AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Luar Domatrix sobre “Olho da Rua”: “São nove [faixas] pelas quais tenho muito apreço”

9 Abril, 2020 - 16:20

O novo trabalho de Luar Domatrix, “Olho da Rua”, é o pretexto para a conversa que tivemos com o produtor.

Foi há cerca de oito anos que Rodolfo Brito começou o seu percurso musical. Por essa altura, ao lado de Francisco Silva, fundou o duo Yong Yong, com quem explorou vários caminhos da eletrónica, muitas vezes aproximados de uma lógica mais experimental. No currículo, conta com vários trabalhos lançados com a dupla, e com atuações em várias cidades do Reino Unido, incluindo Glasgow, onde viveu durante algum tempo e onde esteve envolvido em alguns projetos musicais.

A partir de 2017, muita da sua atenção vira-se para o projeto a solo, Luar Domatrix. Nesse ano, lançou duas faixas na coletânea “Música Atípica Portuguesa”, da Discrepant Records, cuja label subsidiária Sucata Tapes viria a editar o seu primeiro lançamento a solo, “Non-Glance”. Mais tarde lança “Pheww”, pela naivety, e regressa a Portugal em 2019, ano em que participa num release da escocesa 12th Isle com a faixa Koppa D.

Esta quinta-feira, o produtor assinou um novo disco, “Olho da Rua”, editado de forma independente. O trabalho antecede o lançamento de dois 12’’s: “Baía Stamina”, pela portuguesa Discos Extendes, e “Nova Vida Passada”, pela britânica Domestic Exile.

Com novo álbum na bagagem, Rodolfo Brito respondeu, via email, a algumas perguntas que lhe enviámos, de forma a conhecermos mais acerca de um artista que não se rege por normas nem padrões.

Como têm sido os teus dias neste estado de emergência? Reparei que aderiste ao mundo do streaming e que fizeste um set repleto de músicas tuas.
Não têm sido maus. Abstraindo da negra realidade e das consequências miseráveis desta crise, a captividade doméstica por si tem algo perversamente estimulante. Ao estar obrigatoriamente em casa encontro vontade para, sem distrações, prosseguir projectos que arrastam. O stream tem sido um semi substituto para as performances públicas in loco, mantém-se a pressão e ânsia positiva de ter alguém por fora, anónimo, a ouvir. Também para explorar as possibilidades do vídeo em criar atmosferas híbridas entre o que a câmara regista e um universo de manipulação gráfica, como um portal da sala de estar pela internet a apanhar ruídos de informação à deriva no matrix.

Na tua música, estás longe de te reger pelas normas dos habituais estilos, ainda que, em alguns temas, se escute alguma influência de géneros como breakbeat ou outros. Como é que descreves a tua música?
Nunca acreditei nos estilos de música, os estilos nascem sempre quando alguém está a fazer um excelente trabalho, e isso transcende qualquer norma e vai continuar a acontecer. Certas métricas remetem para certos contextos (culturais/geográficos/históricos) e certos contextos são expansivos e influenciados – linguagens – nisso acredito e valorizo.

Este “Olho da Rua” é composto por faixas nunca lançadas. Alguma razão por trás do facto de estas nunca terem conhecido a luz do dia?
É uma coleção de faixas “fora do baralho”. São nove pelas quais tenho muito apreço mas que pela sua particularidade nunca encaixaram bem no que foram as estéticas de outros lançamentos. O “Olho da Rua” é uma turma de inqualificáveis marginais (delinquentes?) que juntos fazem sentido porque todos partilham da característica de não-pertencer. São os alunos postos no olho da rua.

As músicas deste álbum foram feitas entre 2015 e 2020. Quais as diferenças mais evidentes que notas neste período de cinco anos – se é que as notas?
Nos primeiros três anos do tranche de cinco anos que referes, por motivos práticos – o facto de o meu percurso ser bastante nómada nessa altura – trabalhadas quase apenas em computador portátil. Aliado ao fascínio e prática de sampling à qual sempre levo a mão dada, esse período fez-se marcar pela carga pesada de material samplado e processado e produção digital. Nos últimos dois anos, com um estilo de vida que mais me tem permitido aceder hardware, tenho voltado à produção com máquinas e um estilo mais “mão na massa” do qual já sentia saudades, as últimas faixas produzidas refletem bem este reencontro, é o caso da 20XX, produzida ainda este ano.

Além deste álbum, já tens planeados mais dois discos para este ano, nomeadamente “Baía Stamina”, pela Discos Extendes, e “Nova Vida Passada”, pela britânica Domestic Exile. Como os distingues deste “Olho da Rua”, que aparentemente é mais virado para uma lógica de coleção? E como os descreves?
Os dois que tenho para sair foram criados num contexto mais ou menos delimitado, e transparecem a ideia de ‘peça’ de uma forma mais premeditada em oposto a “Olho da Rua”. “Baía Stamina” é um álbum mais de clube, onde trabalho influências trazidas de um reino da dança noturna. “Nova Vida Passada” é um apanhado de um período feliz e fértil do meu trabalho, onde estão presentes referencias r&b e uma espécie de desconstrução pop a que estava mais diretamente preocupado em sobressair na altura – é um álbum que por diversas razões tem sido adiado, (foi produzido há seis anos) e ironicamente recebi os test pressings na semana em que as medidas de contingência face ao vírus foram postas em prática e ainda não tive oportunidade de o ouvir, jinxy.

Durante os últimos tempos, lançaste pela Sucata Tapes, selo da Discrepant que foi responsável pelo teu primeiro trabalho enquanto Luar Domatrix, e também pela naivety, de Violet. Como vês a oportunidade de lançar por editoras como estas?
É sempre poderoso ter propostas e oportunidades de pôr música fora. Uma prática no singular vive muito do feedback. Estas editoras possuem um agregado familiar numeroso, e os seguidores confiam na qualidade que a editora tem vindo a assegurar, é lisonjeante receber o voto de confiança e fazer parte destas casas.

O teu percurso musical começou com o Francisco Silva, no vosso duo Yong Yong, mas o teu foco tem estado assente no teu projeto a solo. Há planos para um retorno dessa dupla ou até para eventuais novos projetos colaborativos?
Yong Yong nunca morreu, de momento as nossas situações tornam difícil tocar e gravarmos juntos, mas a nossa imprevisibilidade mantém-se e podemos voltar à carga mais cedo do que pensamos. Conto já algumas colaborações mais ou menos formais, tenho a realçar agradáveis surpresas ao trabalhar com o Miguel Abras no nosso projeto em duo chamado Gulbenkian, mais virado para os amplificadores e cordas. Também tenho estado a trabalhar duas remixes, uma delas para o Fresko, que tem um óptimo EP para sair na Alienação.

Muitos artistas gostam de delinear as metas que querem atingir, outros nem tanto. Enquanto Luar Domatrix, como é que encaras o futuro?
Quero ver os dois 12” a finalmente chegarem às pessoas, sentir o seu impacto. Eventualmente voltar a tocar ao vivo, sentir o chão a tremer e vingar as datas canceladas.

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