AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Eddie Fowlkes: “Plant 19 é puro techno soul. É o que faço melhor”

28 Dezembro, 2020 - 12:20

Falámos com um dos maiores veteranos do techno, Eddie Fowlkes, no âmbito do EP que lançou recentemente pela portuguesa Shift Imprint.

Nem sempre ouvimos a imprensa a associá-lo à fundação do techno, mas Eddie Fowlkes esteve lá desde início. Na realidade, só nos últimos anos é que começou a ter o devido reconhecimento pelos meios de comunicação, embora seja possível encontrar a sua assinatura na Legends Plaza, em Detroit, desde a inauguração dessa praça em 2011.

Patrão da City Boy e da respetiva sub-label Detroit Wax, Eddie Fowlkes é um DJ e produtor que entre os finais dos anos 80 e os anos 90 lançou por importantes e seminais labels do panorama, como é caso da Metroplex ou Tresor. Nos últimos anos, no entanto, foi principalmente pelos seus próprios selos que pôs música cá fora.

“Padrinho do techno soul”, Fowlkes voltou a chamar a atenção este ano, particularmente com “D-Town Playaz”, um EP feito em colaboração com Loco Dice, e “The Crystal City Is Alive”, dos The Beneficiaries, trio de Detroit que partilha com Jeff Mills e a poetisa Jessica Care Moore.

Mais recentemente, assinou “Plant 19”, EP que assinala o sétimo lançamento da Shift Imprint, de Audiopath, e o primeiro do estadunidense por uma editora portuguesa. É uma edição que não é habitual – afinal, Eddie Fowlkes não costuma fazer “projetos fora da sua label Detroit Wax, a não ser que se trate de DJs e produtores genuínos”, como nos contou nesta conversa.

Este novo EP estreou este mês, liderou charts na Decks e está quase a esgotar na Deejay. Tendo esse lançamento como premissa, Eddie Fowlkes respondeu a algumas perguntas que enviámos via email, como podes encontrar mais abaixo.

2020 não foi um ano fácil. Além da pandemia, nos Estados Unidos da América vimos casos de violência policial que chamaram a atenção do mundo, particularmente dirigidos à comunidade negra, e até uma eleição presidencial bem atribulada. Como é que um músico de Detroit vê tudo isto?
Bem, como uma pessoa negra nos Estados Unidos, a brutalidade policial contra os negros tem vindo a acontecer desde muito antes de 2020 (como os motins de Rodney King), e penso que muitos não-negros falham em perceber isso. Dito isto, foi bom ver as pessoas enfurecerem-se com os recentes casos de violência policial, mas gostaria que continuassem a ter essa energia para cada pessoa que enfrentou, e irá enfrentar, qualquer tipo de brutalidade policial.

Ainda assim, deste lado parece que este tem sido um bom ano para ti em termos de lançamentos, com colaborações com Loco Dice e o trio The Beneficiares pelo caminho. Qual o balanço que fazes dessas colaborações e do teu trabalho em 2020?
Embora eu tenha feito parte destas colaborações, foi uma pena não podermos fazer tours para apoiar esses lançamentos, mas é o que é! Tive uma faixa que saiu no Grand Theft Auto através do Kenny Dixon e editei também dois lançamentos digitais na minha label City Boy Music, pelo que 2020 foi um ano musicalmente decente. Mas, mais uma vez, foi uma pena não poder ir em digressão ou ter mais atenção dos media.

Como surgiu a ligação com a Shift Imprint e o que te motivou a assinar um disco por esta editora?
O meu amigo Santonio Echols falou-me da label e às vezes é fixe sair da caixa e fazer algo diferente. Mas sabes que não faço demasiados projetos fora da minha label Detroit Wax, a não ser que se trate de DJs e produtores genuínos – como Jeff Mills e Loco Dice.

Como é que descreverias este “Plant 19”? Como foi o processo por trás deste EP?
“Plant 19” é puro techno soul – deep, dark, funky. É o que faço melhor, tento atingir todos os cantos da terra. Foi apenas entrar em estúdio, deitar as mãos à obra e esperar por fazer algo bom que virasse algumas cabeças, esperançosamente dando ao Ângelo [Santos] algum fogo para a sua label, Shift Imprint.

Techno é música de resistência. Achas que, no geral, o mundo ainda o vê com esse propósito? Que recordações tens dos primeiros tempos do género em Detroit e como encaras a difusão deste até aos dias de hoje?
Não posso falar por todos, mas nunca pensei que techno fosse música de resistência – nós ouvíamos a música do Juan [Atkins] na rádio, não havia nada de resistência nisso. Na altura, queríamos a música na rádio porque era assim que a espalharíamos pela comunidade e a levaríamos mais longe: por tocá-la na rádio e em mixes. As drum machines 808 e 909 agitavam a comunidade negra e isso resultou na criação da música house e techno, por isso, quando ouço pessoas a tocar mais percussão do que partes musicais, isso faz-me lembrar daqueles dias. É preciso ritmo para ter groove, sem um groove não se tem ritmo, e sem isso é apenas escuridão.

A nova escola também procura este lado de ativismo e resistência? Que novos artistas te têm chamado a atenção?
Quer dizer, se fores um artista oprimido de ou dentro dos bairros negros, claro que vai haver algum tipo de ativismo e resistência contra o opressor. Os artistas oprimidos, na minha opinião, fazem a melhor música. Um artista que me chamou recentemente a atenção foi Ashleigh Teasley [Ash Lauryn].

Porque é que tenho tão poucas oportunidades de te ouvir na Europa? Há alguma razão em particular?
Por um lado a pandemia, mas também tem que ver com encontrar os espetáculos certos para mim – nem todo o dinheiro é bom dinheiro. Mas espero que possamos mudar isso em breve, assinei recentemente com a Paramount Artists em maio de 2020, por isso, se conhecerem alguém que me queira agendar, entrem em contacto com Tom Nettleton!

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