AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Accatone: “A criação tende a ser um reflexo da existência”

17 Março, 2021 - 11:17

10 anos após o primeiro álbum, Accatone regressou a este formato com “Potentially Different”. Uma autêntica prova da experiência do setubalense.

Corriam os anos 90 quando o então jovem de 16 anos José Reis, como muitos outros nessa altura, começou a conhecer a música eletrónica. As primeiras festas e descobertas nesse universo, assim como as primeiras experiências a ver alguém a “acertar discos”, foram fulcrais para o setubalense eventualmente começar também a sua própria aventura.

Formado em som para cinema, o músico de 40 anos já tocou um pouco por todo o país e até lá fora, fez parte de projetos como Dazkarieh e Tachyons, e conta com vários lançamentos no currículo. Um deles, o álbum “Steady Pace”, foi lançado há 10 anos pela label do seu amigo e conterrâneo Rogério Martins, Piston Recordings, pela qual editou também alguns EPs.

Agora, depois de todas essas viagens e discos, alguns deles com selo de editoras como Apparel Music, chega até nós o novo “Potentially Different”. Com ele, é também apresentada a nova label Sicut Erat, que, para já, pretende “seguir com alguns releases por ano”, segundo o próprio nesta entrevista.

Marcado por ritmos bem trabalhados ou linhas de baixo bem acentuadas, vocais certeiros que tocam no íntimo ou sintetizadores siderais que nos põem a viajar, o novo álbum está repleto de deep house refinado e primoroso. Mas há mais: “Potentially Different” é um disco que não se cinge a uma só estética, sendo marcado por uma abordagem que, embora diversificada, conta uma história coesa e coerente.

Lê abaixo a nossa conversa com o nome por trás deste projeto, José Reis, com quem falámos sobre uma série de tópicos, como é caso das suas primeiras raves, os primeiros passos na música e até os objetivos da sua recém-criada editora Sicut Erat.

Pelo que sei, tinhas uns 16 anos quando começaste a ir às primeiras festas. Como são as tuas recordações desse tempo? E que recordações gostas de contar a alguém como eu, que não vivi as raves dos anos 90?
Muito boas, a minha adolescência foi em grande parte muito influenciada pelo o que se ouvia naquela época. Um amigo meu, o Jorge, era o único que trabalhava e portanto o primeiro a ter dinheiro para comprar discos. Passávamos horas a fio a vê-lo acertar discos, com ele e mais um grupo de amigos, facilmente fazíamos 300 km para ir ver o Jeff Mills a tocar no Rocks ou arrancar de casa às 4 da manhã porque o Mario Roque tocava num armazém em Vila Franca de Xira. Os anos 90 foram também caracterizados pela diversidade, tudo o que era música electrónica valia pois não havia grandes fronteiras. Tínhamos K7s gravadas da XFM que eram a companhia nos carros para os eventos. Tudo era novidade, desde as festas grandes ou pequenas à música, e talvez o mais marcante foram os afters no Climacz. O Jardim Constantino era um melting pot de betos, punks, ravers que, acima de tudo, representava o party people, a malta da noite. Quando falo nisto, costumo dizer que se algum dia alguém realizar um filme sobre esta época vai ter uma dificuldade dos diabos em acertar no guarda roupa e no casting.

Em 1998 começas a atuar como percussionista de alguns projetos, como é caso dos Dazkarieh em 2002. Durante este período, em que lugar estava a eletrónica na tua vida artística? Como é que surge a vontade de querer tocar discos e produzir música?
De 96 ao final de 98, pouco tempo depois da Expo 98, houve para mim uma saturação da noite e a vontade de descobrir novas sonoridades e géneros musicais. Tinha alguns amigos que costumavam ir para a serra, fazer batucadas e a minha atração pelo ritmo aliou-se a um estilo de vida diferente. Nesta altura começam também as festas de trance psicadélico aqui na Herdade do Zambujal. As batucadas começaram a assumir uma vertente para além da curiosidade e cheguei a fazer uns workshops com o mestre percussionista Gueladjo Sané, em Tábua. Ao mesmo tempo, em conjunto com o Daniel Rosado, o irmão dele o Alan e o Ivã Crispim, começámos um projecto de electrónica com uma vertente de ambient, foi aqui que comecei a produzir os primeiros beats. Tocámos em muitos chillouts de festas de trance e aqui surgem também algumas com slots para poder tocar como DJ. Entre isto e os bares já extintos em Setúbal, o Baco ou o ADN, foi o início. Quando em 2003 saio dos Dazkarieh, começo a fazer música sozinho e desde aí foi sempre esse o formato.

Fala-me um bocadinho sobre a tua formação académica e sobre como esta influenciou a vontade de te dedicares à música de dança.
A minha ida para a escola de Cinema foi quase que um acidente de percurso, eu queria Engenharia de Som, mas, ao nível superior, não existia em Portugal. Em conversa com um amigo, o Sérgio, tomo conhecimento do curso de som para cinema, concorri e entrei para a escola em 2005. Durante esse período nunca deixei de fazer música e durante todo o curso continuei a aprimorar a técnica. Levava temas para ouvir no estúdio da escola e foi ainda durante o curso que começo a mostrar algumas das coisas que andava a fazer ao Rogério [Martins] (Piston Recordings). A música de dança esteve sempre presente e sempre que pude comprei discos.

Já tocaste por todo o país e até lá fora. Há alguma memória inesquecível das atuações em Portugal?
É muito difícil escolher uma memória que exemplifique onde fui mais feliz com a música, talvez a turnê na África do Sul com o Giuseppe (Kisk, Apparel Music), ou a noite em que abri para o Jerome Sydenham no Weekend Club (Berlin), tocar em Durango num evento para 700 miúdos com o Rogério e as dezenas de afters no Europa. A música já me proporcionou muitos momentos de grande felicidade, acho que tenho muita sorte em ter tido essas oportunidades.

Olhando hoje para o teu álbum “Steady Pace”, que cumpre o 10º aniversário este ano, que balanço fazes desse disco?
Quando olho para esse disco, vejo uma energia crua que muita gente já me disse ter gostado e apreciado. Neste momento sou uma pessoa diferente e essa energia existe nessa cápsula de tempo. Acho que é o que fazemos, gravamos o tempo para o revisitarmos. O “Steady Pace” e muitos dos EPs que fiz depois abriram-me muitas portas e fizeram com que eu conhecesse muita gente que ainda hoje faz parte da minha vida. Portanto o balanço é muito positivo.

Sobre o novo “Potentially Different”: o que te motivou a compor um novo álbum? Porquê a escolha deste título?
Com a vida “adulta”, trabalho a tempo inteiro, filhos, tenho conseguido compor o meu sonho. Ter o meu estúdio, ter as máquinas que sempre quis ter e não conseguia. Este álbum nasce dessa aprendizagem, de finalmente conseguir essa expressão através deste novo workflow. A escolha do título está implícita, tudo pode ser potencialmente diferente e quando escreves música o processo pode tornar-se interminável, até tu dizeres, basta. Não se mexe mais!

E que máquinas são essas?
O Juno 106, o SH-101, a Tempest, o D50, a TB-303. Sou fã incondicional das máquinas da Roland dos anos 80. Tenho também o Oberheim Matrix 6 e a clone da 808 da Behringer.

Escutam-se diferentes influências ao longo dos 12 temas, bem como há momentos mais festivos e outros algo mais introspetivos. Será isto fruto de tudo o que viveste desde as primeiras festas? Que abordagem e história traz este disco?
A criação tende a ser um reflexo da tua existência, é natural que exista essa dinâmica, o balanço orgânico entre momentos de maior energia e outros mais contidos. A abordagem é essa, ao fazer a triagem dos temas que entram no álbum, escolhes os que maior expressão tem para ti e esperas que essa escolha consiga repercutir-se no outro, que exista essa ligação ao que fizeste.

Com este lançamento, chega também a tua nova editora Sicut Erat. Por que razão decidiste avançar com esta label e a que é que esta se propõe nos primeiros tempos?
Chegou a altura de fazê-lo, eu podia ter feito o álbum por outra plataforma, mas senti vontade de trazer este projecto ao público assim. Já o tinha pensado fazer no passado e agora avancei. O plano é seguir com alguns releases por ano, o objetivo é um release por mês (que não sei se vou conseguir), música minha e talvez de outros. Com isso começar a gerar algum capital para editar em vinil. Esse é o próximo passo para esta editora.

Fotografias por Rui Soares

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