AUTOR

Rui Castro

CATEGORIA
Entrevista

DJ Baywatch sobre No, She Doesn’t: “Interessa-nos criar estados de espírito”

26 Março, 2020 - 14:05

Foi à conversa com Manuel Bogalheiro que desvendámos um pouco do enigma despropositado que envolve uma das editoras mais descontraídas do panorama underground nacional.

Disco, R&B, lo-fi, leftfield, groove, house… música. De dança. Não há rótulo ou caixa fechada onde possamos inserir a No She Doesn’t, editora e promotora nacional cuja premissa de uma sociedade sem preconceitos e de mentalidade aberta a tem guiado num percurso intuitivo rumo a uma filosofia assente em liberdade e igualdade. É uma das editoras mais descomprometidas e descontraídas da cena “tuga”, e, apesar de os lançamentos não serem abundantes, a qualidade é inegável e tem despertado atenções um pouco por todo o lado. A estética retro, inspirada no VHS e nos visuais dos anos 90, não deixa escapar uma associação à cena primordial lo-fi/leftfield, e tem-na distinguido dentro da cena underground portuguesa.

Ainda assim, a No She Doesn’t, que se prepara para editar um novo VA a 17 de abril, aparenta ser muito mais, e DJ Baywatch (Manuel Bogalheiro, à direita na fotografia) confirma-nos isso mesmo nesta entrevista.

Comecemos pelo nome. Porquê “No, She Doesn’t”?
Tudo isto começou de uma forma muito descomprometida, num grupo de amigos, em que todos nós tínhamos, e temos, projetos individuais a solo dentro da música eletrónica, e houve um dia que, por brincadeira, começámos com a provocação, “porque não começar a fazer uma espécie de pastiches de música de dança (fosse disco, house, etc.)?”. E, portanto, antes de chegarmos ao nome da editora começámos por uma espécie de primeiro brainstorming de nomes. E na altura é verdade que a estética do lo-fi house, que nós acabámos por ironizar um pouco, até em termos estéticos (sempre a cargo do João Pedro Fonseca), teve um pouco de influência, mas daí começaram a surgir os nomes (DJ Spielberg, DJ Legwarmer, DJ Baywatch, DJ Permission). Quanto ao nome da editora, No She Doesn’t, pode ser muita coisa, pode ser, se quisermos, qualquer coisa do imaginário adolescente, aquela coisa de corredor de liceu. É uma expressão que nos agradou pela sonoridade e justamente por não querer dizer nada em particular, por ser muito coloquial.

Qual o objetivo que tinham aquando da criação da editora? O que tinham em mente?
Na verdade, não tínhamos nada particular em mente. Uma vez, em que eu estava a tocar no norte enquanto Herbert Quain, o Hugo (DJ Spielberg) mandou-me uma faixa uma hora antes de eu abrir um set e acabei por tocá-la. A faixa foi muito bem recebida e no dia seguinte criamos um SoundCloud por brincadeira. Nada foi pensado no início. Fomos fazendo mais faixas e colocando lá, e entre amigos e amigos de amigos a coisa foi ganhando visibilidade. Convidámos também outras pessoas para fazer músicas. E um dia pensámos que podíamos lançar um disco que assinalasse o que andávamos a fazer. E foi aí que, já há dois anos, fizemos a primeira compilação e se calhar foi aí o arranque mais sério da editora.

Isto para dizer que não houve uma estratégia, as coisas aconteceram por si e queremos que continuem assim. Ou seja, acima de tudo gostamos de música, de a fazer, de a tocar, de a partilhar, e gostamos muito de o fazer juntos.

DJ Legwarmer – Ride Fast

V.A – NSD004 LP Label – No, She Doesn’t Released – 17th May 2020 BUY FROM – https://lobsterrecords.co.uk/products/various-artists-nsd004 The portuguese crew …

E se tivessem de descrever a vossa sonoridade como editora, como é que a definiriam?
Eu diria que é música de dança. Não nos interessa muito particularizar. Aliás, se pensarmos, a música de dança é uma coisa muito híbrida porque passa do post-punk para o disco, do disco para o house, do house para techno… há contaminações de toda a ordem. Por isso, preferimos pensar sempre em algo multifacetado, onde o R&B coexista com o techno e com o italo-disco, o que seja. O prazer está aí e não nos interessa balizar de forma rígida. Acima de tudo, é música de dança, e é assim que a encaramos. Mesmo que isso não signifique que seja música a 120bpm, ou seja, podemos ir, diria, dos 100 aos 150bpm. O espectro é abrangente o suficiente.

Já tive oportunidade de ouvir o vosso próximo lançamento, um VA, e ele é bem representativo da palete de sonoridades que descreves (vai do electro do Spielberg, ao deep meio sonhador da tua faixa L´Avventura). Qual foi o conceito – se é que existiu – para este EP? Ou pretenderam seguir essa tal linha de não haver uma sonoridade específica, mas ser mais a música de dança em si?
Sentimos que fazia sentido editar um segundo VA e começámos a ver que faixas é que cada um tinha e como é que podiam encaixar. Foi mais isso do que termos definido uma linha estética. Depois de escolhidas, foi curioso ver como certas músicas se afiguraram logo mais para serem lado A, isto é, faixas mais de pista, mais físicas talvez, e outras de lado B, que será realmente mais onírico, mais contemplativo, e mais lento também. Acho que, no fundo, interessa-nos criar estados de espírito e achamos que a pista, apesar de se estruturar em torno dessa ideia de dança, é um espaço para múltiplos estados de espírito – da euforia ao recolhimento, do entusiasmo a uma certa melancolia. Em certa medida, pensámos que podíamos tentar recriar um pouco esses microuniversos, mesmo que seja num disco, daquilo que pode ser um conjunto de pessoas a dançar em conjunto.

E seguindo a onda de pista, a título de curiosidade, tinham alguma festa planeada para celebrar este lançamento, que teve de ser adiada por causa de toda esta situação do coronavírus?
Sim, havia uma festa programada para os Anjos70, e que seria a festa de lançamento do disco. Havia também uma data no Plano B, ainda antes do lançamento do disco, que também foi cancelada. E havia outras coisas para a frente, que ainda não estavam marcadas, mas que estavam a ser conversadas, e que agora, naturalmente, ficaram suspensas.

Pois, como é óbvio. Mas pergunto isto porque para além do trabalho como editora, costumam também fazer eventos com alguma frequência. Fazem showcases de forma regular, e já trouxeram artistas algo rebuscados para o panorama nacional, como foi o caso de Baltra, DJ Boring, D Tiffanny ou Debonair. Não sentem que é sempre um risco apostar em artistas menos conhecidos cá em Portugal, como foi o caso desses? Ou acham que o público está farto dos mesmos nomes e, portanto, ávido de ter algo diferente por cá?
Mais uma vez, diria que nem sempre a estratégia é muito consciente para nós, e que por vezes se calhar nem estamos muito cientes dessas questões que nos colocas. Naturalmente, há um certo momento em que isso nos passa pela cabeça – se a festa vai correr bem ou não – mas eu acho que, acima de tudo, em qualquer um desses eventos, procuramos trazer artistas em que nos revemos. Talvez haja uma certa ingenuidade, que não deixa de ser importante para que às vezes se arrisque e as coisas aconteçam.

E provavelmente, se fossem a pensar demasiado a nível orçamental, não traziam esses nomes, mas sim outros mais seguros. E acabou por correr bem na mesma, certo?
Sim. Houve eventos que correram melhor do que outros, como é normal, mas damos a experiência como positiva e esperamos poder continuá-la no futuro, claro.

DJ Unsure – Touch Generator

Novaj 新し Sensations & feelings Get it https://lobsterrecords.co.uk/products/various-artists-nsd004 DJ Unsure https://soundcloud.com/djunsure https://www.face…

Vamos a outra questão, mais em jeito de provocação, digamos [risos]: O Dj Legwarmer e o Dj Spielberg já têm EPs em nome próprio pela editora. Quando é que os restantes se chegam à frente?
No futuro, certamente. Todos nós produzimos, todos nós temos material em arquivo, mas naqueles momentos considerámos que os discos que foram editados eram aqueles que faziam mais sentido. Gostamos de sentir alguma espontaneidade na forma como “gerimos” isto. Depois de termos lançado um primeiro VA, que sempre quisemos que fosse uma edição coletiva, o DJ Spielberg tinha um conjunto de faixas prontas e coerentes entre si, e fazia sentido naquele momento aquilo sair. Entretanto, aconteceu o mesmo com o DJ Legwarmer e depois pensámos que faria sentido novamente uma edição coletiva. Queremos sobretudo que as coisas sejam desfrutadas por nós próprios, e que quando alguma coisa saia, que realmente sintamos, dentro do grupo, que é o tempo dela e que faz sentido naquele momento. Mais do que estarmos a auto pressionarmo-nos ou a fazer lançamentos em catadupa. Embora seja quase um cliché, é uma forma de vermos cada lançamento como um objecto especial, não como apenas mais um.

E já agora, por falar em cliché, a pergunta da praxe: Quais são os vossos planos para o futuro?
Neste momento ainda estamos focados neste quarto lançamento. Vemos este VA como uma mini compilação e estão a sair as premières do disco em várias publicações. Obviamente que esta crise veio baralhar alguns planos porque queríamos fazer alguns eventos para promover este disco. Mas haverá outras formas de o fazer e estamos a pensar nelas. No futuro, queremos continuar a editar música, sejam VAs, EPs, splits ou até um LP. Esperemos que tudo isto passe. Acho que depois disto haverá muita coisa que vai ser vista de forma muito diferente.

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