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20 lançamentos internacionais de que gostámos em 2021

12 Janeiro, 2022 - 13:30

Discos, discos e mais discos internacionais tomaram conta de nós em 2021, mas 20 destacaram-se nesta difícil tarefa de revisão.

Dois dias depois de abordarmos as compilações de que mais gostámos no ano passado, chegou agora a hora de recordar os lançamentos internacionais que, provavelmente, vamos recordar numa ou noutra ocasião em 2022.

Esta não é uma tarefa fácil nem justa. Deveríamos equilibrar esta lista consoante o estilo, por exemplo? Não sabemos. Mas sabemos que escolhemos 20 discos que adorámos e repetimos ao longo de 2021.

Por aqui há música para dançar – três exemplos são “Quivering In Time”, de Eris Drew, “Deliverance EP”, de Holden Federico, e “MDS EP”, de Seb Wildblood – mas também há música altamente contemplativa – como é caso de “Music For Psychedelic Therapy”, de Jon Hopkins, ou “Space 1.8”, de Nala Sinephro.

Não somos donos da razão e, por isso, esta não é uma lista de “melhores do ano”. É antes uma lista de discos de que a nossa redação gostou particularmente. Aventurem-se:

Abul Mogard – In Immobile Air [Ecstatic]

O regresso do sérvio Abul Mogard à Ecstatic faz-se com um álbum cavernoso, visceral, taciturno e sincero, repleto de texturas que nos aprisionam a uma escuta de olhos fechados. Inspirado no conto homónimo de Italo Calvino, “In Immobile Air” resgata sons a um piano Bechstein de 1891 (e não só) para engendrar uma memorável viagem ambiente, com toques drone ideais para os dias de hoje, assinada por um nome que procura na música a nostalgia da sua vida de trabalho numa fábrica metalúrgica.

Calibre – Feeling Normal [Signature]

Apesar do título e das inúmeras vias sónicas exploradas pelo mestre de Belfast, este não é um álbum típico de Calibre. Maioritariamente conhecido pela envolvência drum’n’bass, em “Feeling Normal” o produtor resgatou alguns temas nunca antes editados e compilou-os num “primeiro registo genuíno de 140bpms”. O ritmo abrandou, mas o mesmo não se pode dizer quanto aos padrões de qualidade altíssimos a que já nos habituou. A etérea Time To Breathe, com os vocais de Cimone, e Good Times são, para nós, duas das figuras de proa do álbum.

CZN – Commutator [Offen Music]

Já sabemos o que esperar quando João Pais Filipe se junta a Valentina Magaletti no projeto CZN. Mas desta vez o duo deu as mãos a Leon Marks, sendo este o primeiro lançamento editado como trio. “Commutator”, ao contrário do último trabalho, igualmente excelente, revela-se mais tecnológico e eletrónico, havendo sempre espaço para atmosferas brilhantes, reverbs frescos e introspeção no ouvinte. Autêntico transe.

Dawuna – Glass Lit Dream [O___o?]

Outrora conhecido como Ot to, Not to, Dawuna presenteou-nos com um dos álbuns mais bonitos do ano. Trata-se de um disco altamente pessoal com uma sonoridade tão envolvente quanto as letras, ideal para ser escutado em períodos de calma, depois de um dia de trabalho ou até enquanto se fuma um charro. Mas, na realidade, nada disso é preciso: esta história, criada através de inspirações tão díspares quanto R&B ou ambiente, é, só de si, altamente cativante – e pode ser ouvida a qualquer altura, tamanha é a sua beleza.

DJ-Kicks – Special Request [DJ-Kicks]

Este é um lançamento com características particulares, ao bom modo da DJ Kicks. Os temas, por si só dignos de escuta independente, resplandecem quando servidos em mix. A responsabilidade é do experiente Paul Woolford, que coloca a sua genialidade técnica ao serviço de muitos dos seus temas favoritos de sempre. Do house ao techno, passando pelo electro, disco ou jungle. Clássicos e inéditos. Uma espécie de resumo da longa noite que todos nós estamos a precisar e das várias emoções que a música pode albergar.

Eris Drew – Quivering In Time [T4T LUV NRG]

Mestra no DJing e no scratch, Eris Drew parece nunca falhar. Prova disso é o seu “Quivering In Time”, um disco de dança altamente rico – afinal, mesmo com diferentes estéticas aqui e ali, este álbum de 53 minutos é rico e coeso ao ponto de nos deixar agarrados a toda e qualquer faixa. Aliás: se só pudéssemos escolher um disco de 2021 para dançar numa festa com amigos, parece-nos que este tem tudo para encher as medidas a todos.

Floating Points, Pharaoh Sanders, LSO – Promises [Luaka Bop]

É difícil arranjar um exemplo recente que tenha causado tanto impacto e hype nos media e nos fãs como este “Promises”. Por isso, de certa forma é também difícil perceber se há algum problema epistemológico que tenha influenciado o facto de os nossos corações se derreterem ao ouvir este disco. Mas a verdade é que é um belíssimo trabalho. Seja pela linha condutora presente ao longo dos nove “movimentos”, pelo saxofone de Pharoah Sanders, pelos sintetizadores de Floating Points ou pelos apontamentos da Orquestra Sinfónica de Londres, “Promises” dá muito espaço e liberdade aos intervenientes para brilharem. E às nossas sinapses também.

Holden Federico – Deliverance EP [SK_eleven]

Esta é a grande estreia de Holden Federico na SK_eleven – ou, aliás, este é o seu primeiro lançamento. Para além de ser um connoisseur de techno, tendo até feito uma selecção de música dos anos 90s para a Dance Wax, mostrou que a sua produção acompanha o seu conhecimento e qualidade como DJ. São quatro faixas corridinhas, rápidas e cheias de groove completamente dançáveis. Claramente sabe perfeitamente o que é necessário numa pista de dança. E claro, os discos em vinil esgotaram em menos de um mês.

Jon Hopkins – Music For Psychedelic Therapy [Domino]

Jon Hopkins não é propriamente um nome do qual se espera música ambient, mas, bem, que tamanha riqueza nos trouxe o britânico este ano. Imagine-se um disco feito a partir de gravações de campo (e não só) captadas numa expedição do músico a caves na Amazónia, isto tudo com intenção (não planeada anteriormente) de acompanhar trips guiadas por terapeutas (diz-se que a duração do álbum é a duração de uma trip de ketamina). E a verdade é que o encanto é tanto que até ficamos com vontade de escutar o disco enquanto somos guiados por um xamã.

Joy Orbison – still slipping vol. 1 [XL Recordings]

Podemos fazer várias coisas na vida para tentar agraciar as nossas famílias. Joy Orbison, por exemplo, fez-lhes um álbum e nós não conseguimos ficar indiferentes. Não ao gesto, claro, mas aos 14 temas, que reúnem várias das suas influências numa embalagem de mestria. Para nós, funcionou como um porto de abrigo ao longo do ano.

Leon Vynehall – Rare, Forever [Ninja Tune]

O quarto álbum do britânico Leon Vynehall não é só rico na técnica, mas é também altamente enriquecedor graças à narrativa que vai sendo construída da primeira à última faixa. Com fases mais ou menos contemplativas, há aqui momentos de dança, sim, mas há também influências de jazz e muito mais. É um disco cujos pormenores – como as vozes de Mothra – parecem ter sido desenhados com toda a precisão possível. E que disco.

Lukey – Other Worlds Vol. 1 [Carpet/LAB]

Quando cedemos ao impulso de comprar um disco, às vezes basta-nos um tema. Outras, mais raras, encontramos não só um tema, mas um curta-duração (inteiro) de excelência. Do primeiro até ao último segundo em que a agulha pousa no prato, os kicks são cirúrgicos e não deixam dúvidas: dançar é o caminho. Pelo meio, viramos o disco e ruímos perante o facto de que o irlandês se está (praticamente) a estrear nas produções.

Moor Mother – Black Encyclopedia of the Air [ANTI-]

Mais do que uma música e ativista de Fidadélfia, Camae Ayewa, ou Moor Mother, é também uma poetisa que se aventura por hip-hop ou música experimental para assinar trabalhos altamente relevantes, dado o contexto social e político que atravessamos, sim, mas também dada a sua notável exploração musical. Um autêntico e belíssimo manifesto, “Black Encyclopedia of the Air” conta com produção do sueco Olof Melander e outras colaborações para nos entregar um disco que vai ao hip-hop ou ao noise para acompanhar a genuína, pertinente e importante poesia de Moor Mother.

Moritz von Oswald Trio – Dissent [Modern Recordings]

Pioneiro do dub techno com o seu duo e label Basic Channel, Moritz von Oswald é um experiente músico que lança discos desde os anos 90. Um dos vários projetos do currículo é seu o trio de improvisação, que, desta feita, conta com dois novos músicos na formação. Por um lado, temos Laurel Halo a tocar piano e, por outro, temos o baterista de jazz Heinrich Köbberling. É preciso dizer mais? O melhor é mesmo apertarem play para ouvirem esta fusão que vai desde o jazz à eletrónica.

Nala Sinephro – Space 1.8 [Warp Records]

Imagine-se uma música com raízes caribenhas e belgas residente em Londres, onde a cena jazz não cessa e desde onde nos chegam projetos deliciosos. “Space 1.8” não é exceção e é igualmente requintado e encantador: com a ajuda de nomes como Nubya Garcia e tantos outros, Nala Sinephro agarrou em instrumentos como sintetizadores modulares ou harpa para compor um disco que faz transcender o ouvinte por completo, tal é a fusão de ambient e jazz que se escuta ao longo de 45 convidativos minutos. Delicioso.

Rizzle – Fragments EP [Metalheadz]

A aquisição mais recente da Metalheadz entra de rompante no espólio da mítica editora, com uma sonoridade em tudo condizente com o que esta representa. Ora misterioso e pujante, ora blissful e etéreo, este é um lançamento equilibrado e bem polido que veste bem a camisola da sua equipa. O carácter intemporal e épico de Forgotten torna-a na nossa faixa predileta, mas as demais estão taco-a-taco. Deliciem-se.

Seb Wildblood – MDS EP [All My Thoughts]

“MDS EP” chega pelas mãos de um dos artistas mais interessantes da cena underground do UK, Seb Wildblood. A faixa homónima divide-se em 3 versões: a original, onde os vocais e rimas de Theophilus London (que já colaborou com gigantes como Tame Impala ou Kanye West) se exibem na totalidade com o esplendor house tribal/garage a acompanhar; o remix mais dub, experimental de Dj Plead (a nossa versão predileta); ou o Warehouse Mix cuja pujança subtil é altamente aditiva. A outra música do trabalho, cujo nome, Night Ride, sugere o formato correto para uma boa apreciação, resulta do combo sublime entre o sussurro melancólico de Lex Mor e a batida UK bass/garage.

Skee Mask – Pool [Ilian Tape]

Skee Mask na Ilian Tape. É preciso dizer mais? É que tanto um como o outro parecem não falhar. Três anos depois do brilhante “Compro”, o DJ e produtor alemão regressou à editora de Munique – pela qual lança todos os seus discos – com “Pool”, álbum no qual volta a uma miríade de estilos (ambient, breakbeat, techno e não só) que parece recair sobre uma só estética nas suas mãos – a tão peculiar, especial e infalível fórmula de Skee Mask.

Space Afrika – Honest Labour [Dais Records]

Divididos entre Berlim e Manchester, Space Afrika é duo que nos fez chegar “Honest Labour” depois de apresentar a igualmente brilhante mixtape “hybtwibt?” em 2020. O novo álbum é uma história muito bem contada sobre a secularidade que nos assola, mas que neste caso nos edifica enquanto pessoas. Com a companhia de nomes como guest ou Blackhaine em alguns dos temas e sempre com um vínculo britânico bem presente, a dupla anda por influências ambient ou trip hop para ostentar um manifesto congruente e altamente viciante. Imperdível.

The Bug – Fire [Ninja Tune]

Este nome forte já passou por várias editoras, sempre a estampar tendências que giram à volta de dub music, ou até dancehall e dubstep, só que com uma rubrica obscura de fazer ranger os dentes. Pelas notas deste “Fire”, lê-se que é o melhor trabalho de The Bug no que toca a movimento, intensidade, dinâmica e estilo. E quem somos nós para duvidar de um disco de The Bug com selo da Ninja Tune? É puro fogo para fazer arder os nossos sistemas de som vezes sem conta.

Alguns dos textos aqui presentes foram resgatados das nossas seleções mensais

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