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Lançamentos favoritos de janeiro

8 Fevereiro, 2021 - 15:21

Panama Papers em dose tripla, ambient, techno e muito mais na nossa primeira revista de 2021.

Abul Mogard – In Immobile Air [Ecstatic]

O regresso do sérvio Abul Mogard à Ecstatic faz-se com um álbum cavernoso, visceral, taciturno e sincero, repleto de texturas que nos aprisionam a uma escuta de olhos fechados. Inspirado no conto homónimo de Italo Calvino, “In Immobile Air” resgata sons a um piano Bechstein de 1891 (e não só) para engendrar uma memorável viagem ambiente, com toques drone ideais para os dias de hoje, assinada por um nome que procura na música a nostalgia da sua vida de trabalho numa fábrica metalúrgica.

Aires – Daylight Fireworks [ZABRA]

Na sua estreia a solo pela ZABRA, Aires assina um EP que assenta como uma luva nestes dias de enclausuramento. Não é “um disco de quarentena”, mas “as emoções presentes” amplificaram-se nesse período, contou o madeirense em entrevista. Por entre estática, arpeggios ou samples de voz distantes mas enternecedores, Aires presenteia-nos com um EP detalhado e airoso que fala sobre “aceitação inevitável da efemeridade, sobre o anseio por algo fugaz que nunca vivemos plenamente, sobre a noção de saudade”. A não perder.

dpe0 – Everything, All At Once

Foi na primeira ronda de confinamento que “Everything, All at Once” nasceu. Lá fora, o silêncio das ruas e, fechado em casa, dpe0 voltou a sua energia para uma estreia em formato EP que assina com este pseudónimo. Em reflexo do caos que se ergue quando tudo parece calmo, Miguel de Melo paira pelo ambient, drone e noise em cinco faixas, que se desdobram em géneros como techno nas remisturas de Alley Catss, IDNTMTTR, Lvcefecit, mt.pleasant e Tiago Silva Ribeiro.

Formally Unknown – Autonomous Zone [Harmless Youth]

Das três faixas do EP, a editora Harmless Youth destaca Superluminal, e o primeiro lugar no pódio é bem merecido. Com snares viciantes, breaks convergentes, ambiente intrigante e uma progressão constante, aqui a estagnação é inexistente e o interesse é cativado ao longo dos cerca de 6 minutos. “Autonomous Zone” é fruto do duo de São Petesburgo Formally Unknown, que entrou na nossa órbita e tão cedo não nos escapa.

George Silver – Selvagem [Panama Papers]

São quatro faixas de André Neves para começar o ano em grande, três delas criadas ao vivo numa selva através do L9A Podcast. Com muita batucada, sintetizadores que voam e ecos de vozes em loop, o EP aborda a desconstrução do ego no que soa muitas vezes à reconstrução sonora de um ritual shamânico. Com o desenrolar das faixas, fica no ouvido o toque de loucura e intrepitude que caracteriza tanto a música e escultura de George Silver como a de muitos lançamentos da Panama Papers. No fundo, este curta-duração é um caldeirão que mistura filosofia, espiritualidade, batucada, eletrónica, afrobeat e, acima de tudo, a natureza selvagem da criação musical.

Henry Greenleaf – Taking First [Par Avion]

Este foi daqueles casos em que, ao nos depararmos com este trabalho no processo de digging, paramos e pensamos “espera lá, quem é este?”. Naturalmente, ouvimos mais umas quantas faixas de Henry Greenleaf e denotamos um estilo próprio. Qual? Pois, boa pergunta. Dizem que deriva do post-dubstep, do experimental, das sonoridades rave e de influências do techno de UK. Sendo de Bristol, a mistura era inevitável e o resultado interessantíssimo.

Lázaro – Introdução à Ressurreição [Regulator Records]

A Regulator Records abriu o ano com mais uma estreia. Pedro Geraldes, dos Linda Martini, fez de si Lázaro e, numa “Introdução à Ressurreição”, combina rock experimental, eletrónica e poesia. A dar som à visceralidade da voz de Mário Viegas, a lírica de Eugénio de Andrade e Almada Negreiros faz-se acompanhar por feedbacks soturnos e synths assombrados e modulados. Pelo meio, canta-se a infância passada entre ollies e skateparks. A fechar com João Vairinhos, o EP assenta num registo experimental e catártico, que tanto tem de ode como de manifesto.

Luhk – Em Casa [Carpet & Snares]

O título deste disco é algo paradoxal. Remete para a ideia de ficar “Em Casa”, mas está repleto de música de dança que nos dá vontade de ir até à pista mais próxima o mais rapidamente possível. Não acreditam? Ouçam desde já Reminiscência Do Trance e digam-nos se não concordam. Envolvido em ritmos viciantes e modulações melódicas brilhantemente conseguidas, este é um vinil que não pode escapar às bagagens da tropa romena do minimal ou até de nomes como Ricardo Villalobos. E à nossa estante também não, claro.

Madlib – Sound Ancestors [Madlib Invazion]

Este álbum é fruto da colaboração entre dois gigantes da produção musical, Madlib (Otis Jackson Jr) e Four Tet (Kieran Hebden), com a fusão do sampling eclético e os beats característicos de Madlib, cujas produções sob inúmeros pseudónimos o tornaram numa espécie de Fernando Pessoa no mundo das colagens sonoras, e as habilidades adquiridas pela vasta experiência enquanto produtor de Kieran Hebden, que esteve responsável por editar, arranjar e masterizar a viagem pelo tempo da música incontornável que é “Sound Ancestors”.

Mind Safari – Sincronismo [Rave Tuga]

No seu novo álbum, disponível em cassete e digital, Mind Safari explora sintetizadores e caixas de ritmos para trazer “Sincronismo”. Via Rave Tuga, este é um trabalho que, embora desenhado para a atualidade, estuda movimentos clássicos antes de partir para uma investigação empírica que abre caminho para o académico João Melo chegar a uma fórmula certeira, coesa e abrangente, que passa por géneros como ambient, acid ou techno. Em poucas palavras, “Sincronismo” é delicioso.

Nørbak – Flesh to Ashes [Warm Up]

No seu primeiro longa-duração, Nørbak renasce das cinzas para lançar um álbum que marca o final de um ciclo. Dedicado à memória do seu pai, “Flesh to Ashes” é um trabalho de techno contemporâneo, enciclopédico e penetrante, com um quê de sci-fi ou até de exercícios experimentais ao longo do LP. É um disco que não pode ficar esquecido e que promete agarrar o ouvinte da primeira à última faixa, tal é a congruência que Artur Moreira tem vindo a aprimorar desde os seus primeiros EPs.

Special Request x Tim Reaper [Hooversound]

Tim Reaper a remisturar Special Request. Só de escrever isto já nos corre um arrepio espinha abaixo. Neste choque de titãs, Reaper transfigura 4 temas do álbum de 2019 “Zero Fucks Given”, atribuindo a sua já conhecida abordagem contemporânea à notória roupagem hardcore jungle primordial dos originais. Mais um acrescento portentoso ao catálogo da jovem editora de Sherelle e Naina que, num ano apenas, já nos deu motivos mais do que suficientes para um regresso desejado às pistas. E perdoa-nos, Tim, pois sabemos que este mês também lançaste um EP fortíssimo pela Lobster Theremin, “Teletext”.

Stihl in Love – Keys of Live [Panama Papers]

Dos confins do Desterro surge “Keys of Live”, da STIHL in Love, uma orquestra que é um duo de teclas composto por Diogo e André Neves e orquestrado por Robalo. Como se afirma logo na primeira faixa, “as teclas são o Yin Yang da música”, e, talvez por isso, esta performance, que une Yamaha a Microkorg, une também ambient e progressões cuidadas a um lado igualmente intenso e bastante cómico de javardice sónica. Esta performance, lançada agora em forma de álbum, é a prova viva de que tanto a qualidade como o romantismo não precisam de seriedade ou de pretensiosismo para existirem em abundância na arte sonora.

Tempura The Purple Boy – Onirologia III [Panama Papers]

Viajante assíduo nos meandros do downtempo, Tempura The Purple Boy tem vindo a explorar o ambient como ponto de contacto entre mundos, em memória a Leonardo Adário. Nesta terceira parte de “Onirologia”, flutuamos pela dimensão sónica do etéreo a partir de “pads infinitos” e “melodias esparsas”, que se interligam entre si para sussurrar o epílogo alumiado de uma vida. Imersos em nostalgia, ouvimos o sonho e conseguimos tocar-lhe, numa leveza que entra corpo adentro e nos diz: It’s OK to spread your wings.

VA – Mind Disorder Vol II [Mera]

O segundo volume de “Mind Disorder” é uma palete de géneros bem diversificada. Entre o noise, jungle, drum’n’bass, electro, techno e IDM, há até faixas fora da caixa para todos os gostos e feitios, assinadas por nomes como Silvestre, Hangloser, VSO e Dust Devices. Mas, apesar de toda esta multiculturidade musical, o cheiro a maquinaria e a pista mantém-se, sendo uma das imagens de marca sonora da editora portuense que tem feito esforços para nos mostrar o que de melhor se faz por cá.

VIL – The Groove Dealer [HAYES]

Naquele que é o seu primeiro EP pela editora nacional, VIL decidiu frisar, de forma sónica e estética, de que se trata a palavra “groove”. Nestas seis faixas, das quais duas são colaborações com Vince e CRAVO, o lisboeta põe a prova o ser humano naquele que é um lançamento que simplesmente não nos deixa indiferentes. Entre swings rítmicos e synths cósmicas, Nuno Costa deixa a sua marca de dealer de confiança e que nos terá como cliente regular com toda a certeza.

Textos por Carina Fernandes, Daniel Duque, David Rodrigues, João Freitas e Rui Castro

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