AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

Basilar 2026: Talvez tenha sido perfeito

29 Setembro, 2026 - 13:51

Edição de afirmação de um festival muito necessário no circuito português. Fotografias por Luisa Bravo.

Deviam ser umas 10 da manhã de domingo na derradeira maratona do festival Basilar. Feixes de luz irradiavam por entre o verde das árvores e tomavam conta da pista. Diferentes corpos dançavam e eram embalados pelos apontamentos dub de Substance & Vainqueur. Muitas pessoas resguardavam-se na sombra. Outras na praia. Comunhão, palavra tantas vezes repetida. Sente-se, aqui. Tínhamos chegado na quinta-feira e ainda queríamos dançar até mais não.

Já não restavam dúvidas, mas tínhamos cada vez mais certeza à medida que o relógio avançava: estávamos a vivenciar a melhor edição do festival que se estreou em Montalegre em 2022. Há vários motivos para afirmá-lo, embora o mais óbvio seja a organização praticamente irrepreensível e a fluidez com que tudo ocorreu.

Ouve: 20 faixas tocadas no Basilar

Se no ano passado tivemos de ser duros na nossa reportagem, este ano temos dificuldade em encontrar pontos negativos a apontar. É claro que os há, e falaremos sobre eles mais à frente, mas a verdade é que, enquanto ravers, fomos presenteados com uma das melhores edições de festivais techno de que há memória por cá.

Chegados à Barragem da Queimadela, atirámos tudo para dentro da tenda e fomos para a praia, onde estava o palco de ambient num novo espaço. Com um brilhante sistema Void, a área fornece agora uma pista algo mais escondida pelo facto de, durante o dia, esta zona estar aberta ao público, ao contrário de outros anos, em que abria apenas ao domingo.

Por lá estava a OCASO, sessões de ambient de Lisboa, representada pelo seu Enkō, também residente no Basilar, com a habitual mistura notável. No fim do set, Impatience, Magma, de Caterina Barbieri e Bendik Giske, enchia-nos o peito e dava o mote para a noite.

Subimos para a pista principal e uma ligeira demora a abri-la ao público fez-nos questionar se haveria problemas de organização e logística este ano. Não houve. Na cabine, Luisa, sempre certeira e bem ciente da missão que tinha nas mãos, a passar por nomes grandes do dub techno, como Substance & Vainqueur em Resonance ou Maurizio em MØ7B, e faixas power como Expansions XI, do português Mardel. “Esta é Dualism, de Forest Drive West”, disse-nos a certa altura Márton Tóth, designer do festival que assina música como Asio otus. O Basilar também é isto: uma pista atenta, respeitadora e bem integrada neste universo sónico.

O mesmo aconteceria de seguida no set de Montero, quando o DJ e curador toca Tell Me, de Loidis, e Gonçalo “Terzi” nos identifica a faixa. Por essa altura, algumas pessoas queixavam-se dos graves, algo que vai ao encontro do post do espanhol no Instagram, no qual refere que “ainda se estavam a familiarizar com o novo sistema de som com a pista cheia, por isso estávamos a fazer constantes ajustes.” Apesar de isso não ser assim tão percetível para nós, acabámos por ir descansar pouco antes do fim do set, mas não sem antes ouvirmos faixas de nomes como Basic Channel (Q1.1/I) ou Trolley Route (Radiating Against One Another).

Embora soubéssemos que iríamos perder Stranger e Decka (live), queríamos entrar frescos na pista às 7h para Mareena & Z.I.P.P.O. Conclusão: o alarme tocou e até nos levantámos, mas preferimos dar a parte fraca e dormir mais um bocado até ao set de Carolf na praia. A lisboeta das Living Room andou por mundos bass (como Beatrice M. em Years), downtempo (como Cousin em Wake The Down) e dub (Rhythm & Sound em Never Tell You) antes de fechar com Elastic Flow, de Asio otus. Bela banda-sonora para um dia quente de praia.

Com energia reposta e cortisol no ponto, aproveitámos essa mesma praia e água, algo que nem sempre dá para aproveitar. Sejamos sinceros: andamos sempre tão investidos na pista que acabámos por não ter energia para este lado de relaxamento. Que lindo é aquele mundo de à vontade. Sabermos que estamos rodeados por nada mais senão conforto. Banhos de sol, de água e de amor. E de boa música também.

Essa tarde ainda teria Justin Case e System Sophie a garantir música, mas só conseguimos chegar no fim da vimaranense, que passou por Objekt (35) ou Muslimgauze (Meesur), devido a obrigações profissionais que nos atiraram para o computador. Provavelmente graças ao descanso da noite anterior e à vontade de regressar ao recinto, diga-se que até trabalhámos melhor do que estávamos à espera.

O Basilar prima por sets longos – deveria ser assim em qualquer festival – e a pista principal, na sexta-feira, abriu com 4h de Tasha & Stojche, dupla que se juntou para uma homenagem ao dub que foi do reggae ao techno, com uma parte final marcada por faixas tão loucas quanto Rave (Dirt Mix), de Head High, e até Avalanche, de Marco Carola, provando que não há cá discriminações – música boa é música boa. Set muito elogiado e não é para menos.

Habitué do festival, a espanhola Anika Kunst esteve tão bem quanto sempre com os seus discos de vinil, mas admitimos que nos começámos a distrair por essa altura. Uma das razões é que o Basilar é agora mais confortável: há muito mais espaços para sentar, sendo esses servidos por sofás ou almofadas, e responde ao que é necessário num festival que exige tanto do corpo. Seja perto da pista ou na praia, 2026 ficou marcado por novos poisos, entre os quais plataformas que tinham até esconderijos com luzes quentes. E que jeito dão, tanto para conviver como para outras coisas. Fica na vossa imaginação.

Se na área ambient havia uma instalação dos lisboetas da Cápsula, composta por televisões antigas e uma câmara a ajudar a dar vida aos visuais, na pista essa responsabilidade voltou a ficar a cargo dos portuenses do collective:zero. Sem entrar em muitos detalhes, mantiveram-se os candeeiros e as luzes baixas e ou rápidas, que dão a liberdade necessária tanto para dançar como para andar, acompanhadas por novas estruturas que, sinceramente, não conseguimos explanar. Vejam fotos.

Antes de voltarmos a um refúgio durante o live de Ruman, o imperdível Temudo. Mesmo que não tivéssemos relógio ou olhos, quando se ouve uma calmaria marcada pelo efeito-assinatura de white noise… sabemos quem está nos decks. João Rodrigues não vacilou e deu-nos o que se espera dele – alguma obscuridade envolvida em densidade, tensão e um lado corpóreo que fica evidente ao olhar para temas da tracklist, como Space Brutalism, de Kaan Pirecioglu, Vade, de Fresko, ou a sua própria Kikcck V2, curiosamente estreada por nós há uns anos. Monstro tuga.

Para fechar a noite, dois nomes da realeza neerlandesa. Primeiro, Benny Rodrigues em modo ROD, num dos seus raros gigs fora dos Países Baixos, a mostrar por que razão é um DJ dos DJs. Técnica infalível, variedade e coesão, faixas vindas Detroit (como Robert Hood em Black Ops), Portugal (Cravo e Fvndo em Evo.03 e Europium, respetivamente) ou, como não poderia deixar de ser, do seu próprio país (The Nighttripper em Sinister World e Ritzi Lee em Positive Displacement são dois exemplos).

Das 7 às 10h, o boss que se seguiu foi Steve Rachmad, aliás Sterac, que aos 30m estava a rasgar Pseudo V2, de Truncate, pouco antes de passar o seu remix a Schwupp, de Jens Mahlstedt. É claro que àquela hora já só pensávamos no próximo passo de dança – ou nem sequer nisso pensávamos – e, por isso, ficam as possíveis memórias de dois DJs irrepreensíveis e de dois dos grandes sets do festival.

Depois disso, no sábado de manhã, uma surpresa na praia antes do live Baylas: um b2b de 5h entre Montero e Stranger. Apesar de a presença ser obrigatória – ainda para mais tocaram The Sun Can’t Compare debaixo do sol ardente – desistimos e optámos por ir dormir. Ficou o FOMO.

Rejuvenescidos no sábado, banho e almoço no Foxtrot, ao lado do recinto. Fomos encontrando pessoas ainda acordadas, outras vindas do sono de beleza. Há muitas gentes no Basilar. Por lá, testemunhámos experiências distintas e ouvimos muitas línguas.

“Zé”, jovem português de Guimarães que estava a bulir no bar, contou-nos que “nem era muito de dançar”, mas que “gosta de ouvir este tipo música enquanto trabalha”. Numa outra noite, numa das plataformas, um jovem local veio fazer o que tinha a fazer e apresentou-se, dando-nos as boas-vindas “à sua terra” e mostrando-se extremamente contente por finalmente ter tido a oportunidade de vir ao festival – noutros anos, “estava sempre a trabalhar”.

Também os estrangeiros não ficam indiferentes. Hans (nome fictício) é neerlandês e tinha vindo do Draaimolen no fim-de-semana anterior. Durante os minutos que estivemos com ele, não conseguiu parar de elogiar o Basilar, onde só havia “pessoas lindas”, e de se mostrar fascinado com a lógica de um festival português. Dana, nova-zelandesa residente em Londres, estava muito contente com a experiência e fez questão de nos perguntar sobre mais festivais em território nacional. Já P.E.A.R.L., numa story após esta edição, afirmou que “tudo foi perfeito” e que este é “um dos festivais com melhor curadoria na cena”. Sabemos o que sentem pois sentimos o mesmo.

Nesse sábado, para nós, a maratona de 31h começou com Valody, mais ou menos a meio do set. A viseense começou com sonoridades dub e, respeitadora da cena tuga como é, basta olhar para o trabalho dela com a ELBEREC, a DJ muito respeitada nos Países Baixos foi a vários cantos, aproveitando sempre estes momentos para divulgar música portuguesa, como de Taema (Cut 1), Laura Hasagun (Sashay Away), Backbone (Ypno), Temudo (In Chains) ou Dreaming, de M3STR, na parte final. Patroa.

A viagem seguiu com Enkō, outro DJ irrepreensível, que nos deu uma espécie de lufada de ar fresco ao passar por Pangaea (You & I) ou Beatrice M. (Sinking), não esquecendo onde estava através de faixas como Crossroads, de Salbany. Também muito bem esteve Vøltt, o bracarense em estreia no festival, com uma progressão notável e nada a apontar senão o facto de ter sido ‘ganda’ set, marcado por temas como Abyss, de Phil Berg, ou as envolventes Meteora, de Temudo, e Origin, de Holden Federico. Mais noturno do que da última vez que lá havia estado, Salbany assinou um live poderoso. O problema é que o nosso corpo e cérebro já estavam mais para lá do que para cá e não trouxemos notas – apenas que ouvimos um discurso e um synth mais trancey. Acontece.

Tropa tuga ouvida, perdemos Afra e P.E.A.R.L. para aguentar a maratona até ao fim. Regressamos com o sol a raiar, como recordámos no início da reportagem, e ouvimos o que poderia ter sido um melhor set de Substance & Vainqueur. Só chegamos a meio e, infelizmente, o momento ficou marcado por algumas falhas técnicas dos próprios. Apesar disso, deu para ouvir malhões como a sua Emerge 1.

Em jeito de celebração de uma amizade de pelo menos uma década a partilhar faixas um com o outro, os “nossos” Vil e Tauer entraram às 11h para nos dar alegria e muita classe. Por entre brincadeiras com temas conhecidos, como Subzero ou Forget The World, e muito sol, foram entregando tanto mistura como seleção, da qual podemos dar Origins, de Shcuro e Vil, como exemplo. Um dos dois únicos b2b do festival e ficou provado por que razão estava naquela slot de honra.

Assim que a dupla se preparava para sair da cabine, Richard Akingbehin subia a palco para mostrar porque é visto como um dos DJs de dub techno do momento. De Altinbas (Trail Of) ou Stojche (The Exchange) até Bandulu (Isn’t It Time) ou Parallel 9 (Dominus), foi tão bom quanto seria de esperar. Muito elogiada, Dj Red deu continuidade à festa e trouxe, pelo meio de techno sério e duro, como Planetary Assault Systems em Labyrinth, apontamentos trance (Priori em Sub Lux) ou up-lifting (Deetron em Submerged). Bom seguimento, embora tenhamos de admitir que ficámos com saudades de algumas coordenadas mais house, como ouvimos no domingo do ano passado.

A tocar num horário tão especial quanto das 18h30 às 21h, Marcel Dettmann começou em Detroit (com Claude Young em In Circles, DJ Bone em Cultural Variance, faixa tocada por Ogazón no Basilar 2025, ou Robert Hood em Red Passion II – B) antes de ir à Alemanha (DJ Hell em Passion), França (DJ Deep em Escape) ou Chicago na parte final (Strange Creatures, de Gherkin Jerks, aka Larry Heard). Mais uma vez, naquele andamento, já pouco ligávamos ao bloco de notas, mas lembramo-nos bem de que foi patrão como sempre.

Já tínhamos ouvido sets muito especiais quando chegou a hora de Fadi Mohem rematar tudo. Não sabemos se foi a excitação, o viés de ter sido o último set ou simplesmente de ele ser uma grande máquina: foi absurdo. Um controlo tal da pista que, a meio, por entre a loucura, nos estávamos a questionar se este seria o melhor DJ do mundo. Por entre faixas como o remix de Adlas a Arcada, de Nørbak, NLL561908705, de Aleksi Peräla, ou Black Wall, de Scan 7, este boss trouxe a voz de Barbara Tucker por meio de This Music Part 2, de DJ Mode (aka Delano Smith), e isso fazia prever o fim do set. Mas não era. Ainda havia a inigualável Transition, de Galaxy 2 Galaxy, e uma lágrima quase, quase a escorrer.

Esquecemo-nos de falar dos pontos negativos, tal é o amor que sentimos ao recordar esta edição. Dois aspetos principais a notar. O primeiro é que acreditamos ser necessário ter uma care team ativa. O segundo é que, segundo algumas reclamações, faltam sombras no parque de campismo. Um espanhol confidenciou-nos que achava que ia morrer quando foi ter relações sexuais na tenda. Sim, podia ter deixado para mais tarde, mas também é preciso responder à natureza, tanto ele como o festival.

A palavra perfeito tem uma conotação quase inalcançável. E, sendo inalcançável, talvez seja por isso que tantas coisas possam ser apelidadas de perfeitas. Se no ano passado dissemos que o Basilar estava longe desse estatuto, desta vez somos obrigados a dizer que roçou a exigência que esse adjetivo parece carregar. Com um local, pista e programa tão especiais, talvez alcance uma espécie de lugar divino se continuar a melhorar e for ainda mais minucioso.

Fotografias por Luisa Bravo

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