AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Inês Condeço: “A vulnerabilidade interessa-me muito”

15 Junho, 2026 - 12:46

Inês Condeço conversa com A Cabine sobre o novo disco, “the space between birds”, e o caminho percorrido até aqui.

Pode o ato de ouvir pássaros ser um ato de resistência? Inês Condeço acredita que sim. No novo disco, a leiriense explica-nos como através de uma história contemplativa que convida a abrandar e a fechar os olhos.

Editado com apoio da Fundação GDA, “the space between birds” leva-nos “céu adentro, acompanhados por piano, synths ou voz”, escrevíamos nos nossos lançamentos favoritos de abril. É um álbum marcado por field recordings, gravados com um estado de espírito que “serviu de mote para a criação” do trabalho.

Hoje a viver em Almada, Inês Condeço é uma música licenciada em piano e música clássica pela Universidade de Évora, com uma pós-graduação em Arte Sonora: Processos Experimentais pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Começou a aventura na eletrónica há três anos e, desde então, lançou um álbum a solo, “Lacuna”, e tem atuado ao lado de nomes como Pedro PMDS ou em espaços como o Outra Cena, em Lisboa.

Neste disco, conseguiu expressar-se como nunca, segundo palavras da própria, e “sente que cada vez mais é capaz de expressar as suas emoções” e que tem “a liberdade de ser o que quiser, sem rótulos e encarando a infinitude de possibilidades e aprendizagens do futuro.”

Nesta entrevista, Inês Condeço guia-nos por tópicos como este disco, atos de resistência e o seu percurso até então.

Dizes que o disco surgiu de “uma reflexão sobre a esperança e a luz num mundo distópico, desumanizado e acelerado, onde olhar para o céu e ouvir os pássaros se tornou um ato de resistência”. De que forma ouvir e olhar para os pássaros é um ato de resistência?
Sinto que vivemos tempos de muita turbulência, caos e ruído, onde se torna muito difícil assimilar toda a informação e onde é difícil não ficar assustado e desesperançoso perante alguns dos fenómenos aos quais temos vindo a assistir, sejam de natureza política, social, ambiental… Ouvir os pássaros surge como um exemplo de resistência nos dias de hoje. Esse contemplar e conexão com a natureza, a atenção ao detalhe e à beleza, dá-nos espaço, permite-nos respirar, refletir e continuar a lutar com esperança.

Já olhavas e ouvias os pássaros antes ou este mundo obscuro ajudou a virar a atenção para esse lado da natureza? É curioso pois só no último par de anos é que comecei a ganhar interesse por pássaros.
Neste momento vivo numa cidade grande, movimentada e às portas de Lisboa – Almada. Adoro a cidade mas também sinto cada vez mais a necessidade de passar momentos na natureza, sozinha e em silêncio. Ouvir os pássaros é uma das coisas que mais gosto de fazer enquanto olho o céu. Sempre gostei disso desde pequena.

Que outros atos de resistência, menores ou maiores, podemos praticar neste mundo distópico?
Num sentido mais geral, diria que todos os atos conduzidos pela empatia e que tornam o mundo mais esperançoso e bonito são atos de resistência.

E a música, pode salvar? Não só o ouvinte, mas o artista também.
Eu diria que a arte, sim. No caso da música e no meu caso em específico, eu sinto que é a forma de expressão onde consigo de uma forma mais íntima e honesta expressar o que sinto e penso. Sinto que a música pode ser uma extensão humana que nos permite ganhar diferentes dimensões e dizer coisas que de outra forma dificilmente seriam ditas.

Cerca de dois anos separam “Lacuna” deste “The Space Between Birds”. Como foi a vida nesse período?
Estes dois últimos anos foram muito desafiantes e tive a oportunidade de fazer colaborações muito bonitas que me fizeram crescer e aprender muito. Também aproveitei o facto de não estar a tocar música de nenhum disco para explorar ao vivo a improvisação, aprendendo a lidar com o que sai fora do controlo, permitindo uma fluidez natural do momento. Também a nível pessoal foram dois anos muito desafiantes que me permitiram uma grande transformação e aprendizagem.

Como é que se deu todo o processo de recolher os field recordings? Onde foram captados?
Os sons da natureza que utilizo foram captados na Serra de Aire e Candeeiros e noutras zonas ali à volta. Foram vários dias de gravação e contemplação. O estado de espírito nesses momentos de gravação serviu de mote para a criação do disco. Também gravei perto da Catedral Notre-Dame, enquanto passava pelas pessoas e ouvia os sinos, mas sem a intenção de usar em disco. Mais à frente fez-me sentido usar a gravação numa das músicas, a servir um coral e a dar movimento à ideia de queda num abismo sem fim.

A voz também tem uma presença séria neste disco.
Desde criança que sempre adorei usar a minha voz para improvisar, sobretudo. E este projeto a solo permitiu-me encontrar a forma de a utilizar que me faz sentido e me dá mais prazer. Utilizo a voz como um instrumento para construir texturas mas também para ajudar a criar alguns ambientes, sem letra. A vulnerabilidade é algo que me interessa muito e é, sem dúvida, quando uso a minha voz que acabo por me sentir mais vulnerável e eu adoro isso. Acho que neste disco a voz é trabalhada de uma forma mais detalhada e complexa do que no primeiro. Na música desisto ou resisto acabo por utilizar muito “corte e costura” das linhas que gravei da voz e sinto que foi a forma que encontrei de representar uma distopia, um conflito interno, uma fragmentação do ser.

Voltas a assinar um disco introspetivo e de tons esperançosos, mas temas como desisto ou resisto certificam-se de que não podemos tomar tudo por garantido. Consegues resumir e guiar-nos sobre o que se ouve do início ao fim de “The Space Between Birds”?
Este disco começa e termina num tom esperançoso e contemplativo com o canto dos pássaros mas passa também por vários momentos de caos e agressividade. Essa dualidade interessa-me e sinto que representa o que nós como seres humanos vivemos atualmente. São várias reflexões, várias peças soltas ao longo deste disco, mas que se ligam pela tentativa de atingir um equilíbrio. A agressividade e delicadeza coabitam e constroem a ideia de manifesto e esperança neste mundo.

Fotografias por Frederico Cordeiro Ferreira

Em 2025, referias à RFI que este álbum seria “ainda mais contrastante e, acima de tudo, ainda mais meu”. Agora que está cá fora, acreditas que conseguiste expressar-te como nunca?
Sem dúvida que sim. Estou neste percurso há muito pouco tempo. Apesar de ter estudado música muito anos, desde pequena, só desde há cerca de 3 anos, quando me lancei neste projeto a solo, é que sinto que me consigo expressar de uma forma mais clara e honesta. Ter encontrado esta forma de expressão mudou completamente a minha vida. E sentir que cada vez mais sou capaz de expressar as minhas emoções e que tenho a liberdade de ser o que quiser, sem rótulos e encarando a infinitude de possibilidades e aprendizagens do futuro, permite-me aproximar-me de mim e de certa forma do mundo.

Falávamos de atos resistência. Agora, gostava de olhar as relações interpessoais e de que como estas podem ser outro fator essencial na nossa paz de espírito. No caso deste álbum, surgem muitos agradecimentos nos créditos. De que forma estas pessoas também te inspiram, seja na composição de um disco ou no teu dia-a-dia?
Nos créditos menciono as pessoas que, de uma forma mais direta, me ajudaram a construir este disco. E todas elas me inspiram. A criação de um disco a solo é um processo muito solitário, com muitas dúvidas e desafios. Estas pessoas foram acompanhando o processo de perto, apoiando-me e algumas através de um contributo mais técnico e crítico. Sinto que cada vez mais é importante, na música e na vida, estar rodeada de pessoas que admiro, e eu tenho essa sorte.

Falando de outras pessoas, Luís Fernandes dá uma mão em alguns temas e já foste vista, por exemplo, ao lado de Pedro PMDS noutras alturas. Como é que estes nomes te enriquecem enquanto música e pessoa?
O Luís Fernandes é uma referência na música e foi um privilégio para mim ter sido ele a fazer a mistura do meu disco. Durante esse processo acabou por contribuir também com a sua sensibilidade e sonoridade em algumas das músicas, enriquecendo-as e aproximando-as do que eu idealizava. O Pedro PMDS é um dos artistas que mais admiro e tenho muita sorte em poder trabalhar com ele. Conheci-o há cerca de 3 anos e desde então temos trabalhado juntos. Aprendi muito com ele e neste momento estamos a trabalhar num disco juntos, o que tem sido um processo muito especial.

O teu passado académico é centrado no piano, mas a certa altura viras-te também para a eletrónica. Consegues recordar essa história?
Comecei a estudar piano muito cedo e licenciei-me em Piano – Música Clássica. A música sempre foi uma parte muito importante da minha vida e estudar piano foi um grande desafio para mim. Em adolescente sentia-me um pouco “fora da caixa”, não me identificava com algumas ferramentas de ensino e sentia que existia alguma competição. Isto fez com que naturalmente fosse procurando outras formas de fazer música, por vezes também com a minha voz, refugiando-me na improvisação e composição. Felizmente também tive bons professores no conservatório que me incentivaram e influenciaram muito. Adorei fazer a licenciatura em piano e tive uma professora maravilhosa, mas sabia que iria acabar por seguir um percurso menos convencional.

Passados uns anos, na pandemia, comecei a ouvir muita música nova e a mergulhar na música electrónica e ambient. A necessidade de encontrar uma forma mais honesta que me permitisse expressar através da música e o facto de ter passado por uma situação de saúde que me obrigou a duas operações à mão esquerda, comprometendo um pouco a sua mobilidade, fez com que eu tivesse de redefinir o papel do piano na minha vida. Entendi que tocar música minha poderia ser a forma de eu manter uma relação visceral com o instrumento. A voz e os sintetizadores contribuíram para que eu chegasse a uma linguagem com a qual me identificasse e me sentisse livre. Em 2023 dei início a este projeto a solo, decidi frequentar uma pós-graduação em Arte Sonora na Universidade de Lisboa e a partir daí foi algo muito natural.

Li que compões música para performance, teatro e filme. É algo que tens feito? Como é essa experiência e como essa prática difere daquela em que compões para ti?
Grande parte da inspiração quando componho música para mim, ou para tocar em conjunto com outros músicos, vem de várias áreas como poesia, cinema, filosofia… Sinto que a reflexão e observação são um ponto de partida para a construção de ideias, e muitas delas materializam-se em algo emocional. Acaba por ser uma prática muito semelhante nesse aspecto quando componho para mim, para outras formações, quando componho música para tocar ao vivo a acompanhar um filme ou para uma performance física, por exemplo. Entre todos estes trabalhos e processos criativos há esse ponto em comum. Acredito que a música permite que um objeto artístico ou emoção ganhe uma dimensão própria. No caso das colaborações, sinto que há uma partilha de ideias, discussão e reflexão entre pessoas que nos pode levar, e frequentemente me leva a mim em concreto, para um terreno fértil de possibilidades, novos caminhos, de aprendizagens e enriquecimento pessoal e artístico.

Fotografias por Frederico Cordeiro Ferreira

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