AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Backbone: “A produção é uma busca e acho que vai ser sempre assim”

8 Julho, 2026 - 11:35

Backbone revisita o percurso que o levou do DJing à produção e muito mais. É a história de um dos nomes fortes do techno a norte.

Para quem gosta de techno em Portugal, será difícil ou impossível não conhecer o nome Backbone. E se não é pelo facto de andar a tocar pelo circuito há mais de uma década, é por ser uma das figuras do festival Vinculum, em Mondim de Basto, a terra natal de Afonso Esperança.

DJ elogiado pelos pares, tocou em festas nortenhas antes de começar a chamar a atenção de programadores como Gustavo Pereira, do Neopop. Nos últimos anos, além do trabalho com o Vinculum, começou a dedicar-se mais à produção, aventura que serviu de mote para esta conversa. Por entre participações em VAs ou o projeto paralelo Nonsensical, Backbone lançou o EP de estreia pela Counterchange, de Inland, em 2022, a mesma editora que lançaria o primeiro LP, “One”, em 2024. Mais recentemente, decidiu avançar com a sua própria Crulight Records, pela qual editou “Learning Curve” no final do ano passado.

Conduzida em 2024 e agora resgatada, aproveitando o facto de o Vinculum estar de regresso no próximo dia 17 de julho, esta entrevista guia-nos por boa parte da história de Backbone: desde o drum’n’bass no Porto até à fonte de inspiração que é acordar e viver em Mondim de Basto.

A brincar a brincar, parte do teu verão – e antes, até – é marcado pela organização do Vinculum. Como é ter esse desafio nas mãos?
Para te falar a verdade, para mim ainda continua a ser um sonho porque, como sabes, eu sou um gajo daqui da aldeola, digamos assim, e dei por mim a imaginar fazer isto há 10 ou 15 anos, mas sempre assim com uma ideia um bocado irreal de como é que são as coisas. Hoje em dia, olha, estou aqui, chegamos onde chegamos. Pá, claro, sempre com muito com a ajuda do James Grouper e do Ferro porque eu sou aquele gajo muito sonhador, tipo balão, sempre para cima, e eles, de vez em quando, puxam-me à terra. Mas, ó pá, comecei isto numa festa, era uma festa na Senhora da Graça ao ar livre, mas com eles as coisas vieram a ganhar forma. Eu já imaginava ter as coisas neste formato, mas não fazia a mínima ideia de tudo que envolvia.

Está a falar do Spectrum?
Sim, do Spectrum, que depois passou a ser Vinculum. O James Grouper, nesse aspeto… Conhecemo-nos a tocar e ficámos amigos, tocou algumas vezes para mim mesmo antes de Spectrum. Quando ele se juntou, a coisa ficou logo muito mais profissional, como tratar de bilhética ou criar empresa, todo esse processo para as coisas começarem a crescer. Depois também percebemos que dois gajos não chegavam e juntámos o Ferro. Claro que agora percebo que queima o verão. A cada edição, vamos cada vez mais cedo para lá. Mas sim, esses meses são completamente dedicados ao Vinculum.

Lembras-te de quando começou a ideia?
Eu já era um raver e ia a bastantes festivais, mas um dos festivais que me passou essa ideia de que Mondim tinha a capacidade para alocar um evento neste formato e onde fui e percebi que tinha mesmo de fazer foi a primeira edição do Waking Life. Não conhecia nenhum festival em Portugal que tivesse aquele aspeto, além de talvez o Orbits – não sei se o Orbits, onde até fui com o James Grouper, chegou a ser antes do primeiro ano do Waking Life.

Depois, vim para Mondim e percebi. Como eu tinha estado 10 anos a morar no Porto, estava um bocado saturado da cidade. Ainda agora gosto de ir à cidade, mas tenho aquela cena de passar a semana em Mondim, onde produzo e tenho os meus pais e trabalho, e depois vou à cidade ao fim de semana e chego cansado. Quando vou lá, também vou com o espírito aberto e com vontade de estar na cidade porque estive a semana toda em Mondim. Acho que pode depender das pessoas, mas, pronto, saturei-me um bocado da cidade.

Agora, o Vinculum está a começar a ficar no tamanho que eu sempre idealizei. Também a vontade de querer mostrar um bocado o que é Mondim e mostrar que também tínhamos capacidades para fazer isso e que se conseguia fazer cartazes bons, puxar música e puxar artistas e ter os artistas a vir aqui tocar. Todo esse processo é o que faz a ideia.

Já deu para perceber que era um sonho teu. Também tocaste no impacto que pode ter para Mondim de Basto.
Sim. Para a vila, isso foi fixe. A gente que fica por dentro do festival agora percebe cada vez mais o que é que isso pode trazer também. Se calhar, no início, não tinha muito essa ideia. A minha ideia era fazer uma festa e ter as pessoas a dançar e a conviver, ter um bom momento para fugir um bocado à realidade, independentemente de qual seja a realidade de cada um.

Mas depois, claro, durante este processo, temos reuniões na Câmara, o trabalho também acontece com a Câmara e com as pessoas todas de Mondim. Começou-se a perceber também, com todas as pessoas que estiveram aí… Fui abordado por, sei lá, pessoas que trabalham no restaurante, pessoas que trabalham nos hotéis, que são meus amigos. Por ser uma vila, são meus conhecidos, falam até comigo. O restaurante estava todo cheio durante o festival. As pessoas começam todas a perceber isso, e isso é mais uma coisa boa que traz também. Fico feliz por isso, mas, mais do que isso, fico feliz mesmo pela vila.

Depois, também mostrar a vila. É verdade que eu sou um bocado orgulhoso e nós em Mondim, se calhar, temos um bocado essa cena. Um gajo gosta muito do sítio onde nasce e das pessoas. É fixe mostrar o que é que nós temos aqui, desde a gastronomia à maneira de receber as pessoas, até à natureza. Dar um mergulho… Temos lá os tanques, mas podes ir para o rio, podes ir ver paisagens. Beberes um bocadinho de toda a cena que Mondim pode oferecer também é uma cena que me desperta algum gosto. As pessoas virem aí… Eu até faço isso com amigos. Adoro trazer aqui amigos, levá-los a comer, levá-los a beber, andar aqui com eles e o pessoal divertir-se. E aí perceber assim um bocadinho qual é que é a energia de Mondim. É sempre fixe.

Vamos olhar para ti, então. Não há muito sobre ti na internet, por isso até gostava de te pedir para recordares um bocadinho os teus primeiros passos na música de dança ou eletrónica. Até tenho a ideia que, se calhar, começaste pelo drum’n’bass.
Sim. Eu nunca fui DJ de drum’n’bass. Eu já era um chavalo aqui, como te disse, de Mondim de Basto e fui estudar para o Porto em 2005. Já ouvia música eletrónica, tinha 18 anos, não de uma forma tão intensa, mas ouvia.

Quando cheguei ao Porto, deparei-me com uma grande cena de drum’n’bass porque nessa altura vivia-se muito o drum’n’bass. Ainda não havia as míticas festas do Hard Club, mas já havia muita coisa. Comecei a ir a muitas festas no Swing, ia ao Porto-Rio e, nessa altura, vi portugueses e estrangeiros. Vi Goldie no Porto-Rio, vi Noisia, fui à primeira Therapy Sessions – isso já deve ter sido em 2007 ou 2008 –, vi Limewax, Mampi Swift, Ed Rush, vi os nomes todos do drum’n’bass. Desde o Swing até ao Porto-Rio e, depois, quando a Garagem começou a fazer festas no Teatro Sá da Bandeira, que também foi um marco importante, pelo menos para mim, e acho que para o drum’n’bass no Porto também.

Sabes como é que é: um chavalo sair de uma vila, chegar ao Porto e dar de caras com aquela cena do drum’n’bass e com tudo o que isso podia proporcionar… foi uma cena do carago. Durante anos, fui completamente aficionado por drum’n’bass. A minha cena foi muito por aí.

Depois, passados seis ou sete anos, comecei a ouvir umas cenas mais techno. Lembro-me de estar a tirar o curso de Técnico de Som e de ter um professor de História, um castiço, já não me lembro do nome. Todos os verões ele ia de férias para Ibiza e era um grande fã do Richie Hawtin. Eu já conhecia o Richie Hawtin, mas não sabia tudo o que envolvia. Lembro-me de ele nos mostrar um documentário, [Making Contakt], em que apareciam o Richie Hawtin, a Magda, o Marco Carola, o Gaiser, o Marc Houle e mais um ou dois de que agora já não me lembro. Eles andavam a viajar pelo mundo a tocar e aquilo foi na altura em que o Richie Hawtin estava a implementar o Traktor. Tocavam três ou quatro ligados por MIDI Clock, acabava por ser meio live, meio DJ set, e aquilo tinha uns visuais do caraças. Lembro-me que isso me marcou e comecei a investigar mais essa cena.

Na altura, também estudava comigo – e é um amigo meu – o Trikk. Entrámos juntos no curso. Ele já produzia, mas ainda não tinha o trabalho todo que tem agora. Com ele e com mais alguns amigos da turma, comecei a tocar mais techno. Eu tinha casa no Porto, íamos para lá, fazíamos umas brincadeiras, tocávamos e pronto. Como também estava a tirar o curso de Técnico de Som, comecei a perceber melhor tudo o que envolvia o som e esse processo todo.

Depois, comecei a fazer umas festas em Mondim, num bar. Era um amigo do meu irmão que me convidou. O meu irmão disse-lhe: “Olha, ele está no Porto, está a tirar um curso de Técnico de Som, faz uns mixes…” [risos]. Isto foi em 2008 ou 2009, acho eu. Fui lá tocar, o gajo curtiu e comecei a tocar lá de duas em duas semanas, durante dois ou três meses.

Fotografias por Francisca Veiga

Isso é a Trip Vision?
Não, isto era em Mondim.

Depois, fui tocar ao bar onde se fazia a Trip Vision, em Celorico, mas ainda não era uma Trip Vision. Era outra festa, acho eu. Eu também já conhecia a malta que era dona do bar e chamaram-me para tocar. Entretanto, estive com o Sepypes, que já conhecia. Agora somos muito mais próximos, mas já o conhecia nessa altura. As nossas mães são muito amigas. Ele disse-me: “Anda daí tocar umas cenas.” Eles já iam, não sei, na vigésima Trip Vision. Aquilo também estava a começar, toda a gente super inspirada pelo minimal, pelo Richie Hawtin e por essa onda toda.

Fui lá uma vez e foi um brilharete. Fizemos back-to-back, curtimos e acabámos por olhar um para o outro e pensar: “Olha, estamos aqui na vila, há outro gajo que gosta de fazer o mesmo que eu.” Foi aí que ele me convidou e foi aí que dei os meus primeiros passos a sério. Tu podes tocar em casa, mas tocar para público é outra coisa. Eu já tinha algum skill a tocar, mas foi ali que fui aprendendo mesmo. Fazia as aberturas das festas e fui crescendo assim. Se a Trip Vision chegou ao número cento e tal, então eu fiz para aí, pá, 80 e tal aberturas.

Mesmo aqui [no Porto] ouvia falar bem delas.
Isso deu-me uma bagagem fixe. O Sepypes já tocava há alguns anos e também era um gajo que me ia puxando as orelhas. Às vezes um gajo vai com aquele tesão de mijo e ele ia-me orientando. Depois fazíamos uns back-to-back os dois e pronto. Eu também aprendo rápido e queria aprender.

Lembro-me que, nessa altura, quando começou a Trip Vision, não havia assim tantas festas. Depois, passados dois ou três anos, começou a aparecer a Bandit Room, começou a aparecer mais projetos. Havia mais sítios para tocar. E eu sou-te sincero: os DJs, mesmo os portugueses, tocavam muito mais. Havia muitos projetos, como tens agora a Dark Sessions, a Fuga… Como havia mais sítios desses, aquilo espalhava os DJs. Tocava-se num lado, tocava-se noutro. Mesmo em Portugal, conseguias ter DJs que estavam a começar, como eu, e eu chegava a tocar todos os fins de semana: sexta ia para um sítio, sábado ia para outro. O pessoal ajudava-se mutuamente.

Agora, não sei porquê, se foi depois do covid ou não, não te sei explicar bem a razão, mas já não há tanto essas cenas. Se calhar também já não há tantos clubes. Estamos numa altura mais comercial, mais telemóveis, talvez, em que se procura outra coisa e se cativa as pessoas de outra forma, mas lembro-me que, nessa altura, havia muito mais isso. A Trip Vision, para mim, foi uma escolinha. Tenho muitas saudades da Trip Vision. Depois daí foi fixe porque comecei a tocar na Trip Vision e, entretanto, apareceu a Bandit Room, que fazia festas durante a semana.

Eu fui a quase todas as festas do Boiler Room, eu estudava na UTAD.
Pronto, então chegaste a ir às no Nervir. Lembro-me que, nessa altura, já tinha ido tocar uma ou duas vezes à Bandit Room. Aquilo teve um hype do caraças. Depois tive um convite, na altura, do Márcio Pêgo e do Bernardo Andrade, se não estou em erro, para fazer parte da Bandit Room. Também foi uma cena fixe para mim. Deu-me mais uma oportunidade, comecei a tocar mais vezes e, a partir daí, acabou por ser uma bola de neve. Comecei a tocar mais em clubes.

Também senti sempre um suporte fixe por parte do Neopop. O Gustavo foi um gajo que sempre me ajudou, até nas primeiras vezes em que fui tocar, que foram back-to-back com o Sepypes. Ainda não tinha o trabalho que tenho hoje, ainda não fazia música e nem sonhava em fazer tanto, mas ele podia perceber que eu tinha algum talento. Foi um gajo que, de vez em quando, me ia buscar e me chamava para tocar. Claro que, às vezes, um gajo também tem de trabalhar, mas às vezes a sorte também está do nosso lado e é importante ter essas oportunidades. E eu percebo que isso demonstra a importância que o Neopop tem em vários sentidos. Além de continuar, ainda hoje, e também antigamente, a mostrar às pessoas o que é música eletrónica, muita gente aprendeu o que era música eletrónica e teve a sorte de poder ir ver gajos como Moderat ou Ricardo Villalobos porque o Neopop existia e fazia essas cenas. E eles, nessa altura, chamarem-me para tocar… para mim era fantástico. Ainda agora acontece, mas, pronto, contando a história, nessa altura era mesmo fantástico isso acontecer.

Eu acho que não é de agora que produzes, mas deste lado fica a ideia que só mais recentemente é que te tens dedicado mesmo a sério.
Não, não. Durante esta fase toda de que estava a falar – Trip Vision, Bandit Room, Neopop e isso tudo – eu não produzia. Comecei a produzir mais ou menos quando fui para Coimbra, estamos a falar de 2018, 2019. Produzo há quatro ou cinco anos, assim com força [estas declarações são de 2024]. Já tinha tirado o curso de Técnico de Som e podia ter começado antes, mas, na altura, não percebi bem porque é que não fazia. Não sei se era preguiça ou se tinha medo de experimentar e não conseguir. Se calhar era por ser uma coisa que eu queria tanto fazer que até tinha medo de experimentar e não conseguir [risos]. Mas, quando me mandei de cabeça, mandei-me mesmo. O mundo da produção não começou assim há tanto tempo para mim.

E tens sentido, tipo, sei lá… Óbvio que deves ter sentido, mas como é que tens visto essa evolução desde que começaste até agora, a nível da produção?
Pá, tens sempre aquela parte… Mano, qualquer pessoa que seja grande produtor é um nerd. Eu não era um gajo nerd, nem era um gajo de computador. Era um gajo mesmo social. Passava a vida na rua, fins de semana, semanas… Sempre fui um gajo de andar cá fora.

Aí esta uma razão para não te teres dedicado mais cedo.
Pois, é uma das razões [risos].

Uma coisa que percebi é que, para virares mesmo produtor e perceberes o que estás a fazer, para conseguires ter trabalhos de que gostes, tens de virar um bocado nerd. Tens de perder tempo, tens de ficar em casa, tens de trabalhar e dedicar horas à cena. Claro que depois há muitas coisas que ajudam, seja um curso, sejam pessoas. Eu tive um amigo meu, o Renato, ex-produtor de trance, que me deu muitas aulas e ajudou-me muito. Ainda hoje me ajuda. É fixe teres sempre alguém assim. Às vezes podes ter dois ou três gajos desses, às vezes não. Eu, como estou aqui na vila, acabo por não ter tanto acesso a produzir com outras pessoas ou a partilhar o estúdio. Tem a sua parte má, mas também tem a sua parte boa. Agora, com a net, aprende-se muito mais e o pessoal partilha muito mais as cenas.

Durante este processo de produção aconteceu uma coisa engraçada. Com o projeto Nonsensical, quando estou cansado de fazer techno e cenas mais aceleradas, descanso. Faço música ambiente, outro tipo de música. É onde não vou tanto com as regras que tenho no Backbone. É como se tivesse um desenho. Posso mudá-lo, pode ser diferente, mas há ali um fio condutor. No outro projeto não preciso disso. E o que é bom é que depois percebi que um lado acaba por ajudar o outro. Vou sem regras, agarro ideias que depois servem para o outro projeto.

Uma cena que percebi é que o pessoal tem aquela ideia de que anda dois ou três anos a produzir e ainda não se sente produtor, ou acha que as músicas ainda não estão assim tão boas. Depois chega uma altura em que pensas: “Ok, agora já consigo fazer isto, agora já sou produtor.” Mas eu depois comecei a questionar essa ideia. Tinha músicas feitas há três ou quatro anos e, quando tive alguém a escolher faixas para uma label, assinaram precisamente essas músicas mais antigas. Isto para dizer que, às vezes, a confiança também nos engana. Tu estás a duvidar de uma cena e ela se calhar até está fixe.

Lembro-me de pensar: “Foda-se, fiz esta merda há quatro anos.” Agora faço cenas que podem estar melhores em termos de mistura e de técnica, mas, na parte criativa, se calhar já não estão tão fortes. Porque começas a ficar mais profissional na técnica e no mixing, mas podes perder alguma coisa na criatividade. Se calhar, nessa altura, eras mais criativo. Ouvi um gajo a dizer uma frase – já nem sei se foi o Pharrell Williams – que dizia: “Style is the killer of creativity.” E faz sentido.

Pois, faz sentido. Essa cena de olharmos mais para a técnica, para o lado científico… Se calhar estamos tão focados nisso que perdemos um bocado a criatividade.
Pois. Como um gajo ouvir um artista e perceber logo que aquela música é dele. Isso tem a parte boa, mas também pode ter a parte má, porque acabas por ter um certo estilo e isso pode começar a matar a tua criatividade. Vais sempre fazer dentro daquele formato e com aquele tipo de som.

A produção continua a ser uma busca e acho que vai ser sempre assim. Como tu sabes, está tudo sempre a evoluir. Os programas evoluem, as ferramentas evoluem. Acho que o erro é quando um gajo chega ao ponto de achar que sabe tudo. É aí que estás no ponto zero. Sinceramente, às vezes, até para começar uma música, nem sei muito bem como é que faço. O pessoal às vezes fala em inspiração, mas eu não penso propriamente “vou fazer isto.” Eu sento-me a trabalhar e as coisas vão surgindo. É raro começar uma música a pensar “vou fazer isto, isto e isto.” Às vezes só penso “vou fazer uma cena mais puxada” ou “vou fazer uma bassline que me faça lembrar drum’n’bass”. Depois o resto aparece.

Também queria perguntar o que é que te inspira – e aqui nem precisamos só de olhar para a música. Até pode ser música, festivais, whatever, mas tipo, o teu dia-a-dia, tu és aí de Mondim, acredito que esses ares também te deem outro alento para fazer isto.
A cena que eu acho que me inspira… Eu tenho a sorte de morar, agora, numa casa mesmo no meio da floresta. Esta cena de acordar e só ouvir os pássaros, nem ouvir um carro passar, é uma cena de que eu gosto.

Depois, para eu estar numa fase boa de produção, também tenho de estar numa fase boa de cabeça e até fisicamente. Tenho de andar a treinar, tenho de fazer os meus banhos frios de manhã, tenho de fazer umas caminhadas. Tenho de andar um bocado nesse mundo para a cena toda fluir bem.

Mas estar aqui em Mondim, no meio da natureza, seja de inverno ou quando começa a abrir a primavera… Eu abro a janela e estou a trabalhar no meio das árvores. Uma cena que me inspira é estar neste formato, onde tenho toda esta liberdade para produzir sem pressão. E depois, ao fim de semana, quando vou tocar, vou para a cidade, bebo ali um bocadinho daquela energia e depois volto para um sítio onde posso passá-la para a música. Depois, com o festival à mistura e com muita música de todo o lado que ouço, de artistas portugueses e também estrangeiros…

Desde que comecei a fazer o line-up do festival, isso também foi uma cena que quis puxar para mim. Leva-me cada vez mais a ouvir música e, como tenho de fazer esse desenho, estou sempre a ouvir música e a perceber o que é que estes gajos tocam e o que é que não tocam. Essa cena toda acabou por me dar bagagem e até inspiração para fazer música.

Depois há fases. Agora ando muito a usar o Granulator e plugins de granulação. Mas também houve uma altura em que o que mais me dava gozo era o sampling. Gosto muito de músicas com vocais, de pegar em vocais, fazer bass e drums, agora muito com o Granulator e essas cenas todas. Gosto de utilizar isso ou até sacar vozes de filmes. Agora não tenho microfone, mas antes curtia muito gravar cenas. Há várias fontes de inspiração. Há mesmo muitas.

E que desafios há nisto? Não só a produção, mas também na vida de DJ?
O desafio é um bocadinho a situação em Portugal. A verdade é que nós não temos uma cena assim tão grande como noutros países, seja Inglaterra, Alemanha ou Holanda. É a nossa cena, e, por mais que a gente a venere, e é bom que cada vez haja melhores produtores e mais pessoal a fazer coisas, desde festivais a clubes e outros projetos, a verdade é que não temos uma cena assim tão grande. Mesmo no Porto, já não há assim tantos espaços.

Às vezes a dificuldade é essa. E, por acaso, o festival veio dar-me aqui um bocadinho mais de balanço para me conseguir aguentar, porque viver disto… Não deve haver muitos gajos, ou quase nenhuns, a viver só disto. Estamos a falar de techno, da cena que nós tocamos. Viver só de tocar em Portugal é complicado. Podes ter um ou outro, como o DJ Vibe, se calhar o Frank Maurel, mas, se fugires um bocado ao que a gente toca, continua a ser difícil viver da música eletrónica em Portugal. Se não tiveres outras coisas aliadas a isso, seja um festival, um clube, uma loja de discos, uma agência ou outro projeto qualquer, é complicado. Mas estamos a dar um saltinho. Há cada vez mais pessoal a ouvir música.

Neste momento temos poucos clubes. Acho que isso também foi um bocado derivado do covid. Não há assim tantos clubes. Guimarães, por exemplo, é uma cidade importante e não tem. Lisboa parece que agora está a mexer mais, tens muitos artistas estrangeiros e muitos artistas acabam por ir morar para Lisboa. Deve ser para fazer os descontos [risos]. Não acredito que seja só pelo sol. Alguns, se calhar, sim: estão bem em Lisboa, comem bem, está bom tempo, comparado com Berlim ou com a Holanda.

Mesmo que abras uma editora em Portugal e tenhas esse trabalho todo, ou até um festival, não é fácil viver da cena e da música eletrónica, neste género de que estou a falar. Mesmo no drum’n’bass seria um grande desafio. Exige muito esforço. Acho que o desafio acaba por ser esse: conseguires viver apenas da tua arte, independentemente de qual seja essa arte.

Fotografias por Francisca Veiga

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