto de vista. É uma partilha, de música, de tempo, de confiança, de momentos. É a forma como se absorve e interpreta música e atmosferas.

O que decidiste preparar para este podcast?
Tentei fazer algo confortável, imersivo, em que fosse percetível o meu ADN na forma de “conduzir”. Construí algo com BPM mais baixo do que geralmente toco, sci-fi, deep. O intuito é que nos permita relaxar 60 minutos, talvez por um momento vos levar a um club, festival, evento onde já foram felizes. Música que tenho encontrado e colecionado com amor, emoção. Sons que me tocam. Na base do techno.

Qual é a tua opinião sobre a atual cena clubbing em Portugal? O que consideras necessário e essencial para uma cena saudável?
Olha, acho que a cena em Portugal tem vindo a desenvolver cada vez mais artistas com muito talento. Bastantes promotoras a aparecer, outras que apresentam um crescimento ótimo já com frequência, inevitavelmente isto faz com que a cena cresça. Portugal é de facto um paraíso, no entanto, há fatores que limitam bastante o nosso conforto e desenvolvimento. A situação económica das pessoas está complicada numa elevada percentagem. O que cria um ciclo vicioso crítico para o mercado da noite. É considerado um luxo para uma enorme percentagem de população em Portugal. Vejo uma enorme vontade mas falta de recursos.

No entanto, a nível de festivais estamos a subir, na minha sincera opinião, de forma exponencial. Fico feliz que Portugal possa ser uma referência mundial nesse sentido. Recebemos anualmente artistas incríveis em diversos setores.

Para terminar, alguma mensagem ou conselho que gostarias de passar a quem te lê e ouve?
Faz o que sentes, não tenhas medo de viver ou simplesmente não vivas de opiniões. Luta por fazer o que gostas, sê louco, ajuda, brinda, chora, cai, ri-te. Ouve música que te arrepie os braços.

Fotografia por Sofia Morgado

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