AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Alexandre Centeio: “Nunca pensei em herança ou futuros que nunca foram [na hora de fazer música]”

9 Outubro, 2026 - 13:44

Alexandre Centeio em entrevista no Estudo do Meio, em Braga. Tantas vezes associado a hauntologia, diz que “pode pensar nessas coisas”, mas que a sua música “sai de um sítio um bocado mais simples”.

É multi-instrumentista e está envolvido na música há anos. Depois de projetos como Stellarays, Ear Travelling Program ou a editora Prisma Sonora Records, começou a editar música em nome próprio em 2023, com “Movanta”, disco sucedido por “Silvo” e “Panorama”, ambos editados em 2024.

Natural de Paredes, Alexandre Centeio é nome de modéstia evidente, como podes ouvir nesta conversa, que teve lugar no Estudo do Meio, na Noite Branca de Braga. Durante cerca de 30 minutos, o artista sonoro leva-nos por tópicos como contemplação, escuta imersiva e atenta, hauntologia, field recordings e, claro, a sua própria prática.

A entrevista foi editada e condensada para maior clareza e fluidez, mas está disponível na íntegra no SoundCloud.

Queria começar exatamente pela mesma lógica de ontem e pegar neste contexto de contemplação. Tendo em conta esse lado, houve alguma coisa que te tenha chamado a atenção quando chegaste aqui a este lugar, especialmente vindo de Paredes? Será que houve algum pormenor, algum som ou algo que tenha chamado a atenção?
Até chegar aqui foi ligeiramente diferente da paisagem a que estou quase sempre habituado. Mas Paredes acaba por não ser muito diferente. Tem uma acumulação de uma zona urbana muito estranha e depois muitos campos ao longe, exatamente como aqui. E é mais nessa zona que eu moro. Portanto, este espaço específico, em si, principalmente pela música que estava a passar e pelos workshops, e também este lado de ter estas ruínas… Também temos bastantes lá na zona.

Portanto, já são sítios que eu, por norma, passo muito tempo neles, não tanto como queria ultimamente, mas identifiquei-me bastante por todo o espaço verde. E acho que montaram também de forma muito simples e muito bem. Como tinham dito que isto era a Noite Branca e faz parte de uma coisa maior, incluído em tudo o que é a Noite Branca, pensei que até fosse um sítio ligeiramente diferente. E agrada-me muito todo o espaço.

Era isso que eu queria perguntar e pegar já nesta próxima pergunta. Isto está inserido na Noite Branca. Talvez seja associado a um lado mais boémio, caótico. Mas, no entanto, estamos aqui, como referiste, com esta música. Quando é que este tipo de música entra na tua vida? Algum momento, algum disco que recordes no teu percurso?
Queria estar a pensar durante um minutinho para depois não ir embora a pensar “eu devia ter dito uma coisa ligeiramente diferente”. Mas foi definitivamente com um amigo meu muito mais velho do que eu, que tinha muitos discos, como toda a gente tem sempre alguém que tem muitos discos e que depois empresta.

Ele era muito viciado em Coil, também muito folk. E também eu vim um pouco dessa cena de instrumentação mais standard, de instrumentos de cordas, todas essas coisas, e é também um bocado por aí que fiquei amigo dessa pessoa. Aí foi um abrir de imaginário muito largo mesmo porque eu consumia o típico rock até a certa idade e essa pessoa abriu-me uma porta muito fixe. Depois, sinto que também amigos mais próximos da minha idade tinham pessoas muito próximas que, ao sentirem que eu estava a trazer algo fixe por meio daquela pessoa, também abraçaram muito esse gosto por entender o que era esta suposta nova música.

Havia nomes que depois, às vezes, até estavam próximos de outras coisas que nós já ouvíamos, mas acho que tínhamos um entendimento muito mais curto daquilo que é música, o que é o som e o que é a escuta. O facto de ter esses amigos todos com quem viver isso de uma forma diária é normal… E foi muito bom.

Mas discos em específico… Se calhar, o primeiro que me puxou para alguma coisa destas pode ter sido a Pauline Oliveros, “Deep Listening”, todo esse conceito de ser a escuta o objeto a pensar. O facto de a escuta se envolver muito naquilo que é o processo de estar a criar, mais do que focar principalmente só no que é que se está a fazer e no espaço em que se está a fazer toda essa música que eu comecei a ouvir. Começou a ter um aspeto muito físico, seja em espaço, seja o objeto que pode estar a fazer ações. Acho que é por aí.

E há algum momento particular no teu dia a dia, na tua vida, em que ouças mais esta música? Ou está sempre presente?
Curiosamente, este estilo de música drone, eu comecei a ficar interessado com, obviamente, discos de vários artistas do chamado drone ou minimalismo. E eu trabalho numa empresa, tenho emprego. É uma empresa de processamento de madeiras para construção de instrumentos musicais. Então há várias máquinas a trabalhar ao mesmo tempo, diferentes tipos de serras, diferentes máquinas a fazer diferentes cortes a diferentes madeiras nórdicas, exóticas, o que for. E todas elas têm uma densidade muito diferente.

A certo ponto, às vezes estão três máquinas a fazer cortes ao mesmo tempo, quatro. E como é um edifício bem longo e em chapa, como quase todos, é uma sinfonia um bocado bizarra, mas muito fixe. Inicialmente não é uma coisa automática apreciar ou tentar ter interesse numa coisa dessas. Aos poucos fui entendendo que havia ali uma coisa que nunca é linear. São sempre drones ligeiramente muito diferentes. Então, experimentar isso de uma forma diária é interessante.

Tendo em conta que és multi-instrumentista, suponho que tenhas começado pelos instrumentos tradicionais, seja guitarra ou outro. Mas a pergunta é mais: quando é que entra o lado eletrónico? Quando é que entram os sintetizadores? Como é que foi essa passagem?
Acho que foi aquele ponto em que a escuta passou a ser muito interessante para mim porque foi sempre a partir daí que eu comecei a fazer coisas pelo interesse em “o que é esta música que estou a ouvir?” e eu não sei o que é. Porque não é tão standard ver um instrumento mais estranho, como possa ser um synth ou algo do género, nas coisas que tu estás a experienciar fisicamente. Ou seja, se vais ver um concerto, só a partir de certos anos é que se calhar vais a um festival e já vês que há certos instrumentos a aparecer.

Eu acabei por fazer ou ouvir discos e não entendia bem o que era. Ao ler o que era, entendi que era tudo eletrónico, certos sons que eu ouvia e que achava fixe. Mas nunca senti que era abrir uma porta e que depois só vou para ali, agora é só isto que me interessa. Por muito que durante um tempo tenha sido um bocado assim, é só mais um objeto que cria alguma matéria sonora. Isto ao ponto de, quando chego ao processo de estar a trabalhar com instrumentos eletrónicos, já estava ligeiramente habituado ao conceito de estar a fazer a própria captação, porque hoje em dia é muito prático, então a eletrónica funde-se de uma forma que, para mim, nunca pensei que estava a fazer uma cena que não era o que eu estava a fazer antes. Pronto, pode ter mais algum interesse pelo lado visual ou algo assim, entendo, mas é puramente mais uma fonte de som, como estarmos aqui e estar a fazer uma captação aqui ou algo assim deste espaço, que é tudo matéria sonora. Não olho só por ser algo eletrónico.

Estavas a falar do teu emprego e agora também a tocar nestes novos instrumentos, chamemos-lhes assim, e tens aqui um que penso ter sido construído por ti. Será que nos podes guiar minimamente sobre esta peça?
Então, tenho um topo e uma base de madeira, mogno africano, que é um detalhe irrelevante, mas basicamente é um reverb de placas. Ocupa muito espaço e não é a ferramenta perfeita, de longe, nem é necessária. É só um motivo para experimentar coisas. Eu uso aqueles altifalantes que só se ouvem quando são aplicados a alguma superfície, ou o que for. Portanto, eles não estão a transmitir pelo ar, estão a transmitir as vibrações para as chapas. Eu estou a captar isso para o modular, estou a processar e os sinais que estou a mandar para lá foram feitos a partir das chapas também a entrar em feedback. Em performance em si, com isto, e o que tenho feito e andado a explorar nos últimos três anos…

Porque isto também é uma coisa um bocado difícil de manter ativo quando vives numa casa que é pequena e queres fazer coisas diferentes, e uma casa tem que dar para tudo. Então faço coisas muito… O tempo entre os momentos em que uso isto são muito distantes. Então acaba por ser esse meu interesse em pôr isto tudo a funcionar outra vez e tocar, porque tem tudo muito que ver com feedback, com o som que está a passar neste momento. Daí aquilo estar também mais atrás, por causa dos subs e do PA.

Basicamente, eu uso isto como um processamento de ondas que foram captadas a partir do mesmo objeto. Fiz captações de frequências diferentes, fiz um set de 20 frequências que me agradam e que estavam a excitar bastante a chapa. Fiz a captação disso e agora passam outra vez por isto, vêm para o modular, são processados, vai a trabalhar a chapa, volta ao modular e depois, no meio disso… É um pouco um loop infinito. E no meio disso também há um sinal limpo, chamado wet/dry, ou seja, o sinal que está a ser processado e o sinal limpo a sair. É um bocado variável. Sempre que toco, apresenta sons e timbres ligeiramente diferentes. Vai dar sempre à escuta, de apreciar, entender o que é que pode acontecer cada vez que monto isto e as diferentes intensidades com que abordo as chapas.

Nos últimos anos, tens lançado discos em nome próprio, mas tens outros projetos. Alguns exemplos: Stellarays, mais cosmic talvez, Ear Travelling Program. Quando e porquê é que se dá essa transição entre esses projetos e começar a fazer música em nome próprio?
Talvez por apreciar tudo o que estava a fazer com outras pessoas e sentir que é… Alguém pode ver como passatempo, vejo como uma dedicação quase a tempo inteiro. Pode não ser a fazer, pode ser só a pensar e estar a fazer outra coisa qualquer.

O facto de adorar estar a fazer essas coisas com amigos principalmente, durante muito tempo, e diferentes coisas, pensamentos muito diferentes entre cada ideia que havia para fazer uma banda nova ou um disco novo com aquela pessoa, era tudo tão bom que é natural que depois também queira estar sempre a experimentar. Fazer coisas sozinho acabou por ser normal. Não consigo dar assim uma razão do porquê de ter feito. Não havia nada a cumprir.

E estes teus trabalhos são muito associados a hauntology. Isto são coisas em que tu pensas ou simplesmente são depois as pessoas que escrevem e dizem isso?
Ya, press. São coisas que me interessam, mas não é propriamente…

A tradição portuguesa, não sei se faz algum sentido para ti. Ali no “Panorama” tens algumas vozes…
Musicalmente, não necessariamente. Acho que há muita coisa a ser feita cá e que já foi feita incrível. Quem sou eu para estar a nivelar coisas?

A hauntologia. É um conceito… Acho que isso teve a ver com algumas coisas que lancei, que foram lançadas por certas editoras mais associadas a certo tipo de music scene ou algo assim, principalmente a Russian Library e a Prisma Sonora, que era uma editora que tive muito focada nesse tipo de eletrónica, muito inspirada pela Ghost Box. Acho que são duas editoras portuguesas que fizeram esse trabalho de trazer essa eletrónica hauntologica, que é um conceito que foi aplicado a essa onda sonora. Mas, na escuta, entendo que haja semelhanças de artistas para artistas, mas a mim não me leva a nada disso. Acho que é mais uma coisa quando queres escrever sobre algo.

Precisar de alguma coisa.
Sim. Eu não estou a criticar. O que estou a tentar dizer é que nunca pensei em alguma questão de herança ou de futuros que nunca foram. Acho que, para mim, as coisas saem de um sítio um bocado mais simples. Sou capaz de estar a pensar nessas coisas muito tempo antes de estar a fazer música, mas não consigo fazer pinpoint daquilo que depois é transferido para o pensamento enquanto estás a fazer a música.

E os teus discos também têm muita colagem e field recordings. Como é que fazes essas gravações? É aleatório? Gravas tudo? Ou é algo mais consciente?
Varia do propósito com que estou a fazer, se tenho alguma coisa ativa ou não, se tenho ideia para um projeto. Mas acontece… Eu acho que é mais: comecei aos poucos a entender que ouvir é um sentido mesmo fixe. Consegues dizer muita coisa sobre os passos em que estás quando paras e ouves de uma forma mesmo atenta. E é um bocado isso que me interessa.

Se estou numa situação que sei que vai ter um significado para certa coisa que estou a fazer, sou capaz de estar a captar. As captações são feitas com qualquer microfone, nunca teve que ser nada específico para mim. Quando queria algo mais limpo, quando queria umas captações de certos pássaros ou estava em certos sítios e havia um túnel ou um aqueduto, aí normalmente até peço algumas coisas a amigos que já têm coisas mais fixes.

Inicialmente, sempre fui muito pela cena lo-fi, então microfones mesmo rotos. Mas, para certo tipo de coisas, tento uma captação mais hi-fi quando são coisas que me interessam. Essa qualidade de transmitir aquele momento em que eu estava e que pode ou não estar a significar alguma coisa.

O primeiro disco, como é muito mais ambiental, pensei que isso seria algo que faz sentido e também liga muito à natureza, que é uma coisa muito broad para se dizer. O segundo disco, o “Panorama”, que é o que tem a colagem mesmo intensa, abusada, maximalista de alguma forma, muitas coisas foram feitas com aqueles… Que têm uma cassetezinha, aquelas coisas de home usage, mesmo de uso em casa, todos esses tape recorders que têm um microfone embutido e que é horrível, mas que de alguma forma era o que estava ali, ou apeteceu-me, ou depois era fácil porque a cassete que já estava lá tinha um loop ou algo assim. Então foi a captação ali e depois ir a diferentes cassetes e picar uma coisita que eu já não sei onde foi captada e que já nem sei o que é. E nesse disco a abordagem era um bocado essa. Era matéria sonora que eu pudesse estar a manipular e construir algum arranjo mais abstrato.

Tu tocaste nesses dois discos, o primeiro e o segundo, e queria falar sobre isso. Neste segundo há um trabalho de pesquisa muito profundo para chegar onde chegaste?
Não, eu diria que não. Eu acho que é capaz de haver um processo longo de escolha de sons e atirar muitas ideias por atirar e acreditar que algo vai ser musicalmente interessante para mim.

Nunca nada necessariamente conceptual.
Sim e não. O “Silvo”, o terceiro álbum, que é muito mais maximalista a nível de som, de tentar criar uma narrativa só com diferentes ruídos a partir de um synth que nunca está afinado, literalmente, sim. Havia o conceito do disco: é só esta máquina, estou a adorar usar isto, estou a adorar o processo de fazer o multitracking de sons mesmo díspares e fazer uma parede, uma parede de som, mas com arranjos e estruturas. E não é necessariamente maximalista, nem é aquele noise puro, nem é nada em específico. Interessa-me sempre este pequeno sítio em que eu não sei dizer porque está assim.

Enquanto que o “Panorama” tem esta cena de eu não saber exatamente o que quero e o que fica bem ali e o que é que não fica. Puxar ao máximo e buscar sons, digitalizar todas as cassetes de tape loops, de coisas aleatórias que fiz durante anos, e depois entender o que é que musicalmente faz sentido, se já tenho ali uma cena de uma duração qualquer. E depois eu sei que quero meter ali mais alguma coisa, então vou à procura de alguma coisa que seja estimulante de alguma forma e que seja musicalmente exatamente o que eu estava a imaginar.

Mas é tipo à raspadinha. É uma cena de tirar mesmo e “deixem-me ver o que é que me calha”. De alguma forma, tentar com que seja útil, seja a fazer repeats, seja processamento absurdo. Algumas coisas foram super cruas. Eu acabo por estar sempre em processos muito diferentes quando ouço uma cena, “ok, eu acho que estou a fazer mais do que três, quatro, cinco temas de uma vez e de um lanço e durante este certo tempo”, então certamente vai ser alguma coisa que eu vou querer estar a fazer.

Às vezes arranco já com um pensamento de “ok, isto é isto e vai ser exatamente aquilo”, como o caso do “Movanta” e do “Silvo”, acho que são paisagens muito focadas, enquanto que o Panorama, também o nome diz um bocado isso. Daí ter sido também lançado pela editora que foi [Discrepant] porque já é comum lançarem assim coisas sensorialmente, a nível de espaço e tempo, muito estranhas. É o que eu acho.

Fotografia por José Caldeira

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