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Entrevista

Sónia Trópicos: “Baby Drama”, porque a tristeza também se dança

21 Maio, 2026 - 11:30

O último EP de Sónia Trópicos, “Baby Drama”, serve de mote para uma conversa com a DJ e produtora.

Natural da Margem Sul, Sónia Margarido correu várias artes antes de chegar à música. Em 2020, começou a aventura na produção, em parte graças ao coletivo Beats By Girlz, e daí nunca mais parou.

Em 2022, venceu o Pulsar, concurso da Cosmic Burger destinado a mulheres criadoras de música eletrónica, e foi a partir dessa oportunidade que compôs o EP de estreia, “Astral Anormal”.

Pelo caminho, colaborou com vários nomes da música nacional e passou por festivais como NOS Alive, Coala Festival, MIL e até espaços internacionais. Ao vivo, aliás, podemos encontrá-la em formato live ou DJ set.

Conhecida por celebrar o espectro de emoções humanas na sua plenitude, como dizia aquando do lançamento de “Astral Anormal”, Sónia Trópicos fala-nos agora sobre “Baby Drama”, um EP para dançar mesmo de lágrima no olho, e aproveita para nos explicar mais sobre este caminho.

Começaste em Artes Visuais. Fala-nos um bocadinho sobre o teu percurso.
Sim, comecei o meu percurso em Artes Visuais e acabei por experimentar várias coisas. Mesmo de forma autodidata também fui à fotografia, à ilustração e à cerâmica. Tive ali uma paixão muito grande e muito especial pela ilustração e pela cerâmica, que ainda estão presentes na minha vida, mas de forma mais secundária e mais lúdica. Fui navegando por várias áreas criativas.

Como chegaste à música?
A música sempre teve uma forte presença em mim, só que eu nunca soube realmente tocar nenhum instrumento. Tive aulas de piano para aí aos oito anos, das quais desisti. Sempre toquei piano de forma um bocadinho autodidata, mas acho que foi assim durante a pandemia que eu vi pessoas a falarem disso e a serem vocais sobre a produção. Encontrei um grupo que são as Beats by Girlz, que faziam produção apenas para mulheres, davam aulas, e eu juntei-me. Durante o covid-19, comecei a experimentar sozinha em casa.

O nome Trópicos tem uma carga muito sensorial. O que representa para ti?
Olha, na altura, nem era suposto ter tanto peso. Acho que era mais um mood e um feeling. Porque, no fundo, trópicos são linhas longitudinais que atravessam o globo e passam em específico por zonas quentes. Acho que por me sentir bem no calor, nesse quente que são as sensações, as sonoridades e as texturas, acabei por adotar esse nome. Mas nem foi assim com nenhuma intenção específica — foi mais sensorial do que outra coisa.

Os teus projetos são muito emotivos. Tu partes do sentimento ou reges-te mais pelo design do som e pela estrutura quando começas a criar?
Eu sou muito ligada a estéticas, ou seja, procuro muito uma estética específica no som. Mas, nas minhas produções mais pessoais, quando estou a produzir para mim, acabo por partir mais de um sentimento do que de outra coisa, porque a música eletrónica às vezes pode parecer um bocado fria e… Como é tudo muito feito através do uso das máquinas, sentir que posso trazer esse sentimento acaba por dar uma intenção e um contraste ao som, aliado à estética, que me fazem chegar aos sítios que eu quero. Eu não sei como é que as pessoas depois o recebem, porque cada pessoa recebe da sua forma, mas eu sinto coisas e sei onde é que estava emocionalmente quando ouço as minhas produções. E espero que isso passe depois também para quem ouve.

Desde o teu primeiro lançamento até aqui, o que é que mudou e como trilhaste o teu caminho?
Acho que, inicialmente, o “Astral Anormal” e os remixes eram um bocadinho mais naive e eram baseados numa intuição e numa experimentação mais livre. Depois, o “Singela” acabou por ser a evolução disso, já uma aplicação emocional aliada a uma estética quase de arte popular. Na arte popular há muita inocência no crafting. Eu quis trazer esse conceito para a música e sinto que o “Baby Drama” já é o culminar desses dois projetos de uma forma mais madura. Ou seja, tanto estética como emocionalmente, acho que sou uma pessoa mais madura e sou melhor do que o que queria fazer com essa musicalidade. Então, embora o “Baby Drama” também seja livre e cada música tenha um sentimento e uma estética diferente, acho que acabou por ser essa maturidade consolidada que me fez dar assim um salto para conseguir fazer um álbum com, se calhar, uma lógica ainda mais consistente.

Disseste que não vias muitas mulheres na produção musical. Como é a tua percepção agora?
Eu acho que esse tema é sempre muito complexo de abordar porque, embora seja um bocado nicho, acho que já se fala muito em mulheres na produção. Há imensas mulheres na produção em Portugal e pelo mundo inteiro, mas eu acho que é completamente discrepante ainda, e continuará a ser durante muito tempo. Vejo que é sustentável quando uma pessoa pode viver disso e tem uma carreira consolidada — mas, muitas pessoas, muitas mulheres produtoras ainda precisam de fazer coisas paralelas e têm ainda dificuldade em profissionalizar isso. A indústria da música em Portugal também acaba por ser um bocado pequena e bastante nichada. Onde eu vejo mais mulheres é fora desses circuitos comerciais. Acho que onde eu tenho visto mais mulheres a produzir até está muito agregado a projetos que já estão consolidados e é tipo: “ah, vou começar esta ideia e depois passo para alguém”. Mas a profissão de mulher produtora ainda está completamente desfalcada em termos de homens — mulheres e pessoas não-binárias também.

Quais têm sido as tuas maiores dificuldades?
Eu tenho tido a sorte de ter pessoas fixas ao meu lado que me deram a mão. Não tenho muito de que me queixar enquanto pessoa individual. E também faço um esforço para dar a mão às mulheres e às pessoas não-binárias à minha volta para que isso não aconteça. Mas acho que ainda há um tecto e um certo embate.

Tenho a ambição de me tornar melhor tecnicamente, esteticamente, para conseguir também combater isso. E acho que também há muito trabalho a ser feito da minha parte, mas sinto esse tecto a chegar, e é um bocado difícil de ultrapassar. Já passei por situações de, sei lá, chegarem ao pé de mim no final de um set ou no final de um concerto com o que acham que eu deveria fazer, e eu acho que isso é uma experiência menos recorrente para um homem, por exemplo. Ou de me mandarem um Excel sobre o que é que eu devia melhorar em todas as minhas músicas. O público é um bocadinho mais opinativo [quando és mulher]. E eu obviamente gosto dessa opinião e agradeço porque aprendo muito com isso. Mas não quando é feito de uma forma condescendente. E acho que ainda há um bocadinho essa condescendência.

Tento lutar muito também a munir-me dessa parte técnica para ser levada mais a sério. Tento proteger-me nesse aspecto.

Como surge o “Baby Drama”?
Na altura, comecei a ficar viciada em sonoridades que não estava antes a contemplar para mim. Como, por exemplo, o trip hop, o ambient, até aquele EDM do início dos 2010s.

2012-2016 foi uma grande fase de música para mim, e eu pensei em resgatar algumas coisas estéticas dessa altura porque acho que também me traz lembranças boas e más em termos de sonoridades, nessa lógica de associar a sentimentos.

Então, por exemplo, a Arcanjo da Balenciaga, que é a primeira faixa, é uma música mais ambiental sobre uma procura por nós mesmas. Chama-se assim porque Balenciaga é uma marca na qual tu tens um objeto super comum mas que depois é sobrevalorizado e eu quis transformar esse sentimento em autovalorização.

Depois tens o Sine Finesse, que é à volta de uma onda sinusoidal, uma base do som, em homenagem à Simone de Oliveira, à Desfolhada Portuguesa em específico, com vários samples cortados da voz dela, juntamente com batida.

O Peugeot 205, que foi o meu primeiro carro, tem uma viagem pela pista de dança com uma interferência a meio, de uns poemas que fui buscar a vários sítios, também de mulheres poetas. A Sereia do Tejo tem um bocado essa estética melancólica: também um bocadinho ambiente e kizombeira em que vai chamar o Motorola para fazer uma chamada que não é atendida. Também é uma busca…

A colaboração com a Femme Falafel foi um culminar que eu queria partilhar com alguém, um chamamento de empoderamento de uma mulher para ter autonomia dos seus desejos e de poder ser sensual, sexy e reclamar isso para si. Foi isso que eu quis fazer com ela e, mesmo na estética musical, também tentámos que isso transparecesse e soasse assim um charme.

Disseste há pouco que estas músicas te trazem lembranças boas e más. Quando estás a tocar, por exemplo, imagino que seja uma enxurrada de emoções, porque estás a viajar para, se calhar, uma situação que te pode trazer tristeza enquanto estás ali no meio da euforia com toda a gente alegre. Como equilibras isso?
Eu tento ser o mais genuína possível, ou seja, os sentimentos que eu tenho, tento não ser muito dura com eles e observá-los. Acho que é um momento de muita ansiedade para mim, mas eu também vivo esses momentos. Ou seja, acho saudável quando sentes alguma melancolia ou tristeza no momento de produção e deixas transparecer quando tocas; porque não é uma máquina que está à tua frente, é uma pessoa e uma pessoa sente coisas, e eu quero que as pessoas também sintam coisas. Acho que isso é a melhor recompensa para alguém que faz música: é que a pessoa sinta qualquer coisa de volta e então eu deixo que isso se espalhe um bocadinho na atuação.

Agora tive um concerto em que houve violino e teclas, e eu também tive essa intenção de chamar esses dois instrumentos porque para mim são instrumentos muito sentimentais. E então é isso: não tento que eles me controlem muito, mas também deixo que eles vivam em mim durante a atuação.

Falaste nas samples de Simone de Oliveira; que outras inspirações e influências é que trazes contigo e tens colecionado ao longo deste tempo?
É assim, desde o início que a M.I.A sempre foi uma referência para mim, porque acho que ela sempre conseguiu fazer várias fusões sonoras de coisas tradicionais com coisas mais contemporâneas com beats que tu não conseguias meter numa caixa ou num género. Então sempre esteve presente em mim.

E tenho estado muito viciada em Erika de Casier. O último álbum dela, “Lifetime”… Ouvi bastante e esse álbum também foi uma grande inspiração para eu trazer coisas mais ambientais e leves, de modo a fazer contrastes com outras sonoridades que eu tinha que eram mais agressivas ou mais clubbing. Então, acho que foram assim duas referências muito pesadas.

Também ouvi algumas coisas de Portishead, que é bastante presente no trip hop. Também ouço kizomba, funk brasileiro, entre outros. Então tento juntar esses universos todos numa só coisa. E depois há os tradicionalismos. A gente carrega este peso do fado e da melancolia e que eu acho que também está um bocadinho presente. E a Desfolhada Portuguesa fez parte disso também.

Já tens planos para o futuro? O que se avizinha?
Eu gostava… Bom, não é “eu gostava”. Eu vou lançar um álbum. Já estou a trabalhar nele. Estou com medo de dizer que vou lançar um álbum, mas eu vou lançar um álbum. Estou a trabalhar para isso. Acho que a era dos EPs já foi fixe, mas agora merece já um álbum.

Estou a planear mais concertos ao vivo, especialmente o live. Eu gosto muito de fazer DJ sets, mas acho que tenho muito prazer em fazer lives e tocar as produções originais ao vivo em formato de banda.

Vou estar no Sónar Barcelona também, que eu acho que vai ser muito fixe para vincar o que eu tenho estado a trabalhar. Vai ser em formato DJ set, mas vou trazer todo o universo das minhas produções para esse set. E por enquanto é isso, espero ter ainda mais concertos e poder tocar para mais pessoas. Obrigada por isso.

O que é que mudou em ti entre o “Astral Anormal” e o “Baby Drama”, enquanto pessoa e enquanto artista?
Acho que vieram coisas boas e vieram coisas más porque, quando eu comecei o “Astral Anormal”, não estava inserida na indústria da música, e desde aí passei por muitas fases e muitas experiências que me acrescentaram enquanto artista. Mas ao mesmo tempo há um deslumbre inicial de coisas que tu não vês que são menos positivas e, depois, quando começas a desenvolver carreira, tu reparas. E isso são desafios para serem enfrentados e eu não tenho medo deles. Todas as coisas que a indústria possa trazer de mau ou de bom, eu estou up for the challenge e quero ir em frente. Não é uma coisa da qual eu queira desistir, quero enfrentar isso e poder fazer parte de uma mudança de paradigma se for possível. Senão, vou só continuar a tentar e vamos ver onde é que isso leva.

Algumas percepções sobre a música mexeram comigo de formas boas e más, mas fizeram parte dessa evolução e acho que, enquanto pessoa, também sou agora mais madura, mudei várias coisas em mim. Acho que sou mais segura de mim mesma, fiz mudanças na minha vida, vim experimentar a capital. Eu sempre vivi na Margem Sul e, desde o “Astral Anormal”, experimentei vir para a capital. Acho que fiz vários amigos e várias pessoas fixas ao longo do percurso que esta carreira também me deu e tem sido fixe partilhar essa evolução enquanto artista e pessoa com mais gente, com quem quiser receber.

Sentes que estás a caminhar para algo mais íntimo ou mais performativo?
Eu acho que as duas coisas andam de mão dada. Porque há pessoas que têm pessoas fictícias para performar e que se apoiam nelas. E eu sou da opinião que nós temos dentro de nós várias características e qualidades que são usadas consoante o ambiente e a situação onde tu te encontras. Ou seja, eu posso não ser sempre a performer que é a Sónia Trópicos, mas eu sinto que ela está em mim e que é usada quando necessário. E eu acho que preciso de ter bastante intimidade comigo mesma para também mostrar alguma vulnerabilidade e ser a pessoa que sou e respeitar-me, como por exemplo quando estou fazendo DJ set: se eu não quero estar a olhar para ninguém, eu estou ok por não estar a olhar para ninguém e, se estou mais animada e quero, estou mais para fora, dou mais isso de mim. Eu tento não me forçar a ser apenas uma pessoa performativa porque, se eu não for fiel a mim mesma, isso pode criar alguma frustração.

Para acabar, quando estás a criar, estás mais próxima de te libertar ou de te confrontar?
Amei a pergunta. Porque isso é uma discussão que eu tenho com várias pessoas que também criam, não só produtores, mas também outros tipos de criadores. E acho que difere muito de pessoa para pessoa. Para mim, é um momento de sofrimento enorme.

Eu sofro bastante a produzir. Para além de tu teres que pôr sentimentos no que estás a fazer, que é o que eu costumo fazer, depois há muito a questão da autocrítica. De tu teres que perceber se estás a fazer uma coisa que é boa, se é má… Depois pensas: “será que alguém vai entender isto, será que alguém vai gostar?”. Há sempre muitas dúvidas e então um pouco de sofrimento.

Mas quando eu consigo ultrapassar esta barreira, também me consigo libertar e divertir com o que estou a fazer. Quando acabo uma coisa, acho que é aí que esse momento de libertação vem e se transforma noutra coisa. Então, acho que são várias etapas de processo.

Depois de criar, costumas “deixar a maturar”? Tens alguma pérola guardada?
Eu tenho várias que são pérolas ainda guardadas, mas eventualmente vou partilhá-las, porque há músicas que são especiais e que precisam de alguma distância para olhar para elas do género “fiz isto, isto é super íntimo, vou deixar aqui de parte para poder trabalhar mais tarde porque preciso de alguma distância deste assunto”. Aí, vou ter outro olhar sobre a produção daquela música e sobre o que ela significa. E depois também são músicas mais exigentes que precisam de algum trabalho até eu sentir que elas estão prontas para serem postas no mundo. E eu acho que isso ajuda a guardar ali um sentimento que precisa de maturar um bocadinho.

Então, eu diria que há uma caixinha ainda de coisas que talvez saiam agora no álbum e outras que eventualmente vão para o mundo.

Fotografias por Carolina Marta

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