AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

Então que Parallel Society é esta?

18 Março, 2026 - 10:55

A primeira edição de Parallel Society levou muita música para dançar até Lisboa. Mas não se ficou por aí.

“Afinal há venues na cidade”, disse-nos uma DJ da cena lisboeta pouco após entrarmos no recinto. E que venue. Situado em Marvila, o ONE Your First Stop é um antigo entreposto ferroviário com alguns armazéns. Num desses, construído nos anos 40, teve lugar a primeira edição de Parallel Society, “uma convergência intercultural independente e sem fins lucrativos”, nas palavras da organizadora Logos.

Antes do evento, a Logos, que contou com as mãos da Made of You na produção, notou também que a organização era coletiva e fruto de uma coligação entre comunidades, especialistas em tecnologia e ativistas. Mas já lá vamos. Primeiro, o tal espaço. Estrondoso. Desde logo, um cenário altamente industrial. Cá fora, a linha de comboio no lado direito. No esquerdo, a entrada. Apeadeiro original adentro, chega-se eventualmente a um armazém com um espaço de 3200 metros quadrados.

Sobe-se umas pequenas escadas e temos à esquerda um palco. Numa sala fechada, mais à direita, o outro, com uma zona exterior para conviver (e fumar). Ambos com música em simultâneo, bem próximos um do outro, nenhum prejudicou o som do outro. Lá à frente, 36 janelas com vista privilegiada para o Tejo, dando um contraste entre mão humana e natureza – ou, aliás, dando um contexto desta Lisboa industrial banhada pelo rio, tantas vezes usada como porta de entrada (e saída) da Europa.

Não faltavam bares e staff a garantirem a fluidez do festival, que tinha vários espaços para estar. Perto das tais janelas, por exemplo, várias mesas e cadeiras. Distribuída pelo recinto, muita arte assinada por uns quantos artistas, como Nature the Artist, Batu Behram, Cardoz ou Ana Tortos, que preenchia o espaço e dava outra camada à experiência. Convidativo.

O Parallel Society desenrolou-se ao longo de dois dias, 6 e 7 de março, com o primeiro reservado para a conferência. Não estivemos presentes no primeiro por razões profissionais e a verdade é que, para alguém cujo foco é música, havia muitas atividades algo estranhas, como à volta de criptomoedas e blockchain. Talvez parte do que pareceu ser conforto financeiro tenha vindo daí. Mas, vá, nem tudo parecia assim tão descabido.

Repare-se que estiveram presentes pessoas de organizações como Internet Archive e falou-se sobre temas como descentralização ou “Cyber-Guerrila Resistance Through Counter-Economics & Digital Sabotage”. No mesmo programa, encontravam-se conversas sobre rádio (com a Rádio Quântica), comunidade e até sobre a Quinta do Mocho. Seria injusto, por isso, estranhar por completo a ligação desse primeiro dia ao segundo, à música e à vida. E seria injusto não ver na tecnologia e na internet ferramentas que podem ajudar a garantir um mundo mais democrático, no mínimo por serem meios de comunicação que abriram e abrem portas.

Um dos maiores elogios que o festival merece é a atenção que deu à cena local, abraçando a sua diversidade e dando valor às comunidades africanas e brasileiras que aqui vivem. Exemplo disso foram os três primeiros atos no The Terminal, o palco principal, logo a partir das 13h de sábado: Nelson Makossa, Afrojamslx e Abajour Nonok.

Chegámos pouco depois das 14h e fomos a correr para o The Lab, onde os ucranianos ϙue, equii e Olena Bublyk, também residentes em Lisboa, iriam apresentar “In[corporeal] Fluxus”. Uau. Descrito pelos próprios como “uma história sobre harmonia tecno-orgânica, onde a existência biológica e digital se fundem num único ecossistema”, o espetáculo passou pelos visuais de equii, algo glitchy, a acompanharem a música de ϙue, que partia também dos movimentos do corpo dançante Olena Bublyk, com sensores a si ligados. De movimentos rastejantes no chão até se levantar, Bublyk foi figura central, como que se descobrindo à medida que crescia e nos ajudava descobrir que seres somos nós. Talvez uma visão descontextualizada e subjetiva, esta, mas foi isto que retirámos.

Na senda do experimentalismo, tanto de som como de imagem, seguiu-se o estúdio português Collective Unconscious no mesmo palco. Ainda bem que não estávamos em cogumelos ou num outro psicadélico. Viagem a remeter para um qualquer Wipeout na parte inicial, muitas cores, mensagens a fazer lembrar o mundo capitalista lá fora – “dormiste x horas”, “fundos insuficientes”, etc. – uma cara a rir-se, quase maléfica, até que numa parte mais calma surgem posições de yoga e eventualmente o cosmos. Há de ter mexido no inconsciente, há de. Nós agradecemos.

Pela mesma altura destes dois concertos, estava a haver dois workshops – um dedicado à construção de um sound system, com a Rádio Quântica, e o outro ao DJing, com SoundPreta. Aqui, mais uma vez, há que elogiar o Parallel Society pelas atividades complementares que oferecia.

No The Lab, a tarde seguiria com Albin, Gayance, Kokeshi, SoundPreta, Violet e Maria Amor & Shcuro, provando a tal atenção e respeito dados à cena local. Antes todos os festivais fossem assim. Espreitaríamos alguns destes nomes pontualmente, mas acabámos por estar muito no palco The Terminal – e à conversa nas áreas adjacentes. Também faz parte.

O alinhamento nesse palco principal foi notório. É que, repare-se, às 17h, as Los Bitchos subiram a palco para tocar músicas de ambos os álbuns que têm lançados, como os temas Pista (Fresh Start) e Las Panteras, e mostrar aquela fórmula que remete para música latina, como cumbia, psicadélica e até baleárica. Power. Daí, o formato de concerto continuava, desta feita com o baterista Moses Boyd, acompanhado por vozes ou teclas, a mostrar por que razão é tão elogiado dentro da cena jazz britânica e mundial. Dois casos de música distintos, mas ambos enquadrados na lógica de festa e dança que se esperava do festival.

Ainda no The Terminal, é difícil não olhar para o espetáculo AV de Clark como um dos destaques. Não que o lado visual tenha sido algo de extraordinário – ou então já tínhamos os olhos distraídos – mas a música foi especial neste muito aguardado regresso do britânico ao país, cerca de oito anos após a última passagem por cá. Ao vivo, Clark mostrou a sua roupagem mais de dança, passando por inúmeros temas do disco “Steep Stims” e passando, por isso, por breaks emotivos (Janus Modal) ou doidos (Civilians) e também por algo mais techno (Infinite Roller). Muito, muito bom.

O Parallel Society não se fartava de nos dar música boa e seguiu Clark com nada mais nada menos do que Gilles Peterson, ali acompanhado pelo MC Rob Galliano. Que mais pedir a um mestre que começa algo ambient, aplica toques de jazz e eventualmente espeta um dubstep como Militant Don, de Mala e Magugu, para virar aqueles corpos e cérebros ao contrário? Nada, mesmo.

Antes de o The Terminal voltar aos DJs, ainda havia concerto de Apparat. Aqui, preferíamos ter trocado a hora do alemão pela de Gilles Peterson, mas é preferência pessoal. Acompanhado por banda e vários instrumentos, Sascha Ring levou música do mais recente “A Hum of Maybe”, não esquecendo álbuns como o de 2019 “LP5”, do qual tocou, por exemplo, a incrível Dawan. Comovente e enriquecedor, bem ao estilo de Apparat.

Com muita pena nossa, saímos do The Terminal após esse concerto. Gostaríamos de ter ficado pois havia Chima Isaaro a abrir para DJ Stingray 313 – mais uma nota de destaque por terem posto esta DJ antes do boss de Detroit – mas, por muito que quiséssemos ouvir electro, techno e aqueles dois, não ouvíamos Kode9 há mais tempo e nunca havíamos ouvido Calibre ao vivo.

O The Lab estava a ser uma autêntica lição de música bass, supomos, com a sequência de Violet e Maria Amor & Shcuro a abrir caminho para Kode9. O patrão da Hyperdub não desiludiu, pois claro. Logo de início, DJ Rashad para nosso deleite, com muito footwork ao longo do set, sim, mas também jungle de nomes como Fracture & Tim Reaper (Dancing Toms) ou, mesmo a chegar ao fim, Burial em Chemz (aqui talvez um qualquer remix, difícil lembrar bem o que ouvimos àquela hora). Que mestre.

Para fechar o The Lab, à medida que DJ Stingray 313 rematava o The Terminal, Calibre, nome indissociável do drum’n’bass e da vertente mais liquid do género. Como nos diria uma amiga, em parte foi como ouvir uma playlist do irlandês numa plataforma de streaming, já que tocou tantas faixas suas, como Simple Emotion, Tame, Tripping Out ou Moonlight. Mas, somando isso ao DJing fluido, era difícil ficar desiludido com este encerramento.

Deve haver várias razões para a equipa por trás do festival ter escolhido o nome Parallel Society. Ora a cultura de ciberespaço em evidência no primeiro dia, ora o mundo da blockchain, ora a música que está à margem. Não sabemos o motivo, mas sabemos que, no que toca a festivais grandes, de facto, e infelizmente, não há muitos em paralelo com este, no sentido de que eventos de eletrónica não têm vindo a oferecer outras atividades além da música, como, por exemplo, os workshops que aconteceram durante o dia dedicado à música.

Talvez um dos pontos negativos a apontar será o preço de bilhetes e bebidas não estar também à parte. No fim de contas, no entanto, são valores habituais e prática de norte a sul. Olhando para trás, e aliando os aspetos positivos referidos ao espaço, à arte, à atenção dada à cena local e à boa experiência que tivemos no único dia em que estivemos presentes, o balanço é positivo. Resta saber se vai haver segunda edição e qual a abordagem dessa.

Fotografias cedidas pela organização

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