AUTOR

Rui Castro

CATEGORIA
Entrevista, Lançamento

Blast: “Misfits” é a luta “por um som perdido que ainda não conquistou o terreno que merece”

10 Junho, 2022 - 19:04

Blast “sabia que seria um desafio obter um resultado coerente com tantas vozes diferentes”, mas foi isso que conseguiu no novo EP. “Misfits” é a prova de que o technoid está vivo e recomenda-se.

No nosso podcast N’A Cabine já desvendamos um pouco da história de Blast como DJ e o percurso que o elevou ao estatuto que enverga atualmente no panorama do drum’n’bass em Portugal. Mas o que não ficou totalmente explícito foi o amor incontornável, e inquestionável, que Tiago Braga sente pelo technoid, sub-género dos 175bpm de influências techno primordial, industrial, frenético, e colado às vertentes mais pesadas do DNB, como explica nesta entrevista.

Não há uma definição científica, nem muito menos um conceito globalmente aceite que caracterize este estilo. Mas sugerimos que oiçam a exemplificação perfeita do que é o technoid no mais recente trabalho colaborativo do produtor e DJ portuense, “Misfits”, lançado pela Future Sickness Records. Foi sob este pretexto que estivemos à conversa com Blast para ficar a conhecer em primeira mão tudo o que levou à génese desta ode ao technoid.

Antes de mais, porquê esta ênfase, quase exclusiva, no technoid/techno-dnb?
Este estilo de drum’n’bass teve um grande impacto no início da minha carreira como DJ. Assisti ao seu desenvolvimento desde o início, que coincidiu exatamente com os meus primeiros passos no mundo da música de forma mais séria. A sonoridade em si já me era muito cativante, mas o facto de ser tão fresca e de quebrar com alguns padrões existentes dentro do género fez com que captasse ainda mais a minha atenção. A comunidade da editora Offkey (sem dúvida a mais influente dentro do género) era composta por vários artistas de excelente qualidade, e cada um deles já tinha o seu estilo característico dentro do subgénero. No início dividia opiniões… não era para todos os fãs de drum and bass. Aliás, continua a não o ser, e não vejo qualquer problema nisso. Mas apesar de essa fase não ter durado tanto como gostaríamos, acho que deixaram um legado brilhante. Toco muitos destes temas com frequência e, tantos anos depois, continuam a ser super bem recebidos na pista.

Embora conheçamos o teu ecleticismo e amplitude sónica quase sem barreiras, o technoid parece ser o estilo ao qual tens sido mais fiel ao longo da tua carreira. É correto afirmarmos isto? 
Acho que o meu trabalho como DJ e produtor deve ser visto de forma diferente. No que toca a gosto pessoal, todo o tipo de drum and bass é bem vindo, salvo raras excepções, nomeadamente os estilos mais comerciais. Mas acho que parte da magia do DNB é precisamente essa versatilidade e as ramificações que se criaram ao longo dos anos. Há drum and bass para toda a gente, se procurarem bem. Por isso, como DJ, gosto de tocar a horas diferentes, em eventos diferentes, e para públicos diferentes. Tanto me podes apanhar a fechar uma festa com um set mais agressivo, como me podes apanhar numa das primeiras horas a fazer um set de liquid ou mais virado para o deep/minimal dnb ou autonomic. É importante que quem gosta do meu trabalho esteja preparado para sets completamente diferentes, dependendo do evento em si. Parece ser um fator que tem sido esquecido ao longo do tempo.

Não é pelo facto de seres um bom produtor que deves descurar a tua versatilidade como DJ, na minha opinião. Sinceramente, acho que o público também gosta de ser surpreendido de vez em quando. Falando de produção, sim, o que tenho posto cá fora é quase exclusivamente techno-dnb. Quero devolver ao género tudo o que me deu de bom, e deixar o meu próprio legado. Apesar de termos tido cada vez menos produtores a fazer este tipo de som, existem imensos fãs por este mundo fora, e acredito mesmo que ainda há muito para explorar dentro destas sonoridades. No estúdio tenho momentos diferentes e por vezes exploro outros estilos, mesmo fora do dnb, mas não vou revelar essa música para já. Neste momento, quero concentrar-me o máximo possível a trazer este som de volta. Mas tenho ambições que visam outros estilos, e que irei concretizar no futuro.

Este é um EP claramente colaborativo, dado que todas as faixas resultam de um trabalho conjunto com outro(s) artista(s). Quiseste ter a influência de outros ou há outro motivo adjacente a esta escolha?
Apesar de estar inserido numa equipa com excelentes produtores, sempre me fechei um bocadinho no meu canto, no que toca à produção. Sentia a necessidade de explorar por mim mesmo, e não queria ter influências demasiado diretas no desenvolvimento do meu estilo. Uma coisa é um produtor que admiras te explicar o seu processo para chegar a um determinado som, que terás tendência a adoptar como teu, apesar de não o ser na realidade. Outra coisa é tu tentares chegar lá através da tua própria exploração e alguma engenharia inversa. Acho a segunda muito mais vantajosa porque provavelmente nunca conseguirás replicar o mesmo som, mas irás aprender muito mais durante o processo e, com isso, desenvolverás a tua própria identidade. Nunca acreditei que o caminho mais fácil, fosse o caminho a seguir. Contudo, depois de vários anos de produção e alguns releases, achei que estava na altura de trabalhar com outros artistas, não como aprendiz, mas sim como colaborador. Falei com o Mathieu, da Future Sickness, com quem mantenho uma ótima relação e a quem agradeço todo o apoio que me tem dado, e criamos uma lista de artistas que gostávamos de inserir no release. Eram artistas de grande calibre, todos eles são meus ídolos e, felizmente, todos deram uma resposta positiva. Comecei a preparar alguns clips e a enviar à malta, mas nem todos estavam 100% convencidos, e então eu pensei que talvez ainda não estivesse preparado para este projeto. Se era para fazer isso, queria obter o melhor resultado possível.

A ideia ficou em stand by e entramos numa pandemia que me permitiu ter uma maior disponibilidade para passar mais horas a aprender e a aperfeiçoar a minha técnica. Dois anos depois, senti-me mais confiante e achei que poderíamos dar uma segunda oportunidade à ideia. No entanto, a pandemia deu-me muito tempo para pensar sobre o meu papel no meio disto tudo. Há alguns produtores em Portugal que acho que sempre tiveram uma ótima postura na scene e a quem tenho a sorte de poder chamar amigos. São pessoas que pensam da mesma forma que eu, e que estão no mesmo struggle. São pessoas que querem subir na carreira por mérito do seu próprio trabalho e contributo para o movimento, não com base em relações pessoais ou trocas de favores. São pessoas que merecem muito mais reconhecimento do que têm tido, e acho que o terão na devida altura, porque são trabalhadores e porque respeitam esta cultura e os restantes intervenientes que dela fazem parte. São pessoas que sempre falamos em colaborar, mas eventualmente acabava por não acontecer, ou porque estávamos ocupados com outros projetos, ou porque estas collabs não entravam na nossa lista de prioridades, achando que tinhamos sempre tempo para fazer acontecer mais tarde. Achei injusto estar a focar-me num EP só com nomes grandes, e não prestar a devida atenção a estas pessoas. Por isso, o objetivo foi não só a entreajuda, mas também o de provar que quando há determinação e boa energia a fluir, conseguimos fazer um produto de qualidade, independentemente da experiência de cada um.

Todos os artistas contribuíram de uma forma muito própria para este release, e estou muito satisfeito com isso. Sabia que seria um desafio obter um resultado coerente com tantas vozes diferentes, mas acho que no final conseguimos ultrapassar todos os obstáculos. Há também duas participações de produtores fora de Portugal, mas que partilham o mesmo mindset do que nós. Os Dykman & Dekel são dois artistas que admiro e são também excelentes pessoas. Fazem um fantástico trabalho no que toca à organização de eventos na Eslováquia, e quando fui convidado para lá tocar, fui recebido com todo o respeito e carinho que acho que mereço. O Unexpected Fidelity é um dos responsáveis pela promotora MTGA, baseada em Budapeste. MTGA significa Make Technoid Great Again, por isso não preciso de dizer qual é o objetivo da equipa. É também uma excelente pessoa e artista, que está na mesma luta que nós, a tentar puxar este som para cima, apesar de todas as dificuldades que essa tarefa possa acarretar.

Por terras lusas, convidei o Crawler e o Tenebris, que são dois artistas que acho que merecem muito mais atenção do que têm recebido. Estão com uma qualidade de produção incrível e são grandes conhecedores e apoiantes do género! Acho sinceramente que serão dos produtores portugueses a ter mais destaque nos próximos anos, se tudo correr como deve ser. O artista lisboeta Dunats é das pessoas mais genuínas que conheci durante o meu percurso no dnb. Tem-se focado imenso na produção e começa finalmente a obter algum reconhecimento, também por parte de editoras estrangeiras. Considero-o um dos maiores apoiantes da nossa cultura e fazem falta mais pessoas como ele. Não podiam também faltar os Deck Disorder, dupla natural da Guarda, que sempre tiveram um contributo genuíno e positivo na scene nacional. Também estão a dar muitas cartas na produção, e têm um EP excelente para sair em breve. Para finalizar, temos uma colaboração com o ManoWarp, que é dos meus melhores amigos e acompanhou o meu caminho desde os meus primeiros anos de DJ. É um produtor brilhante mas nada preso aos estereótipos e bastante misterioso. É realmente uma pessoa que tem música a correr nas veias e não a faz para agradar a ninguém. Neste momento está a residir em Zurique mas sempre o conheci no Porto, como um dos meus amigos mais chegados.

O título do EP, “Misfits”, também não é por acaso. Misfits significa inadaptados, e pretende, de alguma forma, transmitir a essência de todo o conceito – juntar pessoas que estão a lutar por um som perdido, que ainda não conquistou o terreno que merece. E essas próprias pessoas, ainda não têm também o destaque que merecem, pelo menos, na minha opinião. Mas acho que isto está prestes a mudar e já noto que este release foi um boost de motivação para todos nós.

Como está a ser aceite este EP por terras lusas? E internacionalmente?
Para já, o feedback tem sido excelente. Tenho tocado todas as músicas ao vivo nas últimas atuações e a reação tem sido bastante eufórica. Acho que são temas com muita energia, e que resultam bem na pista. Também estou surpreendido com a reação internacional, tenho recebido vídeos de países como Eslováquia, República Checa, Hungria ou Rússia, em que as músicas estão também a ser muito bem recebidas pelo público. Os artistas que faziam parte do alinhamento inicial têm também dado suporte ao vivo, o que me deixa super satisfeito e com a sensação de missão cumprida.

Qual foi a mensagem que quiseste transmitir com o EP?
A mensagem é simples, valorizem as vossas culturas locais e os vossos artistas, em vez de acharem sempre que o que vem de fora é que é bom. Claro que é, e todas as nossas influências vieram do exterior, no entanto, não nos podemos esquecer do que temos por cá. Aqui está uma prova de que, com uma boa base e com a atitude certa, podemos chegar mais longe.

É certo, sabido, e comprovado que a música, tal como a moda, tem momentos cíclicos onde a velha guarda passa a ser vanguardista, e vice-versa (veja-se, por exemplo, o ressurgimento do breakbeat, dos synths rave e etc que temos assistido mais recentemente nas produções de malta mais virada para o techno). Achas, portanto, que o estilo que aprazes neste EP pode voltar a estar em voga num futuro recente?
Acredito sinceramente que sim. Mas há muito trabalho pela frente. São os pequenos núcleos e seus artistas que irão puxar a sonoridade para cima novamente. Poderia mencioná-los, mas prefiro manter o mistério e trazê-los cá quando me for possível. Eu vou continuar aqui a fazer o meu papel. Há alguns planos emocionantes para o futuro, mas numa fase demasiado embrionária para serem revelados… para já.

Sabemos que a capa é também da tua autoria. Desvenda-nos lá o processo criativo que levou ao resultado final.
Para quem não sabe, tenho uma carreira paralela no mundo da arte urbana, graffiti e ilustração, sob o alter ego Fedor. Sendo um release com uma conotação tão pessoal, sugeri à label que poderia também desenvolver o conceito da capa e eles apoiaram a ideia. No artwork, podemos também sentir a influência do graffiti e da banda desenhada, num ambiente obscuro, que representa um grupo de indivíduos com um aspeto marginalizado e com uma atitude de revolta. Isto é tudo claramente exagerado e metafórico, somos todos bons rapazes e não andamos propriamente em becos escuros com bastões e correntes na mão, à luz da lua cheia. Mas é uma estética que representa bem a sonoridade e, juntamente com o título, acho que transmite a mensagem que quero passar. Foi tudo desenhado à mão com a arte final (aplicação de cor, texto e efeitos) a ser feita digitalmente.

Fala-nos do lançamento do EP, que irá decorrer no Porto, em pleno S. João. Podes relevar algo mais do que está para vir?
A ideia já surgiu na fase final do EP ao ver a motivação que o mesmo estava a criar nos intervenientes. Pensei que gostava mesmo de juntar estas pessoas, para que se possam conhecer, criar oportunidades mútuas e possíveis parcerias. É tudo boa gente de quem gosto, e será um enorme prazer vê-los finalmente reunidos. Havia disponibilidade pela parte do clube e de todos os artistas para essa data, por isso achei que seria também uma excelente altura para quem não é de cá, vir conhecer o Porto e os seus costumes numa noite que tem tanto de especial como de singular. O evento irá decorrer no coração da cidade, num dos seus espaços mais emblemáticos, o Hard Club. O alinhamento é composto pelos intervenientes do EP, e por mais alguns convidados especiais que tenho imenso gosto em que se juntem a nós. Vamos tentar ter uma estética o mais Technoid possível durante toda a noite, se bem que alguns dos artistas poderão ter alguns momentos mais dedicados a outras vertentes que têm vindo a trabalhar.

No final das contas, acho que temos todos os ingredientes para fazer um evento diferente do que se tem feito, e proporcionar ao público uma noite memorável!

O EP pode ser adquirido aqui, e os bilhetes para a festa do seu lançamento a decorrer no dia 23 de Junho no Hard Club, podem ser comprados aqui por 10€ (early birds), ou 13€ (pré-venda).

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